Os poemas que se seguem pertencem a um conjunto de inéditos com o título genérico PROVA DE VIDA.
Não tão “inéditos” que não sejam conhecidos, no todo ou em parte, por alguns amigos mais chegados, mas ainda assim, com valia e interesse para aqui serem incluídos.
Agora, o meu amigo Luís Gaspar e o Estúdio Raposa quiseram divulgar alguns destes poemas . Com excepção do primeiro poema, não lhe darei aqui a mesma sequência, uma vez que, em tempos, já publiquei quase todos os restantes em Corpo de Poema.
Façamos então esta visita guiada em Estúdio Raposa
quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2010
PARQUE INFANTIL

No parque infantil, as folias eram tudo menos pacíficas.
Havia como que uma hierarquia tácita
que geria a distribuição dos equipamentos.
Os mais novos raramente tinham direito ao fleumático e solene baloiço:
uma espécie de tirania reinante
relegava a maioria para a barca, e os seus balanços enjoativos;
os cavalinhos, que rodopiavam até à náusea;
o sobe-e-desce, propício a grandes trambolhões;
e o escorrega, que puía os calções e as carnes mais sensíveis.
A solução era o choro convulsivo
que a servente entendia sem grandes explicações.
Mas assim alteravam-se as regras
e isso poderia ter as consequências menos desejadas
nas próximas tardes de domingo.
O melhor era que os mais velhos se cansassem de tanto vaivém,
e deixassem o lugar vago
para os que há muito espreitavam oportunidade.
Sorte assim valia os cinco tostões da entrada.
Numa placa metálica, quase sempre encoberta pelos arbustos,
sobrevivia à ferrugem uma quadra de João de Deus
exaltando os nossos inocentes corações.
Quando a minha vez chegou já tinha perdido o interesse pelo baloiço
e nunca mais voltei ao parque.
Havia como que uma hierarquia tácita
que geria a distribuição dos equipamentos.
Os mais novos raramente tinham direito ao fleumático e solene baloiço:
uma espécie de tirania reinante
relegava a maioria para a barca, e os seus balanços enjoativos;
os cavalinhos, que rodopiavam até à náusea;
o sobe-e-desce, propício a grandes trambolhões;
e o escorrega, que puía os calções e as carnes mais sensíveis.
A solução era o choro convulsivo
que a servente entendia sem grandes explicações.
Mas assim alteravam-se as regras
e isso poderia ter as consequências menos desejadas
nas próximas tardes de domingo.
O melhor era que os mais velhos se cansassem de tanto vaivém,
e deixassem o lugar vago
para os que há muito espreitavam oportunidade.
Sorte assim valia os cinco tostões da entrada.
Numa placa metálica, quase sempre encoberta pelos arbustos,
sobrevivia à ferrugem uma quadra de João de Deus
exaltando os nossos inocentes corações.
Quando a minha vez chegou já tinha perdido o interesse pelo baloiço
e nunca mais voltei ao parque.
segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010
AS PRIMEIRAS LETRAS

Enquanto discípulo involuntário,
quiseram que as corrompesse.
Inocentemente, construí e soletrei ditongos,
deduzi os sons pela Cartilha,
massacrei a gramática como pude.
Queria que as letras me servissem, e isso era impossível.
Dedilhei-as ainda, ensopei-as de saliva
e sublinhei-as com tinta e raiva para que se colassem a mim,
mas só com amor vieram.
Não sabia ainda da sua utilidade
e do quanto viria a gostar delas.
Pensava: para quê juntar as letras em papel
para dizer coisas, se posso até gritar as dores da alma
ou os frenesis do corpo?
Mais tarde, reparei que eram janelas
com vista para as palavras
e com estas e um pouco de imaginação poderia construir metáforas
e outras ilusões.
Poisavam nas minhas mãos como pequenos pássaros
nos peitoris debruçados para a rua;
nidificavam nos meus ombros
para melhor aconchego em todas as migrações.
Foram ficando.
São minhas companheiras fiéis.
Sem palavras.
quiseram que as corrompesse.
Inocentemente, construí e soletrei ditongos,
deduzi os sons pela Cartilha,
massacrei a gramática como pude.
Queria que as letras me servissem, e isso era impossível.
Dedilhei-as ainda, ensopei-as de saliva
e sublinhei-as com tinta e raiva para que se colassem a mim,
mas só com amor vieram.
Não sabia ainda da sua utilidade
e do quanto viria a gostar delas.
Pensava: para quê juntar as letras em papel
para dizer coisas, se posso até gritar as dores da alma
ou os frenesis do corpo?
Mais tarde, reparei que eram janelas
com vista para as palavras
e com estas e um pouco de imaginação poderia construir metáforas
e outras ilusões.
Poisavam nas minhas mãos como pequenos pássaros
nos peitoris debruçados para a rua;
nidificavam nos meus ombros
para melhor aconchego em todas as migrações.
Foram ficando.
São minhas companheiras fiéis.
Sem palavras.
sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010
FILHOS
terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010
MÃE

