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sexta-feira, 8 de novembro de 2019

RISO


Por falar em riso, que a loucura, insatisfeita,
sempre agradece, direi que o Sol desta manhã
surgiu como uma imensa gargalhada.
Nada diria sobre este assunto se ontem
o dia não tivesse estado uma lástima cinzenta,
sisudo, como se quisesse dizer que o Sol
tinha mudado de mundo de uma vez por todas.
Toda a loucura se compraz com estes prodígios
e se voltar a chuva e depois o Sol voltarei a rir,
que a loucura, insatisfeita, sempre agradece.  

sábado, 2 de novembro de 2019

DIA DE FINADOS


Um dia tudo acaba.
Ficam as flores envelhecidas numa jarra esquecida;
um par de sapatos velhos e sem atacadores no sótão;
os papeis a que tínhamos perdido o rasto;
as últimas tarefas, aquelas que não se realizaram
por falta de tempo, que inexperientes e incautos
(os outros chamavam-lhe teimosia) julgámos ter de sobra;
e a memória, se a deixarmos, num retrato do aparador.
Se mais memória de nós houver, talvez a evocação
anual do ente que tão cedo lhe foi ceifada a vida
ou tão generosos lhe foram os longos anos de existência.
Eis a vantagem do que de si se pode ainda presumir.
Depois, trocaremos o vocabulário pelo silêncio
e ninguém mais se lembrará de tais lamechas.
Então, muitos teremos direito a flores.
Umas em plástico, muitas sem tamanho merecimento.


quarta-feira, 9 de outubro de 2019

O QUE DIZ A POESIA


De velho se torna a menino, dizem por aí…
Não creio que a natureza tenha o mesmo entendimento.
Por mais poética que se lhe acrescente,
a natureza envelhece, cria veredas profundas
nos outeiros, enche-se de tristeza
e o céu escurece no horizonte, encarvoa as nuvens.
Queria ser menino agora e com os olhos dessa criança
ver o que não vejo, colher uma flor sem maldade,
comer os frutos das árvores e encontrar beleza em tudo isto
como agora faço com os versos.

sábado, 21 de setembro de 2019

LUA OBSCURA


Não é de confiança a Lua…
Dizem que mente e que instiga
mas é tudo muito nublado…
Às vezes a Lua conta-me alguns segredos, confesso,
nada que tenha interesse partilhar,
apenas me satisfazem a mim
por serem meus os segredos
e por ser ela a desculpa para os ter.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

OS MEUS VERSOS

~

Os meus versos são pó, restos de pesticidas
e alguma terra amanhada à espera de semente.
Caso a verdade fosse outra, eu mesmo
tomaria a iniciativa de tornar claro,
que os versos levam muita deriva nos regos d’água,
muita espera e oração pagã, algum suor também.
Acontece que lhes tenho estima
e eles, generosos como sempre, sabem confortar-me.
Dou liberdade aos que vão ganhando asas
e conforto os enjeitados, os únicos que ficam comigo.
Quem sabe um dia se soltam ligeiros e vão poisar
no ramo mais frondoso duma árvore que os declame. 

terça-feira, 17 de setembro de 2019

REVISÃO EM ALTA


Revi todos os meus lugares antigos
e todos me reconheceram…
Reparei que alguns me acompanharam
no tempo por mero instinto de sobrevivência.

Os demais, como eu, continuarão este caminho
e a memória não será a mesma,
excepto este avanço que lhes levo. Involuntário.

A minha alma, que trago guardada
para uma emergência descobre fantasias em tudo isto.
Nada de grave. Nada é eterno.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

O FASCINANTE MUNDO DOS SERES HUMANOS


Há dias em que um minúsculo insecto
(uma vespa, por exemplo) nos transforma
numa bolha vermelha e inflamada.
Durante horas ficaremos piegas e ridículos;
faremos tudo para chamar a atenção dos demais
para aquele vermelhão inchado,
que, logo a nós, haveria de acontecer.
Pretexto para reivindicar carícias em atraso;
ocasião perfeita para tornarmos claro
o lado mole da nossa vida dura…

Por essa altura já o pobre insecto estrebucha,
sem defesa a sua vida deixa de fazer sentido
e a solução é morrer de patas para o céu…
A pobre vespa em nada contribuiu
para o desfecho dramático, é a sua natureza.
O ser humano, não: tem por estranho comportamento
mexer em tudo o que vê, estragando.
Depois queixa-se dos inchaços e pede mimo.

Amanhã não haverá memória desta aventura.
Alguém fará um compêndio sobre as propriedades
terapêuticas do veneno das vespas, serão inaugurados
laboratórios e atribuídos prémios científicos
aos que abnegadamente contribuíram para o enriquecimento
da espécie humana e decretado recolher obrigatório
para todos os insectos com potencial curativo,
incluindo as vespas. 

