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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

SOL MORTO, SOL-POSTO


À tardinha, quando finalmente cheguei à falésia, já os adoradores do sol-posto se perfilavam, regulando as objectivas e equilibrando os tripés para fixação das máquinas fotográficas. Em suma, preparavam-se ansiosos para o melhor ângulo do ocaso diário.
Ocorreu-me a rábula humana sobre o elogio exagerado dos entes falecidos, esses “santos inolvidáveis” mas não era para ali chamada tal circunstância. O meu propósito era unicamente apreciar a profundidade da falésia e daí receber inspiração e tranquilidade que precisava.
Não seria desta vez, pensei. O aparato de fotógrafos, que quase se acotovelavam, tal era o frenesim; os cliques de som metálico das respectivas máquinas; toda a inquietação daquele local iria trair os meus planos e a minha atenção ficou colada ao espectáculo insólito oferecido pelo magote de adoradores do Sol.
O aparente movimento da grande estrela, obrigava-a a mergulhar no oceano imenso. O horizonte azul depressa se tornou vermelho, incandescente. O Sol afundava-se no que, ironia da beleza, sugeria a própria morte. Sabia-o eu e sabiam-no aqueles que se preparavam para o assombramento da falsa morte ali anunciada. Na verdade, amanhã haveria de reaparecer no lado oposto ao que agora desfalece.
As máquinas fotográficas dão início aos “disparos”, parecem grilos roucos em uníssono. O por do sol fica assim guardado para cada um, para memória futura. Avidamente.
Olhei a falésia até ao mar, que se lhe arrimava com brutos modos e se desfazia em espuma branca, casta e inocente. O encantamento vertiginoso dessa imagem obrigou-me a segurar os restos do Sol que se despedia no horizonte longínquo, contagiado por aquela estranha enfermidade de também querer ter um sol só para mim e que, moribundo, já não nos pertencia.
Por uma vez prevaleceu a justiça. Naquele instante o Sol morria para todos. 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

VOZES DE BURRO *

*CRÓNICA in POVO DA BEIRA 26/12/2018

Chovem gatos e cães. Matreiros como raposas, os habituais frequentadores do café, esticam as conversas para não terem de se expor aos elementos, enquanto a borrasca se mantiver. Na verdade, nada disto é novidade: raro é o que não arrasta a sua vida de cão, pelo menos até à hora de almoço.
O tema das conversas de hoje é bizarro. Falam dos que se entretêm a mudar-lhes os hábitos linguísticos cultivados há anos, como ratos que invadem a despensa, destroem o que lhes dá na gana, bolachas guardadas religiosamente para certas ocasiões… a precisar duma ratoeira no sítio certo, é o que é. Não, não estamos a falar dos papagaios do acordo ortográfico. Cada macaco no seu galho, esses são de outra inquietação. O que se discute agora é do simples direito de falar e de chamar os bois pelos nomes.
Consta que há por aí uns pardais preocupados com a alusão a animais no discurso corrente, dizem, em defesa dos próprios bichos.
- Ele há cada camelo, disse o mais indignado da roda. O que faltava agora era um travão na língua, uma moderníssima forma de censura, que nos obrigue a falar do modo que esta cáfila aprendeu na manjedoura.
Aliás, nos dias que correm, não há cão ou gato que não produza opinião douta sobre quem, sobre como ou sobre onde e quando.
A organização que deu o mote e trata por tu os animais tem nome sugestivo: chama-se PETA. Fica-lhe bem. Há bem pouco tempo lançou uma campanha para “acabar com expressões que sugiram maus tratos a animais”. O PAN já veio a terreiro dar exemplos: "Pregar dois pregos de uma martelada só" (para substituir "Matar dois coelhos de uma cajadada só") ou "Pegar uma flor pelos espinhos" (como alternativa para "Pegar um touro pelos cornos") são algumas das sugestões do PAN. Cada tiro, cada melro.
A estas erratas à língua comum, quer ainda o PAN que o povo se habitue a dizer "Mais vale dois pássaros a voar do que um na mão". É o que temos.
A tertúlia da manhã não podia estar mais agitada. Não bastava o mau tempo lá fora e ainda mais este incómodo, este trava-línguas de meia-tigela.
Mas a esperança é sempre a última a morrer e todos esperam que vozes de burro não cheguem ao céu.
- Isto nem parece coisa vinda de gente, macacos me mordam!


sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

CONTO DE NATAL *

* CRÓNICA IN POVO DA BEIRA 12/12/2018
No princípio era sábado, nunca me hei-de esquecer, levantei-me cedo para tratar do couval que tenho há algum tempo para me entreter nos fins-de-semana. Deus dormia num divã ao meu lado, ressonava. Tinha acabado de criar a sua obra-prima, o universo, embora de início tivesse querido fazer uma trotinete, por ser mais divertido. Acontece que antes se deu à invenção das asas, distribuiu-as pelos anjos e a trotinete pareceu-lhe uma obra menor e sem qualquer préstimo. Fez o universo, como disse, que lhe deu trabalhos dobrados, por não ser o que esperava e por ter de o encher de mundos e de perguntas que ele próprio não sabia responder.
Ia falar da minha intenção de tratar do couval. Fica ali numa encruzilhada onde Deus queria plantar umas macieiras do tipo red delicious, salvo erro para tramar um casal nudista que lá vivia e cujo despudor o incomodava. Ao que me apercebi, a tramoia passava por uma magia metafórica, muito a seu gosto, que acabou por levar a cabo noutro local, por insistência minha. Fiz-lhe ver que ele, como todo-poderoso, sempre podia arranjar um terreno bem melhor, paradisíaco até e, se as coisas tinham chegado àquele ponto, a culpa era sua, que os criou e colocou ali nus e ignorantes em boa terra de cultivo. Além de tudo isto, não fazia sentido ser eu a plantar o couval longe dali pelo trabalhão que isso me iria dar. Por uma vez foi razoável e aceitou a minha ideia.
Naquela manhã de sábado, as couves estavam uma lástima. Muitas delas já comidas até ao caule e outras de folhas esburacadas por centenas de horríveis lagartas listadas e peludas, que enchiam as respectivas panças até rebentar. Fiquei desolado.
Voltei para casa de mãos a abanar e capaz das maiores blasfémias. Chegado ao quarto onde Deus dormia ainda a sono solto, abri as janelas, como quem diz já são horas de endireitar o esqueleto e gritei:
- Que bichos são aqueles que puseste nas minhas couves?!
Deus virou-se, esfregou os olhos, alisou a farta barba grisalha e, fixando-me como um míope à procura de alguma coisa, resmungou:
- Que horas são?
- São horas de te levantares e de me explicares porque encheste o meu couval com aquelas miseráveis lagartas, que outro entretenimento não têm senão comerem as minhas couves.
- Não fiz por mal, são minhas filhas, filhas de Deus… Não queres que vá agora cometer infanticídio…
- Tu nunca fazes nada por mal, és um santinho, respondi-lhe irritado, ironizando com a sua proclamada santidade.
- Não blasfemes, tens de te habituar às adversidades, resmungou ao mesmo tempo que voltou a virar-se para a parede.
Fiquei furioso com aquela displicência divina perante o meu desespero e atirei-lhe:
- Ai é?! Então trata de arranjar onde passar a noite de Natal, que sem couves, aqui em casa, não há consoada para ninguém.  

