quarta-feira, 23 de Abril de 2014

POEMA CONSEGUIDO (QUASE)



Era uma vez uma borboleta
de vida efémera e pouco lisonjeira,
de olho nela estava um poeta
de sorte igual e vida passageira.

O pouco tempo de vida airada
foi voar, voar, voar, voar…
que um só momento poisada
lhe causavam falta d’ar.

Voou então a seu bel-prazer,
de flor em flor, à sorte,
até que um dia, antes do sol nascer,
poisou nela, inevitável, a morte.

segunda-feira, 21 de Abril de 2014

DUAS OU TRÊS PALAVRAS SOBRE A DETERMINAÇÃO


Diz-me a vontade que execute
o que a liberdade me priva:
diz-me a vontade que faça; diz-me a liberdade que lute!

sábado, 19 de Abril de 2014

TRANSITIVO


Em parte vou, em parte fico;
não sei se estou, se me ausentei:
não me identifico
e se acaso sou, não sei.

À parte, vou sem lei,
se ir for divagar.
Para onde caminhar, não sei
se ainda há lugar.

O que havia a dar, já dei
para meu completo azar
e só no fim vejo que me virei
sem querer de pernas para o ar.

Se em tudo, enfim, tiver sido eu
ou o que em mim permaneceu.

quinta-feira, 17 de Abril de 2014

PARÁBOLA



O cego tinha sede e bebeu da fonte.
Depois, por enxergar o sol, chorou
ao vê-lo despontar no horizonte
e ao negrume não mais se acomodou.

O surdo, para quem o leito cristalino
de água pura era somente um rio,
ali matou a sede e chorou como menino
quando ouviu da torrente o assobio.

O mentiroso, aos sorvos, tentou
saber também o que era aquilo
sem sede, não soube o que provou
e chorou lágrimas de crocodilo.

terça-feira, 15 de Abril de 2014

CÃO DE CIRCO


O cão é esperto, o cão
vai à televisão
com outros animais
e contradiz aos jornais
o que ontem desmentiu
a sangue frio.
O cão mente
e ri de contente.
Com a corda no pescoço
diz que o osso
só a nosso ver
é duro de roer.
É bom de acreditar,
se for outro a mastigar…
mas como não,
é conversa de cão.
- E se fosses, cão,
 lamber sabão?
diz o povo,
isso é de cão ou de lobo?

E foi assim que o cão
lambeu a bola de sabão.

domingo, 13 de Abril de 2014

AMATO LUSITANO


In antologia Amado Amato, organizada por Pedro Miguel Salvado e Maria de Lurdes Gouveia da Costa Barata.
Foto de Jorge Costa, in Cultura Vibra


Haverias de sair para ser gente, gesta
imaculada deste povo crespo e arredio,
que de seu só sabe o quanto presta
se de si mesmo ouvir de outros elogio.

Deram o teu nome à minha escola,
fizeram dele mais coisas de aprender,
Amato. Mas sabe a pouco, cheira a esmola,
pelo muito que há ainda por fazer.

Em estátua tens a verdade nua e crua:
foi-te a vida de saberes e de degredo
e agora, quieto, que apontas para a lua,
há quem insista e te olhe para o dedo.

sexta-feira, 11 de Abril de 2014

ÁGUA, UMA AUTÓPSIA


Analisada a composição, em suma:
duas moléculas de hidrogénio
para apenas uma de oxigénio,
é água, sem dúvida nenhuma.

Pelo ar dolente dá para ver,
sofreu maus tratos e escravidões,
espargida por mil religiões,
contabilizada em deve e haver.

Desperdiçada, mal compreendida,
acolheu aqueles, que ao naufragar
lhe rogaram pragas de arrepiar.
Foi tudo na vida, tudo em vida.

Acarinhada no desvio ou conduto,
teve amores também entre o povo
hoje aqui, depois ali, sempre em recovo,
mas nunca por si, antes pelo fruto.

