terça-feira, 9 de julho de 2024

VOCABULAR

Erradicados os majestáticos

haverá um tempo

em que todos os nomes

serão interjeições

e poderão ser chamados

com gritos e grunhidos

e todos os adjectivos, verbos

de encher.

Os pronomes serão donos

do mundo e das gramáticas,

então usadas como catecismos,

todos em maiúsculas,

mudos de nós, cuja maioria

mente ou não quer falar.

-Deixa lá ver se isto se endireita,

dizem os adjectivos.

É por tudo isto que os ditongos,

de cabeça e par perdidos

apelam à unidade da língua.


 

quinta-feira, 20 de junho de 2024

UMA GOTA DE SUOR


Precária, a gota de suor,

percorre-me a face,

segue as rugas em redor,

titubeia ante o desenlace.

 

Volteia com destino à vista

num itinerário fecundo,

de nada vai à conquista

e nada sabe do mundo.

 

Perde-me, por fim, o rasto,

sendo ainda parte de mim

ou sou eu que me arrasto

e me fujo com outro fim?

 

Cai por acção da gravidade,

é já uma gota fria,

e finda a sua sagacidade

perde toda a poesia.


 

segunda-feira, 10 de junho de 2024

À CONDIÇÃO


Havia um bicho que comia

outro que saltava

e outro ainda que acreditava

que o bicho comia por fome

noite e dia, mas não,

era a fome que o consumia.

 

O que saltava, pensava o que comia,

não se continha,

por ter mal de pernas ou de espinha,

- vá-se lá saber o que o bicho sente!

Ciente ou não

o bicho saltava de contente.

 

O terceiro, que apenas cria,

cria no seu crer de bicho,

que era tudo uma questão de capricho,

como pessoas, igual,

quer se aceite ou não

e só não lhes chamamos bichos por parecer mal.


 

domingo, 2 de junho de 2024

SOLIDÁRIO

 

Quis escrever um poema com rosas

e cheiro a alecrim

e quis dar-te as cores que assomam

no arco-íris

estava para elas, dava-te tudo e cheguei tarde.

Além do mais, gostava que ouvisses

o som dos sinos da minha aldeia

- apenas os sons, não o que eles clamam –

e queria ver-te dançar como dançam as crianças,

sorrir, como fazem as bailarinas,

era essa a minha intenção e cheguei tarde.

Tinha guardado um sol para te oferecer,

um sol de verdade: universal e luminoso,

como aqueles sóis dos desenhos de criança.

Fosse ou não apenas uma candeia de esperança,

era toda a luz do mundo que tinha para ti,

era futuro e vida e cheguei tarde.

Cheguei mesmo a pensar em batatas e arroz

para te enviar mas houve sempre gente

que achava um exagero a minha preocupação.

Hoje tenho apenas um abraço fraternal

e isso farei até que terminem os meus dias,

espero não chegar tarde, Palestina. 


quinta-feira, 30 de maio de 2024

INCOMUNICÁVEL


O amor por um tris

te de mim que o sei

o breve me iludiu

 

a vida duradoura de fio

a pavio que arde

mas não cura

 

futuro promissor e lim

bo que espera

sempre amanhã

 

e na arte de en

cantar vamos rindo

depois falaremos disso


 

domingo, 26 de maio de 2024

POEMA DO NADA



Prefiro o sono que não vem

quando é mais preciso, por cansaço;

não pelo fastio, no cúmulo, que é desdém,

e esse é favor que não quero e que não faço.

 

Espero por palavras desocupadas,

das que não se oferecem, ninguém dá por elas,

depois fazemos uma roda de mãos dadas

imitando uma constelação de estrelas.

 

Quando o sol, mais que perfeito,

aloira os campos ainda adormecidos,

chegam as palavras novas ao seu jeito

já com destinos traçados e limpas de resíduos.

 

É a hora do poema, da palavra átona, preguiçosa,

pouco mais que simples heresia.

E é a isso, a essa pérola preciosa,

que por hábito lhe chamamos poesia.

 

quinta-feira, 16 de maio de 2024

MINHA COLECÇÃO DE JÓIAS RARAS


 

Os teus olhos, melhor,

o teu olhar

uma lágrima

com o arco-íris dentro

um cravo vermelho

um par de asas por estrear

e outro par de brincos de cereja

o teu olhar, já tinha dito?

beijos, como novos, que não encontraram

os lábios de destino

uma gotinha d’água do Alentejo

uma mesa de tripé com quatro pernas

para não se confundir com as de cinco

trinta folhas de amoreira

sobrantes da última Primavera

dezenas de gavinhas secas

que por algum motivo fui juntando

e o último suspiro de um cisne

guardado numa campânula de vidro.

