segunda-feira, 19 de novembro de 2018

CASA


A casa é um navio
(relevem o aspecto)
que nos leva pelo rio
e nos dá cama e tecto.

Um porto de abrigo
será, e com vantagem,
assim o digo
numa ou noutra margem.

Uma âncora? Um sextante?
Casa é tudo o que se tente:
socorro de um instante,
sempre que tenha gente…

sábado, 17 de novembro de 2018

POEMA COM UM OVO A CAVALO

Salvador Dalí



O magnífico ovo matinal,
alvo, redondo, isto é, oval,
com tudo para ter futuro
numa enorme panela
bem temperado, escuro,
em saborosa cabidela.

A tanto não foi a espera
(o tempo já não é como era),
que a fome não se protela
e aquele projecto de galo
em modo de cabidela
não passou de ovo a cavalo.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

OLHOS CRISTALINOS


Teus olhos frágeis de cristal
são como luas e, no fundo,
duas pedrinhas de sal,
que dão tempero ao mundo.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

OS PRIMEIROS DESAFIOS



Quando brincávamos na rua e o Sol se rendia,
submisso, aos nossos pés,
não subtraiamos; apenas somávamos e multiplicávamos,
dividíamos tudo: repartíamos, como então nos era modo de ser.
Jogávamos contra e a favor dos nossos, partilhávamos a bola
como coisa íntima e colectiva. Não havia adversários:
todos eram companheiros no jogo, nas mazelas e em tudo mais,
excepto nos golos, que eram de cada um…
Naquele tempo não subtraíamos, nem tal nos ocorria.
O tempo era de somar, de multiplicar para os mais ansiosos…

Não se pensava nas classes que haveriam de surgir
entre nós com o passar dos anos: os que teriam meios
e os que haveriam de sujeitar-se, vendendo a sua força de trabalho.
Julgávamo-nos como iguais e assim fomos sendo
até nos perdermos de vista, que é jeito particular de crescer
e nos encontrarmos num mundo dividido, que não era então
da nossas contas, porque apenas somávamos e multiplicávamos,
dividíamos tudo,  éramos incapazes de subtrair o que quer que fosse
à alegria de ali estarmos e partilhar o nosso mundo.

As corridas sem freio e os remates longe da baliza
eram só intenções, só isso, nada de ultrapassar quem quer que fosse
e, no entanto, ganhávamos e perdíamos (às vezes empatávamos…)
com o mesmo entusiasmo e com os mesmos abraços
de vencidos e vencedores de um jogo que não era mais que um jogo,
mais que um tempo em que todos nos juntávamos
e nos comprazia estarmos, naquele tempo em que não subtraíamos;
apenas somávamos e multiplicávamos e dividíamos tudo,
tal como o desejo de sermos homens e ter futuro.

domingo, 11 de novembro de 2018

O PRINCÍPIO DO MUNDO


Se o mundo teve um início, como eu espero,
imagino que irrompeu da treva
ao som de uma música, também primordial,
onde predominavam os címbalos, os fagotes
e os tambores, de enormes proporções,
ainda em embrião. O resultado terá sido estrondoso,
por não existir pauta ou director de orquestra.
O mundo terá saído desse caos musical,
que o impediu de nascer perfeito e harmonioso.
Deuses houve, mais tarde, a reclamar para si
a autoria de tamanha obra,
sem saberem uma única nota musical.

Os primeiros acordes, estou certo, eram gritos
da terra nua, rompendo águas e negrumes:
o mundo chorou ao nascer, não seria de outro modo.
Serenou depois. Deixou-se cobrir de nuvens
e o seu corpo tornou-se num imenso colo de água.
Por esta altura surgiram violinos e violoncelos
a imitar ventos e medonhas tempestades.
E de novo se intrometeram os deuses, com os querubins,
soprando flautas, dedilhando harpas, suspensos.
Apesar de tudo, imagino que o mundo
só podia ter nascido ao som de música,
porque ninguém lhe sobrevive
e nada pode existir na sua ausência.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

ALMA DISSIPADA


Encontrei uma alma perdida
num compêndio de ciência.
Que faria a pobre sem vida,
de que lhe servia a experiência?

