sexta-feira, 3 de julho de 2015

A POMBA


A pomba (branca) desceu finalmente
do seu altar de paz e veio pousar na praça,
junto às demais e aceitar as migalhas
que os velhos e ociosos costumam atirar aos pássaros.
Não contente com Picasso, que a desenhou, pintou e esculpiu
dezenas de vezes durante anos a fio
sem a contrapartida de uma migalha (de esperança).
Diz-se cansada do voo interminável a que foi sujeita,
com o raminho de oliveira no bico – que nem sequer
podia engolir – apelando à paz entre os homens.
Cansada e velha (a pomba) passa agora os seus dias
junto aos da sua espécie, come as migalhas que consegue,
arrulha como os outros e dá trabalho
a quem é obrigado a limpar diariamente as ruas.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

VER


Se olho é porque olho;
e se não olhar não vejo,
e se não vir, não escolho,
não decido nem elejo.

Se olhar a espiga ao sol,
que vejo senão espiga,
que vejo senão sol?
O olhar que o diga.

Vendo, o olhar não pára,
é o que sinto; o que digo:
ali vejo uma seara,
um mar de pão de trigo.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

MÃOS


Abençoadas as minhas mãos
de tanto que estão calejadas,
senhoras de mais sins que nãos
e capazes de duas lambadas!

sábado, 27 de junho de 2015

NATURAIS



Às vezes nem nos apercebemos
que as coisas não são como as vemos
ou se metem p’los olhos dentro
são como são
hoje assim, amanhã não.
- Bom dia! A como está hoje o coentro?

De vez em quando a natureza
faz uma proeza…
tanto pode dar ares de distraída
como, por atrevimento,
plantar papoilas no cimento
que ali ficam sem saída.

Às vezes?! Não é continuamente?
Oh, meu deus, não há quem aguente!

quinta-feira, 25 de junho de 2015

A LUZ


Onde o clarão, a luz, a chama?
Uma corrente de ar entre fissuras
urdiu a corrompida trama,
deixando-nos quedos e às escuras.

Ardamos nós, que é já tempo
e ao tempo que este tempo induz
a prender o enganoso vento
e que enfim volte de novo a luz!

terça-feira, 23 de junho de 2015

POR UM BEIJO


Dá-me um beijo
caprichado
tenho desejo
dum beijo dado

se for melado
dá-me um beijo
dum e doutro lado
é duplo ensejo

a ver se arejo
estou abafado
dá-me um beijo
repenicado

não fique aguado
o meu desejo
desesperado
dá-me um beijo

domingo, 21 de junho de 2015

RAPOSA


A raposa matreira revê-se
no espelho da represa.
Ai se ela pudesse!
Ai se fosse presa!

A raposa olha atenta
a sua figura exacta,
- mas quem é que isto inventa,
que se não vive me mata?

A raposa é um preconceito
de atrevimento;
ela carrega o defeito
e nós o aproveitamento.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

POEMA PARA HIERONYMUS BOSCH


Como hei-de dizer de ti como de mim disseste?
Sim, de mim, que sou gente por aqui ou belzebu
e pinto de igual o que é inferno e o que é celeste.

Aqui me tens em efémero deleite, um teu criado
jogando as peras mas sempre atento e, no fundo,
não passo dum joguete, dum projecto mal talhado,
a contas com esses tais possuidores do mundo.

Não lhes darei tréguas enquanto for eterno…
Serei talvez apóstolo da alegria, como foste tu
e que me sobre mundo, no céu ou no inferno.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

AS ÁRVORES


As árvores não choram quando nascem; guardam as lágrimas para mais
tarde. Estendem os braços aos pássaros que nelas nidificam e aos homens
dão frutos, mortalha e lições de filosofia.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

AS PAPOILAS DE NOVO


Que sei eu da papoila? Nada!
Sei que ninguém a semeia,
que se ergue de madrugada
e que a seara ponteia.

