terça-feira, 16 de janeiro de 2018

INTRANSITIVO


Em parte vou, em parte fico;
não sei se estou, se me ausentei:
não me identifico
e se acaso sou, não sei.

À parte, vou sem lei,
se ir for divagar.
Para onde caminhar, não sei
se ainda há lugar.

O que havia a dar, já dei
para me complementar
e só no fim vejo que me virei
sem querer de pernas para o ar.

Se em tudo, enfim, tiver sido eu,
olha para o que me havia de dar!
Ainda bem que ninguém leu,
que sorte a minha este azar.

domingo, 14 de janeiro de 2018

A BRINCAR, A BRINCAR


Em criança brinquei com tudo o que havia para brincar,
brinquei ser homem, que não havia meio de lá chegar;

hoje, quero brincar a ser criança e, para minha afronta,
já não consigo, mesmo brincando o faz de conta.  

Descrente e resignado terei de aceitar este destino:
não há verdade em dizer que de velho se torna a menino.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

UM DEUS ACHADO



Tenho finalmente um deus em quem posso confiar.
Não é desses que tropeçam connosco
ao dobrar de uma esquina
e tampouco dos que nascem embutidos na pele
e deles nos dão garantia eterna.
Casos há em que nos asseguram a genuinidade
registada na ourela em auxílio da fé.
Tenho um deus definitivamente bom,
que não me descobre pecados de maior
e até se parece comigo.
É assertivo, conversamos sobre todos os assuntos
e dividimos razões e caminhos a seguir.
Tem apenas um senão:
é invisível e tão irreal como todos os outros.    

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

TEMPO DE VIDA


Pensar na morte é só pensar na morte.
Uma pedra gasta na calçada,
uma folha derrubada pelo vento,
um ninho abandonado
e até o sol cinzento e frio, dão a perecer
que o tempo, por ali, se aborreceu de velho,
mas pensar na morte é só pensar na morte
e a própria morte é não pensar mais nela,
porque tudo é tempo que passa sobre a vida.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

O DIA-A-DIA


Esta alternância de equinócios e solstícios
é ciência de grande enfado:
ora o dia, mal começado, já declina para a morte;
ora se torna em modorra, extenso,
com presunções de ser também o dia que há-de vir.
Decidi por isso comprazer-me
- somente no que ao dia diz respeito –
apenas com a parte da manhã. É bastante
e condiz com a minha origem rural e simples,
habituado desde criança ao sol por relógio
e à brisa matinal para tempero do corpo.
O que sobrar pode o dia utilizar como muito bem entender,
mas não conte comigo.
Tome o dia, o dia inteiro por sua conta,
até um dia…

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O LIMITE DA PACIÊNCIA


Há com certeza um limite para a paciência
que eu não conheço e, assim sendo, o elástico
invisível da tolerância pode abrir fendas
e estalar-me nas mãos ou, pior ainda, na cara.
Ninguém é suficientemente louco para
suster dessa forma a respiração.
Dito de outra forma, ninguém, por muito parvo que seja,
deixa que o elástico estique, estique, estique,
ao ponto de não se poder falar já de tolerância
mas de uma qualquer algolagnia mal curada…
Deuses e construtores de automóveis
compreenderam desde o início
a necessidade de um limite para a paciência:
os mandamentos e as buzinas, se não resolvem completamente,
vão dando para as encomendas.

Os asininos de fala fácil e fato assertoado
- albarda-se o dito à vontade do dono –
cumprem um papel relevante:
obrigam os restantes a testarem os limites
(se os mandamentos estão bem encrustados nos sentidos;
se as buzinas são suficientemente timbradas).
O problema é que se multiplicam com maior frequência
e a sua proliferação pode tornar-se intolerável.
Apesar das galinhas serem o que são
e não suas excelentíssimas mães,
a vontade de que aqueles fossem ovíparos
e se pudessem comer no ovo,
não deixaria de ser um princípio de alívio,
fosse mexido ou estrelado.
Estou a perder a paciência. Repito: não conheço o limite,
mas garanto que não vai sobrar elástico.

sábado, 30 de dezembro de 2017

AS BRUXAS


As bruxas reunidas ao meio dia
concluíram: não há condições
suficientes para a magia;
a luz é má para medos e papões.

Juntaram-se de novo à tardinha
com pós de perlimpimpim
mas não pegava ainda a mezinha,
havia gente a ver, mesmo assim.