As minhas mãos
não fariam mais que segurar-te um só dedo,
mas era já uma amarra segura,
o porto em que queria acostar,
e foste tu que partiste, mãe?
Que parte de ti são os cuidados e os reparos?
Que parte de ti são as insónias e as canseiras?
Que parte de ti são os abraços e os afectos?
Que parte de ti são os primeiros passos e palavras?
Que parte de ti é o coração e a cantiga para adormecer?
Que parte de ti sou eu e que outra parte és tu, mãe?
não fariam mais que segurar-te um só dedo,
mas era já uma amarra segura,
o porto em que queria acostar,
e foste tu que partiste, mãe?
Que parte de ti são os cuidados e os reparos?
Que parte de ti são as insónias e as canseiras?
Que parte de ti são os abraços e os afectos?
Que parte de ti são os primeiros passos e palavras?
Que parte de ti é o coração e a cantiga para adormecer?
Que parte de ti sou eu e que outra parte és tu, mãe?
segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010
PEQUENAS COISAS
O pião e o berlinde, o arco e a bilharda; a fisga,a bola e o botão; a carica velha disfarçada de ciclista,
eram os satélites predilectos do meu universo
– como lhe chamo agora – todo mundo, e o mundo era a minha rua.
De longe a melhor de todas as ruas:
para as corridas intermináveis,
para a incessante procura de esconderijos únicos,
para a invenção de novas brincadeiras.
O Tó Luís era o mais inquieto e sol de pouca dura,
a Maria dos Santos e a Rosa Maria quase nunca saíam de casa,
mas com Quim Manel passava horas sem conto.
Com ele e com a minha avó Teresa,
que me deu cuidados de mãe e toneladas de Farinha Amparo,
e me levava às missas do Mês de Maria
com a fé na promessa de um gelado no regresso.
Apesar de tudo, os dias decorriam ao ritmo de carrossel de feira,
como uma festa sem data, sem termo e sem publicidade
ou outras banhas da cobra.
Havia ainda um largo e nele um chafariz
com água que apenas os animais aproveitavam
em demorados, quase intermináveis sorvos,
– como fazia o macho do Barba Danada –
que lhes matava as sedes presentes e talvez outras mais antigas
e não saciadas no exacto tempo.
Eu bebia com o olhar toda aquela água
até sentir o estômago farto e inchado de tanta imaginação.
Dos pequenos acidentes, lembro-me apenas de um braço partido,
curado em água e sal e vinte dias de paciência,
arranhões vários, sem grande significado,
e uma pelada, que o meu pai debelou com muita bonomia
e algodão embebido em Trichophytina.
Os dias eram inteiros e enormes.
Não havia meio-dia, nem as inclinações do sol faziam qualquer sentido.
O tempo corria até ao fim da rua
e regressava com a mesma pressa de chegar a lado nenhum.
quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010
TEMPERADOS VERÕES (versão não meteorológica)
INo princípio, era um pequeno lago
com juncos e salgueiros nas orlas,
e também rãs, que, desde o início da primavera,
coaxavam noites inteiras em busca de sorte.
Aos domingos era a nossa piscina,
o nosso lugar de piquenique e de repouso,
perturbado apenas pelas moscas,
pelo seu abuso em provar o farnel exposto
e pela teimosia inata em poisarem e voltarem a poisar.
Havia também uma ponte muito velha
com gradeamentos igualmente velhos.
Não sei se por isso, já uma mulher tinha caído à água.
Outros diziam ter sido uma criança
e outros ainda que afinal fora um velho.
A sorte de quem quer que tenha sido é tão confusa como a notícia.
No princípio, como disse, era um pequeno lago
com peixes e cobras de água em permanente bailado subaquático.
Mergulhávamos naquelas águas durante toda a manhã
e um pouco à tarde, depois da digestão.
Já completamente exaustos, enxugávamos ao sol
– nossa toalha de banho –
Em suma, no desconhecimento absoluto do que faltava de mundo,
o pequeno lago foi o ideal de vida,
a única viagem de sonho a cada domingo de verão.
Entretanto crescemos.
Fizeram umas barracas de madeira
para venda de comidas e bebidas onde antes nos rebolávamos,
construíram uma nova ponte em betão,
mas permanecem os juncos e os salgueiros e os batráquios também.
Disseram-me que estava tudo muito turístico.
A propósito: na verdade, o pequeno lago é um rio, um pequeno rio,
afluente do Tejo, mas isso não tem importância nenhuma.
II
Um dia o meu pai queimou as costas e foi uma tragédia.
Ele queria somente aproveitar o sol,
que era uma dádiva de domingo.
De início foi apenas um escaldão
mas à noite é que foram elas.
Gemeu, contorceu-se com dores,
e ainda hoje tenho as minhas dúvidas
quanto ao suor que lhe ensopava o rosto:
ele não queria desvendar as lágrimas,
e muito menos aos filhos, mas penso que chorou e não foi pouco.
Durante uma semana tememos ficar sem pai,
– que nunca tínhamos visto acamado durante o dia –
mais pela presença diária do enfermeiro, que fazia o curativo,
que pela continuação dos queixumes.
Mas esta espécie de catástrofe familiar
depressa foi debelada e tudo voltou ao normal.
O esplendor do pequeno lago ou o rio, como mais tarde soubemos,
nunca foi beliscado.
Apesar de tudo, sempre nos lembrámos
daquele lugar de salgueiros e juncos, de rãs,
de peixes e cobras de água dançarinos,
como um sítio aprazível e fresco,
com águas transparentes até onde havia pé,
como era impossível em qualquer outra parte do mundo.
III
Ainda não havia achigãs.
Surgiram mais tarde e em grande quantidade.
Comiam tudo o que mexesse.
Pescavam-se bogas e barbos,
que mordiam o anzol atraídos por uma larva branca,
concebida de propósito,
e também ela condenada ao passatempo dos pescadores de fim-de-semana.
Para estes, os nossos divertidos mergulhos
ou mesmo as nossas chapinhadas eram motivo de censura:
assustavam os peixes, afastavam-se e já não picavam.
A realidade é que havia espaço para todos:
a malta tomava banho e eles sempre filavam peixe.
O regresso a casa era à tardinha, que é como quem diz,
quando o sol mudava a cor para descer e se enterrar no chão,
ao longe, e arrefecer como nós, à custa duma brisa fresca,
implacável, a anunciar o fim do dia.
Mas o pequeno rio não era esquecido:
dormia connosco essa noite e a seguinte e outra ainda,
e mesmo que o quiséssemos ignorar,
o latejar das peles quase pueris,
os tufos de areia nos bolsos e bainhas
e o anseio pelo próximo domingo, eram lembranças bastantes.
A água deste rio ainda hoje corre nos meus sonhos.
segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010
quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010
QUATRO HORAS

