segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

VOLTO AOS VELHOS CAMINHOS



Do pomar trouxe todos os frutos que encontrei:

uns são poemas, gomo a gomo;

dos mais doces jazem cascas de laranja…

 

Ah! Por fim abri os braços, respirei;

acordei finalmente de prolongado sono

e disse para os meus botões: desta fruta já não se arranja.

 

Comi dos frutos, pois, que melhor pudera?!

Camisa aberta, alma consumida,

mais não tinha nem mais me era dado…

 

Fez-se manhã de inverno, escura era,

que a noite ao vê-la lhe deu a própria vida

e me salvou a mim e ao braçado de laranjas então roubado.

 

 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

UM VELHO SOM


Um som já velho, reciclado,

vira o disco,

não sei onde ouvi isto.

 

Fede. Velho e relho, insisto,

percorre o tubo enviesado

este som antepassado.

 

Que som este, estafado,

de notas falsas, um misto

de purgatório e Jesus Cristo.

 

Como a sensação do já visto:

na música o mesmo fado

e na letra o caldo entornado.


 

sábado, 16 de janeiro de 2021

SERENIDADE


A serenidade é um urso na primavera,

que depois do sono, do sonho de urso,

tem sangue-frio e espera

que a vida siga o seu curso.

 

Essa é a serenidade que conheço

se outra existe, com outro nome,

terei de voltar ao começo,

admitir que o urso tem fome.

 

Acorda, urso! A vida não é eternidade,

e deixa por agora a serenidade!


 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

A VER SE NOS ENTENDEMOS


As coisas não são assim:

toma lá, dá cá;

duas para ti, duas para mim

e o assunto fica como está…

 

Não: é preciso que se entenda

o deve e o haver,

não fiques tu com a encomenda

e eu, como sempre, a arder.

 

Vamos por partes:

ao fim de tanto barulho,

(não te descartes),

que trazes tu no embrulho?!

 

- Rosas, senhor…

- Valha-me a santa da Agrela!

Tanto alarde, milagre de tal clamor,

só me faltava agora cair nessa esparrela!

 


 

sábado, 9 de janeiro de 2021

MARÉS


Grande novidade era o mar,

o que outrora foi esperança

da aventura de navegar

foi o meu sonho de criança.

 

Ondas - tinha-as alterosas –

diziam. Outras de apanhar à mão;

umas como os espinhos das rosas,

outras como bolas de sabão.

 

Primeiro foram trilhos e vento,

mistérios, desassossego, ficções,

mas para mim, deslumbramento

pago em banhos e escaldões.

 

Não é o mesmo este mar antigo,

igual para toda a gente:

um exultante, que vinha ter comigo

e outro rancoroso e indiferente.


 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

DA CABEÇA AOS PÉS


Irrequietos que eles são,

abrem caminho a passo

como o bater do coração,

batendo sempre a compasso.

 

E não cessa o caminho

que vão fazendo ao andar,

a toda o gás ou de mansinho,

caminhando sem parar.

 

Galgando a vida inteira,

pé ante pé ou pezudo,

pezinho de lã, de veludo,

não tem fim esta canseira.

 

E apesar desta andança

(pé que anda e tropeça)

perdem o pé e a esperança,

pois quem anda é a cabeça.


 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

ESPERA


É escusado chamarem-me, que eu não vou,

não saio daqui. O Inverno tem-me ocupado

por algum tempo (por enquanto não nevou)

mas este frio é como se tivesse já nevado.

 

Virá talvez a chuva, agrava a disposição:

nada de horrores, apenas preocupações minhas,

lastros de um ano mau, de um tempo em vão,

não vou tardar, deixem vir primeiro as andorinhas…

 


 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

PLÁTANO

O velho e robusto plátano cedeu enfim

a sua última folha rosada deste outono.

Deixou-a no triste adeus de abandono;

ficou a árvore, perjurando a morte; o fim.

 

Não cede a árvore pela mão da natureza 

mais que as folhas consumidas, outonais:

cede ao tempo, a invernias e vendavais,

nessa luta mais não dá, mais não despreza.

 

Dos galhos secos, agora desfolhados,

despontarão flores e frutos renovados

e o seu esplendor voltará com então era:

 

Será de novo a sombra dos desabrigados,

exemplo de robustez e porte elogiados,

não agora: só quando voltar a primavera.