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

ARTE DE VOAR


PRIMEIRA LIÇÃO DE VOO
(preâmbulo)

Os pássaros voam como nós
com a vantagem de terem asas próprias.

Os homens, com tanto as por e tirar,
precisam de costas largas, suspensórios
e, mais que tudo, mil razões para voar.

(Amanhã falarei aos pássaros
sobre tudo isto. Espero que me compreendam.)


SEGUNDA LIÇÃO DE VOO


A ventania quebra qualquer desejo
de alcançar o céu, se for vento o que me tolhe.
Talvez seja o medo das alturas.
É isso, talvez seja mesmo isso.

A verdade é que sem qualquer razão
o voo se torna penoso e o céu demasiado alto…


TERCEIRA E ÚLTIMA LIÇÃO DE VOO

Além, um bando de gaivotas adeja ao vento,
interrompem para pequenas correrias no areal…
Elas saberão por que o fazem
e não creio que a minha existência as preocupe.
Deixarei que voem ou não.
Têm asas para saberem o que mais lhes convém.



quinta-feira, 8 de agosto de 2019

OS ELEMENTOS


Um fio de luz, de lua;
um fragmento de mar…
contingentes todos eles.

Só a noite é inclusiva
para quem dorme nos seus braços.

sábado, 22 de junho de 2019

OS HOMENS E AS ÁRVORES


Os homens invejam o tamanho das árvores;
receiam que elas lhes roubem o céu,
por isso as cortam, para o céu descer à sua altura.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

GUARDA RIOS


Tinha coisas importantes para dizer
e de um momento para o outro acabei
por abandonar a ideia. Era sobre os rios,
mas tive medo de ser mal interpretado…
Lembrei-me que talvez não vos interessasse
saber ou vos maçasse ao falar de um tema
tão corrente. Corrente é o termo exacto.
Mas como nunca lhes prestais atenção
e preferis as pontes... Os rios molham
é isso; lavam o que é preciso e levam
o que é descartável e sem utilidade.
Quase sempre há pontes para os atravessar
em certos pontos, sem problemas de maior,
para o outro lado, para o lado sem rio.

Na verdade, esse lado onde já não há rio
é cada vez maior e o que queria contar, insisto
(continuo a maçar-vos com ninharias…),
é que se prevê acabar com as pontes,
o que é a única boa notícia, porque se prevê
que os rios sequem e com eles a vossa água
canalizada e mesmo a vossa água benta.
O mar ficará então cheio de rios mortos,
gigantescos e cintilantes cristais de sal
para serem vistos por outros a milhares de anos luz.
Podereis assim deixar de passar por cima
desses problemas chamados rios,
dar largas ao que designais por águas passadas
e enxugar de sede a vosso belo prazer.


quarta-feira, 22 de maio de 2019

NO PRINCÍPIO




No princípio a terra estava fria e o orvalho da noite
ainda latejava sobre as pétalas, que despertaram
com os primeiros raios de Sol.
De madrugada tudo é gelado, da raiz às folhas,
o gelo é o primeiro berço da terra.
Gelada é também a destreza dos insectos,
que a esta hora já começam a tomar assento
à mesa da primeira refeição do dia.
Tudo principia com o gelo no ciclo diário da terra.

Com as botas enterradas na lama fértil,
o dorso curvado sobre as ervas e sementes
e as mãos remexendo couves, cebolas, alhos, cenouras,
as primeiras atenções são rogos para que cresçam…
O Sol que vier fará pelos frutos.

quarta-feira, 27 de março de 2019

NATUREZA VIVA




Tudo o que existe na natureza não está ali para sempre:
as árvores envelhecem e morrem, os rios secam,
as montanhas desabam para os vales, mudam-se as sendas,
as pedras e, com tudo isto, muda a própria natureza,
sem deixar de ser natureza aos nossos olhos.
O céu, como o vemos, não esteve sempre ali
debruçado sobre o horizonte e o mar, o misterioso mar
conheceu já outras marés e náufragos de toda a sorte,
enquanto a contemplamos, a natureza muda de lugar
para ser admirada, olhos nos olhos, sempre igual.

domingo, 30 de dezembro de 2018

SIMPLES


Está na moda complicar o que é,
o que sempre foi, o que nunca deixou de ser simples,
senão para os que acham demasiado simples
o que é simples, e erudito o que é complicado.
Está na moda porque é no complicar que está o ganho…
A minha dúvida é saber
o que falta saber para que tudo continue
simples, como é simples a água que mata a sede,
o frio que gela até ao osso e o sol
que tudo aclara sorrindo, simplesmente.
Só não digo mais para não complicar,
é tão simples quanto isto.