Batem as quatro lá fora.
Não para que eu saiba que são exactamente quatro horas,
mas para que recorde a torre que as apregoa
e o ror de horas que já lhe ouvi.
Às vezes parece pedir desculpa, mas o tempo não perdoa…
De facto, a velha torre permanece intacta na minha memória,
e tão rigorosa, sejam quais forem as horas anunciadas.
Contei-as. Sei que são quatro.
É-me contudo indiferente:
dentro de mim são todas as horas de todos os dias, de todos os anos.
Apesar disso, a torre permanece inalterável,
como se batesse todas as horas às quatro;
como se batesse sempre quatro horas dentro de mim.
Não para que eu saiba que são exactamente quatro horas,
mas para que recorde a torre que as apregoa
e o ror de horas que já lhe ouvi.
Às vezes parece pedir desculpa, mas o tempo não perdoa…
De facto, a velha torre permanece intacta na minha memória,
e tão rigorosa, sejam quais forem as horas anunciadas.
Contei-as. Sei que são quatro.
É-me contudo indiferente:
dentro de mim são todas as horas de todos os dias, de todos os anos.
Apesar disso, a torre permanece inalterável,
como se batesse todas as horas às quatro;
como se batesse sempre quatro horas dentro de mim.
segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010
sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010
PALAVRAS

