domingo, 19 de novembro de 2017

O PÁSSARO EM CANTO


Canoro
o pássaro encanta
e eu adoro
o que ele canta

sem partitura
canta de improviso
cada aventura
sem aviso

maestro de si
e de mim que o imito
do-re-mi
e repito e repito

o pássaro encanta
é ave canora
mas eu não sei se canta
ou se chora

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O CICLO DO NATAL



Que há de novo nesta quadra
de requentado néon intermitente?
Um vaivém de gente
e é costume ser mais nada.

Neste exórdio, que afinal deu igreja,
o negócio permanece intacto:
todos iguais mas, de facto,
há sempre carvão e carqueja.

Uns, castanha assada; outros, só o fumo;
fitas, laços, vitrinas de desejo.
- A avó manda-te um beijo.
Porta-aviões do consumo.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

LISTA ACTUAL DE INSULTOS PRIMÁRIOS


Nada a reter: cotão nos bolsos
e cabeças ocas, como sempre.

Da vida mal conhecem a sua,
de repente falam, como nunca.

Ouvi-los é maçada. Espremidos,
nem pinga deitam, como sempre.

Fingimento avulso, em lágrimas
de crocodilo manso, como nunca.

Empolados verbos de encher
Inconjugáveis, como sempre.

Alados arcanjos, como nunca,
desprezíveis insectos, como sempre.

domingo, 12 de novembro de 2017

OS MARGINAIS


Ei-los, que se atrevem de novo,
espalhando aos quatro ventos serradura
que cegue o povo
e abra caminho a nova ditadura.

Grunhem, uivam em desespero,
abrigados no fino manto que os cobre
mas por mais que finjam no tempero
não passam de pregoeiros de peixe podre.

Mas insistem em descobrir argueiros
nos olhos já cansados só de os ver:
damas de alfinete, caceteiros
e os demais que o diabo há-de trazer.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

(A) NEM MAIS


o rato no queijo
a mosca no prato
e um percevejo
algures no quarto

o cavalo errado
com pulga n’orelha
é bicho danado
do arco da velha

o que põe gravata
é d’ outra seita
social democrata
da ala direita:

t’arenego bicho
malvado animal
pior que lixo
malvado mal

a filho d’ égua
(animal ruim)
não se dá trégua
do princípio ao fim

terça-feira, 7 de novembro de 2017

PARTINDO-ME


Se, partindo, fosse apenas a música de um gerúndio,
unicamente um tempo de conjugação verbal,
sem ressentimentos, eu partia.
Partindo, como quem descasca lentamente uma laranja,
e a saboreia, gomo a gomo, com o cheiro
da casca desprezada ainda nas narinas, eu partia.
E partindo assim ia ficando suavemente confortado,
com desejo de partir; com vontade de chegar.

Se, partindo, fizesse somente o tremer dos ossos,
o repuxar dos músculos e o  doer da carne em carne viva,
mesmo assim, amparando-me como pudesse, partia.
Mas o gerúndio de partir é mais que isso:
é um tempo arrastado pelo caminho, que prende,
decompõe a carne e a vontade, amolece o desejo,
fere de morte todos os caminhos, todos os destinos.
Partindo-me vou ficando.

domingo, 5 de novembro de 2017

OS DISTRIBUIDORES DE GÁS


Por baixo da minha casa há um concessionário de gás.
Tenho observado com frequência, cá de cima, da varanda,
a minúcia com que os distribuidores
arrumam as botijas nas carroçarias de transporte:
umas vão deitadas – as maiores – e as mais vulgares de pé.
No fim, não sobra nem falta espaço. Tudo fica perfeito,
geométrico, acomodado.
Esta azáfama faz-me lembrar os meus poemas:
como os construo e invento espaços, verso a verso,
e os ajusto até que nada sobre ou falte a cada estrofe.
Por fim, debandam para aquecer lugares e sonhos,
como fazem os distribuidores das botijas.
Em ambos os casos, no regresso já nada é igual:
as botijas vêm surradas e vazias
e os poemas inchados como balões de gás.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

OFÍCIO DE CHOVER


O ofício das nuvens é chover,
(salvaguardando o direito à greve)
raios, coriscos, o que houver.
Em casos extremos pode ser neve.