Resolveram à noite, ao serão,
quando toda a gente dormia já,
proclamar a sua extinção
com a ressalva de que as há, há.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

AGENDA 2018


Janeiro e fevereiro
vêm primeiro

A Primavera traz março
se puder nada faço

Ah chega abril
meu encanto meu buril

e confiante ensaio
o esperado mês de maio

Junho e julho
no mesmo embrulho

Deitado na areia em agosto
até ao sol posto

Uma rima para setembro
de resto nada me lembro

Quando outubro assoma
vem o vinho novo e a azeitona

Novembro dentro dos carris
e ver o que o Borda d’Água diz

Dezembro entre outras actividades
é desejar prosperidades

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

VICISSITUDES DA LÍNGUA


No dia em que me apercebi que “às vezes”
tem o mesmo significado que “nem sempre”
fiquei muito desiludido.
Nunca esperei que existissem duas frases
desprovidas de um objectivo mensurável
e o mesmo significado,
semelhantes a cotonetes, cujo lado a utilizar
depende do acaso e é aleatório.
Mas não disse nada, não fosse a descoberta
causar pânico ou, pior, alguém dizer
que o assunto constava já de uma velha agenda
da Academia das Letras, tornando ridícula
a minha desencantada descoberta.
Um autêntico desperdício, que às vezes molesta
e dá vontade de desistir, mas nem sempre.

sábado, 23 de dezembro de 2017

MERCEARIA


Na mercearia comprava-se fiado,
levava-se à vez
por cinco réis de mel coado
e pagava-se no fim do mês.

Cem gramas de café,
açúcar, rebuçados para a tosse…
e se houvesse maré,
qualquer coisinha mais doce.

Com sorte, não faltava nada
do que tínhamos para avio:
queques, pão de ló, marmelada
e mesmo panos de atavio.

Poucas restam já,
que os tempos estão mudados.
Agora, se não houver há
nos aos supermercados.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

SACRIFÍCIO ALIMENTAR


Amargo como o fel,
fétido, de sabor tão mau,
este suplemento fiel,
óleo de fígado de bacalhau.

Bom para resistir
diziam os pais
e de engolir
mau de mais!

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

POBRE LUZ POBRE



Amiúde, a falta de energia
e de dinheiro
coincidiam no pavio
do candeeiro

a petróleo, em lugar certo,
aclarando a vida:
uma chama ali por perto
ia consumindo a torcida.

A petróleo, ali por perto,
a chama duma torcida
em lugar certo
ia consumindo a vida.

domingo, 17 de dezembro de 2017

A LEITEIRA


Magro, meio-gordo… valha a variedade
actual… Dantes era leite sem nome,
leite sem qualquer vaidade
e matava a fome.

Leite fresco, gritava a leiteira,
mal dobrava a esquina,
levava as casas de carreira
em jeito alegre e traquina.

Leite fresco, leite do dia,
acabado de ordenhar,
dá saúde e alegria
e dá à leiteira a ganhar…

-Dê-me meio quartilho
(o dinheiro para mais não dá)
é para o meu filho
e do que sobrar se verá.

sábado, 16 de dezembro de 2017

O QUE HAVIA DE ME LEMBRAR


Somos extraordinários:
enquanto vivos alimentamos insectos,
que nos chupam, picam e mordem;
depois de mortos, dizem, servimos de repasto
a um exército de larvas,
que nos devoram até ao osso.
Creio tratar-se de vingança congénita
quando comemos caracóis e os acompanhamos com cerveja
ou coleccionamos borboletas exóticas.
À nossa maneira vamos matando o bicho. 

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

EPÍGONO DO MAL


O filho do diabo mais novo
Belzebu da Lusitânia
diz que o pão não é do povo,
que é de geração espontânea

O diabo em figura de gente
quer que o país dê p’rò torto
mas vamos andando em frente,
ele é que não tem onde cair morto.

De uma só assentada
promete fogo e caruma,
com uma mão cheia de nada
e outra de coisa nenhuma.

É alarve, só pode ser
bicho sem pingo de verdade
tanto pode burro a valer
como égua de vaidade.

O sacrista das profundezas
inscreve catástrofes, vida insana,
revoltas da natureza
em capítulos de programa.

No fim, vendo quem ri melhor,
sorrimos de novo ao cravo
e ele, com o seu ar superior,
ri sozinho porque é parvo.