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terça-feira, 10 de outubro de 2023

PALESTINA II


A um canto da revolta, o canto

e a lágrima em forma de coração,

seca. Um mar de desencanto.

A alma cheia e um pranto de razão.

 

E a razão é um pássaro altivo,

à afronta não cessa o voo nem cala,

antes morto que cativo

e a sua lágrima é em forma de bala.

 


 

sexta-feira, 31 de março de 2023



 

Um dia de Abril deu luz à minha casa,

tudo se tornou claro e transparente

como o vento que, num golpe d´asa,

nos mostrou o futuro ali presente.

 

E, de repente, todas as casas à volta

clarearam como sóis de alento

e sorríamos, andava a Liberdade à solta

num vaivém de asas e de vento.

 

Mudaram de lugar o Sol e a claridade,

ocultos entre as malhas que o império tece,

mas quem viu aquele Abril de tenra idade,

não perdeu o brilho e não esquece.

 

sábado, 23 de abril de 2022

ABRIL DESCONCERTANTE

 


Estão aí?

Queria dizer-vos uns versos sobre Abril.

Posso?

Serão ainda capazes de ouvir até ao fim?

São demasiadas perguntas, bem sei,

mas é só porque estou a evitar ser maçador,

complicar o que é simples

e sobretudo sem ofender pessoas de bem.

Além do mais há coisas que não se devem dizer,

não é? Entre quatro paredes, vá que não vá,

mas publicamente convém que nos autocensuremos.

Só para não criar mal entendidos, claro.

Os versos que vos queria dizer

também não têm aquela importância de maior.

Feitas as contas, calaram o que outros por vós fizeram

e por cá sempre me disseram que coisa mal ganhada

água a deu; água a levou.

Os versos que vos queria dizer sobre Abril

são assim muito simples: façam outro, se forem capazes;

este está cheio de erva daninha e cravos poucos restam.

Além do mais, o que é de Abril não floresce em Novembro,

como vos contam aqueles de pesados saberes.

Abril é o futuro com um cravo vermelho na mão, ouviram?

Isto não é uma novidade; é apenas para lembrar,

não vá morrer-vos na memória o que definha nas palavras.


segunda-feira, 8 de março de 2021

DIAS DE GUERRA


Noite de vela

o menino chora

papão vai-te embora

da sua janela

 

o menino chora

em desatino

pela noite fora

não dorme o menino

 

o dia demora

demora o destino

e o menino chora

que é pequenino

 

papão vai-te embora

deixa o menino

sonhar noite fora

que é palestino


 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

UM VELHO SOM


Um som já velho, reciclado,

vira o disco,

não sei onde ouvi isto.

 

Fede. Velho e relho, insisto,

percorre o tubo enviesado

este som antepassado.

 

Que som este, estafado,

de notas falsas, um misto

de purgatório e Jesus Cristo.

 

Como a sensação do já visto:

na música o mesmo fado

e na letra o caldo entornado.


 

quarta-feira, 15 de abril de 2020

A BANCA


A banca, não produz, não cria:
à matéria prima apenas incorpora
alcavalas, juros de mora
que dá pelo nome de economia.

Mas coisa acabada, mercadoria,
nada: apenas a jeito do cliente,
uma mão atrás outra à frente
tudo em perfeita harmonia.

Gera lucros, é claro, se não falia,
mas esse valor acrescentado,
dinheiro singelo por dobrado
é embuçado e faz parte da fantasia.

O banco é um moderno agiota
de camisa branca, gravata, perfumado;
matreiro bastante para viver do Estado,
queixando-se da banca rota.

O mercado é a alma do banco,
no cofre forte ou em segredos tais,
ocultos em paraísos fiscais,
de onde só sai fumo branco.

E ao povo, que parte da banca lhe cabe?
Taxas, ordens de pagamento,
um inferno de contas sem provimento
mais as que paga e não sabe.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

CAPITAL


Era o mercado, o agente
e de tudo tinha alvará,
faliu, já foi, já não dá
nem dará daqui p’ra a frente.

