quarta-feira, 4 de março de 2026

EPÍSTOLA AOS INCAUTOS


Naquele dia, o lobo calçou meias de lã

e atou-as ao dorso para que não caíssem.

Em seguida juntou-se ao rebanho de ovelhas,

que ali pastava, exibindo o estranho traje. 

 

Para seu regozijo, as ovelhas aceitaram-no

como um dos seus e ali conviveram por um tempo.

Alguns dias passados, as ovelhas começaram

a desaparecer, a desaparecer, até restar apenas uma.

 

A derradeira ovelha, entretida a pastar,

questionou o lobo sobre a rezão do estranho desaparecimento,

ao que o lobo, fingindo-se alheio, respondeu

que teria sido o carneiro a retê-las em algum lugar.

 

No dia seguinte, o lobo comeu a ovelha sobrevivente,

como fez com as restante desaparecidas.


 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

MONÓLOGO



 

Talvez dissesse sem saber

ou soubesse sem ter dito,

é a língua que arde sem arder

num corpo cheio de infinito.

 

Digo aos soluços ou a fio

o que me soa e tem de ser dito,

a verdade que a sós confio

num corpo cheio de infinito.

 

Vem a chuva e calo, não me atrevo,

ensopado de palavras, dito

de novo calendário e outro acervo,

num corpo cheio de infinito.


quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

CHUVA E VENTO - AS CAUTELAS



A chuva cai lá fora,

aqui não se dá por ela,

na rua o tempo chora

e lacrimejam as janelas.

 

(E se a chuva não caísse

e se a janela não chorasse,

que diríamos nós, que chatice;

que faríamos se o tempo mudasse?)

 

Mas a chuva cai, é tempo dela,

não há como contrariá-la

e se entrar frio p´la janela,

o melhor é calafetá-la.

 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

CORAÇÃO


Coração de pedra dura,

pedra dura sem emoção,

dura a pedra, dura,

só não dura o coração.

 

E o coração mole, brando,

o amargurado, o trapalhão;

órgão que vou levando

e vou chamando coração.

 

E o coração derretido,

que sangra completamente

sem fazer qualquer sentido

de amar perdidamente.

 

Finda o coração partido

e porque parte ninguém sabe.

É por quebrar ou ter partido

ou conter amor onde não cabe.

 

Ai coração, que voltas dás

sem deixares de ser coração.

Às vezes nem sei onde estás,

outras se estás ou não.