domingo, 17 de novembro de 2013

CONTO DE NATAL


O meu tio Sebastião era uma daquelas figuras omnipresentes, cujo trato afável e bonacheiro
me envolvia numa espécie de almofada de sumaúma e me retirava palavras quase sempre de assentimento involuntário.
Admirava-me. Soube-o mais tarde. Das poucas conversas que estabelecemos, sendo dele o mote, quase não tive tempo para dizer algo coerente quanto desejava dar-lhe conta das minhas inquietações. Mas ele de tudo dizia saber e a sua presença parecia ocupar toda a casa, todos os lugares da casa. Esse era o meu constrangimento, o meu sufoco.
Era, segundo me dizia, admirador de Pessoa, da Mensagem em particular, e publicou sobre o tema duas ou três brochuras, que um dia me ofereceu com dedicatória carinhosa, como era próprio da sua postura tutelar. Afinal, estávamos em 1988 e eu tinha cinco livros de poesia editados. Penso que o meu tio me olhava como continuador de sangue nas artes da escrita… Em certa ocasião, por intermédio de um familiar comum e por altura do Natal, pediu-me que o visitasse com urgência pois iria regressar a Lisboa onde tencionava passar a consoada.
O meu desassossego perante tal convite só terminou já em sua presença, com o cheiro do azeite das filhós a pairar por toda a casa e de frente para uma enorme e confortável lareira de chão e de generosa matéria combustível.
Falou-me então da sua admiração pelos meus trabalhos poéticos, comparou-me a Alda Lara (poetisa que eu desconhecia naquela altura, cuja obra foi editada postumamente, mas que o meu tio terá conhecido nas suas andanças por Angola) e, a tal propósito, deu-me conta “do verdadeiro sentido que se oculta em expressões metafóricas e ambíguas, recursos que só a poesia admite e que só o verdadeiro poeta é capaz de utilizar”. Mais para o fim da conversa, lá veio então o conselho: “Mas tem cuidado, há coisas que não devem ser ditas, basta que se subentendam”.
Julgava eu ter ganho já aquele Natal quando, ao despedirmo-nos, me ofereceu o seu último trabalho em livro acompanhado de um forte abraço e uma nota novinha de cem escudos, desejando-me os maiores êxitos.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

DOR DE AUSÊNCIA

Imagine-se um qualquer objecto, complexo ou vulgar, que desperta em nós um desejo irresistível de o possuir, de o tocar a todo e a qualquer instante, de o olhar como seu, como parte de si. Agora, que este objecto é definitivamente algo que não nos pertence, nunca nos pertenceu. É um objecto de culto. Haveremos de imaginar que é nosso todo o tempo em que o arrebatamento permanecer. Dói que não nos pertença. Diferente é se o objecto, aquele de que falávamos, nos pertence por inteiro, nos permite por isso o contacto permanente, talvez o afago, o olhar embevecido durante o tempo e no local que bem nos aprouver e, de forma brusca, o perdemos. A isso chamo dor de ausência. Assim somos. Perdi as Teses do III Congresso da Oposição Democrática, realizado em Aveiro em 1973. As Teses reunidas em capas próprias, por temas, não os livros que com elas foram depois editados, que o Dr. Vasco Silva recolheu e generosamente me ofereceu então, uma vez que não pude participar lá, na cidade da ria. Talvez as Teses sobrevivam ocultas por trás duma estante ou por baixo dum amontoado de papéis abandonados em tanta mudança dos últimos tempos. Talvez estejam ainda intactas e com os separadores que lhes ia colocando, fazendo separação entre trigo e joio. Talvez estejam ainda à minha espera em pródigas mãos para me serem devolvidas, talvez com um sorriso nos lábios de quem, sabendo o valor que lhes atribuo, espere em troca um sorriso meu de perpétuo agradecimento. Talvez tudo isso ou coisa alguma. A verdade é que por enquanto a sua ausência me dói. Muito.

