domingo, 3 de maio de 2015

A CEIA


O mais atrevido picava furtivamente
a batata cozida que era já cuidada para a próxima refeição.
- Guardado está o bocado…
No panelão de ferro escuro afundavam todas as batatas,
mais ou menos à conta, com casca,
para que o entretém do desbulho 
provocasse a sensação de uma refeição farta e prolongada.
- Ficavam assim mais saborosas, era a versão familiar.
O pai contava sempre a mesma história:
que a batata não era um fruto como a castanha,
mas um tubérculo, uma raiz,
que era recente na nossa dieta habitual
e que tinha sido trazida da américa.
Isso dava a todos a impressão de um manjar exótico,
apesar de saber ao mesmo
que o som da palavra que lhe dava o nome.
Comiam-se com ganas de tapar todos os buracos,
que o sol ou a chuva abriam algures no ventre.
A tudo isto se chamava ceia
(nada parecida com o quadro com o mesmo nome
pendurado, desde que me lembro,
por cima do aparador da sala)
a tudo isto chamávamos ceia
porque não tínhamos outro nome para lhe chamar.
Poderíamos chamar-lhe fome,
se soubéssemos o que era fartura.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

HORIZONTE


1.
Subi às ameias para confortar de ar saudável
os pulmões e ver com os próprios olhos
o que o mundo, surpreendido no seu canto,
deixava ver.
E lá estava ele, o horizonte, tão misterioso como sempre,
insinuando que ali tudo termina
e deus se esconde ou finge parecer que é deus.
A única verdade é que os pássaros cantam
e as árvores são cúmplices dessa melodia.

2.
É a terceira vez que o casal de melros recém-aninhados
tenta iludir-me os sentidos.

terça-feira, 28 de abril de 2015

POESIA DE VIAGEM


O céu e as árvores;
as árvores, o céu e as casas,
algumas casas, pouquíssimas.
A memória raramente guarda as casas;
a memória apenas espreita pelas janelas.
Não se vê gente no céu ou nas árvores
e não se sabe se as casas têm gente.
Não se vêem vestígios de gente.
Ainda tenho esperança em que alguém apareça
vestido de céu, de árvore ou de casa
e me abrace, dizendo:
bendito seja o teu regresso!
Saberei então que a viagem chegou ao fim.

domingo, 26 de abril de 2015

ABANDONO


Secos, secos, amargamente secos,
os rios que, longe daqui, me corriam na memória.
Às vezes o sol parecia mergulhar comigo;
às vezes o sol e a água eram a mesma coisa.
Assim, tive de abandoná-los,
para o sol deixar de me queimar as entranhas
e a água me invadir e voltar às correrias
de pedra em pedra,
roçar os salgueiros das margens e levar-me,
folha seca, até à foz.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

SEMENTES DE FOGO


Prescreveram todos os frutos; apodreceram!
Pior: quem se atrever a mastiga-los
morrerá logo ali corrompido de veneno imundo.

O pomar proscrito à nascença incendiou
de insolação, desfez-se em águas torrenciais,
enlouqueceu de suplícios em tempo de branduras.

Onde estão os frutos sãos, que tenho fome de os ver?
Que viveiro foi a louca morte das sementes?
Que paraíso é este de águas mornas?

Que resta agora por incendiar senão o coração dos homens? 

quarta-feira, 22 de abril de 2015

EFÉMEROS


Quantos mais arco-íris preciso
para a minha paleta de cores,
quanto mais tempo e mais juízo
para as dores?

Que posso eu, resplandecente,
exuberante vela acesa,
perante esta terra envolvente,
mãe natureza?