A pequena palavra não é malcriada:
nega, recusa e resmunga, teimosa.
Procuro uma palavra mais educada,
compreensiva e menos conflituosa.
Sim, é cordata e parece-me bem.
O defeito é a presunção e a vaidade
e, parecendo que não, não há quem
acredite em tanta disponibilidade.
Entre elas – sim e não – há um conflito
que só permite uma de cada vez.
Não dou ainda, por isso, o veredicto:
julgarei melhor a escolha. Talvez.
nega, recusa e resmunga, teimosa.
Procuro uma palavra mais educada,
compreensiva e menos conflituosa.
Sim, é cordata e parece-me bem.
O defeito é a presunção e a vaidade
e, parecendo que não, não há quem
acredite em tanta disponibilidade.
Entre elas – sim e não – há um conflito
que só permite uma de cada vez.
Não dou ainda, por isso, o veredicto:
julgarei melhor a escolha. Talvez.
terça-feira, 12 de Janeiro de 2010
DO MAR À TERRA, DA TERRA AO MAR
Há muitos anos que considero a Vila da Nazaré, a par de Castelo Branco, como minha terra. Adoptiva, é certo, mas não menos amada, bem como as suas gentes.Tenho naquela terra de pescadores, amigos, famílias inteiras de quem, por vezes, já não reconheço os filhos mais novos como, aliás, acontece em Castelo Branco. Tenho também em ambas memória de amigos que já não estão entre nós. Sinto-me honrado com a empatia gerada nesta minha terra adoptiva.
Mas de quem eu queria falar era do Joaquim António, o meu primeiro grande amigo Nazareno. Ainda era embarcadiço quando o conheci. Andava num petroleiro meses sem fim e dava à costa no verão, altura em que nos encontrávamos. Era um homem alto, vermelhão de carnes, de cabelos loiros quase nunca penteados, nariz aquilino e com um coração do tamanho duma traineira. Na verdade, passava por turista inglês. Dizem que com algum sucesso com o sexo oposto. Faleceu há meia dúzia e anos.
Chegou o tempo da reforma e o bom Joaquim António regressou à terra natal, depois duma vida de trabalho pesado longe de casa. Passeava-se pela praia, que é como quem diz, fazia umas piscinas na marginal, sempre inquieto e cheio de ideias para contrariar a falta que lhe fazia a actividade no mar, que por ironia era a sua terra de uma vida.
Um dia disse-me, irradiando contentamento por todos os poros:
- Já sei o que vou fazer. Compro umas artes (barco e redes) e vou entreter-me na pesca.
Achei boa ideia, mas esta é outra estória que não quero contar hoje.
O negócio haveria de se revelar desastroso nas mãos dum homem que o pouco que pescava – a Nazaré já não tem o peixe de outrora – era oferecido mesmo antes de chegar ao paredão, quanto mais à lota. Nem com arte xávega lá chegaria…
Só pelo brilho dos seus olhos de regresso ao mar valeu a pena. Mas não era vida que desse frutos.
Continuou os seus intermináveis passeios entre o picadeiro e o Porto de Abrigo até que nova ideia surgiu. Tão entusiástica como a primeira: Iria abrir um restaurante.
- E já está decidido. O prato forte é a caldeirada à nazarena.
O Joaquim António voltava a sorrir, o seu corpo movia-se de novo com a vivacidade própria de outros tempos, apesar dos seus sessenta e muitos, nunca exactamente revelados.
- Mas o restaurante vai ter uma característica especial. – E esclarecia – Vai ser colocada uma caixa à saída e são os clientes a fazer o troco.
Um ou dois anos depois a dita casa de pasto tinha encerrado. Ao que parece, havia quem comesse a refeição sem pagar e ainda levava troco. Assim não há negócio que aguente!
Mais tarde, já após o seu falecimento, confidenciou-me um amigo comum:
- O Joaquim António passou demasiado tempo no mar; não conhecia as pessoas em terra. Na sua terra.
Ao Aníbal Freire
e em si a todos os nazarenos de bom coração
segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010
O TEMPO
sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010
CONTRA O TEMPO

Montado na palavra certa
deslizo pela montanha a velocidade superior
- Superior? Quantas vezes superior! –
aos raios de sol que chispam nas ramagens das árvores
à minha passagem desenfreada.
Cruzo-me com tudo o que já não é nada
ou não parece nada ou é alguma coisa e sou eu que me precipito
para coisa alguma.
A meio caminho, já o pensamento é contraditório:
como travar esta geringonça
a tempo de não me estatelar no muro final,
porque estas correrias loucas costumam ter um muro no final.
Que palavra agora para travar, se todas elas são um carrossel
vertiginoso e sem contornos definidos?
A deriva vai a dois terços da aventura.
Desesperado, consigo, no último instante, um
fim.
deslizo pela montanha a velocidade superior
- Superior? Quantas vezes superior! –
aos raios de sol que chispam nas ramagens das árvores
à minha passagem desenfreada.
Cruzo-me com tudo o que já não é nada
ou não parece nada ou é alguma coisa e sou eu que me precipito
para coisa alguma.
A meio caminho, já o pensamento é contraditório:
como travar esta geringonça
a tempo de não me estatelar no muro final,
porque estas correrias loucas costumam ter um muro no final.
Que palavra agora para travar, se todas elas são um carrossel
vertiginoso e sem contornos definidos?
A deriva vai a dois terços da aventura.
Desesperado, consigo, no último instante, um
fim.
quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010
QUADRATURA

A vida colheu-me cedo:
quase desde que nasci,
e assim perdi o medo
do que mais tarde vivi.
Pechinchas, amendoins,
as letras do abecedário,
são meios; não são fins:
contas de outro rosário.
Apaguei fogos alheios,
de amores, assim-assim.
Beijos e afectos, dei-os,
não os guardei para mim.
As providências que tomo,
sempre que a fome poisa,
limitam-se à poesia, como
quem não quer a coisa.
quase desde que nasci,
e assim perdi o medo
do que mais tarde vivi.
Pechinchas, amendoins,
as letras do abecedário,
são meios; não são fins:
contas de outro rosário.
Apaguei fogos alheios,
de amores, assim-assim.
Beijos e afectos, dei-os,
não os guardei para mim.
As providências que tomo,
sempre que a fome poisa,
limitam-se à poesia, como
quem não quer a coisa.
sexta-feira, 1 de Janeiro de 2010
LUIS VAZ