domingo, 20 de maio de 2012

O CÉU DOS PARDAIS

Por natureza sou aquilo a costuma chamar-se assustadiço. Não o serei por debilidade física e muito menos por fraqueza de cérebro, se me é permitida a autoavaliação, que não me tem dado grandes trabalhos ao longo da vida. Em meu abono, julgo que a explicação reside no facto simples de raramente estar onde os demais me enxergam. É esta uma prorrogativa dada a poetas e outros filhos das estrelas. Eu mesmo me surpreendo quando dou por mim distante do lugar que afinal me ocupava todos os sentidos e me pergunto: “como vim eu aqui parar?” Esta é a explicação que me ocorre hoje, entre prédios de muitos andares, semelhantes a caixotes empilhados, e me ter sentido perdido, como se caminhasse num qualquer deserto feito de areia e sol; de chão e céu; de gatos e pardais por única companhia viva. A todo aquele amontoado de quadrículas coloridas agora vazias e vestígios de árvores, quase como náufragos, houvesse aqui um mar, despenteados e atónitos, socorrendo-se da grossa estaca para a sobrevivência possível, resta-me um velho conhecido, azul, como uma estrada por cima da minha cabeça e, como disse já, os gatos e os pardais, aqueles no paraíso e estes, por enquanto, no purgatório. Estremeci. Em cada um daqueles favos, chamemos-lhes assim, vivem pessoas que, não podendo eu vê-las ou sequer ouvi-las a esta hora do meio-dia, por certo ali se acolhem, comem, dormem e também discutem, deitam contas à vida, amam e odeiam e fazem planos para futuros que ambicionam. Por experiência sei que raramente se conhecem uns aos outros e, salvo uma ou outra excepção, não se cumprimentam quando se cruzam na rua. Quanto a nomes, se decoradas algumas fisionomias, como se de uma só família se tratasse, chamam-se “vizinhos” ao que por vezes acrescentam o número da porta e o andar onde residem. A isto se chama um bairro, ainda há pouco tempo não mais que um matagal nos arredores da cidade, agora de gente cheio como um ovo. Este é o modo de vida ideal para alimentar a curiosidade mórbida de bastantes moradores. Alguns se entretêm a contar entradas e saídas deste ou daquela como se fossem encarregados de qualquer entidade estatística de bons comportamentos cívicos e morais. Outros trazem-se em cuidados quase verdadeiros por aquele vizinho da frente que tem deficiência motora ou, por quem será a ambulância do 112, que nos últimos 15 dias já parou três vezes dois quarteirões abaixo, com aquela sirene irritante e os pirilampos azuis que, reflectidos pelas janelas dos prédios parecem de mil carros e de mil pedidos de socorro, mitigando fomes que para aqui não são chamadas. Arriscam estes vizinhos, deambulando com o olhar de recanto em recanto, de varanda em varanda, de janela em janela – como os franzinos pássaros saltitantes – comer ou ser comidos… A tudo o que assisto ou pressinto e aqui dou notícia, devo esclarecer que hoje não vi, com estes, sim, que a terra há-de comer, qualquer assalto felino com êxito, pelo que a pardalagem pode dar-se por feliz por não ter “subido” ao céu. Já no meu bairro, na minha casa, logo a seguir a este de que vos falo, componho as notas há pouco rabiscadas para que façam sentido e conto-vos esta história que, afinal, não fosse o caso de ser assustadiço, como já contei, podia ser igual à deste bairro onde moro e tudo me parece normal como se estivesse no céu, na companhia dos meus gatos e dos meus pardais.

terça-feira, 8 de maio de 2012

A OBRA

O autarca sonha as obras que imporá à comunidade governada. Esta frase soa bem. Não pelo sentido solidário do sonho que àquele sobrevém e muito menos por ser sonho, que apenas burila o que na realidade não passa duma astúcia, digamos, eleitoralista. Soa bem a frase, dizia, talvez porque, não tendo ainda nascido a obra, já a comunidade a tem por garantida no sonho do autarca e assim salvaguardada ao mais alto nível, venha o tempo em que todos os olhos a possam contemplar e os restantes sentidos dela desfrutarem. A verdade, porém, é que a obra (que, por enquanto ainda dorme no sonho do autarca) não será obra da comunidade; ela será, a avaliar pela inscrição gravada na pedra ou no bronze, no seu limiar ou peanha, a obra do autarca que a sonhou. Aí se dirá, não a nossa obra, mas a obra de. Assim como se for vantajosa todos exclamarão bendito seja quem a concebeu, como se for estorvo e de préstimo duvidoso facilmente será apelidada como obra do diabo, denunciando desta forma a falta de visão ou aselhice do autarca. Pelo que atrás fica dito, e lá não voltaremos para emendar seja o que for, já se suspeita que, quando a obra surgir haveremos de olhar para ela, louvando a oportunidade do autarca ou desdenhando da sua utilidade, assim o autarca nos tenha caído em graça ou não passe dum pedante figurão que mais não faz que um simples gato ao marcar o território que lhe garanta a preservação da estirpe. Além do mais, são as obras o que são: umas capazes de persistir porque o cimento e as vigas conseguem resistir à erosão por mais tempo e outras que, não existindo já fisicamente, continuam na memória de quem as comtemplou ou delas tomou conhecimento de fonte segura. Nunca saberemos nós o que vai na cabeça de outros ao observar uma obra, se o que lhes interessa é o proveito que da obra podem ter ou se, pelo contrário, sentir que os demais vêem o que se lhes mostra ao olhar, sendo eles a verdadeira obra. Restam uma placa, uma inscrição com o nome, as atribuições e as mordomias de um fulano de tal cujo sonho deixou inscrito em coisa qualquer para ser revisto. Abençoado seja o saber alentejano que, no melhor das suas singularíssimas interjeições, transforma esta que nasceu nome em irónica locução adverbial para enfatizar o que está sendo dito com vaidade e não menor alarde: É obra!