Efémero fósforo, ainda incandescente,
(para relâmpago já é pedir de mais)
ouso o fogacho de primitiva gente
dos manuais…


segunda-feira, 20 de abril de 2015

PRIMAVERA



A Primavera tem este condão
de me seduzir qual andorinha,
vendo os teus decotes já de Verão
no corpo frágil em pele de galinha…

Sei mais: o pólen perfumado
das flores, o tímido sol refulgente
e o teimoso melro, inconformado,
imitando os sons de toda a gente.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

A DANÇA DAS ÁRVORES



É na penumbra que acontece,
quando o vento alonga os braços,
e antes que a brisa cesse
dão início aos primeiros compassos.

Depois da folha, depois do fruto,
que é a devolução da semente,
depois do inverno e do luto,
as árvores dançam finalmente.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

LUA


Tempos houve em que a lua
era um queijo no fundo do poço,
agora já não creio, mais não posso
fartei-me de tal insanidade;
ter a certeza nua e crua,
do que afinal não é verdade.
A lua é isto: um planeta branco
que, qual espirito santo,
- mal de nós que pecamos… -
faz crer neste mundo e no outro,
enquanto eu não vou a tanto;
apenas creio neste e a ver vamos…

segunda-feira, 13 de abril de 2015

CACHOEIRA


Cascata, como se diz por aqui,
nada acrescenta ao que vi.
Mas se disser cachoeira,
como também já ouvi,
na forma de dizer brasileira,
gosto mais, dá-me mais prazer,
a queda d’água, prazenteira,
caíndo da mesma maneira
tem mais modos de o dizer.

Cai água nua e brejeira
mas para senti-la, não basta ver:
como as uvas comidas no cacho,
é outro nome, piririca, eu acho…

sexta-feira, 10 de abril de 2015

ÁRVORES



No que às árvores diz respeito,
há dois sujeitos em mim:
um que as honra e, com efeito,
outro que as tem por outro fim…

Em qual dos dois que proclamo
sou mais sensato ou mais bruto:
quando as admiro ramo a ramo
ou quando lhes saboreio o fruto?

quarta-feira, 8 de abril de 2015

CAMINHOS


Cada um segue o seu caminho
e ter o seu é já de ficar grato:
por estrada ou como passarinho,
a pé é que já vou ficando farto.

Viajo assim, deus o saberá…
solto os olhos por aí a meditar,
poisam aqui, depois acolá
e vou onde quiser só de olhar.

Melhor é que ao andar se faça,
como aqui procede o quilowatt,
que por nós corre e desembaraça,
galgando o espaço a corta mato…



segunda-feira, 6 de abril de 2015

NÃO TINHAM MARGENS OS RIOS


Não tinham margens os rios
que te falei
eram itinerários devassados
densos juncos de enfeite
e um mar imenso a que chamava foz

os rios não tinham margens
já o disse
(ou que assim possa defini-las)
era tudo água de improviso
o estuário em que quase morri de sede

sábado, 4 de abril de 2015

RECOMENDAÇÃO


Com o colo forrado
de ainda meios poemas
procuro entre as palavras
a que aos lábios finja um beijo
porque do beijo quer apenas
a passagem breve
e consumir-se sem ganhar significado
quando o fim
for necessário para as coisas

Se lhe desvendar o traço
o rasto fino
se a encontrar lambendo
as vossas almas ilustradas
digo

quarta-feira, 1 de abril de 2015

AS PALAVRAS



Tenho a casa cheia de palavras.
Nos quartos, salas e até na despensa.
As casas na cidade têm muita arrumação.
Ao contrário, na aldeia, tudo o que não é necessário
de imediato vai para a loja
e só de lá é retirado conforme a precisão.
Não quero dizer que as palavras estejam alinhadas,
catalogadas em local próprio, nada disso:
andam como querem, à solta,
brincando umas com as outras e muitas vezes
a pregar partidas a quem não as espera encontrar.
Sem elas, as palavras, não podíamos dizer coisas.
Na aldeia quase nos entendemos por gestos
mas na cidade é preciso estar sempre a dizer coisas novas.
Os seres humanos precisam de dizer coisas uns aos outros
e é por isso que eu tenho a casa cheia de palavras.
Não sei se nos estamos a entender.