domingo, 20 de janeiro de 2019

ALDRABA


Eis a chave que tranca,
mestra por tal valor,
o nosso dinheiro na banca
para não lhe vermos a cor.

Ficamos tão ofuscados
com o vislumbre da massa:
luxo, p'ra mal dos pecados,
lixo, p'ro rating da praça.

Não passamos da cepa torta,
olha a grande novidade!
Então, ponham trancas à porta
e deitem fora a chave.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

POST-IT


Valha-te deus, a cabeça,
já foi o que agora não é,
não deixes que aconteça
somente para por o boné.

Deixo-te aqui um recado,
não esqueças o que lá anoto,
para que o aqui lembrado
não caia em saco roto.

Põe a memória à prova,
um de dois recursos te resta:
ou compras cabeça nova
ou colas um post it na testa.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

O LUGAR DA POESIA


Já o disse e volto a dizer:
o poema é uma caixa vazia,
se dentro dela não houver
um sopro de poesia.

Mas há poesia à solta
e tão liberta se acha,
que mesmo tentando não volta
a meter-se dentro da caixa.

Voa, evapora; e de cima
ri, brada, canta, chora
e em versos livres ou rima,
acena e vai-se embora. 


segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

PRECLARA DÚVIDA


Um prolapso do sol
um pedaço de sal
uma côdea de pão mole
um percalço ocidental

um passo de caracol
menos mal menos mal
um peixe no anzol
quanto é que isto vale?

sábado, 12 de janeiro de 2019

BILHETE DE IDENTIDADE


O tempo passa e vou com o vento…
de manhã esfrego as mãos como quem reza:
é um modo de permanecer atento
e ajuda a ter, pelo menos, meia certeza.

Quando a tarde cai e o dia escurece
é hora de avaliar o bom e o seu contrário.
São contradições de quem permanece
e vai retirando folhas ao calendário.

Haveria de ter sido um pássaro, ocre,
de olhos bem abertos, como se encantado;
aquele que por ser desenho não sofre,
em vez de sofrer de tanto ter voado.

Querem encontrar-me, saber quem sou?
O silêncio basta, mapa não é preciso:
um pássaro que sem querer voou,
algures entre uma lágrima e um sorriso.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

VERDADE POÉTICA


O poema foi uma semente e fez-se árvore;
deu frutos, sombra e cachos de versos…
Saboreio-os agora, sumarentos.
É impossível mentir sobre tudo isto.
Então, uma folha solta-se de um ramo
e em queda, oscilante, vai com o vento
poisar onde os últimos versos ainda dormem. 

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

NOTAS SOLTAS



Perverso é procurar
o mar num verso;
o inverso
é se o verso naufragar.

(Nota solta,
verso ao mar,
não volta
não volta a navegar.)

Mas se de tanto porfiar
der à costa, controverso,
está no verso e está no mar;
é nota de face e verso.

domingo, 6 de janeiro de 2019

DE OUVIR DIZER


Como posso eu comprar vinho, Senhor,
ao preço que estão as uvas,
mais o pé-de-obra de esmagá-las;
como posso eu aventurar-me assim
como vós, que sois capaz de o fazer
a partir da água, a partir do nada,
que é o valor dado à água quando abunda?
Guardai, que vos pedirei ajuda.

Mas é de água que preciso agora, Senhor,
não desse etílico líquido, que me mata
e não mata sedes antigas.
Guardarei o bem-aventurado vinho
para as sopas de cavalo cansado, tão nutritivas,
e mais tarde falaremos do pão necessário,
assunto em que também sois mestre
muito competente, segundo ouvi dizer.

É de água, pois, o meu pedido, Senhor,
não daquela deslavada que me entra
pelas frinchas do telhado e eu chamo chuva
há uma data de anos.
Água doce, benzida ou não, tanto faz,
mas que eu não tenha de a chorar,
não precise de fingir que tudo está bem assim
e morra de sede como as nuvens.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

BOMBO DA FESTA


Carregamos o fardo por bonomia,
outras vezes empenho puro,
raio de couro, que força é esta?

Mas não chega o bombo, não chega
o estrondear rude e magoado
se não acompanhar a orquestra.

Subimos o monte uma, outra vez,
vezes sem conta pela vida fora
e por fim o que sobra, o que nos resta?

A toque de caixa e sempre sorrindo:
- Cá vamos andando, cá vamos andando!
Não cabe outra sina ao bombo da festa.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

RIDÍCULOS


Houve um tempo em que todos
usávamos brilhantina e
ninguém se achava ridículo.

Afinal, o mundo não acabou,
nem por essa nem por outra razão,
mais ou menos ridícula.

Fumávamos cigarros mata-ratos
e o seu nome não nos dava nojo
nem sequer nos parecia ridículo.

As valentes palmadas que levávamos
pelas aventuras mais ridículas,
nunca saberemos o efeito que tiveram.

