quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

TEMPERADOS VERÕES (versão não meteorológica)

I
No princípio, era um pequeno lago
com juncos e salgueiros nas orlas,
e também rãs, que, desde o início da primavera,
coaxavam noites inteiras em busca de sorte.
Aos domingos era a nossa piscina,
o nosso lugar de piquenique e de repouso,
perturbado apenas pelas moscas,
pelo seu abuso em provar o farnel exposto
e pela teimosia inata em poisarem e voltarem a poisar.
Havia também uma ponte muito velha
com gradeamentos igualmente velhos.
Não sei se por isso, já uma mulher tinha caído à água.
Outros diziam ter sido uma criança
e outros ainda que afinal fora um velho.
A sorte de quem quer que tenha sido é tão confusa como a notícia.

No princípio, como disse, era um pequeno lago
com peixes e cobras de água em permanente bailado subaquático.
Mergulhávamos naquelas águas durante toda a manhã
e um pouco à tarde, depois da digestão.
Já completamente exaustos, enxugávamos ao sol
– nossa toalha de banho –
Em suma, no desconhecimento absoluto do que faltava de mundo,
o pequeno lago foi o ideal de vida,
a única viagem de sonho a cada domingo de verão.
Entretanto crescemos.
Fizeram umas barracas de madeira
para venda de comidas e bebidas onde antes nos rebolávamos,
construíram uma nova ponte em betão,
mas permanecem os juncos e os salgueiros e os batráquios também.
Disseram-me que estava tudo muito turístico.
A propósito: na verdade, o pequeno lago é um rio, um pequeno rio,
afluente do Tejo, mas isso não tem importância nenhuma.


II
Um dia o meu pai queimou as costas e foi uma tragédia.
Ele queria somente aproveitar o sol,
que era uma dádiva de domingo.
De início foi apenas um escaldão
mas à noite é que foram elas.
Gemeu, contorceu-se com dores,
e ainda hoje tenho as minhas dúvidas
quanto ao suor que lhe ensopava o rosto:
ele não queria desvendar as lágrimas,
e muito menos aos filhos, mas penso que chorou e não foi pouco.
Durante uma semana tememos ficar sem pai,
– que nunca tínhamos visto acamado durante o dia –
mais pela presença diária do enfermeiro, que fazia o curativo,
que pela continuação dos queixumes.

Mas esta espécie de catástrofe familiar
depressa foi debelada e tudo voltou ao normal.
O esplendor do pequeno lago ou o rio, como mais tarde soubemos,
nunca foi beliscado.
Apesar de tudo, sempre nos lembrámos
daquele lugar de salgueiros e juncos, de rãs,
de peixes e cobras de água dançarinos,
como um sítio aprazível e fresco,
com águas transparentes até onde havia pé,
como era impossível em qualquer outra parte do mundo.

III
Ainda não havia achigãs.
Surgiram mais tarde e em grande quantidade.
Comiam tudo o que mexesse.
Pescavam-se bogas e barbos,
que mordiam o anzol atraídos por uma larva branca,
concebida de propósito,
e também ela condenada ao passatempo dos pescadores de fim-de-semana.
Para estes, os nossos divertidos mergulhos
ou mesmo as nossas chapinhadas eram motivo de censura:
assustavam os peixes, afastavam-se e já não picavam.
A realidade é que havia espaço para todos:
a malta tomava banho e eles sempre filavam peixe.
O regresso a casa era à tardinha, que é como quem diz,
quando o sol mudava a cor para descer e se enterrar no chão,
ao longe, e arrefecer como nós, à custa duma brisa fresca,
implacável, a anunciar o fim do dia.
Mas o pequeno rio não era esquecido:
dormia connosco essa noite e a seguinte e outra ainda,
e mesmo que o quiséssemos ignorar,
o latejar das peles quase pueris,
os tufos de areia nos bolsos e bainhas
e o anseio pelo próximo domingo, eram lembranças bastantes.
A água deste rio ainda hoje corre nos meus sonhos.