quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

CARAVELAS


Digo caravelas: sonhos e descobertas…
Digo por dizer sobre um mar incerto
mas vou achando por entre neblinas e abertas
o que no mundo existe , a horas certas.

Digo de náufragos e de loucos
o que dizem argonautas, marinheiros,
que a Terra foram circundando aos poucos.
como num relógio os ponteiros:

Vivas são as marés, que as horas
gastas e mortas por tanto mar salgado,
há muito largaram fardos e âncoras
neste país “à beira mar plantado”.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

MORTE SANTA


Haverá a morte de dar notícia.
É com esta aparente contradição
que as dores, usando de malícia,
cumprem o que é a sua condição.

Doem, moem e, não poucas vezes,
aliviam para de novo magoarem.
Algumas são matreiras, soezes:
arraigam em silêncio sem se anunciarem.

E quando as favorece a condição
do corpo sem sintomas ou suspeitas,
já não há comprimido ou injecção
que sare a dor das vítimas contrafeitas.

Então, devota, a morte dá notícia:
alvitra o beato descanso eterno
e impõe com autoridade de polícia
de duas uma: o céu ou o inferno!?

E feito o deve e o haver da vida,
se a conta dos pecados está por fazer,
seja qual for a extrema via decidida,
não resta mais à dor senão morrer.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

MONDEGO


Amava Coimbra, até como a si mesmo,
e todas as promessas eram em si postas:
- um dia perco-me e subo a esmo,
Nem que por ti escale o quebra-costas.

- Eu galgarei as margens loucamente!
Amanhã bato-te à porta em segredo.
Dizia, apaixonado, caudalosamente,
Por basófia, ‘inda no leito o rio Mondego.

Na manhã seguinte, trinando a madrugada,
Já se omitia, da véspera, tão ousado.
Era apenas fala, sina, noite mal passada;
destino presumido no seu fado.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

ILUSÃO



Acontece que não sei
o que me espera além
quando o souber direi
por enquanto estou sem

argumentos convincentes
ou, pelo menos, chegados,
sobre os cinco continentes,
como digo, não tenho dados

que permitam, exactamente,
mais além da minha rua,
excepto, descoberta recente,
duma estrada para a lua…

Coisas de joaninha,
que mal poisam: “voa, voa”
e não pára a pobrezinha,
porque "o pai está em Lisboa".

domingo, 18 de janeiro de 2015

FANTASIA


Assim te relembro no que há em mim de mais profundo:
busto de mar e espuma; saia apertada, de areia fina…
e sempre que assim te lembro desvaneces e, imagina,
já te não vejo e o que afinal recordo em ti é todo o mundo.

Todo o mundo, todo o mundo que me corrói e mina.
Íntimo, imaginado, que numa fracção de segundo,
me cega e convoca mais premente e mais fundo,
mais aquém donde começa; mais além donde termina.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

LUZ IRREAL



Agora, uma luz brilhante e enganadora
vem trespassar-me o corpo, corrompida
como os demais gládios. Mas esta agora
tem modos e aferros de morte assistida.

Fere a alma sem romper uma só veia
e executa com perícia a delicada operação:
mordisca, lambe, beija e só por fim arpeia
com firmeza o quebrantado coração. 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

RELÓGIO DA TORRE


Sineiro sou, de sinos, pois,
que outros há que a rebate
ou mudos, de enfeite, a dois,
que não sirvam a quem os trate?

Dou momentos , ave-marias,
horas mortas, desatino;
passo assim noites e dias,
ganhando p’ra corda do sino.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

TRÊS DÍSTICOS SOBRE AS ÁRVORES


Uma árvore é uma planta crescida
pode por isso ter uma árvore na barriga.

Não é um ser; é uma árvore sofrida,
macerada, mas não dada por vencida.

O fim do mundo é quando, desprotegida,
a última árvore perder a vida.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

ENDEREÇO


O mundo é grande; a minha casa não…
o mundo tem mil andares e assoalhadas
e eu, além das casas caiadas,
faço parte do mundo e moro num rés do chão.

Habito como os da minha condição:
algures, numa rua, bem lá no fundo,
em condomínio aberto, dito quarteirão.
Moro aqui perto: sou vizinho do mundo.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

VIDA PERSISTENTE


Sombras ou o que resta delas:
esperas, memórias e mais nada;
o pó das estantes, a luz das velas
e uma fotografia emoldurada.

Espera é um pedaço de vida,
se a virtude em vão não for;
paciência, esperança e medida
entre a semente e a flor.

sábado, 3 de janeiro de 2015

NARCISO


O narciso
não tem juízo
nem é preciso
é da natureza
a sua beleza
e o seu siso

Em sua defesa
há a nobreza
sem tibieza
de quem se preza
ter a certeza
de um sorriso

Porquê a ligeireza?
Qual é o prejuízo?

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

VIDA CAPRICHOSA



Ai flores, cujo rescender
me colhe por mariposa,
dai-me tempo e a ver
quanto o meu voo não ousa.

Coberto de cores e flores
como anjo querubim,
mais as mágoas e dores
que brotam dentro de mim.

Voarei num golpe d’asa
sobre pétalas e poemas,
mesmo sem sair de casa
e em vez de asas ter penas,

Menos flores, menos sorte
e mais água abundante;
mais vidas além da morte
e menos de agora em diante…

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

QUANDO AS HORAS


As que batem como avisos e cautelas;
as que voam, e que faltam, as quebradas;
as que se entranham como sovelas;
as sem conto e as que se exibem badaladas.

As horas são a saudade e as bem ouvir
ao ritmo da contagem sempre crescente:
uma, duas, três… no seu ofício de mentir
dentro de nós, envelhecendo-nos, eternamente.

E as horas do futuro, que horas serão?
Essas já não sei, não serão horas do meu tempo.
Simples ou dobradas, horas ou não,
já não poderei tê-las e ouvi-las, lamento!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

DIÁLOGOS CANINOS



CÃO POLÍCIA :

 -Travesti – de gatas
tem tal perícia
em quatro patas
o cão polícia
    .
CÃO LADRÃO:                           

Béu – béu  disse o cachorro,
se não digo morro.
- Ão, ão  refilou, adulto, o cão,
somente eu ladro ão.

   
CÃO CÃO :                                                      

Vida de cão
é um caixote de lixo;
não é luxo, não,
coitado do bicho.


sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

CAPITAL (IN)VESTIDO


Não é de cambraia, tampouco popelina,
É mais o tipo de riscado de qualidade má,
ou seja, o que parece nobre, coisa fina,
não passa de forro de oculto tafetá.

Faz-se anunciar em tules e brocados,
e passa por fidalgo pano ou pura lã.
Não é mais que fios entrelaçados
de mais-valias dum tecelão ou tecelã.

O mesmo nos privados panos intestinos:
badaladas bolsas e demais adornos,
bonés, chapeletas, adereços bovinos
e nessas passerelles (in)vestem, os cornos.