quinta-feira, 27 de julho de 2017

CINEMA

Aguarela de Jacek Krenz

O antigo Cineteatro Avenida, ou simplesmente o Cinema, espreita ali à esquina o novíssimo CCCCB… - Que há de novo? – Parece perguntar…



Entre os dois a escolha
fere a vista
a quem olha

E logo se diz ah:
tem uma pista
vá que não vá

Fugindo ao tema:
o que reter
a obra ou o sistema?

Não há dilema:
o que há para ver?
vou ao cinema

quarta-feira, 26 de julho de 2017

AMATO LUSITANO

Aguarela de Jacek Krenz


 Nascido albicastrense, em 1511, com o nome de João Rodrigues. Após cursar medicina em Salamanca quis regressar a Portugal. A Inquisição não autorizou, foi perseguido. Era judeu. Emigrou para Antuérpia e daí para onde pode caminhar como cidadão livre. A sua figura emerge na Praça do Município. Dá o seu nome ao Hospital Distrital e a uma das escolas secundárias. Disse dele em antologia evocativa:
Em estátua tens a verdade nua e crua:
foi-te a vida de saberes e de degredo
e agora, quieto, que apontas para a lua,
há quem insista e te olhe para o dedo.



Os Paços de quem fica e de quem passa
com pressa de ficar (pese o anonimato)
só de alma sabem quanta desgraça
outrora houve em nós por ti, Amato.

Tamanha gente, tamanha praça;

tamanho é o teu vulto e a tua raça.

terça-feira, 25 de julho de 2017

NO CORAÇÃO DAS HORAS

Aguarela de Jacek Krenz

O RELÓGIO DA TORRE

Constitui uma das principais memórias da cidade. A mais antiga, por certo. Apesar das inúmeras intervenções mantém o seu porte altivo como um farol, como “um velho de largas sobrancelhas emergido do casario”.


Na Torre, onde faz tempo,
as horas batem por fora
há um relógio por dentro
que faz o tempo hora a hora.

Marca as horas boas e más
com preceito e exactidão
de frente, de lado e de trás,
faz das tripas coração.

Marca a vida em compassos,
em esperas e pontualidade,
retalha o tempo em pedaços,
fingindo não ter idade.

A idade (provado assédio)
é o que o relógio recorda
e não resta outro remédio,
que paciência…  e dar-lhe corda.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

PARQUE DA LIBERDADE III

Aguarela da Jacek Krenz

“Senhora partem tão tristes”…
estes meus olhos por vos deixar:
- ai coração que não resistes,
promete que hás-de voltar.

A saudade me traz e me leva
em constante vaivém,
olhar que jamais releva
“outro nenhum por ninguém”.

domingo, 23 de julho de 2017

PARQUE DA LIBERDADE II

Aguarela de Jacek Krenze

Aqui desenho um sol maior para o meu pai,
quero que ele o veja mesmo ausente:
mentir por bem, quando por bem sai,
é a verdade que se diz e não se mente.

Pai, não te vou mentir:
o sol que me mostravas nas fotografias
é outro, que sou capaz ainda de sentir
como eu o via e tu vias.

sábado, 22 de julho de 2017

PARQUE DA LIBERDADE

Aguarela de Jacek Krenz


O Parque é o primeiro brinquedo
que nos é dado em criança.
Depois, o primeiro beijo em segredo,
e a lembrança, e a lembrança…

É a primeira lembrança
no retrato que levo guardado;
as aventuras de criança
e o primeiro beijo roubado…

Feito de água, de sombra e de frescor
dos lagos e das roseiras
ou aconchegos de amor,
quando o sol bate nas trepadeiras.

As sombras frescas e olores
(pulmão verde da cidade)
são outros tantos amores
do Parque da Liberdade…


sexta-feira, 21 de julho de 2017

JARDIM DO PAÇO III

Aguarela de Jacek Krenz

Não sei ainda o que era aquele amor,
sinónimo de água e efémera  claridade:

princesa de todo este terraço,
sei que Antheia era uma flor,
uma flor pulcra, perene e sem idade.

Eu é que a espero ainda no Jardim do Paço.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

JARDIM DO PAÇO ll

Aguarela de Jacek Krenz

O primeiro avanço era o lago
das coroas, onde ela se banhava nua…

Depois um beijo, um afago,
uma mistura inflamada de sol e lua.

