quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

O MOINHO


Roda ao vento, o moinho
tão majestoso e tão só,
gemem as pás de mansinho,
vai fazendo o trigo em pó.

Roda o engenho da roda,
vai rodando sem parar,
o tempo que a vida toda
se gasta na vida a rodar.

Roda a mó com lentidão
em seu laborar fecundo,
e roda o moleiro p’lo pão,
que fará rodar o mundo.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

DEBAIXO DA PONTE


Em noite sem nuvens é vulgar
ter no céu por horizonte,
o brilhante esplendor do luar.

Incomum, se queres que conte,
é a lua indigente pernoitar,
minguante, debaixo da ponte…

sábado, 17 de fevereiro de 2018

CHUVA


Esperada como um presente,
uma gota ou quase nada
já é mais que suficiente.

A chuva miudinha, insistente
e fria como agulhas afiadas
encharcou de água a gente,
incluindo a mais precatada.

Sorriram frutos e flores
mas o melhor que aconteceu
foi o oiro caído do céu
em brilhantes furta-cores
somente porque choveu.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

A NEVE


Às vezes nevava.
O céu oferecia a neve para poder entrar na folia,
como qualquer de nós cedia a bola para entrar no jogo.
Os dedos só gelavam nos primeiros instantes.
Daí a pouco tempo, as mãos ardiam como brasas.
Às vezes nevava.
Era um lençol branco e imenso, quase sem limites.
Mesmo assim, alguns levavam braçadas de neve para casa,
na esperança de que assim não derretesse.
Uma qualquer espécie de alquimia
haveria de conservar o gelo
e transformá-lo em miragem perene e mágica,
para íntimo deleite.
Às vezes nevava.
Fazíamos anafados bonecos com apêndices postiços,
bolas de arremesso,
construções que a imaginação
e a quantidade de gelo permitiam,
escorregas improvisados.
Às vezes nevava
sem sabermos muito bem porquê,
nem o préstimo de tanta alvura.  

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

O BURACO


Se fosse borracha…
não digo que não;
assim não encaixa,
conta a intenção.

Intenção forçada,
solução à pressa:
já não há calçada
antiga, portuguesa.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

CACOFONIAS


Ela lá e ele, do lado de cá,
disse olá.
Fez eco lá; ouviu ela acolá.
É boa, olá lá.

O constant’ hino
tocado sem destino
troca o tino
do cretino, a’rmar ao fino:

(“lavamos catandirrindo
levados, levados, sim…”)

Dirão na morte a perda,
oh morte inesperada!
De mim ninguém m’herda
Nada!

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

UM DEUS EM CONTA


Vendem por aí um deus barato,
pelas almas. Um deus único
em prestações, sem defeito,
com livro de instruções.

Um deus perfeito. Valha-me deus!
Eterno, enquanto durarmos nós,
por um dízimo vitalício,
que para acionar basta ter fé.

A cada esquina aí está:
de barba branca e alvoroçada,
mas não se pense por isso
que é saldo ou de contrafacção.

É bom e mau, conforme o uso.
Não dorme nem come.
É um deus de vento, etéreo;
um deus para os últimos dias.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

ANEXIM QUEBRADO


Quem não come
não precisa de pratos,
nem de aparatos,
cristais, azulejos;
contudo
quem tem fome
come de tudo
menos beijos.

Mais digo eu
de quem come
a dobrar e sem fome
só por desejos,
gula ou desdém,
não come o que é seu,
mas o de alguém,
incluindo os beijos.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

AVISO SOBRE A EVOLUÇÃO


Se tudo está no ADN,
por que razão o vil metal
(euro, dólar, iene…)
nos dá condição animal?

O velho truque da cenoura
colhe em qualquer idade
e, de forma duradoura,
com base na propriedade.

É fácil a explicação:
esse, chamado capital,
tornou este mundo cão
no pecado original.

Mas não há povos sem povo
e esse, com toda a razão,
não sai de qualquer ovo
posto pelo amo ou patrão.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

PELAS MINHAS CONTAS


Ocorrem-me pensamentos sábios
e pelas minhas contas, o que vejo?
Que os nossos quatro lábios
se podem transformar num beijo.

Mas tendo, enfim, alguma perícia,
no aproveitamento do espaço,
se transforma uma carícia
num longo e terno abraço.

E da química, que digo dela?
Sabendo bases e sais de cor,
também posso conseguir com ela
todas as graças do meu amor. 

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

PEDRA-DE-TOQUE


As pedras têm rondado os meus versos
com a frequência dos meteoritos.
Creio que o fazem por imitação das palavras.
Como elas precisam de um intérprete
ou correm o risco de calarem para sempre
a sua razão de existirem.
Serpenteiam os poemas, inflamam os versos
e abrem-se, por fim, para quem quiser espreitar
a sua alma de infinita delicadeza,
de proverbial eficácia.
Têm vida própria e jamais as convenço
sobre funções ou itinerários.
Permito-lhes uma existência natural,
a mesma que me é dada a mim,
enquanto não precisar de arremessá-las
contra os muros levantados pela indiferença.  

domingo, 28 de janeiro de 2018

EQUAÇÃO


Em prudente equilíbrio, que vai-não-vai,
vai indo, vai indo…
Em permanente equilíbrio
entre todas as coisas e coisa alguma;
entre o que nunca chega e o que já basta.
Em periclitante equilíbrio:
morto pelo início, vivendo para chegar ao fim.
E no fim são as contas, as contas à vida
em vésperas de concluir a equação.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

ROTINA



Ainda há pouco o sol nascia
e com ele o dia.

De repente, a contragosto,
é já sol-posto.

Se disser o que me apetece
nem aquece

nem arrefece.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

FRUTO DO DIÁLOGO



Falando de ventos, de venturas e de vendavais:
ocorre sempre a natureza e, por regra,
tudo o que molesta ou o que é de mais
e o pequeno fruto rosado que nos alegra.

É natural que o vento se enfureça, transforme
a suave brisa em fúria, que aos empurrões dispersa
bons e maus propósitos, isso é conforme,
e o fruto é mastigado ao longo da conversa.

sábado, 20 de janeiro de 2018

PARADOXO



Vejo todos os clarões da minha cegueira
e o silêncio teima em ensurdecer-me:
as certezas são as minhas maiores dúvidas.