domingo, 6 de maio de 2012

GUARDANAPO

O guardanapo é um objecto que, tendo à mesa a função de guardar a toalha respectiva do unto alimentar, se apresenta tantas vezes exposto de forma e feitio sofisticados, que outro objectivo parece ter e não o tem, de facto. É também o que diz o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de José Pedro Machado, Livros Horizonte, terceira edição, 1977 e mais esta preciosidade do Auto das Fadas de Gil Vicente: Isto he fersura de sapo/que estaa neste guardanapo. Os mais comuns, os que pomos nas nossas mesas com a pressa que valores mais altos nos impõem, têm habitualmente a forma de um quadrado ou dum rectângulo. Mas se o local do repasto não é este doméstico local, logo nos deparamos com uma variedade imensa de feitios, para não dizer cores, de requintado gosto ou risível falta dele. E assim os temos em forma de triângulo, o mais clássico, pois desta forma se dá nome aos bolos que os imitam; enrolados, com e sem argola, como se de um conspirativo papiro se tratasse; em cone como pirâmides (papiro, pirâmides, queres ver que anda aqui mãozinha dos egípcios ancestrais?!) mas não nos levantemos da mesa, ainda. Claro que há aqueles que simulam flores e aves e que nos fazem hesitar entre o desdobro e não desdobro e obrigam, em limite, à primeira, para óbvio asseio e ocultação de gulas. Os que mais me espantam, porém, e sempre me deixam um sorriso cujo sentido profundo nunca identifico, são aqueles espampanantes leques, quais caudas de pavão ou entranhas de acordeão, postos ali em frente do prato, necessitando para isso quase sempre o apoio de um copo que os sustente. Diria com certeza muitos mais se a circunstância mo exigisse e a paciência de quem por estas linhas passa a vista não me merecesse todo o respeito. Ora, e tudo isto para quê? Para a higiene e os modos sociais, respondo eu, que nem sempre deram importância ao assunto. Mas, já agora, permitam-me estas bacoquices literárias, falta aludir à diversidade de alinhos a que este adereço obriga. Simples como é o asseio, neste caso se exprime de forma particular. O que para uns é sinónimo de retoque das comissuras, para outros obriga mesmo ao expurgo dos lábios, para não dizer beiços, que são de inferior conjuntura. Beiçola ou trombas são de muito baixa condição ou então o convívio já vai alto e a linguagem se vai descuidando, não tarda o insulto e a escaramuça. O mais comum, aquela designação que, não havendo na forja novo acordo ortográfico, não melindra ninguém, é o clássico limpar a boca. E está tudo dito. E agora perguntam-me vocês: “mas que diabo queres tu com essa conversa sem pés nem cabeça, de entretém para quem tem mais com que se preocupar?” E eu respondo: … Ora aqui chegados, com as boquinhas secas e capazes agora de vociferar até, vou eu terminar esta arenga com uma notícia que, não sendo nova, não deixará de o ser, porque notícia é o que se diz para que se saiba. Vem assim ao caso a investigação judicial àquele que foi ministro de um primeiro que, tal como o actual, tudo fez para dar cabo do país, e que ambas as mãos sujou, dizem por enquanto os jornais, em batotas ditas tráfico de influências. O ex-ministro de que falo, boca aberta durante todo o consulado, chamou camelos aos alentejanos a propósito da nova ponte sobre o Tejo, pelo que houveram de lha limpar, e nunca jamais encontrou sítio adequado para um novo aeroporto nem TGV que parasse na estação. A sua principal arma era por isso a boca. Suja, dizem as notícias. Agora terá de limpar-se ao guardanapo da justiça. Assim esperamos em abono do asseio que tanto necessitamos.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

VAMOS ANDANDO

Faz bem andar e eu gasto o tempo todo com o bem que me faz: subo calçadas, quase quebro o pescoço de olhar os prédios periféricos, choro as árvores que já lá não estão, alcanço a parte mais antiga da cidade e desço por escadas ou rampas até onde estranhos repuxões de água se soltam como serpentinas e molham o chão, molham o chão, não mais que isso. Consumo diariamente a cidade com a ansiedade de quere-la e crê-la sempre minha. O tempo em que dentro dela estive na clausura dos horários a cumprir e o tempo em que a ausência me fez o coração ter saudades, agravaram este sentimento pouco mais que patético, pouco mais que pueril. Há um bom par de anos viajei ao interior da Torre do Relógio, por curiosidade e amabilidade de quem tinha obrigação de alimentar o dito. Subi-lhe o bojo por escadas a pique, periclitantes (já não me lembro de que material eram ou ainda hoje são feitas) até à cúpula, com a admiração de quem toma finalmente intimidade com um familiar antigo e ilustre, como é o caso. Lá em cima tive a sensação de estar aquém do tempo. Esta ilusão era ditada pelo facto dos enormes mostradores do relógio estarem então virados para fora indicando a hora, enquanto eu os via do avesso, não fazendo, naquele instante, qualquer sentido a hora exacta. As entranhas são um estranho elevador de pesos que o meu amigo se esforça em trazer para cima, através duma roldana de ferro escura e viscosa do unto que lhe põem. O coração – a máquina que tiquetaqueteia o tempo – é, como seria de esperar, um conjunto de roldanas impulsionadas pelos pesos que fazem tender os cabos puxados a braçadas de genica pelo meu amigo e anfitrião. Além do mais, a sirene que, felizmente para nós, não precisou de avisar de qualquer incêndio enquanto ali estivemos, casos contrário teria sido insuportável para os tímpanos… Se à Torre do Relógio me refiro de forma algo minuciosa e extensa, entre muitas razões que me ocorrem, direi apenas que tal se deve ao facto de se tratar, para mim, o elemento urbano que mais e melhor identifica Castelo Branco. Não ficaria satisfeito se não vos contasse o que sei desta Torre, tantas vezes olhada com desdém, mas que nos faz sentir albicastrenses quando, da cidade arredados, nos vem poisar nos olhos. Longe, como quem mitiga memórias em forma de saudade, lá aparecia um amigo que, por algum motivo, o destino fizera passar pela Cidade Branca, me dava conta das novidades: “está enorme a tua terra” e, a modos para compor: “aquele jardim das estátuas…” Ou seja, um moderno e grande que não passa disso mesmo em versão de cor de burro quando foge e o sempiterno Jardim do Paço, pago para ser visto; visto para ser pago… E eis que chega o tempo das vaidades, dos que querem ter nome por baixo como as estátuas do Paço, e em toda a placa ou peanha deixam assinatura e alarde de risíveis galões. Este não é já o tempo da cidade se exibir e triunfar; mas o tempo de quem quer sobrepor-se e patentear aquilo que afinal menos interessa para a história: as suas excelentíssimas pessoas. Os tempos da modernidade – para os que a pensam a tijolo e cimento – foram os anos dos mercados e das capelinhas; das construções e das capelinhas; das actas emendadas e das capelinhas; das capelinhas, do compadrio à volta dos escrutinados interesses albicastrenses. Em toda a cidade se fez carnaval com arcos e balões, foguetes e espertalhões em correrias mal disfarçadas para acertar a venda de talhões: “quem dá mais, quem dá mais, a festa vai começar!” A estrema que já foi baliza é agora o princípio de tudo; a gula dos espertos, sempre de atalaia ao negócio chorudo; a única nata subterrânea conhecida, além dos combustíveis fósseis e de rendibilidade semelhante. Os anos, a ASAE, o POLIS e tantas outras coisas camufladas que vão dentro destas siglas, retiraram lugares, encantos, árvores (quantas árvores?!) e cheiros que tardo em reencontrar, se alguma vez for capaz de o conseguir… Meto as mãos nos bolsos e ninguém vê que as cerro de raiva e de inquietação. Uma pedra de calcário salta no passeio calcetado à moda portuguesa. Tento recolocá-la com a biqueira do sapato e depois, com o calcanhar, para que se enterre devidamente. Parece ficar segura. Sem que ela o venha a saber algum dia, agradeço-lhe por me suportar o peso e a irritação pelo que vejo e me sugere filigrana de latão, desenhos de um alienígena louco e vou andando. O que eu não sei é quanto do que toco e do chão que piso, que faz do meu itinerário leito de passagem - mal não me fará - excepto o remorso de caminhar em cima de tanta tratantada.