Lembramos hoje, tão bem, o ridículo
dos primeiros beijos não familiares
e sentimos amargos de boca.

O ridículo nunca se toma por presente
e nós, que um dia o fomos sem saber,
somos ridículos agora que o sabemos.

domingo, 30 de dezembro de 2018

SIMPLES


Está na moda complicar o que é,
o que sempre foi, o que nunca deixou de ser simples,
senão para os que acham demasiado simples
o que é simples, e erudito o que é complicado.
Está na moda porque é no complicar que está o ganho…
A minha dúvida é saber
o que falta saber para que tudo continue
simples, como é simples a água que mata a sede,
o frio que gela até ao osso e o sol
que tudo aclara sorrindo, simplesmente.
Só não digo mais para não complicar,
é tão simples quanto isto.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

VOZES DE BURRO *

*CRÓNICA in POVO DA BEIRA 26/12/2018

Chovem gatos e cães. Matreiros como raposas, os habituais frequentadores do café, esticam as conversas para não terem de se expor aos elementos, enquanto a borrasca se mantiver. Na verdade, nada disto é novidade: raro é o que não arrasta a sua vida de cão, pelo menos até à hora de almoço.
O tema das conversas de hoje é bizarro. Falam dos que se entretêm a mudar-lhes os hábitos linguísticos cultivados há anos, como ratos que invadem a despensa, destroem o que lhes dá na gana, bolachas guardadas religiosamente para certas ocasiões… a precisar duma ratoeira no sítio certo, é o que é. Não, não estamos a falar dos papagaios do acordo ortográfico. Cada macaco no seu galho, esses são de outra inquietação. O que se discute agora é do simples direito de falar e de chamar os bois pelos nomes.
Consta que há por aí uns pardais preocupados com a alusão a animais no discurso corrente, dizem, em defesa dos próprios bichos.
- Ele há cada camelo, disse o mais indignado da roda. O que faltava agora era um travão na língua, uma moderníssima forma de censura, que nos obrigue a falar do modo que esta cáfila aprendeu na manjedoura.
Aliás, nos dias que correm, não há cão ou gato que não produza opinião douta sobre quem, sobre como ou sobre onde e quando.
A organização que deu o mote e trata por tu os animais tem nome sugestivo: chama-se PETA. Fica-lhe bem. Há bem pouco tempo lançou uma campanha para “acabar com expressões que sugiram maus tratos a animais”. O PAN já veio a terreiro dar exemplos: "Pregar dois pregos de uma martelada só" (para substituir "Matar dois coelhos de uma cajadada só") ou "Pegar uma flor pelos espinhos" (como alternativa para "Pegar um touro pelos cornos") são algumas das sugestões do PAN. Cada tiro, cada melro.
A estas erratas à língua comum, quer ainda o PAN que o povo se habitue a dizer "Mais vale dois pássaros a voar do que um na mão". É o que temos.
A tertúlia da manhã não podia estar mais agitada. Não bastava o mau tempo lá fora e ainda mais este incómodo, este trava-línguas de meia-tigela.
Mas a esperança é sempre a última a morrer e todos esperam que vozes de burro não cheguem ao céu.
- Isto nem parece coisa vinda de gente, macacos me mordam!


quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

ANIMAIS, ANIMAIS


O cão e o gato
O coelho danado e o rato
E o galo e o pato
O ganso que é tanso
A ovelha que é velha
O cavalo a galope
O burro xarope
E a cabra mé
Que não sabe quem é
A perua que é tua
A galinha que é minha
E o porco que é sonso
Levou um responso
- Quem disse que o pato
É marreco
Ó seu porco badameco?
Aqui são todos iguais
Não há menos nem mais
Somos todos animais.

domingo, 23 de dezembro de 2018

ALBERTO CAEIRO



Ontem encontrei Alberto Caeiro.
O seu ar inspirava compaixão, pesado;
e, ao mesmo tempo, olhava
com imperceptível amor por todos
os que por ele passavam – um amor à vida.
Os olhos ardiam-lhe, quase em chama.
Lia Cesário Verde e as lágrimas
corriam-lhe como a uma criança.
Arrastava os versos do mesmo modo,
parecendo carregar os últimos cestos
da vindima onde Cesário
tossia do princípio ao fim.
Não reparou em mim e ainda bem:
não iria dizer-me nada que eu não soubesse já;
nem as suas lágrimas
seriam mais verdadeiras do que os meus versos.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

O PALITO




Trago uma ideia intermitente
de um lado ao outro da cabeça;
não sei se é impressão, se é gente
ou algo que assim se pareça.

Ah, já me lembro; ora esta!
são os versos mais renitentes,
que ao mastigar o que não presta
ficam nas frinchas dos dentes.

E sendo assim, não é necessário
caneta e termina aqui o conflito:
se o problema é dentário
o que eu preciso é de um palito.