sábado, 21 de julho de 2018

LÁ VAI DE NOVO O SOL




Lá vai de novo o sol, gordo e enfastiado,
para outro lugar onde for sul
e por sua causa um novo dia.
Finge mergulhar para quem não lhe conhece
os hábitos de romeiro de fé incandescente.
Anda nisto há anos, mentido a quem, da verdade,
se alimenta desta mentira encantadora.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

AS COISAS SIMPLES


A gasta varanda de ferro forjado persiste
desde o tempo em que, debruçado no peitoril,
deixava o gato adormecido (já não existe),
aproveitando o último raio de sol primaveril.

Na alameda, a mesma gente, vista de cima,
gente a quem raramente desvendava o rosto,
quase sempre à pressa, quase sempre anónima,
sem nunca saber se sorria, se o seu oposto.

Às vezes ladravam cães para desassossego
do bichano: abria um olho e, pressentindo-me ao pé,
tornava silencioso ao morno aconchego
sem qualquer necessidade de ir dar fé.

Não faziam falta as horas porque eu nada esperava;
via passar todo o tempo, toda a gente num frenesim
e eu (e o gato) debruçado na varanda imaginava
que o tempo, visto de cima, não passaria  por mim…

terça-feira, 17 de julho de 2018

GATO IBÉRICO


O gato era espanhol
mas entendemo-nos bem,
miava como ninguém
em português, portunhol.

Disse miau correctamente,
como quem diz não mordo,
fluente, sem prévio acordo,
ao seu jeito, como gente.

Por fim, à despedida,
repetiu miau como um gato
(não como um fala-barato)
e lá foi à sua vida.

domingo, 15 de julho de 2018

ESTAMOS FARTOS




Estamos fartos
que nos digam que são partos
os abortos

(por partes:
excepto quando dos partos
dão abortos)

argumentos baratos
absortos
já nos fartam

albardam
os mortos vivos e os vivos mortos
raios os partam

sexta-feira, 13 de julho de 2018

SEI DE UM BARCO


Sei de um bote, um barco ou um navio
repleto de soldados e marinheiros,
e de outros, que por destino ou extravio,
não foram muito além dos areeiros.

Sei de uma jangada de vela panda,
que os ventos enchem de areia e sal,
aparentando navegar, mas já não anda
e se dá pelo nome de Portugal.

Foi um pássaro que me disse, inquieto,
que a estibordo mete água, afunda
sem remédio, como bóia moribunda,

sem se saber já se foi mal do arquitecto
ou se de outros infortúnios foi objecto
para tal sina e desgraça tão profunda.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

CADA QUAL NO SEU LUGAR


Bem sei que não se come
e tocar-lhe só com luvas.
Nem a rosa mata a fome,
nem cheiram bem estas uvas.

terça-feira, 10 de julho de 2018

ENQUADRAMENTO DA CONVERSA


Conversa que veio a lume
foi prosa a talhe de fouce,
que todo o diálogo resume
e mais não digo. Acabou-se!

domingo, 8 de julho de 2018

O ANJO


No parapeito da janela
(que aqui reabilito,
quase sem dar por ela)
havia um anjo aflito.

Vi e não quis crer,
só mais tarde, a sós,
acreditei, dava para ver:
os anjos cagam como nós.

domingo, 1 de julho de 2018

NAVEGAR


Uma onda que nos cega?
Mais faltava que cegasse
quem no alto mar navega!
O que não vê, não cega
e se quem vê, não avista
não deve perder de vista
a onda de cada refrega.

O sonho que ali se esconde
ao ritmo da preia-mar
pode avistar-se até onde
em terra alguém que responde
-Ó do mar, ó do mar!
não te deixes naufragar
não te deixes ir na onda.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

PARA OS AMIGOS


Pensei em escrever uns versos
para mandar aos meus amigos,
de uns restos que tinha dispersos
nuns papéis bastante antigos.

Primeiro os amigos, depois os versos.

Conferi versos, contei amigos
compondo a ambos, aqui e ali,
e mesmo correndo alguns perigos,
por muito poucos me decidi.

Primeiro os versos, depois os amigos.

Faltaram-me versos mais frescos,
que ainda não os tivesse dito,
com bigodes, gavinhas, arabescos
e, de gratidão, infinitos.

Aos velhos amigos, versos frescos.

Por fim, não havia versos, senão abraços,
na hora de escrever o endereço
e deixei versos com asas em pedaços,
vitais enleios a imitar o verso…

Deixei os versos, mandei abraços. 

quarta-feira, 27 de junho de 2018

POEMA RECORRENTE SOBRE AS CASAS




As casas são casas: intimidade, acomodação.
Casas e mais casas e eu vivo em todas elas:
como, durmo, dou serventia às janelas
e penso no problema da habitação.

As casas são mundos, são para mim o mundo
onde, mesmo sem dormir, vou sonhando a vida,
os que vão chegando e os que estão de partida
e esse é outro assunto; é o problema de fundo.

As casas ficam, sobreviventes de pedra e cal
sem sonhos e sem preocupações de maior.
Mas comigo é bem diferente e para pior…
E esse é o problema; é aí que está o mal.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

PÁSSAROS DA MINHA RUA




Andei por aí a ver os pássaros:
andorinhas, pardais, alvéolas, melros e estorninhos,
todos velhos amigos.
Aparentemente nada entendem de alterações climáticas
e mantêm os seus hábitos, os seus ritmos diários.
Eu é que acrescento ao momento da vida
essa preocupação, que me entorpece as asas
e me impede de cantar como eles, se é que os pássaros cantam.
Aparte estes humanos cuidados,
não há como um ninho de andorinha, um salto de pardal,
uma corrida de alvéola, a matreirice do melro
ou uma nuvem ondulante de estorninhos.
Alegra-me saber que os pássaros ainda me receiam;
assim o mundo voe ao nosso lado.

sábado, 23 de junho de 2018

GENTE DE LUAS



Aconteceu que a lua (cheia),
em uma noite de vela
surgiu no céu tão feia,
que todos a acharam bela…

Com extasiante rubor,
sobranceira e manhosa:
um verdadeiro amor
de fidelíssima esposa.

Deste modo ninguém reclama
e tampouco se aborrece,
pois quem o feio ama
bonito assim lhe parece.

Muito fica por dizer
dela e do que somos capazes
até voltar a acontecer
tudo é normal, são fases…

quinta-feira, 21 de junho de 2018

FARRAPOS DE SOL


Resiste a luz de um velho solstício
para logro das rosadas cerejeiras…

terça-feira, 19 de junho de 2018

À PALAVRA DADA


A palavra dada
não se olha à caligrafia,

salvo a palavra nada,
que é de outra filosofia.