terça-feira, 11 de janeiro de 2022

PÁSSARO EM CANTO


Canoro

o pássaro encanta

e eu adoro

o que ele canta

 

sem partitura

canta de improviso

cada aventura

sem aviso

 

maestro de si

e de mim que o imito

do-re-mi

e repito e repito

 

o pássaro encanta

é ave canora

mas eu não sei se canta

ou se chora

 


 

sábado, 1 de janeiro de 2022

DAS PALAVRAS


Gosto da palavra

sem mente como

brisa

breve

bravo

gosto da palavra

semente porque

nasce

cresce

vence

gosto da palavra

somente se me

ocorre

corre

e morre

nem tanto se

mente


 

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

NADA DE NADA


Não vou dizer-te nada que não saibas

ou que não queiras.

Não tenho atrevimento para te inquietar

e construir contigo uma realidade que não vês.

Não vou dizer-te absolutamente nada,

por ser escusado e não faltar quem te minta.


 

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

À CHUVA


Às vezes chove e eu vejo essa água molhar-te,

impiedosa. Na cidade é assim: a chuva molha

cruelmente as pessoas, desfigura-as

até se confundirem com a desumana chuva.

 

Aqui, na horta que frutifica na minha memória,

é uma bênção. Podia chover o ano inteiro,

que seria sempre bem-vinda a água. E mais não digo,

enquanto não estiver completamente enxuto.  


 

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

CACOFONIAS


Ela lá e ele, do lado de cá,

disse olá.

Fez eco lá; ouviu ela acolá.

É boa, olá lá.

 

O constant’ hino

tocado sem destino

troca o tino

do cretino, a’rmar ao fino:

 

(“lavamos catandirrindo

levados, levados, sim…”)

 

Dirão na morte a perda,

oh morte inesperada!

De mim ninguém m’herda

Nada!


 

sábado, 27 de novembro de 2021

ハイカイ



Fogo-fátuo

é fumo consumido

- a labareda morta.

 

Um clarão, nada

mais que um lampejo

extinguindo-se.

 

Chama efémera

chama-me e

arde-me, ateia-me.

 

Cinzento é tudo

o que arde dentro

por dentro.

 

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

O CICLO DO NATAL


Que há de novo nesta quadra

de requentado néon intermitente?

Um vaivém de gente

e é costume ser mais nada.

 

Neste exórdio, que afinal deu igreja,

o negócio permanece intacto:

todos iguais mas, de facto,

há sempre carvão e carqueja.

 

Uns, castanha assada; outros, só o fumo;

fitas, laços, vitrinas de desejo.

- A avó manda-te um beijo.

Porta-aviões do consumo.


 

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

POEMA ECOLÓGICO DE NATAL


Um dia destes enfeito-me de azevinho,

bagas vermelhas em cima e aos pés caruma.

Vestido assim, (a ver se adivinho):

humana árvore de Natal ou coisa nenhuma.

 

De azeviche não, (ai a língua portuguesa!)

à maneira sóbria das damas antigas,

fazendo sinal da cruz quando se sentavam à mesa

e no decote exibiam  um atado de figas.

 

Visto-me assim de vermelhos frutos,

que da natureza sou  e de vermelhos gosto

e sem vaidade digo: são gostos mútuos;

de hipocrisias basta, é nisso que eu aposto.


 

domingo, 7 de novembro de 2021

CONTA GOTAS


Uma gota que seja

e nela a água toda,

que molhe e não se veja

vai pingando, incomoda.

 

Pingue, pingue, a gota

vai alagando o chão

uma a uma não se nota

e mata e mata ou não.

 

Não mata a gota, cai,

alaga, se não mata mói

vai e vem, vem e vai

pingue, pingue, dói.

 

Já é mar faz de conta,

malvada seja, a gota,

então não é afronta

que mal se vê, mal se nota?


 

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

A LUZ E A TREVA



O candeeiro da cidade

(o mais poupado da rua)

resolveu gastar a lua

em vez de electricidade.

 

havendo necessidade

e sempre que vê a lua

logo lhe chama sua,

mordomo da claridade.

 

Mas um dia, por maldade,

uma nuvem cobriu a lua,

enegrecendo a rua,

o candeeiro e a cidade.

 

Não sei se isto é verdade;

quem mo contou foi a lua.

 

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

EFÊMEROS



Era um rio,

um rio, que era todos os rios, de águas vivas

enfileiradas ao longo do caminho.

Às vezes um barco fazendo pela vida.

Nas margens, os salgueiros

inclinavam-se; faziam vénia e aproveitavam

para refrescar na água corrente os ramos mais afoitos.

O rio ia passando

tinha mais caminho, mais água à sua espera.

Algum tempo depois, nesse ou noutro dia,

o rio teria o fim anunciado, um mar imenso

onde não haveria mais falas sobre o rio

e aquela imensidão de água não contaria

senão para morrer dentro de si com o rio na barriga.

 

domingo, 17 de outubro de 2021

CANTAR DE AMIGO


O que me mentem as tuas mãos, quando acenas?

Sei lá se te despedes com ganas ou me dizes adeus,

com ares de exuberância imitada ou apenas

fátua negaça,  se me insinuas vem ou vai com deus.

 

Tenho dúvidas, tenho por traquejo muita dificuldade

em saber  se realmente me honras e me tens em alta

ou se apenas é comum em ti dar azo à vulgaridade

de adeusar quem fica e adejar a quem já não te faz falta.

 

Cobro o mesmo: sou amigo de quem sempre fui;

não precisas de fingir, nem te exijo esse empenho

e não tenho pretensões ao que do nada nasce ou flui,

mas apenas do que de amizade  por ti ainda tenho.


 

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

FOLHAS DE OUTONO


Era a tarde do dia. Envelhecida

e gasta pelo Sol. De preguiça e sono.

Veio voando, caindo a folha amarelecida,

entre mim e o Outono.

 

Aos meus pés, a natureza morta

acenava, com serenidade, a despedida:

- Hoje bateu-me à porta

uma experimentada prova de vida.

 

Trazia o pó do caminho

(viver cria sempre esta poeira)

e aquietou-se ali, arrastando-se devagarinho,

despojada do verde-vida, uma vida inteira.


 

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

A MOSCA NA SOPA


De vez em quando

cai-nos uma mosca na sopa,

que nós vamos levando:

- Se retirar a mosca ninguém topa.

 

Nova colherada de sabor inalterado,

não reclamamos à copa

para não aborrecer o empregado

e comemos a sopa.

 

Ma virá o dia em que a sopa sem mosca

está insonsa e está fria

e então vem a revolta tosca:

- Assim nem com mosca comia!

 


 

sábado, 2 de outubro de 2021

VOU COM AS ÁGUAS



Vou na água dos rios,

nas voltas que os rios dão;

vou nas águas,

de aluvião.

 

Por vezes as águas sossegam

chapinham mansas na margem

vou com elas

sem destino e sem portagem.

 

Vou com as águas de Março;

com as de agora,

de Outono, e todas as águas que correm:

toda a água corre, toda a água chora.

 

Na levada é que me entendo,

sem barco nem jangada,

vou correndo, vou correndo,

sem pressa de chegada.