sexta-feira, 8 de maio de 2026

NA MORTE DO POEMA 2



Branco, imóvel, ali exposto à curiosidade,

bem-parecido, pelo que dizem agora,

já não brilha, é certo, perdeu o lustro com a idade,

uma perda, uma pena ir assim embora.

 

Mesmo assim, uma espécie de sorriso

envolve-lhe o rosto macerado por melhorias

de última hora, para lhe garantir o paraíso,

que tarde chegaram às suas faces frias.

 

Perdidas as emergentes oportunidades,

arrefeceu, tornou-se inútil companhia,

mas não chorem agora, nem toquem as trindades,

a morte é um momento, até um dia.


 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

NA MORTE DO POEMA


Devolvido à terra, desce vagarosamente

até onde o chão consinta e guarde

e aí fica inerte, que a si mesmo se consente,

morto de versos enquanto a alma arde.

 

Rosto sereno, sem deixar transparecer

mágoa, dor, sequer malformações do esqueleto,

uma obra prima que a terra há de comer,

simétrico, fazendo inveja a um soneto.

 

Jaz então. E ainda assim, fingindo a morte,

para que os amantes chorem à vontade

e os falsos juízes, ao jogo, tirem à sorte

os quadros de honra da eternidade.


 

quarta-feira, 4 de março de 2026

EPÍSTOLA AOS INCAUTOS


Naquele dia, o lobo calçou meias de lã

e atou-as ao dorso para que não caíssem.

Em seguida juntou-se ao rebanho de ovelhas,

que ali pastava, exibindo o estranho traje. 

 

Para seu regozijo, as ovelhas aceitaram-no

como um dos seus e ali conviveram por um tempo.

Alguns dias passados, as ovelhas começaram

a desaparecer, a desaparecer, até restar apenas uma.

 

A derradeira ovelha, entretida a pastar,

questionou o lobo sobre a rezão do estranho desaparecimento,

ao que o lobo, fingindo-se alheio, respondeu

que teria sido o carneiro a retê-las em algum lugar.

 

No dia seguinte, o lobo comeu a ovelha sobrevivente,

como fez com as restante desaparecidas.


 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

MONÓLOGO



 

Talvez dissesse sem saber

ou soubesse sem ter dito,

é a língua que arde sem arder

num corpo cheio de infinito.

 

Digo aos soluços ou a fio

o que me soa e tem de ser dito,

a verdade que a sós confio

num corpo cheio de infinito.

 

Vem a chuva e calo, não me atrevo,

ensopado de palavras, dito

de novo calendário e outro acervo,

num corpo cheio de infinito.


quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

CHUVA E VENTO - AS CAUTELAS



A chuva cai lá fora,

aqui não se dá por ela,

na rua o tempo chora

e lacrimejam as janelas.

 

(E se a chuva não caísse

e se a janela não chorasse,

que diríamos nós, que chatice;

que faríamos se o tempo mudasse?)

 

Mas a chuva cai, é tempo dela,

não há como contrariá-la

e se entrar frio p´la janela,

o melhor é calafetá-la.

 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

CORAÇÃO


Coração de pedra dura,

pedra dura sem emoção,

dura a pedra, dura,

só não dura o coração.

 

E o coração mole, brando,

o amargurado, o trapalhão;

órgão que vou levando

e vou chamando coração.

 

E o coração derretido,

que sangra completamente

sem fazer qualquer sentido

de amar perdidamente.

 

Finda o coração partido

e porque parte ninguém sabe.

É por quebrar ou ter partido

ou conter amor onde não cabe.

 

Ai coração, que voltas dás

sem deixares de ser coração.

Às vezes nem sei onde estás,

outras se estás ou não.