terça-feira, 1 de maio de 2012

METÁFORA DO TEMPO

O bom e o mau tempo não têm o mesmo significado para toda a gente. Talvez por isso haja quem diga que conversar sobre o tempo serve apenas para encher chouriços. Desenganem-se. Na verdade, este tempo seco e de sol insistente tem o significado de bom para uns quantos ociosos – chamemos-lhes menos avisados - mas não cura os males de (todos) quem pagará com língua de palmo a falta de chuva. Pode a ministra Cristas abrir uma fábrica de guarda-chuvas em cada Distrito e, depois, peregrinar a Fátima em demanda de água em versão celeste que, se é este o nosso calvário, outra coisa não se espera senão a seca severa da ministra e dos seus pares – todos eles, há muito, a pedir chuva! – que era já tempo de irem água abaixo e nos livrarem do atoleiro em que nos enterram a cada dia que passa. Mexeram no astro e agora sofrem as consequências, dizia-me um homem simples há muitos anos, uma vez convencido de que os foguetes espaciais penetravam mesmo nos céus e poisavam noutros planetas, sem de lá caírem, como natural seria se poisassem em baixo ou de lado. O conhecimento científico evoluiu muito e, entretanto, foi chegando aos poucos até aos locais mais recônditos do planeta. O homem adquiriu conhecimentos políticos e científicos, pese embora, como ser humano, dono duma mente permeável a todas as fábulas, mantenha crenças e mistérios onde tudo cabe, onde tudo é possível ser-lhe submetido. Em seu tempo, sempre nos confortam: o sol quando nasce é para todos. É o que oiço dizer, embora não faça fé acerca do dito, que me parece um tanto adverbial e pouco sério. Depois, sempre há aquelas claraboias de contentamento, que são as caras dos amigos de passeio, quando o famoso anticiclone dos Açores se impõe autoritário e nos dá o aconchego urbano, o conforto dos dias que nos pesam como chumbo… Mas o sol é, já deixei ver, a mentira que nos oferecem diariamente, para que adocemos o espírito já puído de tanta cicatriz e fiquemos moles, estáticos, assertivos e… contentes. Exijo a chuva, a chuva a cântaros, capaz de levar pelo nabal abaixo este míldio apostado em comer a planta e o fruto de Abril. Abril: águas mil! Aqueloutro da lambreta, ministro mimo-da-mamã, armado em manda-chuva, mas a estrangeiro mando, mandou cessar as reformas antecipadas a pretexto do esgotamento da segurança social. É um finório, um ex-futuro libertino que acredita na eficácia da chuva molha-parvos. Um sonso de beiços precisados de batom para o cieiro. Galo sem crista nem assunção de que poupa para dar aos estrangeiros ávidos dos nossos últimos cêntimos. A sul, a superstição do “cheiro a terra molhada” evoca fatalidade e morte; a norte são as “terras do demo”, segundo Aquilino, que vergam a coluna dos homens. Em ambos os casos, a água chovida é uma bênção para as sedes da terra, para a secura dos homens e para a enxurrada que é necessária para levar adiante os escolhos deste país assoreado de malfeitores a soldo. É agora o tempo das trovoadas e dos súbitos aguaceiros que, assim de rompante, mais ajudam à estragação. É água que estraga as plantas e frutos e apanha as barragens de surpresa, sem condições para o melhor proveito. Se tivesse de encontrar paralelo com as políticas dos postilhões de agora, diria que em 2014 choverá de cada um segundo as suas possibilidades e a cada um segundo as suas necessidades… Mentem para continuar a mentir, como num boletim “mentirológico” à moda antiga. Maldade que agora não for chuva sê-lo-á, depois, com juros, enquanto não formos capazes de nos precaver contra intempéries, que podem ser de sol ardente, de chuva copiosa ou de reles e mentirosa gente. Se a chuva for o pranto de quem diariamente não encontra as respostas para o seu futuro porque as bátegas cegam ou iludem os caminhos, então é este um imenso charco de água e sal onde saber nadar não basta e onde é necessário estender as mãos solidárias perante o iminente afogamento. E assim chegámos a este chove-não-chove, versão não meteorológica, em que a conversa sobre o tempo, afinal, tem lá que se lhe diga…

