sábado, 16 de dezembro de 2017

O QUE HAVIA DE ME LEMBRAR


Somos extraordinários:
enquanto vivos alimentamos insectos,
que nos chupam, picam e mordem;
depois de mortos, dizem, servimos de repasto
a um exército de larvas,
que nos devoram até ao osso.
Creio tratar-se de vingança congénita
quando comemos caracóis e os acompanhamos com cerveja
ou coleccionamos borboletas exóticas.
À nossa maneira vamos matando o bicho. 

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

EPÍGONO DO MAL


O filho do diabo mais novo
Belzebu da Lusitânia
diz que o pão não é do povo,
que é de geração espontânea

O diabo em figura de gente
quer que o país dê p’rò torto
mas vamos andando em frente,
ele é que não tem onde cair morto.

De uma só assentada
promete fogo e caruma,
com uma mão cheia de nada
e outra de coisa nenhuma.

É alarve, só pode ser
bicho sem pingo de verdade
tanto pode burro a valer
como égua de vaidade.

O sacrista das profundezas
inscreve catástrofes, vida insana,
revoltas da natureza
em capítulos de programa.

No fim, vendo quem ri melhor,
sorrimos de novo ao cravo
e ele, com o seu ar superior,
ri sozinho porque é parvo. 

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

NAIF



Esta terra que eu piso
e que é minha sem o saber
dá-me o calor que preciso
e um lugar para viver.

Pode ser tosca ou rude,
tombar para qualquer lado,
que eu alcanço, não me ilude
correndo à toa ou parado.

Não é bondade imaculada,
tampouco madrasta, fingida;
por mais ou menos amada,
não mata o que dá vida.

sábado, 9 de dezembro de 2017

CUIDADOS COM A ALIMENTAÇÃO


Dentes podres à meia-idade
é tabaco, é de fumar.
Caso não seja fumosidade
então é apenas azar.

É descuidado, é obeso
sem cuidados de alimentação
não lhe dá para perder peso
tem mais fome que razão.

Bebe vinho em demasia
como se não houvesse amanhã
dói-lhe o estômago, tem azia,
abusa do kompensan.

É filho do exagero
e a gula faz-lhe mal:
não dispensa um bom tempero
e exagera sempre no sal.

Do açúcar nem se fala,
do pão, dos polinsaturados
e o ar feliz que exala
deixa-nos preocupados.

Além do mais há a diabetes,
os cancros, o AVC
que pica como alfinetes
e morre-se sem saber porquê.

Há também quem acalenta
chegar novo a velho
por treze euros e quarenta
não falta quem dê conselho.

Para viver bem amiúde
aponte aí no seu caderno
é morrer cheio de saúde
e fazer da vida um inferno.

Morreu novo, alguma fez,
teve falta de cuidado.
Morreu velho, era a sua vez,
já não se tinha, coitado. 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

EQUINÓCIO DO BEIJO



Agora que pairam nuvens
sobre um lençol
azul e a brandura da lua
seminua
se insinua é que tu vens
com os teus raios de sol
poisar no rossio
dos meus lábios de azulejo 
frio
dar-me um beijo.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

IMAGINAÇÃO


Quando repouso a minha cabeça voa,
evoca dores, caminhos e soluções.
Quando acordo – que a cabeça não me doa –
mal vai se tudo for só recordações…

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

PERSISTÊNCIA



A pêra rocha era dura de roer
e ainda assim comi-a.
Não foi pêra doce.


sábado, 2 de dezembro de 2017

PARTILHA


Uma larva veio fazer-me companhia
à hora da refeição.
Trazia uma maçã para partilhar.
Agradeci como sempre.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

DIALÉCTICA


De olhos nos olhos vou dizer-te
um segredo:
nenhum de nós dois
está isento de culpas;
não é pelo meu atraso,
a tua ausência ou vice-versa,
que as marés alteraram
o vaivém de todos os dias,
que os barcos partiram
e o mar se parece tanto com um deserto.
Diremos que tudo estava previsto
ou o contrário com a mesma convicção.
A verdade, se ela existe,
terá de fazer por ela
e nós haveremos sempre de encontrar
mil desculpas para a desmentir.

sábado, 25 de novembro de 2017

FOTOGRAFIA


Um gesto e um sorriso,
que o momento desafia
têm tudo o que é preciso
para ficar na fotografia.

Na fotografia, porém
depois do clique, depois
a realidade já não convém,
nem nuvens, nem luas, nem sois.

Sobrevive-lhes o relento
e a memória do aparato:
a miséria, a fome, ar e vento
e a da fotografia o retrato.


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

PROCISSÃO DOS VERSOS

(A. Almeida, Procissão do Senhor dos Passos)

Dois versos
interminavelmente brancos
seguem dispersos,
aos solavancos.

Que deus lhes valha
em coisa ruim,
do mal duma gralha
ou pecado afim.

Pelo meio, a compasso,
metáforas d’ andor,
vão passo a passo,
e recitam de cor

versículos, orações,
a régua e esquadro;
lamentos, canções,
ainda o poema vai no adro.

domingo, 19 de novembro de 2017

O PÁSSARO EM CANTO


Canoro
o pássaro encanta
e eu adoro
o que ele canta

sem partitura
canta de improviso
cada aventura
sem aviso

maestro de si
e de mim que o imito
do-re-mi
e repito e repito

o pássaro encanta
é ave canora
mas eu não sei se canta
ou se chora

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O CICLO DO NATAL



Que há de novo nesta quadra
de requentado néon intermitente?
Um vaivém de gente
e é costume ser mais nada.

Neste exórdio, que afinal deu igreja,
o negócio permanece intacto:
todos iguais mas, de facto,
há sempre carvão e carqueja.

Uns, castanha assada; outros, só o fumo;
fitas, laços, vitrinas de desejo.
- A avó manda-te um beijo.
Porta-aviões do consumo.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

LISTA ACTUAL DE INSULTOS PRIMÁRIOS


Nada a reter: cotão nos bolsos
e cabeças ocas, como sempre.

Da vida mal conhecem a sua,
de repente falam, como nunca.

Ouvi-los é maçada. Espremidos,
nem pinga deitam, como sempre.

Fingimento avulso, em lágrimas
de crocodilo manso, como nunca.

Empolados verbos de encher
Inconjugáveis, como sempre.

Alados arcanjos, como nunca,
desprezíveis insectos, como sempre.

domingo, 12 de novembro de 2017

OS MARGINAIS


Ei-los, que se atrevem de novo,
espalhando aos quatro ventos serradura
que cegue o povo
e abra caminho a nova ditadura.

Grunhem, uivam em desespero,
abrigados no fino manto que os cobre
mas por mais que finjam no tempero
não passam de pregoeiros de peixe podre.

Mas insistem em descobrir argueiros
nos olhos já cansados só de os ver:
damas de alfinete, caceteiros
e os demais que o diabo há-de trazer.