sexta-feira, 18 de junho de 2021

SEM NOVIDADES


Novidades que aqui se possam anunciar,

nem uma, por rara que pareça ser.

Há uma chuva por aí, que alguns gabam

e outros de fastio se queixam.

O mesmo de sempre.

Vivemos neste intervalo entre o amor e as trovoadas.

O mesmo de sempre.

É aqui que nos sentimos bem; onde coaxamos,

sempre que a água permite

e o amor nos faz tenores em pleno charco. 


 

segunda-feira, 14 de junho de 2021

O MONTADOR


Há quem monte por gosto

e por montar:

não tem sinais no rosto

nem botas de cavalgar.

 

Podendo montar a eito

roda a monta, roda a festa,

sem se dar por satisfeito,

seja qual for a besta.

 

Monta quem bem entender

e, para memória futura,

afinal quem monta a valer

é a própria cavalgadura.

 


 

quinta-feira, 10 de junho de 2021

COCOS E BACOCOS


Ora agora, adeus!

já não há cocos

e quem os tem chama-lhes seus;

restam os bacocos.

 

Os bacocos

em linha

esperam os cocos

no alto da pinha.

 

Olha o coco, diz o bacoco,

parece um novelo.

Disse o bacoco, mas o coco

nem vê-lo.


 

terça-feira, 8 de junho de 2021

A IMPORTÂNCIA DAS PEQUENAS COISAS


A ravina do olhar com lágrimas,

essa mesma, a que permite a queda

do céu carregado de estrelas

sem nunca chegar ao fundo;

a ravina para onde empurro

tudo o que não quero ver ou sentir,

incluindo as lágrimas

e demais subtilezas da alma que há em mim

é onde guardo as pequenas coisas.

 

Há dias salvei de morte certa

o que restava duma folha branca

separada do bloco de apontamentos.

Escrevi um recado breve

e pu-la bem à vista de quem o precisasse.

Foi alvo de todas as atenções

durante o período activo de validade.

Depois afundou-se na ravina

do olhar com lágrimas, essa mesma,

a que permite a queda

do céu carregado de estrelas

sem nunca chegar ao fundo. 


 

sábado, 5 de junho de 2021

INDISPONÍVEL

 


Estou indisponível, hoje estou indisponível:

não subirei ou descerei a rua,

nem tomarei qualquer transporte.

As paredes gritam-me, ferem-me, insultam-me

e a rua tem uma inclinação inacessível.

Não, hoje estou indisponível,

hoje não vou seguir o trilho costumado!

Vou seguir o itinerário do sangue,

vou inquietar-me, armar-me de palavras

até aos dentes e rebelar-me!

 


quinta-feira, 3 de junho de 2021

RETRATO DE POETA



Nunca me fizeram um retrato

de poeta.

Mas fotografaram, pintaram e até esculpiram Pessoa

com o inevitável chapéu de feltro e o par de lunetas

que repartia com todos os heterónimos.

Não tenho um único retrato

de poeta.

Ao contrário de Walt Whitman,

que foi imortalizado em pose de patriarca iluminado,

velho, de barbas esgadanhadas muito além da decência      

da pilosidade poética.

A Baudelaire que era feio, fizeram-no

com certeza por maldade.

Eu é que nunca posei

enquanto poeta,

com a mão apoiando o queixo, como os românticos

ou ambas todo o rosto, como os surrealistas.

Ou será ao contrário?

 

Vá lá, por favor, façam o meu retrato

de poeta,

que não tardam aí poetas do futuro,

desejosos de escrever sobre ele um ou dois versos

dum poema magnífico. 

 

segunda-feira, 31 de maio de 2021

SONETO QUASE PARNASIANO


Tremiam com pétalas de rosa as tuas mãos

de um branco tão casto e imaculado,

que mesmo entrelaçadas, como bons irmãos

nada mais nos comprazia; nada era errado.

 

Caminhávamos pelo bosque enfeitiçado

como pombas alvas, de interesses vãos,

e afinal tão juntos, inocentes e de braço dado,

dos ramos mais sadios, frutos sãos.

 

Comedidos, como deus manda, sorridentes,

medindo frases, deixando outras entre dentes,

deambulantes fomos ao sabor da vida airada.

 

Findo o passeio, o casto passeio de inocentes,

éramos ainda simples enleio de parentes,

trementes pétalas de rosa… e mais nada.


