sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

CAPITAL (IN)VESTIDO


Não é de cambraia, tampouco popelina,
É mais o tipo de riscado de qualidade má,
ou seja, o que parece nobre, coisa fina,
não passa de forro de oculto tafetá.

Faz-se anunciar em tules e brocados,
e passa por fidalgo pano ou pura lã.
Não é mais que fios entrelaçados
de mais-valias dum tecelão ou tecelã.

O mesmo nos privados panos intestinos:
badaladas bolsas e demais adornos,
bonés, chapeletas, adereços bovinos
e nessas passerelles (in)vestem, os cornos.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

TEMPO FRIO


A charneca vestiu de branco
e os pássaros ao longe cantam
a brancura com seu livre canto;
no branco da charneca os pássaros encantam.

Faz frio, o ar é agudo como agulhas,
mas eu, em frente da lareira,
sacudo apenas as persistentes fulhas
e oiço dos pássaros o canto à sua maneira.

Cantam os pássaros como ninguém
e eu fico só à espera de quem vem.   

sábado, 13 de dezembro de 2014

O FIM DAS DÚVIDAS


Não corre o rio de costas para o mar,
não corre. Não sopra o vento através do muro,
não sopra. Não voa o pássaro por voar,
não voa. Nada é feito sem futuro.

 Não mata a fome o negro pão ganhado,
não mata. Não arde o coração do louco,
não arde. Não grita o dócil nem o acomodado,
não grita. Não grita, mas falta pouco, muito pouco!

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

SEM PEIAS



Os crocodilos choram, estou comovido
e choro com lágrimas de suprimento,
que as minhas secaram já em tempo ido
e a comoção não tem lugar no orçamento.

Quero agora ser comum marginal,
capaz de resistir e dar o peito á luta:
quero gritar aos reptis que me sinto mal
e chamar-lhes, sem peias, filhos da puta

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O MAL TALHADO


Faltava um bocadinho assim para lá chegar,
mostrava entre o indicador e o polegar;
coisa muito pouca, daqui até lá é um ápice.
Logo a seguir vinha a novíssima burrice…

Tomou ofício de ministro com altas notas,
dos que prometem tudo e um par de botas
mas, ao contrário, dele nada se atinge ou herda
e em tudo onde põe a mão faz merda.

Mas não se pense que é obra do destino;
que tudo  lhe foi azar, moléstia ou desatino…
Não, essa é a sua capa, o seu disfarce,
que estas malfeitorias têm conteúdo de classe.

Assim deixo a questão para pensar de novo:
faz-se a folha ao mal talhado ou troca-se de povo?

sábado, 29 de novembro de 2014

PALPOS DE ARANHA


Passam-se coisas estranhas
ou, pelo menos, esquisitas:
na terra dos parasitas
anda tudo às aranhas,
salvo as ditas.

Passando aos pormenores,
há os que por acaso mero
tecem teia a partir do zero:
aracnoexploradores,
salvo erro.

Usando de baba e peçonha,
são servidos de bandeja
mesmo que a gente não veja
por outros bichos sem vergonha,
salvo seja.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

CIDADE TRAVESTIDA


O ar coquete e aramado da cidade
faz o olhar estrábico, contrafeito,
dá náuseas mal lhe bate a claridade,
que de adejar se lhe perde o jeito.

Os módulos do franchising estrangeiro
rompem o casario gasto e escondido
de fina vista, quer de olho, quer de argueiro,
qual gravata em pingente encardido.

Antes ou depois, o moderníssimo deserto
que, de inverno ou em pleno estio,
releva para longe o que está perto
e me deixa a alma viva por um fio.

Ah, como me divirto, andando por aí
a coberto de autênticas obras de arte!
Ferro assim e ferro assado, aqui e ali,
isso fazia eu, modéstia à parte…

Os repuxos de água são um encanto:
descuida-se o cidadão menos avisado
e, antes que a novidade cause espanto,
já tem o bárbaro esguicho  no rabo.

Mas os artistas ou o arquiteto de agora,
bradam como os vendedores das feiras:
módulos, baguetes e por aí fora,
como são feitas as minhas prateleiras.

