quinta-feira, 30 de abril de 2026

NA MORTE DO POEMA


Devolvido à terra, desce vagarosamente

até onde o chão consinta e guarde

e aí fica inerte, que a si mesmo se consente,

morto de versos enquanto a alma arde.

 

Rosto sereno, sem deixar transparecer

mágoa, dor, sequer malformações do esqueleto,

uma obra prima que a terra há de comer,

simétrico, fazendo inveja a um soneto.

 

Jaz então. E ainda assim, fingindo a morte,

para que os amantes chorem à vontade

e os falsos juízes, ao jogo, tirem à sorte

os quadros de honra da eternidade.