terça-feira, 6 de março de 2012

CIDADE TRAVESTIDA


O ar coquete e aramado da cidade
faz o olhar estrábico, contrafeito,
dá náuseas mal lhe bate a claridade,
que de adejar se lhe perde o jeito.


Os módulos do franchising estrangeiro
rompem o casario gasto e escondido
de fina vista, quer de olho, quer de argueiro,
qual gravata em pingente encardido.


Antes ou depois, o moderníssimo deserto
que, de inverno ou em pleno estio,
releva para longe o que está perto
e me deixa a alma viva por um fio.


Ah, como me divirto, andando por aí
a coberto de autênticas obras de arte!
Ferro assim e ferro assado, aqui e ali,
isso fazia eu, modéstia à parte…


Os repuxos de água são um encanto:
descuida-se o cidadão menos avisado
e, antes que a novidade cause espanto,
já tem o bárbaro esguicho no rabo.


Mas os artistas ou o arquiteto de agora,
bradam como os vendedores das feiras:
módulos, baguetes e por aí fora,
como são feitas as minhas prateleiras.


Bancos de madeira exótica, envernizados,
fingimento de aço a imitar as caravelas
e nós, bons cidadãos embasbacados,
como vivemos o tempo todo sem elas?


Só o Amato, de Lusitano nome, aponta,
mas para um lugar incerto, ao calha:
talvez ingénuo ou de pouca monta,
ou será um estranho lóbi que o amortalha?


Respiro, consumidor de vento, compulsivo,
mas não os sítios, os prédios e os cheiros
que sempre me fizeram sentir vivo
e agora matam em desvãos alcoviteiros.


Se a minha meninice foi tragédia,
singrando a pulso, ganhando a praça,
agora e na hora da vil comédia,
que outra aflição espero senão farsa?

domingo, 4 de março de 2012

AO DEUS DARÁ

Este será, por ora, o último de sete poemas que João Corvo aceitou publicar em Corpo de Poema. A próxima publicação será de novo assinada pelo autor do blogue.

ALGUMAS NOTAS BIOGRÁFICAS DE JOÃO CORVO

João Corvo nasceu em Ladoeiro, Idanha-a-Nova, no mesmo dia e à mesma hora que eu.

Ganhou o gosto pela escrita em 1974, em Cabo Verde, e publicou contos e alguma poesia no Novo Jornal, semanário daquele arquipélago.

Na década de 80 concorreu a alguns prémios literários de poesia. Por razões de honestidade intelectual nunca chegou à fala com os respectivos membros do júri, apesar de os conhecer muito bem. Além de uma menção honrosa, nada mais consta no seu curriculum.

Com o passar dos anos refinou o humor e ganhou o gosto pelo versilibrismo.

O aparente desdém da sua escrita (excepto quando aborda temas rurais da infância longínqua) revela que afinal é o amor que o move face ao ser humano e à sociedade que quer mais justa.

No início de 2012 dei com ele de novo às voltas com as palavras.

Esta série de poemas teve início em meados de Fevereiro de 2012.


Filipe II de Espanha, quando ordenou
a Invencível Armada contra os bárbaros do norte
e perdeu a frota e os marinheiros,
deveria ter concluído que Deus não vive a sul.
Ou, no pior dos cenários,
Deus, este que é o lábio belfo de Roma,
teria morrido afogado nas águas frias do Mar do Norte
muito antes Francis Drake disparar o primeiro tiro.
Mas nenhum deus morre
ou passa de um lado para o outro
sem o consentimento de um monarca como foi Filipe II,
para mal dos nossos pecados.

quinta-feira, 1 de março de 2012

NOTAS SOBRE O "TEMPO"


Sentida é a dor que me entra pelos olhos
e, por mais que magoe, não consegue
transbordar convertida em lágrimas;
antes a revolta que é caudal de outras águas.
A mesma dor que definha
as pétalas vermelhas das papoilas, lacera o vento,
que antes era brisa imaculada.
Passou o tempo das searas ondulantes,
quando o pão era já uma emergência.
Não me faço entender?
Quem matou a fonte e deixou a sede arder nos lábios?
Que foice segou a fome em vez do trigo?
Quem construiu os caminhos arrevesados?
Um dia os nossos filhos hão-de querer sabê-lo,
mesmo se ainda com as mãos nos bolsos.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