Digo que aquilo era gente a mais, amigo. Musas,
deuses, heróis e mártires, ladrões de almas lusas.
Olho por olho; dente por dente. Refrega e morte!
Era previsível este destino estéril e esta sorte.
Demolhados, os teus papéis tomaram rumo,
e, porém lenda lusíada para doméstico consumo,
viraram ratio essendi da lusitana literatura,
ainda válida, robusta e sem qualquer beliscadura.
Para os anais, a miséria, o nojo e o cruel destino.
Desculpa a prosápia de quem te lê desde menino,
mas que, no fundo, se motivo há por que te escolho,
é apenas por aquela burlesca caricatura de zarolho.
deuses, heróis e mártires, ladrões de almas lusas.
Olho por olho; dente por dente. Refrega e morte!
Era previsível este destino estéril e esta sorte.
Demolhados, os teus papéis tomaram rumo,
e, porém lenda lusíada para doméstico consumo,
viraram ratio essendi da lusitana literatura,
ainda válida, robusta e sem qualquer beliscadura.
Para os anais, a miséria, o nojo e o cruel destino.
Desculpa a prosápia de quem te lê desde menino,
mas que, no fundo, se motivo há por que te escolho,
é apenas por aquela burlesca caricatura de zarolho.
quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009
JOSÉ FERREIRA MONTE


Às escuras, estendo a mão aberta, e afago
o Tempo de Silêncio em repouso, vigilante.
Ainda te oiço gritar o verbo mais amargo
da tua lucília e austera poesia militante.
Que amargurado poeta foste a vida inteira!
Bradavas os teus versos e esse era o pranto,
a arte e a razão, únicos e à tua maneira,
poeta e homem em cada verso do teu canto.
Depois, é como se alvoroçássemos de novo
a Quinta do Amieiro na passagem de ano,
com Pablo, Lopes Graça, as Heróicas do povo,
neste tempo - como então – ainda insano.
o Tempo de Silêncio em repouso, vigilante.
Ainda te oiço gritar o verbo mais amargo
da tua lucília e austera poesia militante.
Que amargurado poeta foste a vida inteira!
Bradavas os teus versos e esse era o pranto,
a arte e a razão, únicos e à tua maneira,
poeta e homem em cada verso do teu canto.
Depois, é como se alvoroçássemos de novo
a Quinta do Amieiro na passagem de ano,
com Pablo, Lopes Graça, as Heróicas do povo,
neste tempo - como então – ainda insano.
segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009
A NEVE

Às vezes nevava.
O céu oferecia a neve para poder entrar na folia,
como qualquer de nós cedia a bola para entrar no jogo.
Os dedos só gelavam nos primeiros instantes.
Daí a pouco tempo, as mãos ardiam como brasas.
Às vezes nevava.
Era um lençol branco e imenso, quase sem limites.
Mesmo assim, alguns levavam braçadas de neve para casa,
na esperança de que assim não derretesse.
Uma qualquer espécie de alquimia
haveria de conservar o gelo
e transforma-lo em miragem perene e mágica,
para íntimo deleite.
Às vezes nevava.
Fazíamos anafados bonecos com apêndices postiços,
bolas de arremesso,
construções que a imaginação
e a quantidade de gelo permitiam,
escorregas improvisados.
Às vezes nevava
sem sabermos muito bem porquê,
nem o préstimo de tanta alvura.
O céu oferecia a neve para poder entrar na folia,
como qualquer de nós cedia a bola para entrar no jogo.
Os dedos só gelavam nos primeiros instantes.
Daí a pouco tempo, as mãos ardiam como brasas.
Às vezes nevava.
Era um lençol branco e imenso, quase sem limites.
Mesmo assim, alguns levavam braçadas de neve para casa,
na esperança de que assim não derretesse.
Uma qualquer espécie de alquimia
haveria de conservar o gelo
e transforma-lo em miragem perene e mágica,
para íntimo deleite.
Às vezes nevava.
Fazíamos anafados bonecos com apêndices postiços,
bolas de arremesso,
construções que a imaginação
e a quantidade de gelo permitiam,
escorregas improvisados.
Às vezes nevava
sem sabermos muito bem porquê,
nem o préstimo de tanta alvura.
quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009
SEGUNDO A CRÓNICA