 

sábado, 26 de dezembro de 2020

ÀS VEZES UM MAR


Há dias em que um mar em mim se revolta;

outros, em que adoça como um favo de mel…

Há dias em que o mar que invento à solta

não é mais que um rascunho em papel,

 

seco, sedoso embora, mas seco como palha.

Banha-me falsamente, cobre-me de iodo,

faz-me naufragar quando calha

e atira-me contra as rochas de mau modo.

 

E o mar sou eu, quase nunca navegável,

à vez revolto e calmo; denso e transparente,

que tanto pode sublevar-se como ficar estável,

próprio de sermos mar e sermos gente.


 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

LUSA GENTE



Aquém da lágrima, longínqua Taprobana,

Que nos resta de tão intrépidas aventuras,

Senão à luz de velas, a pobreza franciscana

Que ilumina ainda a gesta de tais venturas,

Mitos, lendas, que são da competência humana,

Como é o trabalho insano e as demais agruras,

Aqui fomos ficando, o mar desfeito em sal,

Neste reduto magoado a que chamamos Portugal.




 

domingo, 20 de dezembro de 2020

A CAMINHO, SEMPRE


Simplificar, omitir, o mesmo é tomar atalho;

andar às voltas como as pás de um moinho

(e tal não é para desfazer do seu trabalho),

serão de quem tiver esse trilho por caminho.

 

Nunca estarei tão longe, que não fique perto

de onde quero estar, mas jamais parado:

o caminho é sempre longo e nem sempre certo,

mesmo que o perto e o longe morem lado a lado.


 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

GLOSA DO TEMPO



Primeiro vieram os comentadores desportivos

mas como o desporto para mim é para praticar

e não para dar à língua, nunca lhes dei atenção.

Ainda as chuvas davam os primeiros sinais

de mudança climática e aí se perfilavam

os comentadores da seca. Nada faziam,

apenas gastavam saliva e ameaçavam com a extinção

do planeta para o dia seguinte, para a década seguinte.

Quase todos queriam notoriedade e não os quis ouvir.

Depois vieram os comentadores de incêndios florestais:

almanaques de contrafogo e ordenamento territorial,

que nunca saíram das gavetas. As suas vozes queimavam

e eu ardia em impaciência ano após ano.

Finalmente chegaram os comentadores da pandemia:

conhecem o vírus, as línguas que ele fala;

elaboram estatísticas e mapas cromáticos, confinam-me.

Tentei inteirar-me o mais que pude e entrei nos sins e nos nãos

do comportamento aconselhado… e depois banido.

Agora é tarde e todos os poros do meu corpo se arrepiam de medo.

Integro uma lista algures que não conheço.  




 

sábado, 12 de dezembro de 2020

AS COISAS POR DENTRO



As coisas por dentro,

de tudo o que tem fora

são, digamos, o centro,

a alma de quem lá mora.

 

Vide, em formato digital,

qual colonoscopia,

a árvore de Natal

na Devesa, em plena pandemia.

 

E talvez dissesse O´Neill

desta e de coisas tais,

por dentro ou e perfil

para todos “bons natais”…


 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

ÁRVORE DE NATAL


A ventania de ontem à noite

tombou uma azinheira centenária, em frente da minha casa.

O fôlego da tempestade,

em contraste com o seu já débil alento, 

foi superior às suas forças. Respirava ainda quando a vi:

arrastando a ramagem

e os escassos frutos no chão molhado,

suplicava o impossível conserto da sua coluna vertebral.

Não chorava – tanto quanto eu pudesse perceber – suplicava

a mão, o gesto ou apenas o olhar

a quem sempre a julgou eterna e eterna haveria ser

depois de nós e ainda dos que viessem.

Com um dos ramos tocou-me ao de leve.

Pareceu-me uma carícia, um aceno

ou o desejo de lançar nova raiz,

agora que a morte tornava inevitável a remoção.

Aceitei o ramo como presente.

A velha azinheira ofereceu-me a sua eternidade. 


 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

DAR A MÃO


Por vezes dávamos as mãos e tínhamos prazer

na mão que abraçava a nossa, quente ou fria,

que nos alterava o sentido ao movimento,

ao arrepio do corpo, aos hábitos da alma.

Por vezes dávamos as mãos e o sangue corria

de uma para outra mão, como se os corpos unidos

fossem uma alma só, um fluido de ilusão

adormecido nos dedos, nos medos da criação.

Por vezes dávamos as mãos e tínhamos prazer.