Caminhar
ou fingir fugindo
o mundo está submergindo
em qualquer lugar
andar por andar
não é solução
haverá outra razão
passo a passo caminhar
depressa ou devagar
passo certo
longe ou perto
haveremos de lá chegar.
Caminhar
ou fingir fugindo
o mundo está submergindo
em qualquer lugar
andar por andar
não é solução
haverá outra razão
passo a passo caminhar
depressa ou devagar
passo certo
longe ou perto
haveremos de lá chegar.
Escurece. A chuva faz-se anunciar, que seja pedra.
O passado é o presente a preto e branco
e recuso viver nesta harmonia meteorológica.
Antes o lume, a labareda que incendeie
por dentro da pele e deixe as consciências inquietas,
que não esperem pelas janelas escancaradas do futuro.
Tudo é sim e não no vasto mundo
e tudo se molda e acostuma:
um grão de areia, no sentido mais profundo,
é tudo e coisa nenhuma.
O muito é pouco de quem tem;
o nada, que é uma porção de coisa pouca,
uma arma carregada de mal e de bem,
que dispara para matar à queima-roupa.
Poesia é um céu azul permanentemente,
excepto, por genuíno feitiço,
se revolta cotra a corrente
sem o poeta dar por isso.
Quando tudo acalmar, o verso e o poeta,
é que se verá a fantasia
na sua forma mais concreta,
se o verso se transformar em poesia.
As oliveiras nunca morrem;
nascem para ser eternas, como estrelas.
Quando as oliveiras se forem
saberemos da nossa morte com elas.
Ainda assim, acenderemos lanternas,
dizem, em sua fátua lembrança,
talvez em covis ou em cavernas:
toquem os sinos, siga a dança.
Branco, imóvel, ali exposto à curiosidade,
bem-parecido, pelo que dizem agora,
já não brilha, é certo, perdeu o lustro com a idade,
uma perda, uma pena ir assim embora.
Mesmo assim, uma espécie de sorriso
envolve-lhe o rosto macerado por melhorias
de última hora, para lhe garantir o paraíso,
que tarde chegaram às suas faces frias.
Perdidas as emergentes oportunidades,
arrefeceu, tornou-se inútil companhia,
mas não chorem agora, nem toquem as trindades,
a morte é um momento, até um dia.
Devolvido à terra, desce vagarosamente
até onde o chão consinta e guarde
e aí fica inerte, que a si mesmo se consente,
morto de versos enquanto a alma arde.
Rosto sereno, sem deixar transparecer
mágoa, dor, sequer malformações do esqueleto,
uma obra prima que a terra há de comer,
simétrico, fazendo inveja a um soneto.
Jaz então. E ainda assim, fingindo a morte,
para que os amantes chorem à vontade
e os falsos juízes, ao jogo, tirem à sorte
os quadros de honra da eternidade.
Naquele dia, o lobo calçou meias de lã
e atou-as ao dorso para que não caíssem.
Em seguida juntou-se ao rebanho de ovelhas,
que ali pastava, exibindo o estranho traje.
Para seu regozijo, as ovelhas aceitaram-no
como um dos seus e ali conviveram por um tempo.
Alguns dias passados, as ovelhas começaram
a desaparecer, a desaparecer, até restar apenas uma.
A derradeira ovelha, entretida a pastar,
questionou o lobo sobre a rezão do estranho
desaparecimento,
ao que o lobo, fingindo-se alheio, respondeu
que teria sido o carneiro a retê-las em algum lugar.
No dia seguinte, o lobo comeu a ovelha sobrevivente,
como fez com as restante desaparecidas.
Talvez dissesse sem saber
ou soubesse sem ter dito,
é a língua que arde sem arder
num corpo cheio de infinito.
Digo aos soluços ou a fio
o que me soa e tem de ser dito,
a verdade que a sós confio
num corpo cheio de infinito.
Vem a chuva e calo, não me atrevo,
ensopado de palavras, dito
de novo calendário e outro acervo,
num corpo cheio de infinito.
A chuva cai lá fora,
aqui não se dá por ela,
na rua o tempo chora
e lacrimejam as janelas.
(E se a chuva não caísse
e se a janela não chorasse,
que diríamos nós, que chatice;
que faríamos se o tempo mudasse?)
Mas a chuva cai, é tempo dela,
não há como contrariá-la
e se entrar frio p´la janela,
o melhor é calafetá-la.
Coração de pedra dura,
pedra dura sem emoção,
dura a pedra, dura,
só não dura o coração.
E o coração mole, brando,
o amargurado, o trapalhão;
órgão que vou levando
e vou chamando coração.
E o coração derretido,
que sangra completamente
sem fazer qualquer sentido
de amar perdidamente.
Finda o coração partido
e porque parte ninguém sabe.
É por quebrar ou ter partido
ou conter amor onde não cabe.
Ai coração, que voltas dás
sem deixares de ser coração.
Às vezes nem sei onde estás,
outras se estás ou não.
O fogo, ainda fogacho, nasceu em umas palhinhas deitado. Enjeitado à nascença – crê-se que fruto de um qualquer descuido – teve que fazer-se à vida sozinho e pelo seu pé.
Enquanto jovem foi uma graça: brincava com carumas
espalhadas na floresta, folhas secas e, mais tarde, com fósforos, que acabavam
por perder a cabeça de tanta brincadeira.
As pessoas acharam-lhe graça, chegando mesmo a louvá-lo
em festas e romarias em honra de santos padroeiros, carnes assadas e vinho.
Saltitava, ora à frente, ora atrás das procissões,
brincava em lanternas improvisadas que os anjinhos faziam erguer em acção de
graças, graças ao fogo que nunca se cansava de arder, pois era o que melhor
sabia fazer, ou melhor, a única coisa que aprendeu a fazer, por via das pessoas
cujo ensinamentos não tinham para dar e se limitavam ao leviano deixa arder.
Fruto de más companhias, diziam, chegou a participar em
guerras, dominando os oponentes, de quem lhe dissesse que eram os oponentes. A
água era o seu inferno, o resgate da sua alma.
E pronto, adulto já todos o conhecem: ficou enorme, quase
sempre anónimo e agora podem soprar à vontade, que já lá não vai com paninhos
quentes, salvo seja.
(De)terminando o último capítulo,
com a morte na algibeira
para uso eventual e indesejado,
dei comigo a pensar a cores.
Pensei num qualquer presságio,
desses que ocorrem por avistamentos
ou indigestões avulsas, mas era o arco-íris,
tão inesperado e efémero como sempre.
Do poema não espero nada;
nada, longe vá o agoiro…
mas da essência da poesia esperada,
dessa quero todo o seu oiro.
Metediços, os versos alcoviteiros
espreitam à tona, espiando a obra
e por fim remetem-se aos canteiros
da folha morta que enfim sobra.
Aborrecem-me rimas e brancas,
subir e descer os versos perfilados:
- Poesia, porque não estancas
as veias aos versos fracassados?
Vivo de maleitas e penas,
também de alegrias fugazes;
lutas, gritos e novenas
e assim faço
comigo as pazes.
São tantas e tais as penas,
que nem me atrevo a contá-las,
das maiores às mais pequenas,
todas são pedras e balas.
Apesar disso tenho flores
vermelhas de anos transactos,
hoje lembranças e rumores,
mas a maioria são cactos.