quinta-feira, 17 de Abril de 2014

PARÁBOLA



O cego tinha sede e bebeu da fonte.
Depois, por enxergar o sol, chorou
ao vê-lo despontar no horizonte
e ao negrume não mais se acomodou.

O surdo, para quem o leito cristalino
de água pura era somente um rio,
ali matou a sede e chorou como menino
quando ouviu da torrente o assobio.

O mentiroso, aos sorvos, tentou
saber também o que era aquilo
sem sede, não soube o que provou
e chorou lágrimas de crocodilo.

terça-feira, 15 de Abril de 2014

CÃO DE CIRCO


O cão é esperto, o cão
vai à televisão
com outros animais
e contradiz aos jornais
o que ontem desmentiu
a sangue frio.
O cão mente
e ri de contente.
Com a corda no pescoço
diz que o osso
só a nosso ver
é duro de roer.
É bom de acreditar,
se for outro a mastigar…
mas como não,
é conversa de cão.
- E se fosses, cão,
 lamber sabão?
diz o povo,
isso é de cão ou de lobo?

E foi assim que o cão
lambeu a bola de sabão.

domingo, 13 de Abril de 2014

AMATO LUSITANO


In antologia Amado Amato, organizada por Pedro Miguel Salvado e Maria de Lurdes Gouveia da Costa Barata.
Foto de Jorge Costa, in Cultura Vibra


Haverias de sair para ser gente, gesta
imaculada deste povo crespo e arredio,
que de seu só sabe o quanto presta
se de si mesmo ouvir de outros elogio.

Deram o teu nome à minha escola,
fizeram dele mais coisas de aprender,
Amato. Mas sabe a pouco, cheira a esmola,
pelo muito que há ainda por fazer.

Em estátua tens a verdade nua e crua:
foi-te a vida de saberes e de degredo
e agora, quieto, que apontas para a lua,
há quem insista e te olhe para o dedo.

sexta-feira, 11 de Abril de 2014

ÁGUA, UMA AUTÓPSIA


Analisada a composição, em suma:
duas moléculas de hidrogénio
para apenas uma de oxigénio,
é água, sem dúvida nenhuma.

Pelo ar dolente dá para ver,
sofreu maus tratos e escravidões,
espargida por mil religiões,
contabilizada em deve e haver.

Desperdiçada, mal compreendida,
acolheu aqueles, que ao naufragar
lhe rogaram pragas de arrepiar.
Foi tudo na vida, tudo em vida.

Acarinhada no desvio ou conduto,
teve amores também entre o povo
hoje aqui, depois ali, sempre em recovo,
mas nunca por si, antes pelo fruto.

Tem cor esverdeada, sabe e fede
e alimentou o mundo mesmo assim,
morta-viva correndo para o fim,
a autópsia é clara: morreu de sede.

quarta-feira, 9 de Abril de 2014

QUE ESTRANHA A VIDA



Que estranha a vida, que destecer constante;
ainda ontem a tua mão ma abraçava um dedo
e já hoje, que é este momento e ainda é cedo,
não caibo nos teus braços  um só instante…

Que estranha a vida em que nos entretemos
num vaivém  de sombras e de fugazes alegrias,
vida feita de lustros mas onde só contam os dias
em que o sol aquece – como a tua mão – … é o que temos.

segunda-feira, 7 de Abril de 2014

A PULGA


A pulga pula
de pelo em pelo
e salta,

suga, estulta,
pouco a pouco
o sangue suga.

A pulga avulta
gota a gota
e muda.

Se resulta,
chupa, chupa
e deglute.

Insone, cata-
 -pulta  e some
a puta.


domingo, 6 de Abril de 2014

O CANTE


(Excerto de Mar de Pão)

No tempo em que a taberna do Faustino se enchia de homens ao fim da tarde, cada qual com o seu naco de merendeira e o toucinho, a linguiça ou as azeitonas, regados por três ou quatro copos de vinho da casa que, para serem bem aviados, haviam sempre que ficar a deitar para fora, nesse tempo, a deita era para mais tarde. Em grandes algazarras, punha-se a conversa em dia, bradando com interjeições apropriadas aos que iam entrando ou saindo. Em hora de despedida e porque o vinho também é grande ajuda destas andanças, lá se fazia um despique de cantigas, em que o cante tomava inevitavelmente o primeiro lugar.
Joaquim das Vacas foi interessado animador destes convívios. Não tomava a iniciativa na cantoria, mas acompanhava com gosto e até mesmo com paixão, sobretudo quando eram as suas preferidas do Grupo Os Trabalhadores de S. Bartolomeu do Outeiro ou d’Os Ceifeiros de Cuba. A sua especialidade era, isso sim, a conversa animada entre dois copos.