Para lazer basta, chega de verão,
de horas extraordinárias forçadas.
Para chover é que as nuvens estão,
de contrário são mal empregadas.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

EDITAL



um mumificado,
insolvente,
foi votado
presidente.

outro vivaço,
requentado
de palhaço
disfarçado.

agora só falta
um edital que pregue
e avise a malta
de quem se segue:

chefe de estado,
decorativo,
novo ou usado,
morto ou vivo.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

TEIA SEDUTORA


Quem julgar que apanha
mesa e roupa lavada
não conte com a aranha,
esfomeada.

A teia que a aranha
tece, tece, é um isco
que desenha,
qual ministro.

O que a aranha
se empenha em tecer
é ardil e manha,
manigâncias…
está-lhe no rosto
e bom de ver
que é imposto
pelas circunstâncias.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

O ESCARAVELHO



Que há de novo
com o pestilento escaravelho
além do estorvo?

é manhoso e relho
que da família o herda
sabido como um velho

da direita à esquerda
empurra o escaravelho
bolas de merda

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

NATUREZA SOB SUSPEITA


Hoje suspendi o vento por não suportar
a ousadia das suas rajadas. Mandei florir as rosas
e devido à falta de chuva pedi às laranjas
o amadurecimento mais arrastado.
Detesto que o Sol rasgue as nuvens,
não é saudável ferir os pobres cortinados dessa maneira;
o seu ofício é brilhar sem corromper.
Dei ordens para emergirem ervas daninhas,
cogumelos e urtigas, por terem maior garantia de serem biológicos.
Tudo isto foi pensado com a melhor das intenções.

Mas a comunicação social pediu a demissão do ministro da agricultura,
no caso do ministro do ambiente ter atenuantes
ou cumplicidades de força maior a favor da natureza.
Alguma medida teria de ser tomada para marcar a afronta,
a gravidade do momento assim o exigia.
Não sei o que o ministro a despedir irá dizer em sua defesa.
Que poderá ele argumentar sobre assuntos
que só se aprendem quando podemos por as mãos no lume
sem nos queimarmos?

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

FÁBULA



Vai longe o tempo (longa a vida)
em que jogava à bola na rua.

Um dia dei um grande salto
e atirei-a tão longe, tão alto,

que à minha bola perdida,
hoje lhe chamo lua.

sábado, 21 de outubro de 2017

IR COM O VENTO



Ah, sim, eu estou a favor do vento
mas não vou para onde o vento vai:
cada um tem o seu andamento
e não sei se ele me ajuda ou me trai.

Sou eu quem decide largar amarras
ou lançar ancora; não caio no erro
de fazer trinar guitarras
na hora do meu próprio enterro.

Se o vento vai, que vá, é lá com ele,
saberá seguir a (sua) direcção certa.
A mim basta-me senti-lo na pele,
arejar por arejar não me desperta.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

LISTA DE PREFERÊNCIAS DO FARELO




(Glosa do poema de B. Brecht, "Lista de Preferências de Orge")



Estações do ano, as imprevisíveis.
Florestas, as combustíveis.

Fogos, os necessários.
Dementes, os incendiários.

Ministros, os demitidos.
Euros, os subtraídos.

Televisão, a que se enquadra.
Imprensa, a que ladra.

Mentiras, as que vendem.
Verdades, as que mentem.

Dores, as do vizinho.
Festas, as de bom vinho.

Silêncios, os convenientes.
Arguidos, os inocentes.

Manifestações, venham elas.
Bandeiras, tachos e panelas.

Primavera, a de Portugal.
Sol na eira, chuva no nabal.

Democracia, q. b.
Ditadura, logo se vê.