Mostrar mensagens com a etiqueta Castelo Branco. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Castelo Branco. Mostrar todas as mensagens

sábado, 16 de maio de 2020

DE CASTELO BRANCO


Estive sempre de frente, Castelo Branco,
já te disse tudo o precisas e o que não gostas;
foi no teu chão que me fiz gente, vou ser franco:
fico triste quando aos teus viras as costas.

Sem ressentimentos, nada de queixas, azedumes,
apenas me entristecem as provincianas vaidades,
os sorrisos falsos, as meias verdades, os ciúmes,
mas nada que mate, que não te eleja entre as cidades.

Das Águas Férreas até à Mina, caminho antigo,
até ao cruel betão a que aderiste, as novas avenidas;
nada tem segredos, nada que me indisponha contigo.
O berço e a matriz é que nos pregam estas partidas…  

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

ERA UMA VEZ A CIDADE


O frio agudo; a aura breve,
foram sinais da novidade:
diminutos flocos de neve
vestiram de branco a cidade.

Por natureza inclemente,
de extremos na temperatura,
hoje frio; amanhã quente,
e só nas gentes brandura.

E assim, de noiva trajada,
tão a rigor como o gelo,
fica ainda mais prendada;
mais branca que castelo…

Porém, meteorologicamente,
- o tempo que faz e que fez –
há-de ser verão novamente,
e Castelo Branco outra vez.

domingo, 6 de novembro de 2016

MEMÓRIA DE CASTELO BRANCO


Não foi tão diluviana a enxurrada
de há sessenta anos, nem o tufão
foi coisa de mazela amargurada;
mas aguaceiro fraco também não…

É certo que esbulhou as avenidas
e arrebatou o coreto do passeio
mas, passado o susto fez despedidas,
 e logo se dissipou, tal como veio.

Morreu gente, sim, e feridos houve
dos maus ventos em reboliço;
mas também houve povo que não soube
ou não se ateve, ou deu por isso.

Mal sabíamos que, tempo passado,
ressarcidos, haveríamos de ganhar
a polis pós-moderna, qual tornado,
trazendo entulho de volta ao seu lugar.

Se outro vento igual nos castigar,
( longe vá o agouro!) se bem não há-de,
mal já não fará, que nada há para levar,
nem restos de memória da cidade…

sexta-feira, 15 de julho de 2016

MEMÓRIAS


Passo em revista os lugares, as casas
e as ruas: lembranças que o tempo já não cura.
A vida tomou rumos, bateu as asas,
e o que vejo guardo para memória futura.

Mas é o passado que percorre
as imagens que com preceito alinho
e com elas a memória persistente, que não morre,
me diz quanto do meu andar já foi caminho.

domingo, 11 de outubro de 2015

RUA DOS FERREIROS

Aguarela de Luís Ançã

De ferreiros havia até a rua
forjada a suor de gente boa,
que o clero queria por obra sua,
em préstito, o demo à sua proa.

Os homens bons não queriam tal.
Dos diabos eram os dias quanto monta,
e o seu mister não prefigura o mal
mas, outrossim, o bem que desafronta.

Demandaram S. Dustan para o seu andor
aos inventores do ímpio e do sagrado,
por sua crença, sua audácia e valor.

Jamais a penitência e a infausta associação
ao demo que, depois de ser ferrado,
agora suportavam, de canelo, em procissão. 

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

CIDADE TRAVESTIDA


O ar coquete e aramado da cidade
faz o olhar estrábico, contrafeito,
dá náuseas mal lhe bate a claridade,
que de adejar se lhe perde o jeito.

Os módulos do franchising estrangeiro
rompem o casario gasto e escondido
de fina vista, quer de olho, quer de argueiro,
qual gravata em pingente encardido.

Antes ou depois, o moderníssimo deserto
que, de inverno ou em pleno estio,
releva para longe o que está perto
e me deixa a alma viva por um fio.

Ah, como me divirto, andando por aí
a coberto de autênticas obras de arte!
Ferro assim e ferro assado, aqui e ali,
isso fazia eu, modéstia à parte…

Os repuxos de água são um encanto:
descuida-se o cidadão menos avisado
e, antes que a novidade cause espanto,
já tem o bárbaro esguicho  no rabo.

Mas os artistas ou o arquiteto de agora,
bradam como os vendedores das feiras:
módulos, baguetes e por aí fora,
como são feitas as minhas prateleiras.