domingo, 23 de dezembro de 2018

ALBERTO CAEIRO



Ontem encontrei Alberto Caeiro.
O seu ar inspirava compaixão, pesado;
e, ao mesmo tempo, olhava
com imperceptível amor por todos
os que por ele passavam – um amor à vida.
Os olhos ardiam-lhe, quase em chama.
Lia Cesário Verde e as lágrimas
corriam-lhe como a uma criança.
Arrastava os versos do mesmo modo,
parecendo carregar os últimos cestos
da vindima onde Cesário
tossia do princípio ao fim.
Não reparou em mim e ainda bem:
não iria dizer-me nada que eu não soubesse já;
nem as suas lágrimas
seriam mais verdadeiras do que os meus versos.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

INSTANTE


Depois de mondar o dia inteiro
e depois de amanhar os animais
e depois ainda de amamentar o filho mais novo,
sempre sorrindo,
sentou-se, por fim, a descansar.

Benditos pés que me suportaram na monda,
disse antes de adormecer,
assim murmurou sem dar por isso.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

OS PRIMEIROS DESAFIOS



Quando brincávamos na rua e o Sol se rendia,
submisso, aos nossos pés,
não subtraiamos; apenas somávamos e multiplicávamos,
dividíamos tudo: repartíamos, como então nos era modo de ser.
Jogávamos contra e a favor dos nossos, partilhávamos a bola
como coisa íntima e colectiva. Não havia adversários:
todos eram companheiros no jogo, nas mazelas e em tudo mais,
excepto nos golos, que eram de cada um…
Naquele tempo não subtraíamos, nem tal nos ocorria.
O tempo era de somar, de multiplicar para os mais ansiosos…

Não se pensava nas classes que haveriam de surgir
entre nós com o passar dos anos: os que teriam meios
e os que haveriam de sujeitar-se, vendendo a sua força de trabalho.
Julgávamo-nos como iguais e assim fomos sendo
até nos perdermos de vista, que é jeito particular de crescer
e nos encontrarmos num mundo dividido, que não era então
da nossas contas, porque apenas somávamos e multiplicávamos,
dividíamos tudo,  éramos incapazes de subtrair o que quer que fosse
à alegria de ali estarmos e partilhar o nosso mundo.

As corridas sem freio e os remates longe da baliza
eram só intenções, só isso, nada de ultrapassar quem quer que fosse
e, no entanto, ganhávamos e perdíamos (às vezes empatávamos…)
com o mesmo entusiasmo e com os mesmos abraços
de vencidos e vencedores de um jogo que não era mais que um jogo,
mais que um tempo em que todos nos juntávamos
e nos comprazia estarmos, naquele tempo em que não subtraíamos;
apenas somávamos e multiplicávamos e dividíamos tudo,
tal como o desejo de sermos homens e ter futuro.

domingo, 11 de novembro de 2018

O PRINCÍPIO DO MUNDO


Se o mundo teve um início, como eu espero,
imagino que irrompeu da treva
ao som de uma música, também primordial,
onde predominavam os címbalos, os fagotes
e os tambores, de enormes proporções,
ainda em embrião. O resultado terá sido estrondoso,
por não existir pauta ou director de orquestra.
O mundo terá saído desse caos musical,
que o impediu de nascer perfeito e harmonioso.
Deuses houve, mais tarde, a reclamar para si
a autoria de tamanha obra,
sem saberem uma única nota musical.

Os primeiros acordes, estou certo, eram gritos
da terra nua, rompendo águas e negrumes:
o mundo chorou ao nascer, não seria de outro modo.
Serenou depois. Deixou-se cobrir de nuvens
e o seu corpo tornou-se num imenso colo de água.
Por esta altura surgiram violinos e violoncelos
a imitar ventos e medonhas tempestades.
E de novo se intrometeram os deuses, com os querubins,
soprando flautas, dedilhando harpas, suspensos.
Apesar de tudo, imagino que o mundo
só podia ter nascido ao som de música,
porque ninguém lhe sobrevive
e nada pode existir na sua ausência.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

LÁGRIMAS DE SOL


Não se faz de água e sal a minha vontade;
faz-se do sol que todas as manhãs rompe,
aflito, na ânsia de ser dia em terra firme.

E não se faz de mitos, de assombros:
se não dá fruto a semente é porque o sol
se atrasa de tanto romper a treva.

Mas há uma excepção de água e sal
na minha vida: essa não é potável
e invade-me na tristeza: eu também choro.

domingo, 9 de setembro de 2018

O SOM DA CONCHA


Uma concha, uma pequena concha,
uma conchinha com a capacidade
de um dedal de água – e sal –
contém um poema imaginado
por um marinheiro errante.
Não se pode pedir mais
a quem guarda todo o mar dentro de si.

Uma concha, só uma pequena concha,
que leva dentro todo o mar.