Campo das Letras, 2003

sexta-feira, 4 de Abril de 2014

NO JARDIM


Em todo o seu esplendor
a  exuberante borboleta,
poisou na mais linda flor
no dia em que quis ser poeta.

quarta-feira, 2 de Abril de 2014

LER & ESCREVER


Escrever, o que é escrever?
É o sopro que enche um balão;
ler depois, o que é ler?
É transformar um livro num dragão.

segunda-feira, 31 de Março de 2014

POEMA RECORRENTE SOBRE AS CASAS


As casas são casas: intimidade, acomodação.
Casas e mais casas e eu vivo em todas elas
como, durmo, dou serventia às janelas
e vou pensando no problema da habitação.

As casas são mundos, são para mim o mundo
onde, mesmo sem dormir, vou sonhando a vida,
os que vão chegando e os que estão de partida
e esse é outro assunto; é o problema de fundo.

As casas ficam, sobreviventes de pedra e cal
sem sonhos e sem preocupações de maior.
Mas comigo é bem diferente e para pior…
E esse é o problema; é aí que está o mal.

sábado, 29 de Março de 2014

ÁRVORE (Sobre uma fotografia)



À medida que o tempo corre
flores e frutos vêm e vão,
dependendo da estação,
 só a sombra é que não morre.

quinta-feira, 27 de Março de 2014

SINOPSE


(Notas para a descodificação política e outras novidades da mentira de lei)

Os ministros embebedam-se com a própria incompetência,
vomitam decretos-lei com borras da adega de trinta e três.
Aprendizes sábios do virtuoso beirão, por equivalência,
preparam-se para abrir a nacional taberna pela segunda vez.

Os ministros dão públicos ares duma alucinação estranha
e pronunciam cifradas línguas bárbaras neoliberais:
comportam-se como súbditos da estrangeira Alemanha
e, em vez da fala humana, grunhem como os animais.

Não queremos a sua morte, lutamos pelo degredo eterno,
para que vão purgar tais vícios nas labaredas do inferno.

terça-feira, 25 de Março de 2014

DIVINOS ENLEIOS


Ah, que sorte: hoje há deuses lá em cima
sedentos de versos, dormentes de sono!
Vou fazer-lhes pontaria com rima
e acertar-lhes em cheio no buraco do ozono.

Podia ser em lugar alabastrino, como a testa,
mas é pecado, além da enviesada geografia:
não os quero mortos nem o fim da festa,
quero apenas treinar a pontaria.

Qualquer deus é grande, maior que tudo,
de forma que vivem longe em lugar além…
A seu modo poliglotas, estilo surdo-mudo,
e assim ditam o pecado, o mal e o bem.

A seus ministros é pesado o fardo alombado:
abençoam, excomungam, conforme as escrituras,
alteram as combinas, corrigem o pecado
e determinam a morte e as vidas futuras.

Eu vou falar com um deus um dia destes
e dizer-lhe cara-a-cara, muito abertamente:
“mas que mundo é este que concebestes
onde só vós viveis sem leis eternamente?”

domingo, 23 de Março de 2014

AS FEIRAS


Chorei por mil tambores.
Todos me pareciam magníficos.
Com qualquer um faria marchar o soldadinho de chumbo,
escondido algures, mas com certeza dentro de mim.
Talvez tenha conseguido um ou dois, talvez três.
Normalmente ofereciam-me pandeiretas,
que eram mais baratas. Eu pensava apenas que eram de menina
e por isso as rejeitava.
Se fosse mosca e presenciasse aqueles despiques,
Saint-Exupéry acharia, certamente, cativantes os meus apelos,
ao contrário do meu pai,
que não lhes encontrava muita graça.
Mas os feirantes adoravam-me e até me faziam festas,
mesmo que não me conhecessem de parte alguma.
As feiras, mais do que as simples festas,
tinham a minha preferência.
As festas aborreciam, prolongavam-se demasiado
e tinham poucos motivos de interesse para a criançada.
Por outro lado, as feiras,
para além do ar de festa que eu lhes via nos balões,
nas luzes e cores e na gente sempre em movimento,
tinham o encanto do regalo que eu podia levar para casa,
continuando a divertir-me
e a atormentar os ouvidos de todos,
até à próxima. 

sexta-feira, 21 de Março de 2014

A GUERRA


Havia notícias duma guerra longínqua
e, ao mesmo tempo, presente em todos os gestos e falas.
Mais gestos do que falas.
Os nossos eram os bons e acenavam com um adeus sombrio
quando embarcavam em Lisboa.
Os que ficavam no cais imitavam-nos,
mas com lenços e lágrimas, num mesmo adeus sombrio.
Não se sabia se o inimigo também embarcava desta forma
e se chorava, se tinha um cais,
família e despedidas com lenços, lágrimas e um adeus sombrio.
Os nossos não morriam nunca,
como nos filmes; desejavam prosperidades todos os natais
e escreviam aerogramas para as madrinhas de guerra,
prometendo regressar mais saudáveis do que nunca.
Que soubéssemos, como disse,
os nossos eram os bons
e isso transformava-nos em inocentes querubins de alma branca
e olhar atónito, sem lágrimas que não fossem de imitação.