Bancos de madeira exótica, envernizados,
fingimento de aço a imitar as caravelas
e nós, bons cidadãos embasbacados,
como vivemos o tempo todo sem elas?

Só o Amato, de Lusitano nome, aponta,
mas para um lugar incerto, ao calha:
talvez ingénuo ou de pouca monta,
ou será um estranho lóbi que o amortalha?

 Respiro, consumidor de vento, compulsivo,
mas não os sítios, os prédios e os cheiros
que sempre me fizeram sentir vivo
e agora matam em desvãos alcoviteiros.

Se a minha meninice foi tragédia,
singrando a pulso, ganhando a praça,
agora e na hora da vil comédia,
que outra aflição espero senão farsa?

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

FIRME


De luas não, de lua
carregada às costas
até ao fim da rua
enorme. A quanto apostas?

De sonho não, de sonhos,
pés assentes no chão
mais os versos que componho
e prosas de aluvião.

De luzes não, da luz
que sobra e põe à prova
os reis caminhando nus,
vou de lua em lua nova

sábado, 22 de novembro de 2014

CUMPLICIDADE


Quis soltar as mãos
ao encontro dos teus frutos.
Senti-as contornar os relevos do lençol
com cuidados de serpente
e, como gatos, subirem
ao cume dos teus seios de água.
Mergulhei então a pele
em cada poro do teu corpo
e tu nada saberias se as minhas mãos
não fossem cúmplices da nossa vontade.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

ONDE A TERRA ACABA


O mar, por tentativas,
escala furioso a escarpa,
encharca, corrói o mapa
em vagas sucessivas.

É a vez do mar
submeter,  insano,
feito oceano
e se aventurar.

Deuses, monstros e mitos
dormem na praia agora
para quem clama e chora
p’la senhora dos aflitos.

Ó mar de medo e águas frias,
sepultura e estrada
que acolheste as caravelas
- não aos homens mas a elas –
se nada vem do nada
que fazemos às alegorias?

Que nos reclamas, insurgido mar,
que queres dum povo
prestes de novo
a embarcar?

terça-feira, 18 de novembro de 2014

AS JANELAS DAS FLORES


Da janela vejo flores e elas
a olharem para mim
debruçadas em janelas,
que só elas o fazem assim.

Sinto o perfume das flores
como tranças de uma fada;
respiro-as e cheiro as cores,
mesmo não cheirando a nada.

Fico suspenso, preso a elas,
como o caule que as alteia:
elas oscilam, inclinadas nas janelas,
e eu saúdo-as com a mesma ideia. 

domingo, 16 de novembro de 2014

COM PENA MINHA


Escrevo e voam de mim
as aves mais eloquentes;
escrevo e fico com pena…


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

AI MARIPOSA

Este poema foi publicado no blogue em 2013. Reponho-o agora porque gosto dele e “encontrei” esta magnífica mariposa

Ai mariposa,
quanta heresia
há entre a prosa
e a poesia.

Se voares, garbosa,
é poesia,
mas se fores de fantasia
é prosa.

Definirei as loas
neste possível quadro:
poesia é quando voas;
prosa é se te guardo.

Ou então doutra maneira,
ao jeito da minha caneta:
mariposa é poesia inteira;
se for prosa és borboleta.

Esquece tudo, vai!
de nada queiras saber,
há gente que te chama butterfly
e eu apenas te quero ver…


quarta-feira, 12 de novembro de 2014

ALFORRIA


Decrépita folha de águas já passadas,
jaz à sede; à míngua de atenção;
morta de mil vidas exaladas.


Prostrada, como folha seca e sem função,
não longe das demais, alpendoradas,
ei-la fruto ileso, liberto e chão.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

TRÂNSFUGAS


Não fujas
tu és todos os lugares
não te escondas
entre cortinados
que tu mesmo teceste
não finjas
desconhecer Setembro ou Novembro
que aceitaste
com argumentos contrafeitos
e que mais tarde sacudiste do capote
que não era nada contigo

dispara à queima roupa

verás o meu sangue ganhar terreno

ah a tua pressa
pode lá haver quem a denuncie!