Não sei se era Domingo ou outro dia qualquer,
o que então era água, flor e mulher.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

JARDIM DO PAÇO 1

Aguarela de Jacek Krenz

A par de todos os mistérios, o Jardim do Paço é o sítio dos encantos, que os albicastrenses guardam para o mais solene das suas vidas e os visitantes levam de recordação para os lugares de origem. António Salvado dedicou-lhe um livro de poemas. É um sítio de encantos.


Aqui esperava por ela
com o sol sempre de fronte.

Tardava como toda donzela
e eu ressequia, não fora a fonte.

Quando chegava, vestida de flores,
eram doiradas até as suas tranças pretas.

Acabavam as sedes, as ansias e as dores,
nada valia mais que um ramo de violetas.

terça-feira, 18 de julho de 2017

O PRESENTE PASSADO

A Junta de Freguesia de Castelo Branco editou recentemente um trabalho, em livro, em que participei, escrevendo sobre 28 aguarelas de Jacek Krenz com motivos da cidade e a quem muito agradeço a autorização para aqui as publicar. É sobre esta feliz parceria que a partir de hoje vos irei dando conta.

A rua Vaz Preto constituía o limite da muralha templária. Não obstante, a construção foi furando, foi minando, até ao desaparecimento em metade da rua. Uma pequena parte está hoje, de “novo”, a descoberto.


De tempos idos
os granitos do berço,
um dia esquecidos
de volta ao começo.

Do muro à muralha
da muralha ao muro,
memória nos valha:
há um muro passado
com o presente ao lado,
muralha que é futuro…

domingo, 16 de julho de 2017

O BICHO DA MADEIRA


Raque-raque, raque-raque,
já tinha ouvido o bicho,
vê-lo é que não,
muito menos em destaque
de natural pasticho
com focinho de cão
quase me dava um baque.

Cão de condição
e proveito
é cão de qualquer maneira.
Nesta versão,
por defeito,
desenhado na madeira
é ou não é cão?


sexta-feira, 14 de julho de 2017

COMO CANDEIAS


Deixamos nos outros um traço
de memória, um fio de voz,
e neles criamos um espaço,
que sendo alheio, somos nós.

Também dos outros temos
lembranças boas e más
e por mais voltas que demos,
é essa soma que nos faz.

O INCORRUPTÍVEL VOO DAS PEDRAS


O INCORRUPTÍVEL VOO DAS PEDRAS, À VENDA, EM CASTELO BRANCO, NO QUIOSQUE VIDAL

quarta-feira, 12 de julho de 2017

GATO


Faz-me festas, dá-me mimo,
não queiras que eu entristeça,
que eu quero ver se me animo
e levanto de vez a cabeça.

sábado, 8 de julho de 2017

UMA LUZ AO FUNDO DO TÚNEL


Pelo que se vê
e não p’lo que se deduz,
nunca ninguém crê
naquele sinal de luz.

Faz tudo parte da vida
e de luzes é o que mais há:
tudo é caminho à partida
e à chegada se verá.

Partida a pedra da fé
restam cacos, coisa pouca
e o que foi já não é
excepto os amargos de boca.

É metáfora, sei bem
mas para quem está aflito,
o que aquele túnel tem
é, no fundo, um manguito.


quinta-feira, 6 de julho de 2017

COMPLEXO

Foto do Blogue ARROZCATUM

D. Perpétua
disse, enferma,
que é efémera.
e eu, perplexo,
aceitei
a surpresa.
- Ora essa,
com certeza,
D. Perpétua,
quando lhe aprouver
faleça.

terça-feira, 4 de julho de 2017

CONSTIPAÇÃO


Não te exponhas tanto,
que te vais constipar.
Basta uma ponta d’ar
na espinha e te garanto,
é constipação certa
e uma porta aberta
para virares santo.

Evita o mau caminho,
não escolhas o atalho
e quanto ao agasalho,
tapa bem o corpinho,
que o tempo danado
quer ver-te constipado
- atchim! - Eu não disse? Santinho!

domingo, 2 de julho de 2017

O FARO DO CÃO


Para o cão não há bom ou mau cheiro
mas um apurado sentido do faro,
que tanto pode exalar de um boeiro,
com de frasco do Chanel mais caro.

Fareja alimento, o rasto de parceiro,
cus de outros cães e cadelas com cio
e passa a pente fino o mundo inteiro,
a eito, pela vida fora, de fio a pavio.

Tudo tem um cheiro para o cão
mas pode aqui dizer-se em seu abono,
que o bálsamo da sua predilecção
á o da pista que o leva até ao dono. 

sexta-feira, 30 de junho de 2017

POEMA PARA RESPIRAR


- Dê-me oxigénio, por favor, uma pinguinha,
que a falta dele é bem capaz de me matar.
Fico roxo, boca aberta e em pele de galinha
e não me dá jeito morrer com falta de ar.

