quarta-feira, 6 de julho de 2022

AQUI HÁ GATO



O gato não foge, sou eu que o digo

vê quem passa e recolhe

ao seu lugar de sem abrigo.

 

Por condição não escolhe

o lugar por castigo,

a gato pobre ninguém acolhe.

 

O vidro quebrado é o seu postigo

e para quem o olhe

é gato vadio, não sou eu que o digo.

 

domingo, 19 de junho de 2022

SEMPRE EM PÉS


Pé de salsa pede valsa

avança o pé de dança

e a bailarina descalça

pé ante perde esperança

 

pé leve que lave o pé

ao de leve pé rapado

pé de meia é que não é

pé de atleta medalhado

 

pé de chumbo vadio

sete pés por sua vez

caminhando ao desafio

é pé de cabra o maltês

 

de pés direitos fica dito

e pés quebrados muitos

sempre de pé firme e hirto

tudo menos de pés juntos


 

segunda-feira, 13 de junho de 2022

MEMÓRIA


Secos, secos, amargamente secos,

os rios que me corriam na memória.

Às vezes o sol parecia mergulhar comigo;

às vezes o sol e a água eram a mesma coisa.

Assim, tive de abandoná-los,

para o sol deixar de me queimar as entranhas

e a água me invadir e voltar às correrias

de pedra em pedra,

roçar os salgueiros das margens e levar-me,

folha seca, até à foz.


 

terça-feira, 24 de maio de 2022

UM VERSO SURREAL


Um verso surreal desconversava

para quem o queria ouvir

e quanto mais explicações dava,

um dia destes havemos de lá ir.

 

-Impossível, berrou o verso alterado,

isso não faz qualquer sentido,

não sou lá visto nem achado

e o mais certo é ser excluído.

 

Feitas as pazes, o surreal entrou no texto.

Primeiro a medo e mais tarde contrafeito…

- Ficas num verso mudo, dentro do contexto

e que te faça muito bom proveito.

 

Amuado, a um canto da improvisada estância,

pergunta aos demais e nenhum lhe responde:

aqui ninguém me dá qualquer importância;

posso ir lá também, mas aonde, aonde?


 

sábado, 14 de maio de 2022

AVENTURAS DE UM PARDAL


Um pardal entrou-me pela janela,

assim num volteio ou golpe d’asa,

encarou-me e voltou a sair por ela

por não saber que estava em casa.

 

Furtivo, a explorar a minha ausência,

parceiro de migalhas a todo o custo,

mas nem um miolinho de pão, paciência,

e nem eu nem ele ganhámos para o susto.


 

sábado, 23 de abril de 2022

ABRIL DESCONCERTANTE

 


Estão aí?

Queria dizer-vos uns versos sobre Abril.

Posso?

Serão ainda capazes de ouvir até ao fim?

São demasiadas perguntas, bem sei,

mas é só porque estou a evitar ser maçador,

complicar o que é simples

e sobretudo sem ofender pessoas de bem.

Além do mais há coisas que não se devem dizer,

não é? Entre quatro paredes, vá que não vá,

mas publicamente convém que nos autocensuremos.

Só para não criar mal entendidos, claro.

Os versos que vos queria dizer

também não têm aquela importância de maior.

Feitas as contas, calaram o que outros por vós fizeram

e por cá sempre me disseram que coisa mal ganhada

água a deu; água a levou.

Os versos que vos queria dizer sobre Abril

são assim muito simples: façam outro, se forem capazes;

este está cheio de erva daninha e cravos poucos restam.

Além do mais, o que é de Abril não floresce em Novembro,

como vos contam aqueles de pesados saberes.

Abril é o futuro com um cravo vermelho na mão, ouviram?

Isto não é uma novidade; é apenas para lembrar,

não vá morrer-vos na memória o que definha nas palavras.


terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

DO POUCO QUE SABEMOS


Como bem sabemos a Lua não dorme:

passa as noites em branco, faz meia

com a madrugada e, se por instantes some,

é por algum anjo descalço que ali passeia

e se interpõe, cuidando que é transparente.

