domingo, 23 de abril de 2017

TODAS AS MANHÃS



Todas as manhãs acordo com a incómoda veleidade
de escrever o poema duma vida.
Aspiração patética e vã: a poesia não é determinável!
Nasce nos olhos, percorre as veias, anda por aqui
saltitando como uma corsa em tempo de cio,
oferecida ao impulso masculino da preservação da espécie:
mentiras rebuscadas, arredondadas, rimadas…
A poesia vai no sangue e não consigo estancá-la
para vos mostrar o poema da minha vida,
para vos dizer o poema que tenho em mim,
para vos poemar o que nunca explicarei convenientemente.

Não é fácil suster o ímpeto de dizer
tudo aquilo que o poema leva dentro
e eu dentro dele ou ele dentro de mim.
Primeiro vêm as águas – umas feitas de violentas ondas,
outras quase riachos à procura da foz,
que os liberte enfim da opressão das margens –
Depois, tudo acalma e se transforma em bolas de sabão…
As palavras chegam por fim. Enxutas, buriladas,
mas nem sempre exactas; raramente verdadeiras.
Às vezes são como um sol brilhante e quente e outras
não  passam de pequenos anjos seminus,
chorando para que lhes mude a fralda…
Todas as manhãs o mesmo incómodo, todas as manhãs!

sexta-feira, 21 de abril de 2017

CATECISMO


O velho catecismo, surrado pelo tempo
nos azuis e vermelhos da capa, perdeu há muito
o encanto das novenas do mistério e da fé.
Racharam as bochechas rosadas dos anjos papudos,
pela procura incessante do verbo, que deixou marcas
de unto sombrio da saliva usada nos cantos das páginas
e um cheiro impróprio para a santidade do caderno.
Mantem intactos os dez deveres
capazes de elevar aos céus o magote de louva-a-deus
de carne e osso
já acostumado aos incontáveis nãos da natureza.
Apela às almas doces e ingénuas:
Brada aos seus, brada aos céus!


quarta-feira, 19 de abril de 2017

EM REVISTA



Levo algum tempo observando sóis e luas
ao desafio com as nuvens e correndo à minha frente,
todos os dias, sem esperas nem abrandamento.
A vida é uma constante observação das nuvens:
as que nos impedem de ver a claridade, as que fingem
desenhar presságios ou apenas vão ao sabor do vento
e das que choram, derradeiramente em cima de nós.


Antes via os salgueiros à beira do rio
e pareciam-me prédios duma avenida futurista,
que apenas a imaginação cuidava;
hoje vejo os enormes arranha-céus, ao longe,
e a fantasia traz-me de novo os salgueiros da infância.
A culpa é minha, que acredito no simulado paraíso
das neblinas matinais e na poesia dos salgueiros.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

UVAS


Uva é uma palavra cheia e colorida
de embriagada fantasia:
sonhos, imaginação e porfia;
metade pura ilusão, outra metade vida.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

CAPITAL (IN)VESTIDO


Não é de cambraia, tampouco popelina,
É mais o tipo de riscado de qualidade má,
ou seja, o que parece nobre, coisa fina,
não passa de forro, de oculto tafetá.

Faz-se anunciar em tules e brocados,
e passa por fidalgo pano ou pura lã.
Não é mais que fios entrelaçados
de mais-valias dum tecelão ou tecelã.

O mesmo nos privados panos intestinos:
badaladas bolsas e demais adornos,
bonés, chapeletas, adereços bovinos
e nessas passerelles (in)vestem, os cornos.

domingo, 9 de abril de 2017

AMBULÂNCIA


Por indisposição ou maleita,
suspeita de apendicite, coisa ruim,
eis a solução perfeita
mas deus me livre a mim!

Entre a moléstia e a cura,
não há como encurtar distância
- a quem realmente a procura –
e a melhor forma é de ambulância.

Coisa moderna, rápida e segura
e luzes azuis a acender e a apagar,
que rompe com desenvoltura
estorvos, caminhos, até chegar.

Com todos os equipamentos
de primeiros socorros e, para ser franco,
lá dentro, profissionais atentos
e uma enfermeira de branco.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

BATERAM-ME À PORTA



Um par de criaturas bateu-me hoje à porta.
Trajavam: ela saia e casaco, ele fato completo,
só pelo incómodo de me ensinar letra morta,
por cartilha nova e ascendente  alfabeto.

Tresandavam, de sorrisos largos e de certezas,
com todos os demónios presos na trela,
submetidos à razão e meia dúzia de rezas,
por um dízimo mensal, autêntica bagatela.

Por fim, vendiam-me um deus novinho em folha,
senhor do mundo, como eloquentemente ensina,
para deixarem, em folheto, à minha escolha,
a vida ou a morte e um cheiro insuportável a naftalina. 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

SEM-ABRIGO


Nos dias cinzentos,
que os tempos dão
faz-se das tripas
coração.

Um dia sem sol,
como por castigo,
tudo do mesmo rol
para o sem abrigo.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

OLHOS CRISTALINOS


Teus olhos frágeis de cristal
são como luas e, no fundo,
duas pedrinhas de sal,
que dão tempero ao mundo.

sábado, 1 de abril de 2017

OLHAR FURTIVO


Espreito os teus olhos a medo
por não serem olhos de ver;
são antes, em ti, um segredo
de algo que não querem dizer.