A ideia de que cada um fala por si, faliu. Hoje, é cada vez menos isso e cada vez mais o eco de outros que nos asseguram que assim é.
Sem a necessidade constante de ressarcir direitos de autor, basta seguir o rasto, segundo as fontes bem informadas.
Assim se pode debitar que aumentam os crimes violentos, os de colarinho branco, os roubos por esticão, o consumo de drogas e a corrupção, segundo as autoridades policiais. Aumenta a inflação, o desemprego e os índices de pobreza, segundo as estatísticas. Assim como os combustíveis e os impostos sobre veículos não tardarão, segundo Vítor Constâncio.
Segundo a imprensa, nenhum dos ministros cessantes solicitou o fundo de desemprego ou qualquer outro subsídio para sustento familiar. Há mesmo alguns que não decidiram o que fazer, face às opções disponíveis, e outros que vão de férias reflectir sobre o que muito bem entenderem. Pelos vistos, acompanhados de muito boa gente privilegiada, a quem sobraram uns tostões para as férias de Natal, segundo as agências de viagens.
O povo, no entanto, precisa mais de reality shows e de conversa fiada que de pão para a boca, segundo as televisões. Segundo o Necas isto paga-se, mas não é tempo ainda de enxergarmos tal desfecho.
E por que carga d’alhos os portugueses, não os ingleses, não os alemães, não os franceses, mas os portugueses, dizem, são o quarto povo mais xenófobo da Europa, segundo inquérito promovido por um qualquer organismo europeu? Que raio de perguntas levaram a tal conclusão?
Belmiro de Azevedo é o 378º. mais rico do mundo, segundo as contas que alguém fez e está interessado em que nós saibamos.
Doce é o sono de quem serve, quer seja pouco quer muito o que ele come; mas a fartura do rico não o deixa dormir, segundo Eclesiastes.
Aumenta a fé, segundo a Fé.
Sem a necessidade constante de ressarcir direitos de autor, basta seguir o rasto, segundo as fontes bem informadas.
Assim se pode debitar que aumentam os crimes violentos, os de colarinho branco, os roubos por esticão, o consumo de drogas e a corrupção, segundo as autoridades policiais. Aumenta a inflação, o desemprego e os índices de pobreza, segundo as estatísticas. Assim como os combustíveis e os impostos sobre veículos não tardarão, segundo Vítor Constâncio.
Segundo a imprensa, nenhum dos ministros cessantes solicitou o fundo de desemprego ou qualquer outro subsídio para sustento familiar. Há mesmo alguns que não decidiram o que fazer, face às opções disponíveis, e outros que vão de férias reflectir sobre o que muito bem entenderem. Pelos vistos, acompanhados de muito boa gente privilegiada, a quem sobraram uns tostões para as férias de Natal, segundo as agências de viagens.
O povo, no entanto, precisa mais de reality shows e de conversa fiada que de pão para a boca, segundo as televisões. Segundo o Necas isto paga-se, mas não é tempo ainda de enxergarmos tal desfecho.
E por que carga d’alhos os portugueses, não os ingleses, não os alemães, não os franceses, mas os portugueses, dizem, são o quarto povo mais xenófobo da Europa, segundo inquérito promovido por um qualquer organismo europeu? Que raio de perguntas levaram a tal conclusão?
Belmiro de Azevedo é o 378º. mais rico do mundo, segundo as contas que alguém fez e está interessado em que nós saibamos.
Doce é o sono de quem serve, quer seja pouco quer muito o que ele come; mas a fartura do rico não o deixa dormir, segundo Eclesiastes.
Aumenta a fé, segundo a Fé.
segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009
MÁRIO-HENRIQUE LEIRIA