Felizmente ainda existe este ar que se respira:
consumido, maltratado, quanto baste poluído,
promete o seu ar de graça e a quem suspira
oferece vida airada, que é o meu ar preferido.

Sem abrigo e enjeitado, não respira nem ao relento
é o ar que nos dá, esse não passa de ar e vento.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

O FIM DA INOCÊNCIA


Não dá para ser bonzinho
e ser o saco da pancada:
fartei-me desse caminho
sem nunca chegar à estrada.

Oferecer a outra face
somente por bem parecer,
obrigado, não se mace,
tenho mais que fazer.

Prefiro bater com a cabeça
numa parede bem dura,
do que esperar que aconteça
bom modo de cavalgadura.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

A NUVEM E A CEGONHA


Vou chover quando partires,
disse a nuvem à cegonha,
e do outro lado onde me vires
não choverei por vergonha,

ou em vez de chover, decanto
e de tal modo desbragada,
que às lágrimas do meu pranto
lhes chamarão trovoada.

Não o faço por malvadeza,
mal do tempo que é o meu fim:
são ardis da natureza
ao aproveitar-se de mim.

Sou como o Sol e o vento,
por isso não te admires
e, para teu conhecimento,
vou chover quando partires.

sábado, 24 de junho de 2017

CINZAS


O fogo consumiu as árvores;
o pó e a cinza ocupam agora
o lugar da sombra.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

SENHORAS DE BEM

Buy Le  Moulin de la Galette 1876 Pierre-Auguste Renoir

Senhoras de bem tomam chá e café,
enquanto se abanicam nas esplanadas
sociais e falam de outras da mesma fé
e condição, ali ao lado também sentadas.

Fazem tilintar os pechisbeques dourados
à vez, que usam no pulso e no artelho,
enquanto sorvem os chás de tília e os abatanados,
encardindo as chávenas de batom vermelho.

Fumam cigarros light e falam de nadas,
lidos em jornais de indistinta fantasia:
- meias verdades, contos de fadas,
e assim vão apatanhando a democracia.

Com sorte, os maridos deram o mote,
que as faz fazer figura com tal sabedoria
mas não os citam para que ninguém note,
que o penteado esconde a mente vazia. 

Mais um fait divers, uma nova baforada,
um segredo cabeludo, avulsas maledicências,
sublinhados com sonora gargalhada,
que apazigua as cinzentas consciências. 

terça-feira, 20 de junho de 2017

AO DEUS DARÁ


Filipe II de Espanha, quando ordenou
a Invencível Armada contra os bárbaros do norte
e perdeu a frota e os marinheiros,
deveria ter concluído que Deus não vive a sul.
Ou, no pior dos cenários,
Deus, este que é o lábio belfo de Roma,
teria morrido afogado nas águas frias do Mar do Norte
muito antes Francis Drake disparar o primeiro tiro.
Mas nenhum deus morre
ou passa de um lado para o outro
sem o consentimento de um monarca como foi Filipe II,
para mal dos nossos pecados.

sábado, 17 de junho de 2017

ELE HÁ COISAS!


Há coisas que sim
e coisas que não.
Mais coisa, menos coisa,
coisas são.

Coisas do arco-da-velha
e outras que não têm fim,
que dão voltas, reviravoltas…
Nunca vi coisa assim.

E há coisas
que não são coisa nenhuma,
quando pensamos que há coisa
e a coisa não se consuma.

Dizem que há coisas e coisas,
verdadeiras, de fantasia;
coisas más e coisas boas
e coisas que eu nem sabia.

O que sobra é coisa pouca,
uma ou outra que espreita ou ousa
se for coisa que se veja,
como quem não quer a coisa.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

OLÍMPICA EPOPEIA


Alto é o alcantil,
a pedra em terra,
que o mar lhe foi ardil
e temor de finisterra.

Forte, o rochedo,
o destino adverso,
que converteu o medo
em universo.

Longe vai o mar,
as velas ao vento;
cansado de as olhar,
longe vai o tempo.

terça-feira, 13 de junho de 2017

OS LÁPIS DE CORES



Quando ainda nada sabia
já tinha uma pedra preta
de ardósia onde escrevia
muito antes de ter caneta.

Tinha caderno dos deveres,
livros com letras e flores,
tudo novidades e saberes,
e uma caixa de lápis de cores.