domingo, 4 de setembro de 2011

ANIMAIS


Logo que comecei a aproximar-me da quinta, o come-se-há - assim se chama o guarda canino do lugar – já me tinha farejado.
Agitava-se e gania de ansiedade e contentamento, se me é permitido interpretar desta forma a atitude do animal, depois de uma noite de vigilante trabalho, entregue a si mesmo e sem ladrar, que para isso foi ensinado.
Assim que me viu ao portão correu desenfreadamente ao meu encontro e, como não podia deixar de ser, fincou-me aquelas enormes mãos nos ombros, lambendo-me a cara e o que de mais lhe deu na gana, como faz a tudo e todos de quem gosta. Afinal de contas, é um animal de grande porte, suficientemente corpulento para intimidar quem não lhe adivinhe o carácter meigo e pacífico que na realidade possui.
Não tenho dúvidas em relação a este seu comportamento. Sei que me estima e respeita como macho alfa, mas se exagera nas festas de boas-vindas, desconfio logo de asneira grossa na minha ausência…
Olhei discretamente de relance, mas aparentemente estava tudo no seu lugar. Parecia até que o vento nocturno tinha varrido ordenadamente as folhas das árvores de fruto e arrumado as alfaias.
- Que fizeste tu desta vez, meu malandro?
Questionei sem esperança de resposta, mas antes para me convencer de que o primeiro olhar me tinha iludido, como quase sempre acontecia.
- Vamos lá, vamos lá – ordenei.
A euforia do come-se-há aumentava à medida que caminhávamos em direcção à sua casota.
- Come-se-há! – Gritei-lhe, em tom de repreensão. E não precisei de mais nada: deitou-se junto aos meus pés e começou a ganir baixinho como se pedisse desculpa por algo que eu não estava ainda preparado para entender.
Nesse instante, um som idêntico vindo da sua casota fez-me aproximar da entrada e eis a surpresa: um cachorro de raposa com dias de vida, aninhava-se a um canto, tremendo de frio.
- Onde foste tu roubar a raposinha, meu patife? Era claro que a rapinara à progenitora.
Descoberta a marosca e presumindo o meu assentimento, entrou na casota, lambeu a criatura e enroscou-se ternamente em volta daquele corpinho frágil e carente, de modo que a própria mãe não faria melhor.
- Bonito serviço, desabafei para ver se, entretanto, me ocorria alguma ideia com pés e cabeça.
Daqui em diante já não há matéria para ficção.
Por motivos desconhecidos, a raposa mãe, supondo-se não ter sido pacífica a adopção do filhote pelo come-se-há, não foi vista em algum momento nas redondezas e por isso a pequena raposa foi entregue a quem de ofício.
O mais difícil foi convencer o “pai”, coração de manteiga, a aceitar esta forma humana e burocrática de resolver o assunto. A dedicação de uma noite bastou para uma saudade infinita.
Por tudo isto terei sempre relutância em apelidar de animal a quem de humano não julgue inteiramente, coisa que hoje em dia me ocorre com frequência.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

AINDA JOSÉ SARAMAGO

Um dos textos de José Saramago que mais me impressionaram, foi em Objecto Quase, editado em 1978, o conto A Cadeira. As obras fundamentais do escritor não tinham visto então a luz do dia.
A narrativa poderosa e metafórica de A Cadeira é algo que nunca esquece, por mais anos que vivamos. Lembro-me que a minúcia era tanta, a descrição era tal, que quase exasperava. Porém, era impossível largar o texto. Teve que ser lido por uma vez e só no fim pude desfrutar do prazer que tal leitura me proporcionou.
O texto de que falo era metáfora da célebre queda sofrida pelo ditador Salazar em 1968: “A cadeira começou a cair, a ir abaixo, a tombar, mas não, no rigor do termo, a desabar”…
A cadeira dos nossos dias, no rigor do termo, não estará igualmente a desabar.
O bicho que lhe mina a madeira e deixa buracos, quase sulcos, não passam de pueris armadilhas. Também a almofada que forra o assento, sendo o suporte ideal para quem se instala com nenhuma vontade de levantar o rabo, é podre e mal cheirosa. Fede de mentiras, de promessas não cumpridas e de tantas outras malfeitorias, que a simples insinuação do utente de se levantar é imediatamente julgada como nova malfeitoria.
Dizem alguns, em alegada defesa do sentado, que não é a cadeira de antanho; esta é uma cadeira democrática, desconfortável, onde só tem assento quem for dono de um elevado espírito de sacrifício e sentido patriótico. Pois seja então. Não se sacrifique mais por esta gentalha em pé: levante-se e caminhe, não se lhe pede tamanho sacrifício.
Não faltarão cadeiras oferecidas quais rameiras, estofadas, em mogno ou design modernaço, mas cadeiras. Democráticas ou não, capazes de suportar tamanho rabo, ainda que à custa das nossas costas…
A cadeira parece assim recorrente na história portuguesa, bem como a dança das cadeiras. Mas não é a dança que nos preocupa agora; preocupa-nos simplesmente a cadeira e a forma como se senta quem dela faz lugar absoluto contra tudo e contra todos.
Deixemos pois, que se mantenha sentado, mas não para que descanse ou lhe pareça que todos os que estão de pé foram invadidos duma espécie de comiseração para com o instalado, e muito menos que aguardam pacientemente a destruição pelo bicho da madeira. Não, desta feita, é necessário deitar a cadeira abaixo.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O TEMPO E O GOVERNO QUE TEMOS