O fim começa aqui – eis o teu passatempo eleito,
Mário-Henrique, o teu gin-tonic e tua condição.
Afinal, eficazes. Digo, o tonic é tão perfeito
como eu escrever estes versos e me chamar João.
Fazendo de conta que a musa que me inspira
é uma daquelas plúmbeas de rótulo amarelo,
seguro os teus versos – quero lá saber da lira
e puxo o cobertor, que o quarto está um gelo…
Na tarimba refilas, esperneias, fazes cenas
e pedes um lugar na almofada, à cabeceira.
E que consegues, contemplação? Não. Apenas
enfado e a ressaca de uma enorme bebedeira.
Mário-Henrique, o teu gin-tonic e tua condição.
Afinal, eficazes. Digo, o tonic é tão perfeito
como eu escrever estes versos e me chamar João.
Fazendo de conta que a musa que me inspira
é uma daquelas plúmbeas de rótulo amarelo,
seguro os teus versos – quero lá saber da lira
e puxo o cobertor, que o quarto está um gelo…
Na tarimba refilas, esperneias, fazes cenas
e pedes um lugar na almofada, à cabeceira.
E que consegues, contemplação? Não. Apenas
enfado e a ressaca de uma enorme bebedeira.
sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009
PLANO B
Não é o mesmo que o lado B da vida; do disco que se preenche do outro lado, apenas por que o dito tem obrigatoriamente dois lados. Não. O plano B é algo que se aplica quando a principal tentativa se gora. Tem como características fundamentais ser de inferior qualidade, ter maiores probabilidades de ir por água abaixo e, pior que tudo, carrega às costas o ónus do falhanço.
E a primeira tentativa desta maioria ia no sentido de mostrar a verdade aos portugueses, de melhorar as coisas, de tornar mais fácil o que porventura outros teriam convertido em insuportável, li nos jornais.
Eis assim que os primeiros adoptaram como plano alternativo a difusão da ideia de que o povo está contente; as elites é que instigam o protesto, enquanto os mestres da empalmação que os precederam, garantem que tudo não passa duma inconcebível cabala, o que nos leva de novo a pensar na mãozinha misteriosa. Em resumo, quer de um lado quer de outro, entrámos no domínio da prestidigitação, da cartomancia ou sei lá de quê neste país acostumado a ir à bruxa, e o mesmo é dizer que ambos adoptaram o plano B, para mal dos nossos pecados.
Mas nisto de adopção do plano B, sendo paradigma dos meios políticos dominantes, não é infelizmente exclusivo seu. Aliás é moda, talvez copiada da teoria conhecida por terceira vaga, qualquer que se preze dá ares da sua arte de bem cavalgar em toda a sela.
O destaque vai necessariamente para a quantidade de gente mais ou menos conhecida noutros misteres – como excepção à regra, aparentemente bem sucedidos – que de repente desatou a escrever livros sobre os mais variados temas, a maioria autobiográficos, dando assim ares do seu eclectismo, para desgraça da literatura.
Voltando no entanto à vaca fria, poderemos estar perante uma nova ilusão: um qualquer signo trocado, um horóscopo mal interpretado e o principal plano não passar afinal de cortina de fumo que não deixa ver a verdadeira essência do plano B, tal como o conhecemos. Por isso julgo que cabe assim aos restantes cidadãos molhar a pena noutro tinteiro e escrever por linhas tortas o que, não é preciso enxergar muito, não é possível nas direitas.
E a primeira tentativa desta maioria ia no sentido de mostrar a verdade aos portugueses, de melhorar as coisas, de tornar mais fácil o que porventura outros teriam convertido em insuportável, li nos jornais.
Eis assim que os primeiros adoptaram como plano alternativo a difusão da ideia de que o povo está contente; as elites é que instigam o protesto, enquanto os mestres da empalmação que os precederam, garantem que tudo não passa duma inconcebível cabala, o que nos leva de novo a pensar na mãozinha misteriosa. Em resumo, quer de um lado quer de outro, entrámos no domínio da prestidigitação, da cartomancia ou sei lá de quê neste país acostumado a ir à bruxa, e o mesmo é dizer que ambos adoptaram o plano B, para mal dos nossos pecados.
Mas nisto de adopção do plano B, sendo paradigma dos meios políticos dominantes, não é infelizmente exclusivo seu. Aliás é moda, talvez copiada da teoria conhecida por terceira vaga, qualquer que se preze dá ares da sua arte de bem cavalgar em toda a sela.
O destaque vai necessariamente para a quantidade de gente mais ou menos conhecida noutros misteres – como excepção à regra, aparentemente bem sucedidos – que de repente desatou a escrever livros sobre os mais variados temas, a maioria autobiográficos, dando assim ares do seu eclectismo, para desgraça da literatura.
Voltando no entanto à vaca fria, poderemos estar perante uma nova ilusão: um qualquer signo trocado, um horóscopo mal interpretado e o principal plano não passar afinal de cortina de fumo que não deixa ver a verdadeira essência do plano B, tal como o conhecemos. Por isso julgo que cabe assim aos restantes cidadãos molhar a pena noutro tinteiro e escrever por linhas tortas o que, não é preciso enxergar muito, não é possível nas direitas.
quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009
RUY BELO

Contigo não faço mais que a minha obrigação.
Só não sei o que fazer com os teus versos d’iodo
e a tua mortificada vida, cantada na Consolação,
poeta à tona ou naufrago, dito de outro modo.
Arrimas às ondas as rimas das odes alterosas
e os poemas desfazem-se em sal e espuma.
- Densos e sublimes são teus versos e prosas,
inquietas odes, que desfio à noite, uma a uma.
É como ter no mesmo frasco o mal e o remédio
e, voluntariamente, tomá-los qual bebedeira,
de modo que, desperto e de exuberante tédio,
durma enfim, merecidamente, a noite inteira.
Só não sei o que fazer com os teus versos d’iodo
e a tua mortificada vida, cantada na Consolação,
poeta à tona ou naufrago, dito de outro modo.
Arrimas às ondas as rimas das odes alterosas
e os poemas desfazem-se em sal e espuma.
- Densos e sublimes são teus versos e prosas,
inquietas odes, que desfio à noite, uma a uma.
É como ter no mesmo frasco o mal e o remédio
e, voluntariamente, tomá-los qual bebedeira,
de modo que, desperto e de exuberante tédio,
durma enfim, merecidamente, a noite inteira.
segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009
O AVISO DAS CEGONHAS