A economia, ora aí está!
O capital, naturalmente,
que adeje urgentemente:
faliu, já foi, já não dá.

O capital está doente,
mal de velho gagá:
faliu, já foi, já não dá,
sucumbiu, foi de repente.

Para o salvar, um chá,
papas de linhaça, urgente,
acudam que o paciente
faliu, já foi, já não dá.

A exploração permanente
deu-lhe esta coisa má:
faliu, já foi, já não dá,
já não há quem aguente.

Esperneia, quer para já
injecção, sangue quente,
em delírio de impotente,
faliu, já foi, já não dá.

Faliu, já foi, já não dá.  

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

TRÂNSFUGAS


Não fujas
tu és todos os lugares
não te escondas
entre cortinados
que tu mesmo teceste
não finjas
desconhecer Setembro ou Novembro
que aceitaste
com argumentos contrafeitos
e que mais tarde sacudiste do capote
que não era nada contigo

dispara à queima roupa

verás o meu sangue ganhar terreno

ah a tua pressa
pode lá haver quem a denuncie!

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

CORAÇÃO SOLIDÁRIO


Hoje vou abrir uma excepção:
vou simular que tenho uma pedra de granito
enorme no lugar do coração.
Que não sinto, que não preciso do teu ombro
e tudo, em mim, me é indiferente.
Subirei o mais alto que puder, à mais alta montanha,
e aí tocarei o sol, queimarei as mãos.
Toda a areia das minhas lágrimas
atulhará o oceano, dará força e consistência
ao clamor dos povos da América do Sul.
Beijarei depois as mãos do povo Inca,
uma por uma, e juntos gritaremos ao mundo:
La union es la fuerza!

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

OS MARGINAIS


Ei-los, que se atrevem de novo,
espalhando aos quatro ventos serradura,
que sangre a gente, que cegue o povo
e se abra caminho a nova ditadura.

Grunhem, uivam em desespero,
abrigados no fino manto que os cobre
mas por mais que finjam no tempero
não passam de pregoeiros de peixe podre.

Mas insistem em descobrir argueiros
nos olhos já cansados só de os ver:
damas de alfinete, caceteiros
e os demais que o diabo há-de trazer.

A todos eles, cá os esperaremos de atalaia,
haveremos de merecer a terra onde nascemos,
não permitindo que gente dessa laia
nos traga de novo as feridas que tivemos.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

ROMPER O CERCO


Rompo a campânula e dou o salto
o mais longe que puder, o mais alto.

Recuso a entrevação, a vida morta.
Então, vou arrombando a porta,

Com este marasmo desespero
e isso é que não, isso é que não quero.

Irei por aí, livre, talvez ousado:
- a senda há-de levar-me a algum lado.

Se não levar, se já não houver estrada,
deixem-me ficar, esperarei p’la alvorada.

E, pelo sim, pelo não, sigo. Parar é nada.


quinta-feira, 11 de julho de 2019

ORAÇÃO DOS CONSTRUTORES CIVIS


O caminho será longo e difícil – diziam –
e de pedras, acrescentavam os empreiteiros.
Veio depois o cinzento; o cimento como o viam
e o sol morreu às mãos dos engenheiros.

O casario cresceu como caixotes em pilha,
pedra sobre pedra, tijolo sobre tijolo
em alindadas avenidas, prosaica ilha,
brotavam ervas daninhas em fértil solo.

A um tempo opulência e miséria franciscana,
pechisbeque trocado por ouro de lei;
omnipresença publicitada em fé profana,
agiotas e otários, peditórios para os quais já dei.