Nos meus primeiros anos de Alentejo, como ainda hoje, sempre procurei inteirar-me de como os alentejanos interpretam as coisas e o sentido delas no seu modo peculiar de falar. Aprendi que ao vento forte e arreliador chamam busaranho e que quando o sol não abre e chuvisca (aquela chuva a que me habituei a chamar de molha parvos…) os alentejanos chamam morraçar ou amorraçar.
Num dia em que essas condições meteorológicas se cumpriam e a companhia – constituída por homens moldados na planície, com a terra e com o gado – resolvi lançar o vocábulo aprendido com eles, para me associar e me sentir mais próximo daquele colectivo que, evidentemente, só integro com o coração. Por isso, soltei no momento:
- Está a amorraçar
Teria sido a minha lança em África; a minha aproximação mais conseguida, mas saí-me mal. Um dos do grupo corrigiu-me, carregando propositadamente no sotaque, em jeito de interjeição, para que eu sentisse a reprimenda e atirou-me:
- ‘tá cabanêro!...
Esta expressão tem um significado semelhante, mas aconselha também a não sair de casa. No caso, qualquer coisa como “vamos para dentro, que isto aqui não é vida…”
Se não contasse isto, rebentava. Mas tal vem a propósito de outros desentendimentos, de que me ocupo agora.
Escrevo esta crónica em finais de Maio. A primeira redundância é que, às portas de Junho, continuemos com um tempo instável: chove e faz frio num dia, para no dia seguinte parecer que o verão chegou em força. Nada mais falso: a seguir vem um dia de Inverno, que se não nos constipa, no mínimo deixa-nos constrangidos, sem vontade de sair de casa, sem ânimo para respirar fora das quatro paredes.
As alterações climáticas constantes provocam sensações estranhas no comportamento, irritam, deprimem, fazendo com que as vontades vacilem entre o quero e o não queria. Talvez mais importante do que isto são os danos na natureza, irreversíveis, na maior parte das situações.
A segunda redundância é a semelhança que tudo isto tem (e sublinho que em ambos os casos se trata de manipulação consciente e criminosa) com a orientação política do governo que temos, como se lia num recente comunicado da CGTP, “sob o estafado argumento do défice e dos sacrifícios para todos, prepara novas e graves penalizações para os trabalhadores e para as camadas mais desfavorecidas das populações, ao mesmo tempo que cria condições para que os grandes senhores do dinheiro aumentem as suas fortunas.” As afirmações e desmentidos diários ultrapassam já o aconselhável pelo manual da incerteza e situam-se, nos dias que correm, mais do que na incompetência, na orientação premeditada de atingir quem menos meios tem para se defender, se não lutando, lutando, lutando!
Lutaremos, pois. Nem que chovam picaretas!

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

DO MAR À TERRA, DA TERRA AO MAR

Há muitos anos que considero a Vila da Nazaré, a par de Castelo Branco, como minha terra. Adoptiva, é certo, mas não menos amada, bem como as suas gentes.
Tenho naquela terra de pescadores, amigos, famílias inteiras de quem, por vezes, já não reconheço os filhos mais novos como, aliás, acontece em Castelo Branco. Tenho também em ambas memória de amigos que já não estão entre nós. Sinto-me honrado com a empatia gerada nesta minha terra adoptiva.
Mas de quem eu queria falar era do Joaquim António, o meu primeiro grande amigo Nazareno. Ainda era embarcadiço quando o conheci. Andava num petroleiro meses sem fim e dava à costa no verão, altura em que nos encontrávamos. Era um homem alto, vermelhão de carnes, de cabelos loiros quase nunca penteados, nariz aquilino e com um coração do tamanho duma traineira. Na verdade, passava por turista inglês. Dizem que com algum sucesso com o sexo oposto. Faleceu há meia dúzia e anos.
Chegou o tempo da reforma e o bom Joaquim António regressou à terra natal, depois duma vida de trabalho pesado longe de casa. Passeava-se pela praia, que é como quem diz, fazia umas piscinas na marginal, sempre inquieto e cheio de ideias para contrariar a falta que lhe fazia a actividade no mar, que por ironia era a sua terra de uma vida.
Um dia disse-me, irradiando contentamento por todos os poros:
- Já sei o que vou fazer. Compro umas artes (barco e redes) e vou entreter-me na pesca.
Achei boa ideia, mas esta é outra estória que não quero contar hoje.
O negócio haveria de se revelar desastroso nas mãos dum homem que o pouco que pescava – a Nazaré já não tem o peixe de outrora – era oferecido mesmo antes de chegar ao paredão, quanto mais à lota. Nem com arte xávega lá chegaria…
Só pelo brilho dos seus olhos de regresso ao mar valeu a pena. Mas não era vida que desse frutos.
Continuou os seus intermináveis passeios entre o picadeiro e o Porto de Abrigo até que nova ideia surgiu. Tão entusiástica como a primeira: Iria abrir um restaurante.
- E já está decidido. O prato forte é a caldeirada à nazarena.
O Joaquim António voltava a sorrir, o seu corpo movia-se de novo com a vivacidade própria de outros tempos, apesar dos seus sessenta e muitos, nunca exactamente revelados.
- Mas o restaurante vai ter uma característica especial. – E esclarecia – Vai ser colocada uma caixa à saída e são os clientes a fazer o troco.
Um ou dois anos depois a dita casa de pasto tinha encerrado. Ao que parece, havia quem comesse a refeição sem pagar e ainda levava troco. Assim não há negócio que aguente!
Mais tarde, já após o seu falecimento, confidenciou-me um amigo comum:
- O Joaquim António passou demasiado tempo no mar; não conhecia as pessoas em terra. Na sua terra.
Ao Aníbal Freire
e em si a todos os nazarenos de bom coração

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

SEGUNDO A CRÓNICA



A ideia de que cada um fala por si, faliu. Hoje, é cada vez menos isso e cada vez mais o eco de outros que nos asseguram que assim é.
Sem a necessidade constante de ressarcir direitos de autor, basta seguir o rasto, segundo as fontes bem informadas.
Assim se pode debitar que aumentam os crimes violentos, os de colarinho branco, os roubos por esticão, o consumo de drogas e a corrupção, segundo as autoridades policiais. Aumenta a inflação, o desemprego e os índices de pobreza, segundo as estatísticas. Assim como os combustíveis e os impostos sobre veículos não tardarão, segundo Vítor Constâncio.