Talvez, exausta, procurasse
um paraíso extinto, turismo,
ou então não encontrasse
o caminho para o catecismo.

Pouco soube ou mesmo nada,
soltando ais a mais e outros sais,
desfez-se em água e, condensada,
subiu ao céu para nunca mais…

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

MALVAS


Às malvas, é dito vulgar,
como coisa sem valor.
Não é justo assim falar
de tão generosa flor.

Serena flor, benigna rama,
- nunca o diria se não fosse -
e não se livra da fama:
o seu chá faz bem à tosse.

Outrossim para a malícia,
mas aqui com outro fito,
dizem ser uma delícia,
aguar de malvas o dito.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

A VERDADE PELAS ÁRVORES


Tempos após sermos floresta, dados à sorte,
voltamos à cinza, o pó a que chamamos morte.
Uma vida presa às raízes, se é que elas prendem,
quase tudo e quase nada de quanto somos
e, por fim, algures, como candeias que se acedem,
um dia seremos apenas o retrato do que fomos.

sábado, 3 de novembro de 2018

NATAL


Um dia destes enfeito-me de azevinho,
bagas vermelhas em cima e aos pés caruma.
Vestido assim, (a ver se adivinho):
humana árvore de Natal ou coisa nenhuma.

De azeviche não, (ai a língua portuguesa!)
À maneira sóbria das damas antigas,
fazendo sinal da cruz, sentadas à mesa,
exibindo no decote um colar de figas.

Visto-me assim de vermelhos frutos,
que da natureza sou, de vermelhos gosto
e sem vaidade digo: são gostos mútuos;
de hipocrisias basta, é nisso que eu aposto.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

CAMINHOS



Um caminho na terra não é
um caminho de terra, porém,
indo de cavalo ou a pé,
caminho é ir mais além.

E, estando além, volta a ser
caminho o que foi percorrido:
caminho voltamos a ter
depois do caminho cumprido.

Volvemos então ao lugar
de onde partíramos à ida,
que à volta temos de aceitar,
tornar ao ponto de partida.

E eis que voltamos a ter
mais caminho para andar,
quantas vezes se quiser,
que estar vivo é caminhar.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

O PRÓXIMO COMBATE


Pára onde estás, não te mexas
e escuta o que te quero dizer.
Estás vivo. Consegues ouvir o sangue
percorrendo cada artéria do teu corpo?
És um sobrevivente.
A morte só acontece a quem se deixa morrer.
Agora podes movimentar-te, podes falar;
gritar, se preferires. Não dês o braço a torcer.
Luta.

domingo, 28 de outubro de 2018

O GATO E O CACTO


Um facto é um facto,
não é um fato;
e um gato é um gato,
não é um cacto.
O cacto pica
e o gato mia,
de facto;

coço o pico do cacto,
cato o pelo do gato.
O facto é que o cacto
pica no fato,
enquanto o gato mia,
que é chato.
Gato que é gato
não mia de fato
e o cacto pica
de facto.
Corta o cacto,
sape malvado gato,
não comam do mesmo prato!

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

ARVORELA

in Depositphotos


Árvore de sol, frutos de luz,
vento que perturba e zela
e demais sedes a que induz
o afogo da pálida aguarela.

Apesar disso vive, resiste
e não se entrega à sorte,
que o tempo a tudo assiste
impávido, mesmo à morte.

O tempo aqui é o pão
e a árvore faz de conduto:
sem terra, um pouco de chão,
não há vida nem há fruto.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

LÁGRIMAS DE SOL


Não se faz de água e sal a minha vontade;
faz-se do sol que todas as manhãs rompe,
aflito, na ânsia de ser dia em terra firme.

E não se faz de mitos, de assombros:
se não dá fruto a semente é porque o sol
se atrasa de tanto romper a treva.

Mas há uma excepção de água e sal
na minha vida: essa não é potável
e invade-me na tristeza: eu também choro.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

O MUNDO À JANELA


O mundo pôs-se à janela
debruçado no parapeito
e viu-se pintado em tela;
num quadro quase perfeito.

Não era o mundo afinal
aquele quadro pintado:
era apenas um postal
do mundo em seu passado.

Propaganda e nada mais
de um mundo de sucesso,
que visto assim em postais
nem parece do avesso.