Quando andava na escola
tinha um tesouro metido
dentro da minha sacola
e todo o mundo lá escondido.

A régua, um lápis com borracha,
os ponteiros  e afiadores
todos alinhados numa caixa
e uma fortuna em lápis de cores…

São memórias que hoje tenho,
imaculada recordação,
quando os lápis de cores de antanho,
me vêm parar à mão.

domingo, 11 de junho de 2017

POESIA, ÀS VEZES



Quantas vezes te disse aqueles versos:
“Senhora partem tão tristes
meus olhos por vós meu bem”…
genuinamente de Camões – e tu acreditavas!
Eram de um tal Ruiz, nosso conterrâneo,
e tudo parecia igual à eterna Leanor descalça
por graça ou às tágides serviçais do canto primeiro…
Do canto jondo te falei e de Lorca
e de tristezas outras como o nosso fado.
O teu encanto era o porquinho amado
de Manuel Bandeira, a sua “primeira namorada”.
Enfim, nem deste conta do erro de geografia
na Lampara Marina de Neruda, mas não te culpo:
ele dizia o que havia para dizer e isso era o essencial.
Disso tive a certeza quando, já com toda a liberdade,
Eras tu quem dizia Gomes Ferreira ardendo
e Ary queimando e queimando-se a cada verso.
Havia outro ainda, que sendo singular Pessoa
era uma multidão de dores e sentimentos.
Por que haveria eu de saber mais pormenores
sobre a cigarreira do “menino de sua mãe”?
Era breve, eu sei, mas por isso mesmo
o tempo não ajudava mesmo nada
a quem, no meio de tantos poetas,
desvendasse que a poesia era a nossa vida iletrada.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

ALOENDRO



Se me enganas recorrendo
a poses de virgem ardente,
chamar-te-ei aloendro,
que mata traiçoeiramente.

Os panos de popelina
das pétalas que te esboçam,
são para mim a morfina
que os meus lábios adoçam. 

Ainda assim fico tentado,
tal é a embriaguez,
não vá de tal ficar augado,
pois só se morre uma vez…

sexta-feira, 2 de junho de 2017

AZULEJOS 4


quinta-feira, 1 de junho de 2017

AZULEJO 3


terça-feira, 30 de maio de 2017

domingo, 28 de maio de 2017

AZULEJOS


sexta-feira, 26 de maio de 2017

A CALORIA



A caloria é matéria com sorte:
folgada, como o diabo à solta,
por mais que se lhe deseje a morte,
ela teima e não tarda está de volta.

Ao mais pequeno deslise
ela aí está, pronta e destemida,
sempre, ou em última análise,
por ter mais olhos que barriga.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

FLOR DA CEREJEIRA

              Foto Olga Mendes


Pendiam da cerejeira
franzinas flores rosadas,
quais estrelas aladas
em alegre brincadeira.

Ou seriam mariposas
em rituais festejos,
cobrindo a árvore de beijos,
de afectos ansiosas.

Pela candura que têm,
valha a verdade instante,
são o sinal triunfante
das cerejas que aí vêm.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

AS FLORES


As flores, o cheiro das flores
e a perfeição que exibem sem vaidade.
As flores são o contrário do mundo, digo
a pulcritude da terra áspera que as impele
para a luz do sol e dos meus olhos.
As flores são o contrário do que morre,
do que fere e do que sangra
(pode ser suor apenas, mas sangra sem o sabermos)
dentro de nós que as cheiramos e admiramos
pétala por pétala a sua beleza natural.
São tudo isso as flores e são também faróis de esperança
que trazemos no olhar até que a morte nos junta.


sábado, 20 de maio de 2017

O ANJO DO MAR


Um anjo cristalino, qual fusão da bruma,
vela por devoção o mar aberto.
Mergulha em cada onda
como se fossem as nuvens do seu céu de infância.
O mar conforta, consola a sua vastidão
e, em pouco tempo, o anjo e o mar
fundem-se num elemento só:
o anjo é meio água e o mar meio anjo.
Mente o horizonte se disser
que o sol se acolhe no seu regaço,
porque o seu sono e o seu sonho
repousam ao fim da tarde no olhar do anjo
bondosamente louco.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

BLOG


terça-feira, 16 de maio de 2017

FRUTO DO LUAR

    foto Olga Mendes


Dizem que a lua é um queijo
num poço, o que eu refuto:
não é tal. A lua que eu vejo
pende da árvore e é um fruto.

