sexta-feira, 26 de maio de 2017

A CALORIA



A caloria é matéria com sorte:
folgada, como o diabo à solta,
por mais que se lhe deseje a morte,
ela teima e não tarda está de volta.

Ao mais pequeno deslise
ela aí está, pronta e destemida,
sempre, ou em última análise,
por ter mais olhos que barriga.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

FLOR DA CEREJEIRA

              Foto Olga Mendes


Pendiam da cerejeira
franzinas flores rosadas,
quais estrelas aladas
em alegre brincadeira.

Ou seriam mariposas
em rituais festejos,
cobrindo a árvore de beijos,
de afectos ansiosas.

Pela candura que têm,
valha a verdade instante,
são o sinal triunfante
das cerejas que aí vêm.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

AS FLORES


As flores, o cheiro das flores
e a perfeição que exibem sem vaidade.
As flores são o contrário do mundo, digo
a pulcritude da terra áspera que as impele
para a luz do sol e dos meus olhos.
As flores são o contrário do que morre,
do que fere e do que sangra
(pode ser suor apenas, mas sangra sem o sabermos)
dentro de nós que as cheiramos e admiramos
pétala por pétala a sua beleza natural.
São tudo isso as flores e são também faróis de esperança
que trazemos no olhar até que a morte nos junta.


sábado, 20 de maio de 2017

O ANJO DO MAR


Um anjo cristalino, qual fusão da bruma,
vela por devoção o mar aberto.
Mergulha em cada onda
como se fossem as nuvens do seu céu de infância.
O mar conforta, consola a sua vastidão
e, em pouco tempo, o anjo e o mar
fundem-se num elemento só:
o anjo é meio água e o mar meio anjo.
Mente o horizonte se disser
que o sol se acolhe no seu regaço,
porque o seu sono e o seu sonho
repousam ao fim da tarde no olhar do anjo
bondosamente louco.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

BLOG


terça-feira, 16 de maio de 2017

FRUTO DO LUAR

    foto Olga Mendes


Dizem que a lua é um queijo
num poço, o que eu refuto:
não é tal. A lua que eu vejo
pende da árvore e é um fruto.

Fruto nocturno que é,
permite que se lhe acene
sem nunca lhe chegar ao pé.
Contudo, é generosa e perene.

O seu néctar é o luar,
que tanto provoca êxtases,
como pode até enjoar.
Depende, a lua tem fases… 

domingo, 14 de maio de 2017

SEGUNDO POEMA DO RATO E A POESIA



Enquanto o rato roía
da saca, no sótão antigo,
jorrava trigo;
nem um bago de poesia.

O rato esfaimado comia
e chamava-lhe um figo,
inchava o umbigo
mas nada de poesia.

Por fim, cheio de azia,
Disse: - querem que vos diga?
poesia não enche barriga.
E a saca ficou vazia.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

CAMARINHAS


Quero lá saber que as camarinhas
não sejam o fruto do pinheiro…
se o erro de botânica é grosseiro,
as memórias do fruto são as minhas.

Não lhes chamei pérolas de fantasia,
pois se acres, doces eram e tão a jeito,
p’ra quê estragar o bom proveito?
- Chamo-lhes agora, que é poesia.

No pinhal, um piquenique de bolinhas
brancas de sabor meio esquisito,
não se compara a pasteis com palito
em nada, este manjar de alvas camarinhas.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

AMIGOS

                                                                                  Foto Joaquim Vicente

Tenho amigos que ainda
e também amigos que já:
a uns posso dar boa-vinda;
outros já não estão cá.

O que sou, sou todos eles,
por isso sou bom e ruim:
destes um pouco, outro daqueles,
todos fazem parte de mim.

terça-feira, 9 de maio de 2017

PEDRA



Uma pedra que arrima,
ainda outra pedra,
outra pedra em cima.

Não é a perfeição;
é no início
toda a construção.

Pode ir abaixo, cair.
Mas levanta-se
e torna a construir.

domingo, 7 de maio de 2017

CORRERIAS


As corridas eram intermináveis,
digo, os dias.
Dependendo do fôlego,
os nomes destes jogos variavam entre a agarrada e a fugida,
como outro brinquedo qualquer.
Corríamos por tudo e por nada
 – a maior parte das vezes, por nada –
à agarrada, ao eixo, às escondidas,
e a correr nos entendíamos, nos zangávamos
e voltávamos a fazer as pazes.
Alguns ostentavam já o músculo saliente,
característico, em redor da rótula,
outros, coleccionavam arranhões, pústulas e nódoas negras.
Apesar de tudo, não havia o menor queixume;
a mais pequena objecção;
e muito menos a repulsa ou a vontade de desistir.
Jogo que se prezasse, tinha corrida pelo meio.
Com este pulmão menino tão bem treinado,
não admira que a corrida ainda continue.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

SINTONIA



s-i-n-t-o-n-i-a
sin-to-nia
sin-tonia
sintonia
zzzzzzzzzzzzz

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O TEMPO ESTÁ MUDADO



O tempo está alterado
e já nada é como era:
o Sol foi p’ra outro lado
e a lua, a lua é uma fera.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

ZOOLOGIA


A formiga é um insecto estranho:
para garantir a sua sobrevivência
suporta várias vezes o seu próprio peso
e corre a uma velocidade superior ao record humano
dos cem metros livres. Tudo isto é relativo.
Mas se o homem tivesse estas capacidades
creio que teria já acabado com as formigas,
com os buracos onde elas vivem
e  com a Terra, um número indeterminado de vezes.