 

Os anjos andam descalços como bem sabemos:

têm asas com penas e muitas penas desasadas.

Tudo somado são eles, nem mais nem menos,

que trazem a Lua por nuvens mal paradas

dia e noite, com sobressalto para toda a gente.

 

As nuvens amedrontam do nosso olhar para elas,

que não são, como sabemos, aterradores castelos.

Abrem as cortinas, mas não são senão janelas,

ou melhor, são do céu à terra, viajantes paralelos,

que tanto levam sumiço como entornam de repente.


 

domingo, 30 de janeiro de 2022

ÀS VEZES UM MAR


Há dias em que um mar em mim se revolta;

outros, em que adoça como um favo de mel…

Há dias em que o mar que invento à solta

não é mais que um rascunho em papel,

 

seco, sedoso embora, mas seco como palha.

Banha-me falsamente, cobre-me de iodo,

faz-me naufragar quando calha

e atira-me contra as rochas de mau modo.

 

E o mar sou eu, quase nunca navegável,

à vez revolto e calmo; denso e transparente,

que tanto pode sublevar-se como ficar estável,

próprio de sermos mar e sermos gente.


 

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

PÁSSARO EM CANTO


Canoro

o pássaro encanta

e eu adoro

o que ele canta

 

sem partitura

canta de improviso

cada aventura

sem aviso

 

maestro de si

e de mim que o imito

do-re-mi

e repito e repito

 

o pássaro encanta

é ave canora

mas eu não sei se canta

ou se chora

 


 

sábado, 1 de janeiro de 2022

DAS PALAVRAS


Gosto da palavra

sem mente como

brisa

breve

bravo

gosto da palavra

semente porque

nasce

cresce

vence

gosto da palavra

somente se me

ocorre

corre

e morre

nem tanto se

mente


 

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

NADA DE NADA


Não vou dizer-te nada que não saibas

ou que não queiras.

Não tenho atrevimento para te inquietar

e construir contigo uma realidade que não vês.

Não vou dizer-te absolutamente nada,

por ser escusado e não faltar quem te minta.


 

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

À CHUVA


Às vezes chove e eu vejo essa água molhar-te,

impiedosa. Na cidade é assim: a chuva molha

cruelmente as pessoas, desfigura-as

até se confundirem com a desumana chuva.

 

Aqui, na horta que frutifica na minha memória,

é uma bênção. Podia chover o ano inteiro,

que seria sempre bem-vinda a água. E mais não digo,

enquanto não estiver completamente enxuto.  


 

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

CACOFONIAS


Ela lá e ele, do lado de cá,

disse olá.

Fez eco lá; ouviu ela acolá.

É boa, olá lá.

 

O constant’ hino

tocado sem destino

troca o tino

do cretino, a’rmar ao fino:

 

(“lavamos catandirrindo

levados, levados, sim…”)

 

Dirão na morte a perda,

oh morte inesperada!

De mim ninguém m’herda

Nada!


 

sábado, 27 de novembro de 2021

ハイカイ



Fogo-fátuo

é fumo consumido

- a labareda morta.

 

Um clarão, nada

mais que um lampejo

extinguindo-se.

 

Chama efémera

chama-me e

arde-me, ateia-me.

 

Cinzento é tudo

o que arde dentro

por dentro.

 

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

O CICLO DO NATAL


Que há de novo nesta quadra

de requentado néon intermitente?

Um vaivém de gente

e é costume ser mais nada.

 

Neste exórdio, que afinal deu igreja,

o negócio permanece intacto:

todos iguais mas, de facto,

há sempre carvão e carqueja.

 

Uns, castanha assada; outros, só o fumo;

fitas, laços, vitrinas de desejo.

- A avó manda-te um beijo.

Porta-aviões do consumo.