 

Gostava de ter acrescentado os teus olhos,

melhor, o teu olhar,

mas esqueci-me.

sábado, 13 de abril de 2024

VALORES NATURAIS



Ah, que pena! Tenho braços e mãos

em vez de asas. Não voo.

Mas é sensata a natureza:

sabe que preciso ainda de dar umas bofetadas,

antes de atingir a santidade.

 

 

sexta-feira, 22 de março de 2024

PRIMAVERA

 

Andava a chuva, chovendo

como é normal,

´té que o Sol em a vendo

cair no meu quintal,

lhe disse em tom reverendo

- Ó menina não faça tal,

tenho tudo à minha espera

e não posso andar correndo

que me cansa e me faz mal,

já chegou a primavera.

 


 

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

DITADOR



Era um gnomo,

um pingente,

da laranja um gomo,

dez réis de gente.

 

Fez-se senhor

de colarinho e anéis,

um ditador

dos mais cruéis.

 

Digamos que sim,

que é verdade pura

-ai de nós, ai de mim!

Vem aí ditadura.

 

Não foi ´era uma vez´

a fruta malsã

e às duas por três,

outra vez amanhã.

 

Dez réis de gente

que vai e que vem,

hoje pingente

amanhã ninguém.

 

sábado, 6 de janeiro de 2024

OS BEIJOS


Não sei que fazer aos beijos

que trago zelados no bolso:

alguns para dar em festejos

outros quero dá-los e não posso.

 

O beijo tem deve e haver;

ao dá-lo tem reciprocidade

e eu não os dou sem antes ver

o saldo na contabilidade.

 

De repente ficar sem beijos

dá-me aflição, nem pensar…

já não são beijos; são desejos

de querer e não ter para beijar.

 


 

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

ALGUMA BONOMIA


Além, daquela velha árvore

vou trazer um bom chamiço

para assar um chouriço

e agora chama-lhe lá parvo.

 

Atiçado o lume e a candeia acesa,

não tarda, às duas por três,

por mor de aquecer os pés,

não tenho quem mos aqueça.

 

Assim, o corpo fica temperado,

com um ou dois copos de vinho,

que o chouriço não morre sozinho

nem eu fico desidratado…


 

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

NA MORTE DO MENINO JESUS


Na noite de Natal vi o menino Jesus
ser assassinado na Palestina.
Não tenho dúvidas que era ele,
entre milhares de outros baleados,
sem nome e em nome de outra profecia.
O menino Jesus jazia nos braços de sua mãe,
já sem lágrimas para o chorar,
e ali estava ele. Branco e defunto.
Não vou chorar o menino Jesus
morto ao colo de sua mãe.
As minhas lágrimas nada iriam acrescentar
à dor daquela mãe, de todas as mães.
O menino Jesus foi assassinado na Palestina
na noite de Natal e são conhecidos os culpados
ou querem que acrescente os criminosos
ao presépio para memória futura?!


 

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

A DE VERSO



Esta manhã tive um estranho encontro comigo,

como se não nos víssemos há anos.

Ou pior ainda, como se não nos conhecêssemos.

Era muito mais novo e tinha um sorriso tímido,

talvez duvidoso, a adivinhar o futuro.

Parti do princípio que a minha vantagem sobre ele

bastaria, excepto as pernas, que fraquejam agora,

mas isso não vinha a propósito.

Disse-lhe o que é costume nestes encontros:

Tens um aspecto magnífico, que fazes por aqui

e surpreendeu-me a sua resposta:

tenho estado onde me deixaste da última vez;

tens passado por mim ao longo dos anos

sem te aperceberes e agora, que as pálpebras

te vão pesando, queres abrir os olhos para mim

e demais memórias sem regresso nem remédio.

E a minha teimosia em viver vai caminhando

Inexoravelmente, até onde o Sol finge caminhar também

entre o céu raiado e o espelho do mar.

 

domingo, 17 de dezembro de 2023

ESTÁ DITO



Restam-me pétalas, que tudo é graça,

e palavras nem uma só que valha a pena;

muitas delas caíram em desgraça

outras, pelo uso, estão de quarentena.

 

Não, não tenho mais palavras para dar;

tenho flores, que atiro das janelas,

com vantagem, para quem as apanhar:

não as leva o vento e podem ficar com elas.