Fruto nocturno que é,
permite que se lhe acene
sem nunca lhe chegar ao pé.
Contudo, é generosa e perene.

O seu néctar é o luar,
que tanto provoca êxtases,
como pode até enjoar.
Depende, a lua tem fases… 

domingo, 14 de maio de 2017

SEGUNDO POEMA DO RATO E A POESIA



Enquanto o rato roía
da saca, no sótão antigo,
jorrava trigo;
nem um bago de poesia.

O rato esfaimado comia
e chamava-lhe um figo,
inchava o umbigo
mas nada de poesia.

Por fim, cheio de azia,
Disse: - querem que vos diga?
poesia não enche barriga.
E a saca ficou vazia.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

CAMARINHAS


Quero lá saber que as camarinhas
não sejam o fruto do pinheiro…
se o erro de botânica é grosseiro,
as memórias do fruto são as minhas.

Não lhes chamei pérolas de fantasia,
pois se acres, doces eram e tão a jeito,
p’ra quê estragar o bom proveito?
- Chamo-lhes agora, que é poesia.

No pinhal, um piquenique de bolinhas
brancas de sabor meio esquisito,
não se compara a pasteis com palito
em nada, este manjar de alvas camarinhas.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

AMIGOS

                                                                                  Foto Joaquim Vicente

Tenho amigos que ainda
e também amigos que já:
a uns posso dar boa-vinda;
outros já não estão cá.

O que sou, sou todos eles,
por isso sou bom e ruim:
destes um pouco, outro daqueles,
todos fazem parte de mim.

terça-feira, 9 de maio de 2017

PEDRA



Uma pedra que arrima,
ainda outra pedra,
outra pedra em cima.

Não é a perfeição;
é no início
toda a construção.

Pode ir abaixo, cair.
Mas levanta-se
e torna a construir.

domingo, 7 de maio de 2017

CORRERIAS


As corridas eram intermináveis,
digo, os dias.
Dependendo do fôlego,
os nomes destes jogos variavam entre a agarrada e a fugida,
como outro brinquedo qualquer.
Corríamos por tudo e por nada
 – a maior parte das vezes, por nada –
à agarrada, ao eixo, às escondidas,
e a correr nos entendíamos, nos zangávamos
e voltávamos a fazer as pazes.
Alguns ostentavam já o músculo saliente,
característico, em redor da rótula,
outros, coleccionavam arranhões, pústulas e nódoas negras.
Apesar de tudo, não havia o menor queixume;
a mais pequena objecção;
e muito menos a repulsa ou a vontade de desistir.
Jogo que se prezasse, tinha corrida pelo meio.
Com este pulmão menino tão bem treinado,
não admira que a corrida ainda continue.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

SINTONIA



s-i-n-t-o-n-i-a
sin-to-nia
sin-tonia
sintonia
zzzzzzzzzzzzz

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O TEMPO ESTÁ MUDADO



O tempo está alterado
e já nada é como era:
o Sol foi p’ra outro lado
e a lua, a lua é uma fera.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

ZOOLOGIA


A formiga é um insecto estranho:
para garantir a sua sobrevivência
suporta várias vezes o seu próprio peso
e corre a uma velocidade superior ao record humano
dos cem metros livres. Tudo isto é relativo.
Mas se o homem tivesse estas capacidades
creio que teria já acabado com as formigas,
com os buracos onde elas vivem
e  com a Terra, um número indeterminado de vezes.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

O QUE É PERMITIDO AOS POETAS


§
Só aos poetas é permitido dizer que,
no limite, a poesia é feita com a casca das palavras.
Dito por outros provocaria uma penosa digestão.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

RUA DA SAUDADE


Se pudesse dar um nome à minha rua
chamava-lhe apenas rua da saudade,
que é o que eu tenho quando me ausento,
que é o que eu sinto quando lá moro.

Se ela tivesse nome pomposo de ministro
ou ilustre  escritor pensava do mesmo modo.
Não tem nada de valor a minha rua, é a minha rua
e isso diferencia-a de todas as outras ruas.

Se não fosse minha era todas as ruas
porque aquela onde eu morasse é que seria
senhora do meu penhor e aconchego
e a saudade ia também morar comigo.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

ABRIL SEMPRE



Noites foram mais de mil
para aquela manhã doce,
que haveria de ser Abril
por um cravo só que fosse.

Por um cravo só que fosse,
que haveria de ser Abril,
para aquela manhã doce
noites foram mais de mil.

Para aquela manhã doce
noites foram mais de mil
por um cravo só que fosse,
que haveria de ser Abril.