quarta-feira, 4 de março de 2015

UM VELHO SOM


Um som já velho, reciclado,
vira o disco,
não sei onde ouvi isto.

Fede. Velho e relho, insisto,
percorre o tubo enviesado
este som antepassado.

Que som este, estafado,
de notas falsas, um misto
de purgatório e Jesus Cristo.

Como a sensação do já visto:
na música o mesmo fado
e na letra o caldo entornado.

segunda-feira, 2 de março de 2015

O TROCA-TINTAS


O que imita mas não faz
e, sem bola, faz fintas,
dizem que é bom rapaz,
para mim, é troca-tintas.

O que dribla a conversa
e te pede a ti que mintas,
ou a coisa está às avessas
ou este é o troca-tintas.

O que diz que a verdade
é uma mentira com pintas,
não te iludas. Na realidade,
é o próprio troca-tintas.

Ainda assim, há remédio
sem ter que ficar aflito:
acaba-se-lhes com o assédio
trocando as voltas ao dito.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

TESTE PROJECTIVO


Que mais pode um homem desejar:
uma boca, um par de olhos cristalinos,
a brisa fresca vinda do mar,
ou n’aldeia despertar ao som dos sinos.

Que outro mal maior virá depois:
amordaçado e, de tanto ver, cegar,
não ter nas ondas senão maus lençóis
ao rebate que os sinos hão-de dobrar.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

CÁ DENTRO DE CASA


Cá dentro de casa
nada me faz mal,
calor em brasa
ou brisa outonal.

Se houver vendaval,
chuva persistente,
ficam no quintal:
cá dentro só gente.

Amigos, quero dizer,
de boa companhia…
Calha às vezes não ser
mas fica pra outro dia.

Cá dentro de casa
é como vos digo:
um dia, um golpe d’asa,
outro dia a sós comigo.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

TU OUTRA VEZ, POESIA?


A sós havemos de nos entender
tu, poesia e eu, sobre este tema,
e assim ninguém fica a perder:
aos demais deixaremos o poema…

E que sabem eles desta relação,
a não ser o fruto, a síntese obtida
que, sendo em nós simples fusão
é, para quem nos decifra, outra vida.

Mas não é tanto, não é bem assim:
afinal, só quem não tem consigo
imaginário, metáfora ou coisa afim,
não sabe quem tu és nem o que eu digo.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

ARTES DE MAREAR


Maré alta, fiz-me ao mar,
no miolo das ondas, sem pé,
para saber como é
um pé de sorte, a preia-mar
sem mesmo saber nadar,
sequer na maré baixa
e muito menos usar
camisola de alcaixa.

Maré vaza da vida
em mar parado, matreiro,
sem arte de marinheiro
de sete vidas vestida.
O bote está de partida,
bem no alto, na amurada,
no adeus de despedida,
não é partida, é chegada.

O bote partiu mar adentro,
tomou agulhas e rumo,
todo de tremuras e fumo.
Apenas resta o vento.
E no centro, bem ao centro
aí estou, ainda de atalaia,
acenando para dentro,
sem nunca sair da praia.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

VOAGEIRO


É certo que voamos
consideravelmente
pela estética dos passos
e a teimosia da gravidade.

É certo que voamos
deselegantemente
pela genética falta
de um par de asas.

É certo que voamos
intermitentemente
pela congénita vontade
de ser como as aves.

É certo que voamos
deslumbradamente
pela fonética magia
das asas dum poema.

É certo que voamos
eternamente
pela patética comiseração
de imitar os homens.

É certo que voamos
hipocritamente
pela técnica apurada.
Mas muito baixo.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

"VÁ DE RECTO"


A catequese abre portas
(em tese),
Jesus entra pelas janelas
(de luz)
e as crianças, senhor, por que fogem elas?

No evangelho o padre
(velho)
faz de conta que o demo assedia
(sagaz)
os anjinhos na sacristia

Para que serve aos apóstolos
(serve?)
a religião por vacina
(a injecção)
e as embalagens de vaselina?

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

OS MEUS BARCOS


Os meus barcos navegam além de mim:
galgam as ondas como cavalos indomados
sem freio, sem estribo e sem selim
rua abaixo em desatino, inconformados

com as marés de vaivém impertinente.
Têm pressa de vida; sede de mar
e sabem das regras o que é voz corrente:
vai ao fundo aquele que se atrasar…

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

CONTRABAIXO




Não há nada mais tocante
- tocante, sim, nos dois sentidos! –
que o som, pizzicato , dum contrabaixo.
O suspiro percutido nos bordões
enche de sumaúma o peito, 
e a alma flui como névoa densa e branca.

Aqui jazz  e vou andando
como um pássaro de fogo.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

HÁ SEMPRE UMA SAÍDA


No azar de cada recaída
há sempre uma saída

e se a sorte for invertida
há sempre uma saída

Em cada batalha perdida
há sempre uma saída

e se a guerra for suicida
há sempre uma saída

Para que prevaleça a vida
há sempre uma saída

e se a morte não for vencida
há sempre uma saída

Se por fim não houver saída
voltar ao ponto de partida

sábado, 7 de fevereiro de 2015

(DES)ACORDO


(Repito estes versos – publicados já em 2013 – porque infelizmente se mantêm as razões de há dois anos)

Esse irmão brasileiro
é um bacano engraçado,
esperto e avisado:
vai no português prático
e quer acordo otográfico
que nem professor danado.

Esse irmão brasileiro
é fogo de vera cruz
quer o diabo, deus e jesus,
sem cês e agás mudos,
conforme seus estudos
bordados a ponto-de-cruz.

Esse irmão brasileiro
quer tudo registrado
excepto o brasileiro falado:
cafajeste, viado e pebolim,
aeromoça e colibrii,
que não constam do tratado.
 
Esse irmão brasileiro
diz que é português sem ruga
e se há verdadeiro portuga
chute a bola prá frente
que o zagueiro é resistente
e, além do mais, é tuga.

Esse irmão brasileiro
é bom irmão, camarada,
dá de barato, não quer nada;
apenas trocos, reais, cachaça,
senhora cheia de graça
e mais alforria assinada.

Esse irmão brasileiro,
bom povo irmão, repito,
não está nisto por conflito
apenas quer dizer primeiro
como se diz em brasileiro,
eu é que lhe faço o manguito!

Esse irmão brasileiro,
brinca na areia, esse irmão
do samba e do violão,
seja paulista ou carioca
quer português em troca
do seu gingado calão.

Esse irmão brasileiro
do carnaval, do candomblé,
do amazona, do jacaré,
bate um samba na favela,
toca violão de trivela
e em português, como é?

Este primo português
lava as mãos como Pilatos
e, irresponsável nos atos,
deixou-nos na confusão,
analfabetos ou não
diz que os acordos são fatos.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

SEM VENTO DE FEIÇÃO


Que mais faz a que se finge vela
em vez de senda ou vela panda,
senão peitoril vistoso de janela;
que faz que anda mas não anda?

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

POESIA



Poesia é água e sal dum marinheiro,
de há muito experimentado arrais,
que transporta a lua num veleiro
e a leva branca e ilusória até ao cais.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

AS CASAS


Foram lares, senhor, foram casas!
Veio o tempo e que viu nelas?
A quem as habitava deu asas
e ao resto abriu portas e janelas.