quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

DOS PÁSSAROS

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Que dirão de nós os pássaros,
se se importam com a coexistência humana
e a ancestral inveja do imenso céu
em que vivem.
Que dirão de nós os pássaros,
se algum dia julgaram útil engaiolar-nos,
pelo prazer de nos ouvir barafustar
uns com os outros e com o mundo
em volta do cativeiro, imaginando que cantamos.
Que dirão de nós os pássaros,
se a nossa ridícula alma é o pouco que em nós voa,
se é que temos alma.
Que dirão de nós os pássaros?


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A IMPORTÂNCIA DAS PEQUENAS COISAS


A ravina do olhar com lágrimas,
essa mesma, a que permite a queda
do céu carregado de estrelas
sem nunca chegar ao fundo;
a ravina para onde empurro
tudo o que não quero ver ou sentir,
incluindo as lágrimas
e demais subtilezas da alma que há em mim
é onde guardo as pequenas coisas.

Há dias salvei de morte certa
o que restava duma folha branca
separada do bloco de apontamentos.
Escrevi um recado breve
e pu-la bem à vista de quem o precisasse.
Foi alvo de todas as atenções
durante o período activo de validade.
Depois afundou-se na ravina
do olhar com lágrimas, essa mesma,
a que permite a queda
do céu carregado de estrelas
sem nunca chegar ao fundo. 

domingo, 15 de janeiro de 2017

PRAÇA DAS PALAVRAS


Uma procissão de palavras com maior
ou menor sentido, encharcadas de fé ou fértil imaginação,
caminha com devoção à frente do poema.
Alguma serventia terão. Mas não será por isso
que o céu a todas abrirá os portões de ouro e mogno
- que, sendo o céu o que é, assim deverá ser –
porque agora é tarde e faz tempo que o poema deixou a praça.
Ide, digo-lhes, por hoje é tudo,
amanhã  haverá nova safra e tudo começará de novo.
Cabisbaixas, regressam aos subúrbios da memória.
Oiço-as grazinar à medida que se afastam
porque é com elas que eu também regresso
e ao poema não importa a minha ausência.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

FEIJÃO VERMELHO


Quem consome
feijão de fome
é bicho ou “home”
quem o come?

Feijão vermelho
é ditado velho
no evangelho
em pé ou de joelho(s)

Alimento forte
tê-lo é uma sorte
para ganhar porte
sem desnorte

Não meter bedelho
em feijão do aparelho
dizem é conselho
que no entanto é vermelho.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

MAIS CAMINHOS


Um caminho na terra não é
um caminho de terra, porém,
indo de cavalo ou a pé,
caminho é ir até além.

E, estando além, volta a ser
caminho aquele já percorrido:
caminho voltamos a ter
depois do caminho cumprido.

Então volvemos ao lugar
de onde partíramos à ida,
que à volta teremos de aceitar
tornar ao ponto de partida.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

EDIÇÃO ESPECIAL


Quando realmente se gosta de alguém,
é queimar-lhe a seara e, em jeito de ajuda humanitária,
usando os mesmos aviões, despejar-lhe pães.

A caridade é uma bomba pronta a deflagrar
e distribuir a produção excedentária
por um lugar no céu senão à beira mar.

sábado, 7 de janeiro de 2017

NOTAS SOLTAS


Perverso é procurar
o mar num verso;
o inverso
é se o verso naufragar.
Mas se de tanto porfiar
der à costa, controverso,
está no verso
e está no mar;
é face e verso.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

DEBAIXO DA PONTE


Em noite sem nuvens é vulgar
ter no céu por horizonte
o brilhante esplendor do luar.

Incomum, se queres que conte,
é a lua indigente pernoitar,
minguante, debaixo da ponte…

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

CÍCLO



Às vezes parece que a natureza se revolta:
a brisa reconfortante e as árvores ramosas,
que apenas deixam perpassar finíssimos raios de sol,
dão lugar a violentas tempestades.

Voltará a calmaria mas eu e a natureza
teremos já perdido a inocência.


domingo, 1 de janeiro de 2017

NATUREZA VIVA


De naturezas mortas está tudo dito;
das vivas, e das que estão por nascer,
o pintor espera, paciente, o veredicto
de quem tem ainda que aprender.                                                   

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

POEMA ECOLÓGICO DE NATAL


Um dia destes enfeito-me de azevinho,
bagas vermelhas em cima e aos pés caruma.
Vestido assim, (a ver se adivinho):
humana árvore de Natal ou coisa nenhuma.

De azeviche não, (ai a língua portuguesa!)
À maneira sóbria das damas antigas,
fazendo sinal da cruz quando se sentavam à mesa
e no decote exibiam  um atado de figas.

Visto-me assim de vermelhos frutos,
que da natureza sou  e de vermelhos gosto
e sem vaidade digo: são gostos mútuos;
de hipocrisias basta, é nisso que eu aposto.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

CONSOLAÇÃO


Não lembro nada do que ia escrever,
por culpa do malvado computador.
Às vezes liga, outras, não me deixa dizer
onde me dói ou deixou de doer.

Que seja assim, quero lá saber do que lhe dói…
nem o que me apoquenta eu sei;
se ele é meu mestre, meu herói
ou eu que escrevo além, fora da lei.

A par disto queria dizer alguma coisa:
não me sinto bem; coisa pouca
mas, apesar de tudo, mais coisa, menos loisa,
tudo não passa de amargos de boca.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

UM ADEUS COM CHUVA PARA A FOTOGRAFIA


Chove, chove sempre no adeus:
tem muito mais poesia…
Não sei se nos teus olhos, nos meus
é pura fantasia.

Adeus, adeus. Literariamente
repete-se o substantivo,
ainda que por dentro, literalmente,
não faça qualquer sentido.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

UM LIVRO ESTRANHO


E por que não um deus bom aqui deitado,
ainda que fingindo o sono, pois não dorme
o que é omnipresente, ente inspirado,
dá conforto, vivifica e mata, e mata a fome.

E em verdade me diz a copiosa literatura,
enquanto me aconchego, lençol adentro:
- Eis o caminho, a chave e a fechadura,
e se resguarda a sete chaves por dentro.

Esta é a palavra e todas as palavras ditas,
o que se vê e mesmo o que não se nota:
metáforas, alucinações e alegadas visitas;
ensaia o sono dos justos, adeja e faz batota.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

LIBERDADE


Liberdade, quem a tem
chama-lhe sua
(minha e tua)
como convém.
No meio da rua
e não refém,
que cabeça a tua!