Tem cor esverdeada, sabe e fede
e alimentou o mundo mesmo assim,
morta-viva correndo para o fim,
a autópsia é clara: morreu de sede.

quarta-feira, 9 de Abril de 2014

QUE ESTRANHA A VIDA



Que estranha a vida, que destecer constante;
ainda ontem a tua mão ma abraçava um dedo
e já hoje, que é este momento e ainda é cedo,
não caibo nos teus braços  um só instante…

Que estranha a vida em que nos entretemos
num vaivém  de sombras e de fugazes alegrias,
vida feita de lustros mas onde só contam os dias
em que o sol aquece – como a tua mão – … é o que temos.

segunda-feira, 7 de Abril de 2014

A PULGA


A pulga pula
de pelo em pelo
e salta,

suga, estulta,
pouco a pouco
o sangue suga.

A pulga avulta
gota a gota
e muda.

Se resulta,
chupa, chupa
e deglute.

Insone, cata-
 -pulta  e some
a puta.


domingo, 6 de Abril de 2014

O CANTE


(Excerto de Mar de Pão)

No tempo em que a taberna do Faustino se enchia de homens ao fim da tarde, cada qual com o seu naco de merendeira e o toucinho, a linguiça ou as azeitonas, regados por três ou quatro copos de vinho da casa que, para serem bem aviados, haviam sempre que ficar a deitar para fora, nesse tempo, a deita era para mais tarde. Em grandes algazarras, punha-se a conversa em dia, bradando com interjeições apropriadas aos que iam entrando ou saindo. Em hora de despedida e porque o vinho também é grande ajuda destas andanças, lá se fazia um despique de cantigas, em que o cante tomava inevitavelmente o primeiro lugar.
Joaquim das Vacas foi interessado animador destes convívios. Não tomava a iniciativa na cantoria, mas acompanhava com gosto e até mesmo com paixão, sobretudo quando eram as suas preferidas do Grupo Os Trabalhadores de S. Bartolomeu do Outeiro ou d’Os Ceifeiros de Cuba. A sua especialidade era, isso sim, a conversa animada entre dois copos.

Campo das Letras, 2003

sexta-feira, 4 de Abril de 2014

NO JARDIM


Em todo o seu esplendor
a  exuberante borboleta,
poisou na mais linda flor
no dia em que quis ser poeta.

quarta-feira, 2 de Abril de 2014

LER & ESCREVER


Escrever, o que é escrever?
É o sopro que enche um balão;
ler depois, o que é ler?
É transformar um livro num dragão.

segunda-feira, 31 de Março de 2014

POEMA RECORRENTE SOBRE AS CASAS


As casas são casas: intimidade, acomodação.
Casas e mais casas e eu vivo em todas elas
como, durmo, dou serventia às janelas
e vou pensando no problema da habitação.

As casas são mundos, são para mim o mundo
onde, mesmo sem dormir, vou sonhando a vida,
os que vão chegando e os que estão de partida
e esse é outro assunto; é o problema de fundo.

As casas ficam, sobreviventes de pedra e cal
sem sonhos e sem preocupações de maior.
Mas comigo é bem diferente e para pior…
E esse é o problema; é aí que está o mal.

sábado, 29 de Março de 2014

ÁRVORE (Sobre uma fotografia)



À medida que o tempo corre
flores e frutos vêm e vão,
dependendo da estação,
 só a sombra é que não morre.

quinta-feira, 27 de Março de 2014

SINOPSE


(Notas para a descodificação política e outras novidades da mentira de lei)

Os ministros embebedam-se com a própria incompetência,
vomitam decretos-lei com borras da adega de trinta e três.
Aprendizes sábios do virtuoso beirão, por equivalência,
preparam-se para abrir a nacional taberna pela segunda vez.

Os ministros dão públicos ares duma alucinação estranha
e pronunciam cifradas línguas bárbaras neoliberais:
comportam-se como súbditos da estrangeira Alemanha
e, em vez da fala humana, grunhem como os animais.

Não queremos a sua morte, lutamos pelo degredo eterno,
para que vão purgar tais vícios nas labaredas do inferno.