segunda-feira, 24 de setembro de 2012
POESIA o
Poesia é uma flor por nascer
e quando florir é bem-vinda,
por enquanto, é bom de ver:
não é poesia, ainda...
domingo, 23 de setembro de 2012
sábado, 22 de setembro de 2012
POESIA e
Poesia é água e sal dum marinheiro,
de há muito experimentado arrais,
que transporta a lua num veleiro
e a leva branca e ilusória até ao cais.
de há muito experimentado arrais,
que transporta a lua num veleiro
e a leva branca e ilusória até ao cais.
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
POESIA a
Poesia é uma ave-do-paraíso
que me faz a corte, me algema
e, exuberante, quando épreciso,
vai pousar no galho dum poema.
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
DETRÁS DUMA MOUTA ESTÁ OUTRA
Com a ninhada para alimentar
o coelho está seguro na mouta
com a batida a começar
é lá que, seguro, se acouta.
Mestres da arte da mentira,
exibem-se, sazonais, alternativos.
No fim, o que um dá outro tira
e pedem graças por estarmos vivos.
Mas as contas fazem-se no fim
- vai no meio a procissão -
sem lugares para os assim-assim,
veremos quem tem razão,
se o bando de bufarinheiros,
troca-tintas, agiotas, malteses,
judas por trinta dinheiros
ou somos nós, portugueses.
terça-feira, 18 de setembro de 2012
SINOPSE
(Notas para a descodificação política e outras novidades da mentira de lei)
Os ministros embebedam-se com a própria incompetência,
vomitam decretos-lei com borras da adega de trinta e três.
Aprendizes sábios do virtuoso beirão, por equivalência,
preparam-se para abrir a nacional taberna pela segunda vez.
Os ministros dão públicos ares duma alucinação estranha
e pronunciam cifradas línguas bárbaras neoliberais:
comportam-se como súbditos da estrangeira Alemanha
e, em vez da fala humana, grunhem como os animais.
Não queremos a sua morte, lutamos pelo degredo eterno,
para que vão purgar tais vícios nas labaredas do inferno.
domingo, 16 de setembro de 2012
OFICIAL E PALHAÇO
Igual, mais traço menos traço,
nariz redondo e vermelho,
não pode mentir-se a um espelho,a tua cara é de palhaço.
Teatral, a quem queres agradar:
aos que te garantem manchete
ou àqueles que tiraram bilhete?
É que a ambos nem pensar.
Segue a imagem, passo a passo:
faces, boca e olhos maquilhados,
capazes de enganar os menos avisados.
Aparentemente és um palhaço,
assim te vês, é o que se vê.
Por ofício um vulgar faz-tudo,
por missão um mentiroso sortudo.
Vejo que és ministro, mas de quê?
Vejo o estupor e o riso de desdém.
Vejo que és ministro, mas de quem?
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
SEM QUALQUER IMPORTÂNCIA
Mortais de ciência exacta
e filosofias respeitáveis,
enquanto vivos. O que mataé sermos assim, beliscáveis.
Beliscáveis de vário sentir
de famosos a sem nome:
uns, expiram a fingir
e os demais morrem de fome
legalizada, constitucional.
E até aqui nada de novo;
nada para além do normal.
Em caso de urgência, estorvo
ou belisco orçamental,
pode trocar-se de povo.
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
ENQUANTO É TEMPO
O nervo que delimita o bom senso tende a estalar.
O osso, a veia ou víscera (se os há nesta função)
há muito que reclamam, em alta voz, de aí estare as análises dizem que é tempo de mudar a prescrição.
O diagnóstico é perfeito. Os sintomas, tudo indica,
podem contagiar rapidamente qualquer um
que ignore o mal e que, sentindo a dor, se fica,
pois é padecimento de condição e é comum.
Erradicar o vírus é assim a proposta mais sensata:
não é do nervo, do osso ou veia, mas da conjuntura
e a desfortuna que nos corrói, destroça e mata,
não reside na enfermidade mas sim na cura.
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
SUICIDÁRIO
Por enquanto aguenta,
está na ribalta,
celebra, desdenha, inventa:doutros seja a falta!
Está em alta,
incha e “se não faz rebenta”.
Vontade não lhe falta,
mas retém, aguenta.
Quando incapaz, tenta
a montanha mais alta
e, em câmara lenta,
de asas gastas, salta.
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
AS DORES DO MUNDO
Dou por mim doendo-me o corpo todo
de azias várias e de queixas mais de mil,
muitas vezes areia grossa, outras lodo,outras são de malignidade mais subtil.
Não me dói a dor, mas a sua causa;
dói-me a dor que a dor sustenta:
começa grave, insinuada, faz uma pausa
e entranha-se, aguda, que não se aguenta.
Dói-me em cima, em baixo e ao centro,
suspeito que levo todo o mundo dentro…
terça-feira, 4 de setembro de 2012
ONDE A TERRA ACABA
O mar, por tentativas
escala furioso a escarpa,
encharca, corrói o mapaem vagas sucessivas.
É a vez do mar
submeter, insano,
feito oceano
e se aventurar.
Deuses, monstros e mitos
dormem na praia agora
para quem clama e chora
p’la senhora dos aflitos.
Ó mar de medo e águas frias,
sepultura e estrada
que acolheste as caravelas
- não aos homens mas a elas –
se nada vem do nada
que fazemos às alegorias?
Que nos reclamas, insurgido mar,
que queres dum povo
prestes de novo
a embarcar?
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
ÉLUARD/APOLLINAIR
As estatísticas revelam que a France Presse
e mesmo a Reuters te citam apenas uma vez
por cada duas em que comentam ou evocam Apollinair,meu caro Paul Éluard, ou Grindel, como quiseram
que fosse o teu nome de família.
As estatísticas só servem para indignarem
aqueles que gostam de ti,
talvez porque não queiram arrebatar à morte
a tua visão da vida, e tu deixaste de gritar
no ano em que eu nasci, há sessenta anos, Paul.
O teu combate, a tua dor, a tua voz e o teu amor
nos versos que me debruavam os lençóis
de adolescente sobrevivem ainda hoje
na minha memória crítica e lúcida como os teus versos.
sábado, 1 de setembro de 2012
O LUGAR DAS COISAS
Gedeão podia ter dado mais à poesia
e foi um bom professor de físico-química;
podia ter sido um inigualável professor de físico-química
e foi um poeta toda a sua vida.
Jorge de Sena é que não devia ter prefaciado
a sua obra completa e bastar-se com ser Jorge de Sena,
que era já bastante.
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
OUVIR OVÍDIO
Ovídio Martins vive em silêncio
dentro de cada verso seu.
Mora aí na ponta de praia desde o ventrede sua mãe, soterrado por mil ou dez mil poemas
mestiços, tanto faz.
Quem lhe tirou o som do mar, até o de Pasárgada,
não sabia que um poeta ouve com o coração,
o imbecil carrasco.
Sentado na esplanada da pracinha
escrevia versos em guardanapos de papel
e Santiago amanhecia num poema
debruçado sobre as grades que separam o Atlântico
mar, prisão e liberdade, do mundo silencioso à sua volta.
Subscrever:
Mensagens (Atom)