Bancos de madeira exótica, envernizados,
fingimento de aço a imitar as caravelas
e nós, bons cidadãos embasbacados,
como vivemos o tempo todo sem elas?

Só o Amato, de Lusitano nome, aponta,
mas para um lugar incerto, ao calha:
talvez ingénuo ou de pouca monta,
ou será um estranho lóbi que o amortalha?

 Respiro, consumidor de vento, compulsivo,
mas não os sítios, os prédios e os cheiros
que sempre me fizeram sentir vivo
e agora matam em desvãos alcoviteiros.

Se a minha meninice foi tragédia,
singrando a pulso, ganhando a praça,
agora e na hora da vil comédia,
que outra aflição espero senão farsa?

quinta-feira, 17 de maio de 2012

TORRE DO RELÓGIO


Sineiro sou, de sinos, pois,
que outros há que a rebate
ou mudos, de enfeite, a dois,
não sirvam a quem os trate?


Dou momentos , ave-marias,
horas mortas, desatino;
passo assim noites e dias,
ganhando p’ra corda do sino.

sexta-feira, 9 de março de 2012

CASA MORIBUNDA


Esconde-se a casa na muralha
(encostada ao arco, por esmola)
além, a Praça, o museu, a escola
e aqui se encobre o que atrapalha.


E que vergonha tem a pobre casa
andrajosa, como indigente criatura,
três barrotes pregados à cintura,
o que já não adianta nem atrasa.


Solene, de emblema na lapela,
este sem mancha nem mazela,
evoca ainda o bispo padroeiro.


O venerável arco, sobranceiro,
faz pose ao turista a tempo inteiro,
a casa é que ninguém quer saber dela.

terça-feira, 6 de março de 2012

CIDADE TRAVESTIDA


O ar coquete e aramado da cidade
faz o olhar estrábico, contrafeito,
dá náuseas mal lhe bate a claridade,
que de adejar se lhe perde o jeito.


Os módulos do franchising estrangeiro
rompem o casario gasto e escondido
de fina vista, quer de olho, quer de argueiro,
qual gravata em pingente encardido.


Antes ou depois, o moderníssimo deserto
que, de inverno ou em pleno estio,
releva para longe o que está perto
e me deixa a alma viva por um fio.


Ah, como me divirto, andando por aí
a coberto de autênticas obras de arte!
Ferro assim e ferro assado, aqui e ali,
isso fazia eu, modéstia à parte…


Os repuxos de água são um encanto:
descuida-se o cidadão menos avisado
e, antes que a novidade cause espanto,
já tem o bárbaro esguicho no rabo.


Mas os artistas ou o arquiteto de agora,
bradam como os vendedores das feiras:
módulos, baguetes e por aí fora,
como são feitas as minhas prateleiras.


Bancos de madeira exótica, envernizados,
fingimento de aço a imitar as caravelas
e nós, bons cidadãos embasbacados,
como vivemos o tempo todo sem elas?


Só o Amato, de Lusitano nome, aponta,
mas para um lugar incerto, ao calha:
talvez ingénuo ou de pouca monta,
ou será um estranho lóbi que o amortalha?


Respiro, consumidor de vento, compulsivo,
mas não os sítios, os prédios e os cheiros
que sempre me fizeram sentir vivo
e agora matam em desvãos alcoviteiros.


Se a minha meninice foi tragédia,
singrando a pulso, ganhando a praça,
agora e na hora da vil comédia,
que outra aflição espero senão farsa?

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

DE CASTELO BRANCO, CONFESSO


Não sei que razões teria em 1997/98 (não recordo exactamente é o que quero dizer) para escrever este texto tão patético e assonante:


Há por aí pedaços de sol e de mim virados do avesso
alfinetes d’ama outros nem tanto a baixo preço
alguns a mais e mais ainda no começo


e há vinho que é bom e eu não conheço
azeite do mais fino e também espesso
bofetadas que são bem dadas e beijos sem endereço


há sonos em que apenas finjo que adormeço
temperaturas em que ora aqueço
ora arrefeço
muito banho-maria confesso
e há causas de que nunca mais se abre processo


há estátuas de pedra de bronze e de gesso
mil caminhos alguns vales e um cabeço
há por aí pedaços de sol e de mim virados do avesso
e se não há polícia a esta esquina é porque o não mereço