PRAÇA DAS PALAVRAS




Uma procissão de palavras com maior
ou menor sentido, encharcadas de fé ou fértil imaginação,
caminha com devoção à frente do poema.
Alguma serventia terão. Mas não será por isso
que o céu a todas abrirá os portões de ouro e mogno
- que, sendo o céu o que é, assim deverá ser –
porque agora é tarde e faz tempo que o poema deixou a praça.
Ide, digo-lhes, por hoje é tudo,
amanhã  haverá nova safra e tudo começará de novo.
Cabisbaixas, regressam aos subúrbios da memória.
Oiço-as grazinar à medida que se afastam
porque é com elas que eu também regresso
e ao poema não importa a minha ausência.





domingo, 26 de fevereiro de 2012

POESIA DE LEI


Passo a vida a cumprir leis, estas e não aquelas,
por isso também infrinjo normas e decretos
e regulamentos e mandamentos avulsos,
que terei sempre de observar,
mesmo que nunca os tenha visto mais gordos.
O legislador é como um alfaiate,
que talha e corta o pano conforme o cliente
e põe em prova com a habilidade e a arte dos alfinetes;
como um camponês, que enterra o arado
e rasga a eito a terra a semear o que o tempo lhe permitir,
o que for subsidiado, o que for abençoado.
É o que me dizem. Só não compreendo por que tem de ser
um funcionário com cara de poucos amigos ou
um polícia com mau hálito
a explicarem-me os imbróglios em que me meto, segundo a lei.
Estarei atento ao relatório da medicina legal,
curioso por saber a morte que de direito me cabe,
coisa que ninguém terá obrigação de me explicar,
para não dizer que é inútil insistirem.
Ninguém é obrigado a fazer o impossível.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

GLOBALIZAÇÃO


Alguém inventou que tudo seria global
mesmo que não fosse
para que uns pudessem estar perto e outros longe
sem o saberem. Afinal estamos longe, o que é uma pena.
Perto está quem pode comprar a distância.
Ainda não é desta que a luta de classes acaba…
Por global entende-se uma esfera, mas não é isso,
nem o é por a terra ser redonda.
A globalização significa que a totalidade dos meios e dos recursos
está ao alcance de todos e é essa a embófia que nos vendem.
Não sei por que razão a miséria e as mortes
são sempre do mesmo lado. Talvez porque a Terra
é achatada nos polos, o que deve dificultar a manobra.
Um dia destes, quando esta informação chegar
às aldeias do ocidente e às outras por acidente,
poderemos finalmente – ao contrário dos deuses que,
como bem sabemos, não adormecem nunca - dormir tranquilos,
mortos de cansaço.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

VERDADEIRA MENTIRA


O que vale uma bela verdade
sobeja de uma mentira bem urdida, repetida.
Andam por aí como andorinhas perturbadas, as verdades
e como arneiros espaventosos, as mentiras.
São ambas de livre acesso:
na política de cá e na que se faz lá fora,
nas grandes superfícies comerciais e no guiché
das urgências, enquanto ainda nos comprazem os sentimentos cristãos,
nas paragens e no interior dos transportes públicos,
na escola, incluindo os períodos de recreio,
nos andares acima e abaixo do prédio em que habitamos,
(é bom não começar já a duvidar de nós mesmos)
naquele terço de dia em sublimamos os instintos predatórios,
em todas as repartições públicas e é provável
que também nos códigos de barras, mas não posso garanti-lo.
Ao contrário da verdade,
dizem-me que a mentira é perfumada.
Talvez por isso não direi o que me tinha proposto:
cheira mal.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

O LIMITE DA PACIÊNCIA

Há muitos anos que trago entre o peito e o estômago um escriba inconformado de seu nome João Corvo. No dia 11 de Fevereiro, na manifestação em Lisboa, foi dos últimos a arredar pé. Escreveu depois o texto que se segue. O Mário Quintas registou a impaciência do sol.
Há com certeza um limite para a paciência
que eu não conheço, caso contrário, o elástico
invisível da tolerância pode abrir fendas
e estalar-nos nas mãos ou, pior ainda, na cara.
Ninguém é suficientemente louco para
suster dessa forma a respiração.
Dito de outra forma, ninguém, por muito parvo que seja,
deixa que o elástico estique, estique, estique,
ao ponto de não se poder falar já de tolerância
mas de uma qualquer algolagnia mal curada…
Deuses e construtores de automóveis
compreenderam desde o início
a necessidade de um limite para a paciência:
os mandamentos e as buzinas, se não resolvem completamente,
vão dando para as encomendas.


