sábado, 7 de dezembro de 2019

É UMA PENA

É uma asa
uma casa pequena
não é uma casa
é uma pena

é um ninho de pardais
um imaginário bando
um a menos um a mais
que vai voando

é o tecto do mundo
a cair-nos em cima
de andar vagabundo
é o clima é o clima

um que vai e que volta
outro que já não vem
outro fica à solta
à boleia duma nuvem

são anjos alados
é quem mais ordena
é uma pena aos bocados
é uma pena

são os pássaros à toa
na eterna novena
é uma pena que voa
é uma pena é uma pena

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

INTERLÚDIO LUNAR (VARIANTE)


Não assistirei à floração dos jardins da Lua,
não chegarei a tempo para ver as flores radioactivas
explodirem cinzentas, nem o pó da natureza nua
cobrindo as vinhas doces que foram prometidas.

A Lua perdeu pontualidade sobre as ondas do mar
e é agora sombra da própria sombra rara e escura.
O tempo ganhou penumbra; perdeu de vez o luar
e morre junto à praia, que a Terra encharca de secura.

Não voltarei, que errante me perco na espessa neblina,
em tufos de gás e fumos, que o chão expele agastado.
Das fases ficou aviso para o vazio que domina
e o brilho, o encanto dos jardins, memória do passado.    

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

INTERLÚDIO LUNAR (PRIMEIRA FASE)


Não assistirei à floração dos jardins da Lua,
que me importa, se apenas a quero olhar…
Basta-me pálida, de manhã cedo, se saio à rua
ou noite fora, nua, lambendo o sal do mar.

Como agora se esconde, depois reaparece,
num jogo permanente de sombras e de segredos.
Ora em carne viva, ora quando desaparece,
qual areia fina que escorre por entre os dedos.

E sem o desejar volto aos presumidos jardins
lunares com botões de rosas, buganvílias, lilases,
esculpidos como futuros magistrais gradins.
Tudo é sonho e, tal como as da Lua, são fases.