quinta-feira, 22 de outubro de 2026

O MAIOR ESPECTÁCULO DO MUNDO

 

Quando o supremo diz não matar

deixamos as palavras em quarentena,

não vão elas contaminar os incautos

e agitar as consciências adormecidas,

 

mas se o desígnio for matar,

depressa descobrirão armas no paiol,

pagas com o esforço insano dos incautos,

e mandarão atirar a todas as palavras sobreviventes.


 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

CAMINHAR



Caminhar

ou fingir fugindo

o mundo está submergindo

em qualquer lugar

 

andar por andar

não é solução

haverá outra razão

passo a passo caminhar

 

depressa ou devagar 

passo certo

longe ou perto

haveremos de lá chegar.



 

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

O FIM DO MEDO


 

Escurece. A chuva faz-se anunciar, que seja pedra.

O passado é o presente a preto e branco

e recuso viver nesta harmonia meteorológica.

 

Antes o lume, a labareda que incendeie

por dentro da pele e deixe as consciências inquietas,

que não esperem pelas janelas escancaradas do futuro.


 

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

TUDO E NADA


Tudo é sim e não no vasto mundo

e tudo se molda e acostuma:

um grão de areia, no sentido mais profundo,

é tudo e coisa nenhuma.

 

O muito é pouco de quem tem;

o nada, que é uma porção de coisa pouca,

uma arma carregada de mal e de bem,

que dispara para matar à queima-roupa. 


 

terça-feira, 29 de setembro de 2026

AS VOLTAS DO POEMA



Poesia é um céu azul permanentemente,

excepto, por genuíno feitiço,

se revolta cotra a corrente

sem o poeta dar por isso.

 

Quando tudo acalmar, o verso e o poeta,

é que se verá a fantasia

na sua forma mais concreta,

se o verso se transformar em poesia.


quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A MORTE PELAS OLIVEIRAS


As oliveiras nunca morrem;

nascem para ser eternas, como estrelas.

Quando as oliveiras se forem

saberemos da nossa morte com elas.

 

Ainda assim, acenderemos lanternas,

dizem, em sua fátua lembrança,

talvez em covis ou em cavernas:

toquem os sinos, siga a dança.


 

sexta-feira, 8 de maio de 2026

NA MORTE DO POEMA 2



Branco, imóvel, ali exposto à curiosidade,

bem-parecido, pelo que dizem agora,

já não brilha, é certo, perdeu o lustro com a idade,

uma perda, uma pena ir assim embora.

 

Mesmo assim, uma espécie de sorriso

envolve-lhe o rosto macerado por melhorias

de última hora, para lhe garantir o paraíso,

que tarde chegaram às suas faces frias.

 

Perdidas as emergentes oportunidades,

arrefeceu, tornou-se inútil companhia,

mas não chorem agora, nem toquem as trindades,

a morte é um momento, até um dia.


 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

NA MORTE DO POEMA


Devolvido à terra, desce vagarosamente

até onde o chão consinta e guarde

e aí fica inerte, que a si mesmo se consente,

morto de versos enquanto a alma arde.

 

Rosto sereno, sem deixar transparecer

mágoa, dor, sequer malformações do esqueleto,

uma obra prima que a terra há de comer,

simétrico, fazendo inveja a um soneto.

 

Jaz então. E ainda assim, fingindo a morte,

para que os amantes chorem à vontade

e os falsos juízes, ao jogo, tirem à sorte

os quadros de honra da eternidade.


 

quarta-feira, 4 de março de 2026

EPÍSTOLA AOS INCAUTOS


Naquele dia, o lobo calçou meias de lã

e atou-as ao dorso para que não caíssem.

Em seguida juntou-se ao rebanho de ovelhas,

que ali pastava, exibindo o estranho traje. 

 

Para seu regozijo, as ovelhas aceitaram-no

como um dos seus e ali conviveram por um tempo.

Alguns dias passados, as ovelhas começaram

a desaparecer, a desaparecer, até restar apenas uma.

 

A derradeira ovelha, entretida a pastar,

questionou o lobo sobre a rezão do estranho desaparecimento,

ao que o lobo, fingindo-se alheio, respondeu

que teria sido o carneiro a retê-las em algum lugar.

 

No dia seguinte, o lobo comeu a ovelha sobrevivente,

como fez com as restante desaparecidas.


 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

MONÓLOGO



 

Talvez dissesse sem saber

ou soubesse sem ter dito,

é a língua que arde sem arder

num corpo cheio de infinito.

 

Digo aos soluços ou a fio

o que me soa e tem de ser dito,

a verdade que a sós confio

num corpo cheio de infinito.

 

Vem a chuva e calo, não me atrevo,

ensopado de palavras, dito

de novo calendário e outro acervo,

num corpo cheio de infinito.


quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

CHUVA E VENTO - AS CAUTELAS



A chuva cai lá fora,

aqui não se dá por ela,

na rua o tempo chora

e lacrimejam as janelas.

 

(E se a chuva não caísse

e se a janela não chorasse,

que diríamos nós, que chatice;

que faríamos se o tempo mudasse?)

 

Mas a chuva cai, é tempo dela,

não há como contrariá-la

e se entrar frio p´la janela,

o melhor é calafetá-la.

 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

CORAÇÃO


Coração de pedra dura,

pedra dura sem emoção,

dura a pedra, dura,

só não dura o coração.

 

E o coração mole, brando,

o amargurado, o trapalhão;

órgão que vou levando

e vou chamando coração.

 

E o coração derretido,

que sangra completamente

sem fazer qualquer sentido

de amar perdidamente.

 

Finda o coração partido

e porque parte ninguém sabe.

É por quebrar ou ter partido

ou conter amor onde não cabe.

 

Ai coração, que voltas dás

sem deixares de ser coração.

Às vezes nem sei onde estás,

outras se estás ou não.