As cegonhas chegaram já, silenciosamente.
Ei-las, madrugadoras, como anjos aturdidos.
Ainda sem jeito, miram lá do alto a gente
que passa e não as vê nem lhes dá ouvidos.
Não trazem – como na fábula – o bebé no bico;
a prole é a sua apenas – já não é segredo –
e eu, se as olho, é porque as amo e porque fico
a matutar, que arcano as leva a vir tão cedo.
Ei-las, madrugadoras, como anjos aturdidos.
Ainda sem jeito, miram lá do alto a gente
que passa e não as vê nem lhes dá ouvidos.
Não trazem – como na fábula – o bebé no bico;
a prole é a sua apenas – já não é segredo –
e eu, se as olho, é porque as amo e porque fico
a matutar, que arcano as leva a vir tão cedo.
sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009
A PALAVRA DO MESTRE
No princípio, disse o Mestre:
- Passastes a provação do oásis autista, anunciado por aquele que cuspia pela boca quando falava; também a do que nada via e por isso acreditava que o homem haveria de morder o cão e ser notícia.
Depois mergulhastes na miséria da tanga e na noite das concubinas. Estais aptos para tudo. – Concluiu.
Não mais a mentira e a trafulhice, precipitaram os de maior fé.
Volvidos anos e lustres, ei-los como vistosas libelinhas, de nenúfar em nenúfar, espalhando o amor e a semente, para que os vindouros se sintam como verdadeiros eleitos, excepto os fariseus.
Assim, o Mestre entregou um cantil de lama a cada um e disse:
- Levai, que nesse cantil, mais do que a água vai a esperança da terra prometida, cujas sedes sacia de toda a qualidade.
Parou, por instantes, para olhar a cara dos discípulos, não fosse neles encontrar incompreensões ou quebres de disciplina, logo no início da caminhada, e prosseguiu:
- Caminhai sobre as pedras aguçadas e dizei a todos que esse é o caminho por vós escolhido. Esse é o sacrifício que vos exijo e por isso sereis recompensados com a minha bênção.
Ficou a escutar o murmúrio dos discípulos, inconclusivo, o que foi tido por aprovação unânime.
O Mestre preparou então os itinerários de cada um e concluiu:
- Caminhareis sobre as águas sem vos afundardes, trespassareis o fogo sem queimardes sequer uma pestana, e as vossas palavras serão o oiro do povo, mesmo para aqueles que contra vós vociferarem, pois esses são com certeza fariseus.
-Não sou santo – disse o Mestre – Santo é o meu pai, que foi, que é e que será.
O caminho é comprido e cumpridos serão os desígnios do Mestre. Haverá imposto sobre o salário porque essa é a sua vontade. Virão depois os que hão-de negar, e tais serão expulsos, escorraçados como cães, lá para onde o demónio quiser a sua companhia. Hão-de vir os cépticos, os cegos e, pior, os que não querem ver, mas desses não será este reino. São naturalmente os fariseus.
E mais disse o Mestre, que haveria de criar um novo céu e uma nova terra e que por sua graça não haveria recordação das penas já passadas.
Não era ainda a Revelação. Os sinais da Revelação haveriam de surgir quando os homens construíssem a grande torre da discórdia, construída em assembleia e em variadas falas e adulterassem os desígnios do Mestre. Seria então o primeiro mártir deste caminho feito em círculo. Cairia de exaustão, quando muito teria ainda para dar, segundo os companheiros, quando a maioria lhe faltar, segundo os fariseus.
Do mestre nunca se ouvirá que este será o princípio do fim dos tempos, mas há-de ser esse o tema da conversa dos proscritos e de todos nós, os fariseus.
quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009
ANO COLORIDO

Vêm Janeiro e Fevereiro
e ainda não abri o tinteiro.
Chega o primaveril Março
com matizes de pigarço,
assim como o não menos Abril,
mas em tons de rosa e anil.
Quando irrompe Maio
já há cores em que não caio.
De repente, vem Junho:
de que cor é este punho?
Lentamente, lá vem Julho.
este tem a minha cor. Pouco barulho!
Mais devagar, Agosto
e o vermelho ardente do sol-posto.
Sorrateiro, entra Setembro.
Não tem cor ou não me lembro?
O mesmo direi de Outubro,
de que sei a cor mas não descubro.
Novembro e Dezembro vêm a seguir
cor de burro a fugir.
e ainda não abri o tinteiro.
Chega o primaveril Março
com matizes de pigarço,
assim como o não menos Abril,
mas em tons de rosa e anil.
Quando irrompe Maio
já há cores em que não caio.
De repente, vem Junho:
de que cor é este punho?
Lentamente, lá vem Julho.
este tem a minha cor. Pouco barulho!
Mais devagar, Agosto
e o vermelho ardente do sol-posto.
Sorrateiro, entra Setembro.
Não tem cor ou não me lembro?
O mesmo direi de Outubro,
de que sei a cor mas não descubro.
Novembro e Dezembro vêm a seguir
cor de burro a fugir.
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