terça-feira, 6 de março de 2012

CIDADE TRAVESTIDA


O ar coquete e aramado da cidade
faz o olhar estrábico, contrafeito,
dá náuseas mal lhe bate a claridade,
que de adejar se lhe perde o jeito.


Os módulos do franchising estrangeiro
rompem o casario gasto e escondido
de fina vista, quer de olho, quer de argueiro,
qual gravata em pingente encardido.


Antes ou depois, o moderníssimo deserto
que, de inverno ou em pleno estio,
releva para longe o que está perto
e me deixa a alma viva por um fio.


Ah, como me divirto, andando por aí
a coberto de autênticas obras de arte!
Ferro assim e ferro assado, aqui e ali,
isso fazia eu, modéstia à parte…


Os repuxos de água são um encanto:
descuida-se o cidadão menos avisado
e, antes que a novidade cause espanto,
já tem o bárbaro esguicho no rabo.


Mas os artistas ou o arquiteto de agora,
bradam como os vendedores das feiras:
módulos, baguetes e por aí fora,
como são feitas as minhas prateleiras.


Bancos de madeira exótica, envernizados,
fingimento de aço a imitar as caravelas
e nós, bons cidadãos embasbacados,
como vivemos o tempo todo sem elas?


Só o Amato, de Lusitano nome, aponta,
mas para um lugar incerto, ao calha:
talvez ingénuo ou de pouca monta,
ou será um estranho lóbi que o amortalha?


Respiro, consumidor de vento, compulsivo,
mas não os sítios, os prédios e os cheiros
que sempre me fizeram sentir vivo
e agora matam em desvãos alcoviteiros.


Se a minha meninice foi tragédia,
singrando a pulso, ganhando a praça,
agora e na hora da vil comédia,
que outra aflição espero senão farsa?