O deus dinheiro abençoado em tal crença
corrompeu, lambeu botas nos bairros da cidade,
demais obras simuladas vieram marcar presença
mas nada consta nos livros de contabilidade.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

A BANCA ABANCA


a banca
abanca
toma assento
à mesa do orçamento

dá vazão
ao livro de razão
deve e haver
é seu dever

dever que não basta
a esta casta
subtrair ou somar
sem pagar

então denota
que de nota
nunca é demais
e pede mais

a banca rota
abarrota
diplomata
ou morre ou mata

vai acima vai abaixo
e bota abaixo

domingo, 26 de maio de 2019

DUAS OU TRÊS PALAVRAS SOBRE A DETERMINAÇÃO



Diz-me a vontade que execute
o que a sujeição me priva:
diz-me a vontade que faça; diz-me a liberdade que lute!

sábado, 13 de abril de 2019

FORA DAQUI


Estes, que de espontânea geração
se implantaram de unhas afiadas,
sem pátria, rosto ou nobre condição,
erguem barreiras, intransponíveis paliçadas
a mando de medonhas divindades
e novíssimos coios emergentes.
Se for o caso, faremos as nossas barricadas,
acudindo ao toque das trindades,
armados de mil razões e alma até aos dentes.

Acabou o tempo, cães imundos!
não há mais lugar para indulgentes elogios!
Enquanto é tempo oiçam nos gritos profundos,
o repúdio, as vais de revolta, os assobios,
que não queremos saber mais de novidades
da morte que em vós nos vai matando
com imposturas ditas urgentes.
Nós somos daqui em todas as idades,
feridos, é certo, de quando em quando.
De mais a mais, fartos de incompetentes.

domingo, 15 de julho de 2018

ESTAMOS FARTOS




Estamos fartos
que nos digam que são partos
os abortos

(por partes:
excepto quando dos partos
dão abortos)

argumentos baratos
absortos
já nos fartam

albardam
os mortos vivos e os vivos mortos
raios os partam

sexta-feira, 18 de maio de 2018

CORAÇÃO EM CHAMAS


Está confirmada oficialmente
a origem criminosa do fogo
que lavra no coração da Palestina.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

RESISTIR


Para Lula da Silva


Inditoso povo às mãos do criminoso,
que de pátria pouco ou nada conheceu.
Dias houve de brandura e sol airoso,
os demais, de crepuscular breu.

Ditadores, bastos foram todos eles;
tiranos, dementes, profetas e azougados,
gente que do cordeiro vestiu as peles
para assim matar e ocultar os seus pecados.

Baixar os braços? Não é o caso, não!
É levantar ambos, que ninguém é conformado
e dizer basta de mentira contra a razão,
erguer os braços, sim, punho cerrado.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

EPÍGONO DO MAL


O filho do diabo mais novo
Belzebu da Lusitânia
diz que o pão não é do povo,
que é de geração espontânea

O diabo em figura de gente
quer que o país dê p’rò torto
mas vamos andando em frente,
ele é que não tem onde cair morto.

De uma só assentada
promete fogo e caruma,
com uma mão cheia de nada
e outra de coisa nenhuma.

É alarve, só pode ser
bicho sem pingo de verdade
tanto pode burro a valer
como égua de vaidade.

O sacrista das profundezas
inscreve catástrofes, vida insana,
revoltas da natureza
em capítulos de programa.

No fim, vendo quem ri melhor,
sorrimos de novo ao cravo
e ele, com o seu ar superior,
ri sozinho porque é parvo. 

domingo, 12 de novembro de 2017

OS MARGINAIS


Ei-los, que se atrevem de novo,
espalhando aos quatro ventos serradura
que cegue o povo
e abra caminho a nova ditadura.

Grunhem, uivam em desespero,
abrigados no fino manto que os cobre
mas por mais que finjam no tempero
não passam de pregoeiros de peixe podre.

Mas insistem em descobrir argueiros
nos olhos já cansados só de os ver:
damas de alfinete, caceteiros
e os demais que o diabo há-de trazer.