Os asininos de fala fácil e fato assertoado
- albarda-se o dito à vontade do dono –
cumprem um papel relevante:
obrigam os restantes a testarem os limites
(se os mandamentos estão bem encrustados nos sentidos;
se as buzinas são suficientemente timbradas).
O problema é que se multiplicam com maior frequência
e a sua proliferação pode tornar-se intolerável.
Apesar das galinhas serem como são
e bem poderem ser suas excelentíssimas mães,
aqueles não são ovíparos, não se podem matar no ovo
e comer mexidos ou estrelados, conforme a vontade
ou a gana que provocam.
Estou a perder a paciência. Repito: não conheço o limite,
mas garanto que não vai sobrar elástico.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

PORTUGAL

Ainda outra foto do Mário Quintas

O mastro que vejo além é Portugal
posto em pé ou, melhor digo, insepulto?
O mesmo que depois das lágrimas e do sal
é exposto ao ridículo e ao insulto.

Se é da lusíada gesta o sonho
da descoberta, é deste o pesadelo:
tanto de burlesco como de medonho,
que dá pena assim voltar a vê-lo.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

FAZER CAMINHO

Esta impressionante foto a que o Mário Quintas chamou “Vida Dura” sugeriu-me o poema.

Penoso é o caminho até que os braços
se ergam como asas, como espadas.
Quanto falta andar, quantos passos,
quantos trilhos por rochas escarpadas?


A razão diz: “vamos lá, vamos andando”.
Um passo pode bastar para o salto
porém, correndo, nunca fiando…
uma coisa sei: havemos de chegar ao alto.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

INSOLAÇÃO

Fotografia do Francisco Costa. Pormenor da manifestação de dia 11 em Lisboa, em que ambos estivemos, acompanhados de 300 000 outros manifestantes.

Persiste o céu nublado, ameaçando chuva
dentro de nós, prenúncio de tormenta.
O Sol (permito à minha assumida ingenuidade perguntar
por que razão ambos nos consolamos nos seus braços)
aliou-se ao inimigo: mente;
não é o seu tempo mas o tempo dos que o exibem
como troféu e iludem como benfazejos.
Mentem, já o disse.
Mentirão enquanto as águas deste inverno,
e de outros que hão-de vir,
não forem a enxurrada que leve adiante
a mentira que há em todo este Sol de sombras feito,
que a alma gela, vá lá saber-se porquê, em pleno inferno.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

CAMINHOS

Não há dúvida que se trata de nova fotografia do Mário Quintas. Desta vez para ilustrar o penoso caminho dos quilowatts. Em boa verdade, a foto nasceu primeiro… Quanto à última rima, já vi pior...

Cada um segue o seu caminho
e ter o seu é já de ficar grato:
por estrada ou como passarinho,
a pé é que já vou ficando farto.


Viajo assim, deus o saberá…
solto os olhos por aí a meditar,
poisam aqui, depois acolá
e vou onde quiser só de olhar.


Melhor é que ao andar se faça,
como aqui procede o quilowatt,
que por nós corre e desembaraça,
galgando o espaço a corta mato…

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

ÁRVORES

Inexcedível, o meu amigo Mário Quintas. Não só no seu envio de fotografias como na excelência da sua qualidade, como é o caso desta árvore formidável.

No que às árvores diz respeito,
há dois sujeitos em mim:
um que as honra e, com efeito,
outro que as tem por outro fim…


Em qual dos dois que proclamo
sou mais sensato ou mais bruto:
quando as admiro ramo a ramo
ou quando lhes saboreio o fruto?

domingo, 5 de fevereiro de 2012

QUE RAIO DE ENGENHO


Objecto decorativo à entrada do restaurante “A Nave” em Salgueiro do Campo

Que raio de engenho!
Rodar, não roda
e, olhando ao desempenho,
é coisa fora de moda.

A quem terá lembrado
um aparato assim,
que de andar parado
me dá voltas a mim…

Mó? Lagar? Torniquete?
Coisa para inglês ver?
Por certo algum joguete
apenas para entreter.

Lembra-me o governo d’agora:
com a pompa e o penacho,
ares de interesse por fora
e calca na mó de baixo!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

CRISE A MEIAS


Meias, metades são,
peúgas de algodão,
malha (demasiado) fina,
um tanto frias:
calcanhares em pele genuína,
digo, já tiveram melhores dias…


Nas pontas, pequenas janelas
que fazem andar de monge:
os dedos respiram por elas;
por este andar vamos longe