Por vezes choucha, adormece,
de mil noites, mal dormida,
quando ao relento anoitece
junto ao pão que lhe dá vida.

De manhã, mal o sol desponta,
ei-la que sorri,  levanta a cara:
vermelha e altiva, de novo pronta
para cerzir a seara.

Tem o sol por alimento,
por aninho,  trigo e  luar,
e de mim tem o atrevimento,
quando lhe deito o olhar.

sábado, 13 de junho de 2015

JARDIM


Um incomensurável jardim,
cobrindo do cimo ao fundo
as casas, os campos e a mim,
como no princípio do mundo…

quinta-feira, 11 de junho de 2015

PEIXES


Nunca escrevi sobre peixes. Prefiro a elegância dum par de asas
ao tremor constante das barbatanas. Não o digo por desdém,
por mero capricho. Outrossim, com as pálpebras de água rasas,
porque adoro os oceanos, os rios, tal como o céu do meu vaivém.

São elegantes, os peixes e as escamas dão-lhes luz e graça,
se mais não dessem, e toda a agilidade na água onde prosperam.
Às vezes, junto ao rio, detenho-me quando um cardume passa,
o meu desejo é tocar-lhes mas eles esgueiram-se e nunca   esperam...

terça-feira, 9 de junho de 2015

FARM ROAD

Van Gogh

Havia sempre que fazer em farm road…
(Este foi o nome que inventei para a nossa pequena horta
da aldeia, à beira da estrada, quando na cidade aprendi
que o mundo falava outras línguas.)
Mas havia sempre que fazer em farm road:
nada se entregava à vida sem o esforço de uma enxada,
de uma gadanha e de mil outras alfaias,
mais a água e o sol.
As horas também tinham outro significado:
se na cidade era tempo de me levantar,
já na aldeia era meio dia…       
Nas Segundas-feiras carregávamos de legumes e frutas
os cestos de verga, que vendíamos no mercado
a bom preço mas sempre regateado.
Era assim que o mundo dava as suas voltas, e nesse tempo
havia sempre que fazer em farm road.

domingo, 7 de junho de 2015

A LUZ E A TREVA


O candeeiro da cidade
(o mais poupado da rua)
resolveu gastar a lua
em vez de electricidade.

havendo necessidade
e sempre que vê a lua
logo lhe chama sua,
mordomo da claridade.

Mas um dia, por maldade,
uma nuvem cobriu a lua,
enegrecendo a rua,
o candeeiro e a cidade.

Não sei se isto é verdade;
quem mo contou foi a lua.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

VERSOS ALENTEJANOS


Devia haver dois portugais
como num jogo de espelhos,
com perdão dos animais,
de um tiro se matam dois coelhos.

Pouca terra e tanta gente
a quem corre mal a vida
e diz que não tem saída
desta crise permanente,
que do futuro faz presente
e se queixa com tantos ais,
sendo pior quanto mais,
que a solução é só uma
antes que coisa nenhuma,
devia haver dois portugais.

O que faz falta fenece
num abrir e fechar d’olhos,
só a morraça é aos molhos
de tanto mal que acontece.
Já nem rifas nem quermesse,
nada tem volta ou trambelhos,
sejam novos, sejam velhos:
se encolhe é a desgraça
se duplica acham-lhe graça
como num jogo de espelhos.

Safam-se os do costume
(do fruto podre vive o bicho)
e não se importa ser lixo,
digo lixo, não estrume,
que depois ninguém assume
a não ser p’ra fazer mais
como pombos e pardais,
esgravatam até ao osso
e levam tudo o que é nosso,
com perdão dos animais.

Duplicar é a solução
como duas gemas d’ovo
ou então cambia-se o povo
por outro que esteja à mão,
que aceite a imigração:
trocam-se os novos p’los velhos
impostos por bons conselhos
e a sorte logo duplica
se mal está pior não fica
de um tiro se matam dois coelhos…