 

sexta-feira, 28 de maio de 2021

UM DIA DESTES



O fogo já não arde como ardia; tornou-se meigo,

um enternecedor afago ou quase.

Queima por queimar, sem ímpeto, sem chama.

 

A água deixou de saciar as sedes mais antigas,

aquelas que não foram satisfeitas em devido tempo

e corre agora, salobra, entre musgos e juncos.

 

São irmãos que o tempo transformou em brandura,

que as viagens do Sol tornaram rotina.

Um dia acordarão com estrondo. A ver vamos.

 

quarta-feira, 26 de maio de 2021

EQUAÇÃO


Em prudente equilíbrio, que vai-não-vai,

vai indo, vai indo…

Em permanente equilíbrio

entre todas as coisas e coisa alguma;

entre o que nunca chega e o que já basta.

Em periclitante equilíbrio:

morto pelo início, vivendo para chegar ao fim.

E no fim são as contas, as contas à vida

em vésperas de concluir a equação.


 

quinta-feira, 20 de maio de 2021

PRAÇA DAS PALAVRAS


Uma procissão de palavras com maior

ou menor sentido, encharcadas de fé ou fértil imaginação,

caminha com devoção à frente do poema.

Alguma serventia terão. Mas não será por isso

que o céu a todas abrirá os portões de ouro e mogno

- que, sendo o céu o que é, assim deverá ser –

porque agora é tarde e faz tempo que o poema deixou a praça.

Ide, digo-lhes, por hoje é tudo,

amanhã  haverá nova safra e tudo começará de novo.

Cabisbaixas, regressam aos subúrbios da memória.

Oiço-as grazinar à medida que se afastam

porque é com elas que eu também regresso

e ao poema não importa a minha ausência.


 

segunda-feira, 17 de maio de 2021

RECADOS AO OUVIDO



Deuses e demónios zumbiam-me ao ouvido

julgando-me permeável, surdo ou distraído;

terão achado que o assunto me deixava comovido

e cuidavam fazer-me bem, o que eu duvido. 

 

Quiseram ter-me sem nunca me terem tido,

por engano ou porque lhes fosse desconhecido

e por fim, tudo apurado, mas não compreendido

concluíram que não fazia qualquer sentido.

 

Deste incidente não resultou qualquer morto ou ferido.

 

sexta-feira, 14 de maio de 2021

A LIVRE GIESTA


Quis saber o que pensa a Liberdade.

- E o que disse ela?

Maravilhas. Disse-me até, valha a verdade,

que a flor da livre giesta é amarela.

 

Amarela? – Perguntei-lhe eu,

não podia, por natureza, ser encarnada?

E foi simples a resposta que me deu:

é da cor que mais gostares, ela é giesta e mais nada.


 

quarta-feira, 12 de maio de 2021

LÁGRIMAS


Chorar de alegria

são lágrimas de poesia;

uma metáfora urdida

em tecido de cambraia,

onda que se desfaz na praia

sem conta, peso ou medida.

 

Já o choro e a tristeza

são da mesma natureza;

águas da mesma levada:

uma só lágrima vertida

tem conta e tem medida

e pesa uma tonelada.

 


 

segunda-feira, 10 de maio de 2021

POEMA DO NADA


Ontem, já noite de pijama,

deu-me para escrever um poema a partir do nada.

Meio acordado, deitado na cama,

confesso que não lhe achei grande piada.

 

Levantei-me, que a poesia assim obriga

e adora ser apaparicada,

meti qualquer coisa na barriga,

voltando depois à empreitada.

 

O qualquer coisa que é nada

(como bem sabeis) deu-lhe para tomar jeito

e já rompia a madrugada

quando concluí: nada feito!

 

Perguntam-me: se nada fiz, porque partilho,

mas tudo tem a sua razão de ser:

livro-me deste peculiar espartilho,

e de vós terei um deixa lá, vamos lá ver.


 

sábado, 8 de maio de 2021

CASTELOS NO AR


No tempo em que a neve e as nuvens eram de algodão,

assim nos parecia bem disfarçar a cândida natureza,

salpicando as árvores, os rústicos telhados e a ilusão

de alegres e pueris alvuras e tudo era elementar beleza.

 

Nesse tempo, se existiu esse tempo e nos foi comum,

havia príncipes e princesas a imitar os sonhos e a felicidade…

Rasgões nos joelhos, lanhos na cabeça de cada um,

estes sim, trouxemo-los intactos a reboque da idade.