Segundo a imprensa, nenhum dos ministros cessantes solicitou o fundo de desemprego ou qualquer outro subsídio para sustento familiar. Há mesmo alguns que não decidiram o que fazer, face às opções disponíveis, e outros que vão de férias reflectir sobre o que muito bem entenderem. Pelos vistos, acompanhados de muito boa gente privilegiada, a quem sobraram uns tostões para as férias de Natal, segundo as agências de viagens.
O povo, no entanto, precisa mais de reality shows e de conversa fiada que de pão para a boca, segundo as televisões. Segundo o Necas isto paga-se, mas não é tempo ainda de enxergarmos tal desfecho.
E por que carga d’alhos os portugueses, não os ingleses, não os alemães, não os franceses, mas os portugueses, dizem, são o quarto povo mais xenófobo da Europa, segundo inquérito promovido por um qualquer organismo europeu? Que raio de perguntas levaram a tal conclusão?
Belmiro de Azevedo é o 378º. mais rico do mundo, segundo as contas que alguém fez e está interessado em que nós saibamos.
Doce é o sono de quem serve, quer seja pouco quer muito o que ele come; mas a fartura do rico não o deixa dormir, segundo Eclesiastes.
Aumenta a fé, segundo a Fé.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

PLANO B



Não é o mesmo que o lado B da vida; do disco que se preenche do outro lado, apenas por que o dito tem obrigatoriamente dois lados. Não. O plano B é algo que se aplica quando a principal tentativa se gora. Tem como características fundamentais ser de inferior qualidade, ter maiores probabilidades de ir por água abaixo e, pior que tudo, carrega às costas o ónus do falhanço.
E a primeira tentativa desta maioria ia no sentido de mostrar a verdade aos portugueses, de melhorar as coisas, de tornar mais fácil o que porventura outros teriam convertido em insuportável, li nos jornais.
Eis assim que os primeiros adoptaram como plano alternativo a difusão da ideia de que o povo está contente; as elites é que instigam o protesto, enquanto os mestres da empalmação que os precederam, garantem que tudo não passa duma inconcebível cabala, o que nos leva de novo a pensar na mãozinha misteriosa. Em resumo, quer de um lado quer de outro, entrámos no domínio da prestidigitação, da cartomancia ou sei lá de quê neste país acostumado a ir à bruxa, e o mesmo é dizer que ambos adoptaram o plano B, para mal dos nossos pecados.
Mas nisto de adopção do plano B, sendo paradigma dos meios políticos dominantes, não é infelizmente exclusivo seu. Aliás é moda, talvez copiada da teoria conhecida por terceira vaga, qualquer que se preze dá ares da sua arte de bem cavalgar em toda a sela.
O destaque vai necessariamente para a quantidade de gente mais ou menos conhecida noutros misteres – como excepção à regra, aparentemente bem sucedidos – que de repente desatou a escrever livros sobre os mais variados temas, a maioria autobiográficos, dando assim ares do seu eclectismo, para desgraça da literatura.
Voltando no entanto à vaca fria, poderemos estar perante uma nova ilusão: um qualquer signo trocado, um horóscopo mal interpretado e o principal plano não passar afinal de cortina de fumo que não deixa ver a verdadeira essência do plano B, tal como o conhecemos. Por isso julgo que cabe assim aos restantes cidadãos molhar a pena noutro tinteiro e escrever por linhas tortas o que, não é preciso enxergar muito, não é possível nas direitas.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A PALAVRA DO MESTRE



No princípio, disse o Mestre:
- Passastes a provação do oásis autista, anunciado por aquele que cuspia pela boca quando falava; também a do que nada via e por isso acreditava que o homem haveria de morder o cão e ser notícia.
Depois mergulhastes na miséria da tanga e na noite das concubinas. Estais aptos para tudo. – Concluiu.
Não mais a mentira e a trafulhice, precipitaram os de maior fé.
Volvidos anos e lustres, ei-los como vistosas libelinhas, de nenúfar em nenúfar, espalhando o amor e a semente, para que os vindouros se sintam como verdadeiros eleitos, excepto os fariseus.
Assim, o Mestre entregou um cantil de lama a cada um e disse:
- Levai, que nesse cantil, mais do que a água vai a esperança da terra prometida, cujas sedes sacia de toda a qualidade.
Parou, por instantes, para olhar a cara dos discípulos, não fosse neles encontrar incompreensões ou quebres de disciplina, logo no início da caminhada, e prosseguiu:
- Caminhai sobre as pedras aguçadas e dizei a todos que esse é o caminho por vós escolhido. Esse é o sacrifício que vos exijo e por isso sereis recompensados com a minha bênção.
Ficou a escutar o murmúrio dos discípulos, inconclusivo, o que foi tido por aprovação unânime.
O Mestre preparou então os itinerários de cada um e concluiu:
- Caminhareis sobre as águas sem vos afundardes, trespassareis o fogo sem queimardes sequer uma pestana, e as vossas palavras serão o oiro do povo, mesmo para aqueles que contra vós vociferarem, pois esses são com certeza fariseus.
-Não sou santo – disse o Mestre – Santo é o meu pai, que foi, que é e que será.
O caminho é comprido e cumpridos serão os desígnios do Mestre. Haverá imposto sobre o salário porque essa é a sua vontade. Virão depois os que hão-de negar, e tais serão expulsos, escorraçados como cães, lá para onde o demónio quiser a sua companhia. Hão-de vir os cépticos, os cegos e, pior, os que não querem ver, mas desses não será este reino. São naturalmente os fariseus.
E mais disse o Mestre, que haveria de criar um novo céu e uma nova terra e que por sua graça não haveria recordação das penas já passadas.
Não era ainda a Revelação. Os sinais da Revelação haveriam de surgir quando os homens construíssem a grande torre da discórdia, construída em assembleia e em variadas falas e adulterassem os desígnios do Mestre. Seria então o primeiro mártir deste caminho feito em círculo. Cairia de exaustão, quando muito teria ainda para dar, segundo os companheiros, quando a maioria lhe faltar, segundo os fariseus.
Do mestre nunca se ouvirá que este será o princípio do fim dos tempos, mas há-de ser esse o tema da conversa dos proscritos e de todos nós, os fariseus.