segunda-feira, 19 de agosto de 2019

TRAMAS REAIS


Por onde andou Andeiro,
Leanor, ai Deus
Conde matreiro

E Fernando que fez nela
Beatriz, ai Deus
Fundamentos de Castela.

Quiseram de retorno
Portugal, ai Deus
El Rei formoso e corno.

Nação de alcova e trama
Portugueses, ai Deus
E espanhóis, a mesma cama.

O Mestre João veio depois
Ser Rei, ai Deus
Morreram as vacas ficaram os bois.

sábado, 17 de agosto de 2019

SER COMO O VENTO


O vento leva-me para onde quero estar
e as árvores são minhas amigas…
ali encalho, finjo que me aquieto, que vou parar
e brejeiro, mais adiante, levanto as saias às raparigas.

Se agora corro sou ciclone ou tempestade;
não tarda, uma leve brisa nas cortinas da janela;
tudo depende do sopro e da vontade,
derivo à vista como antiga caravela.

Faço oscilar as folhas ou talvez elas tremeliquem
com a aragem por serem folhas e mais nada,
mas quero que elas pendam dos ramos e que fiquem
só eu vagueio e me dissipo na vida airada. 

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

ARTE DE VOAR


PRIMEIRA LIÇÃO DE VOO
(preâmbulo)

Os pássaros voam como nós
com a vantagem de terem asas próprias.

Os homens, com tanto as por e tirar,
precisam de costas largas, suspensórios
e, mais que tudo, mil razões para voar.

(Amanhã falarei aos pássaros
sobre tudo isto. Espero que me compreendam.)


SEGUNDA LIÇÃO DE VOO


A ventania quebra qualquer desejo
de alcançar o céu, se for vento o que me tolhe.
Talvez seja o medo das alturas.
É isso, talvez seja mesmo isso.

A verdade é que sem qualquer razão
o voo se torna penoso e o céu demasiado alto…


TERCEIRA E ÚLTIMA LIÇÃO DE VOO

Além, um bando de gaivotas adeja ao vento,
interrompem para pequenas correrias no areal…
Elas saberão por que o fazem
e não creio que a minha existência as preocupe.
Deixarei que voem ou não.
Têm asas para saberem o que mais lhes convém.



terça-feira, 13 de agosto de 2019

MÁRIO-HENRIQUE LEIRIA


O fim começa aqui – eis o teu passatempo eleito,
Mário-Henrique, o teu gin-tonic e tua condição.
Afinal, eficazes. Digo, o tonic é tão perfeito
como eu escrever estes versos e me chamar João.

Fazendo de conta que a musa que me inspira
é uma daquelas plúmbeas de rótulo amarelo,
seguro os teus versos – quero lá saber da lira
e puxo o cobertor, que o quarto está um gelo…

Na tarimba refilas, esperneias, fazes cenas
e pedes um lugar na almofada, à cabeceira.
E que consegues, contemplação? Não. Apenas
enfado e a ressaca de uma enorme bebedeira.

domingo, 11 de agosto de 2019

GÁS É O DUTO


de gás é o duto flatulento
o canal
fedorento
que cheira mal


sábado, 10 de agosto de 2019

OFÍCIO DE POETA


O ofício de poeta tem que se lhe diga…
Matéria-prima em ruptura permanente
e, pior ainda, o que mais intriga
é que todo o verso se crê urgente.

O tecido é frágil, fino, quase puído,
junta palavras bailarinas numa dança
e que por fim se transforma em vestido,
todo enredado em si, como uma trança.

Não tem prova, se for a gosto, assentar bem,
e a sobranceira figura logo ali se retrate
com o aprumo mais exacto que ela tem,
o poeta não passa de um erudito alfaiate.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

OS ELEMENTOS


Um fio de luz, de lua;
um fragmento de mar…
contingentes todos eles.

Só a noite é inclusiva
para quem dorme nos seus braços.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

SONHO

Camila Loureiro

Quando à noite sonho que o sol se deita a meu lado
fico imóvel para não acordar a minha fantasia.
Levanto-me depois e o sol já lá não está:
remanesce, guardado na manhã de todos, lá bem no alto,
onde ninguém se atreve a roubar-mo,
não vá eu ficar sem sonhos e dormir às escuras.



domingo, 4 de agosto de 2019

O TREMOÇO


O raio do moço
engoliu o tremoço
e eu disse moço
cospe o caroço
é casca não posso
disse o moço

com o alvoroço
caiu ao poço
partiu o pescoço
rais parta o moço

lá se foi o almoço
e o pobre do moço

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

DIÁRIO DO CAVADOR


I
A leira a eito
o canto fundo
a terra ajeito
é quase tudo

Estrumo e rego
o torrão duro
ancinho cego
certo e seguro

E a reza do dia
que o senhor bendiga
não esta agonia
apenas a espiga

II

Caneiro de água
canto de rouxinol
maldita mágoa
bendito sol

Suor vertido
semente imaculada
fruto apetecido
ou fruto ou nada

Temporal que mata
da semente à flor
sem dó nem data
mata o cavador

Mas se outra não for
a verdade que  encerra
não cava a dor
a dor cava a terra



terça-feira, 30 de julho de 2019

POEMA PASTILHA ELÁSTICA


Ao princípio doce,
convém mascar
como se fosse
massa alimentar.

Pastilha mascada,
digo, o poema,
e a rima plasmada
sobre o tema.

E a fome gorou-se
sobrou ilusão
acabou o doce
pisado no chão.

Poema mascado,
digo, a pastilha,
está no mercado
esta maravilha.

domingo, 28 de julho de 2019

A TEMPO


A cada instante, o tempo mata. Silenciosamente.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

SOL


pálido rosto
um sol só
já sol posto
de sol e dó

lento o sol
devagar
como caracol
a navegar

últimos ais
tara perdida
amanhã há mais
sol e mais vida

quarta-feira, 24 de julho de 2019

MAR


Os de terra falam com o mar:
- oh, do mar, bradam daqui,
quem nos leva a navegar?
Onda que nos salve, que nos guie!

E os do mar em silêncio profundo,
em seu voto de clausura,
já não dão mundos ao mundo,
nem sendeiros de aventura,

nem sereias mansas e belas;
monstros, cruzes de Cristo, caravelas.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

LUA


De modas, melhor, de fases,
sobre a Lua que mais acrescentar?
Dada aos enigmas, aos quases,
insegura e nunca de fiar.

Suspira e dizem que cativa
Porém, de encantos não seguros,
os seu mistérios de branca diva 
são marés e partos prematuros.

Branca, como é branca a castidade,
tudo o que se disser ela consente
excepto, todos sabemos, a verdade,
porque a lua, por natureza, mente.