quinta-feira, 11 de outubro de 2012

MAR IMERSO


Vai batendo o mar da calmaria:
pesado, embate nos rochedos e deixa n’areia
plúmbeas manchas de azedume
e cólera que o seu fundo descobre pouco a pouco,
sedento duma brisa que o acorde e solte
em ondas sucessivas, em maré-cheia e ondas de feição.

Algum sal paira em círculos à superfície, não o bastante…
Falta o vento, falta o vento!



quarta-feira, 10 de outubro de 2012

SEMENTES DE FOGO


Prescreveram todos os frutos; apodreceram!
Pior: quem se atrever a mastiga-los
morrerá logo ali corrompido de veneno imundo.

O pomar proscrito à nascença incendiou
de insolação, desfez-se de águas torrenciais,
enlouqueceu de suplícios em tempo de branduras.

Onde estão os frutos sãos, que tenho fome de os ver?
Que viveiro foi a louca morte das sementes?
Que paraíso é este de águas mornas?

Que resta agora por incendiar senão o coração dos homens?

domingo, 7 de outubro de 2012

ÁGUA, UMA AUTÓPSIA

Analisada a composição, em suma:
duas moléculas de hidrogénio
para apenas uma de oxigénio,
é água, sem dúvida nenhuma.

Pelo ar dolente dá para ver,
sofreu maus tratos e escravidões,
espargida por mil religiões,
contabilizada em deve e haver.

Desperdiçada, mal compreendida,
acolheu aqueles, que ao naufragar
lhe rogaram pragas de arrepiar.
Foi tudo na vida, tudo em vida.

Acarinhada no desvio ou conduto,
teve amores também entre o povo
hoje aqui, depois ali, sempre em recovo,
mas nunca por si, antes pelo fruto.

Tem cor esverdeada, sabe e fede
e alimentou o mundo mesmo assim,
morta-viva correndo para o fim,
a autópsia é clara: morreu de sede.



sábado, 6 de outubro de 2012

"PORTUGAL COM FUTURO"






Não se pode adormecer
na batalha p’la razão,
que hoje voltamos a ter
pelo trabalho e p’lo pão.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O MENINO

O menino disse: quero a lua
e a mãe não lhe deu atenção;
pediu pão o menino da rua
e a mãe deu-lhe o coração.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

PEQUENO INTERLÚDIO






Na seara, oiro sobre azul
parece coisa perversa,
são manigâncias do sul
dito assim ou vice-versa.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

ERA PARA TE ESCREVER E NÃO ESCREVI



O que tinha para te dizer eram uis, ais
de mim, e não os achei relevantes:
coisas miúdas, não tinha comigo vogais,
e a par sobravam-me as consoantes.

Esbocei ainda uma mão cheia de frases,
daquelas que insinuam outras, suspeitas,
e doutras que não são certezas, mas quases
e desisti por serem todas frases feitas.

Pensei: que lês tu do que eu te escrevo,
queres lá saber se morro ou passo fome!
O teu interesse não está no meu acervo,
mas lá onde haja ecos do teu nome.



segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O SOL E O SUL


Longe o sol e o sul, ambos bastardos!
Onde a seara loira, que é do pão?
Que não vejo senão veredas de cardos;
ao sul somente o sol da solidão.

A mentira é causa híbrida sem saída
deitada à terra, que se atira à cara,
seca de semente e fruto, inconcebida,
onde o sol e o sul brilhavam na seara.

Terra onde as papoilas detêm sonhos
e o sol ao sul brilhando ainda nos meus olhos.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

DOR EM DUPLICADO


A força duma lágrima de dor e mágoa
prova um lado enxuto, outro molhado
e, como o reflexo num espelho d’água,
mostra a dor e a mágoa em duplicado.

E se tal exibição é talento de ensinar,
acresce o quê à dor já conhecida?
Pode ser fiel a cópia ao primeiro olhar,
mas nunca a dor que dói repercutida!

Qual a dor mais violenta, mais doída
a que dói em nós, sabendo que é sentida
ou aqueloutra que de nós vemos reflectida?

Não é a dor de a vermos, que nos afronta
mas a que temos e sem a termos em conta,
reflectida ali nos dói mais se nos confronta.



quinta-feira, 27 de setembro de 2012

SEGUNDO POEMA DO RATO E A POESIA


Quis então ser gente, o rato.
Subiu o mais alto que pôde
e espreitou o mundo
onde é semeado, ensacado
e comido também, o trigo
e os humanos fazem versos
para se divertirem,
os guardarem em prateleiras,
depois de se alimentarem
espiritualmente.

Concluiu assim, o rato,
que uma saca de trigo
tem muito mais poesia
do que alguma vez
foi capaz de imaginar.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

PRIMEIRO POEMA DO RATO E A POESIA



O rato fez a sua obrigação.
A sua natureza de rato
ditou-lhe a sujeição, natural,
de roer a saca de trigo
e não encontrou
poesia nenhuma lá dentro,
uma estrofe que fosse.
Mas ficou satisfeito,
barriga cheia.
A poesia não enche barriga,
pensou o rato.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

POESIA u






Poesia é um sol ao canto
num desenho feito de cor
e vá-se lá saber quanto
do brilho é lápis de cor.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

POESIA o





Poesia é uma flor por nascer
e quando florir é bem-vinda,
por enquanto, é bom de ver:
não é poesia, ainda...

domingo, 23 de setembro de 2012

POESIA i





Poesia pode ser profana,
alma ou luz de uma ideia:
tanto pode ser Joana,
como, a seguir, Dulcineia.

sábado, 22 de setembro de 2012

POESIA e





Poesia é água e sal dum marinheiro,
de há muito experimentado arrais,
que transporta a lua num veleiro
e a leva branca e ilusória até ao cais.