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quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

LUSA GENTE



Aquém da lágrima, longínqua Taprobana,

Que nos resta de tão intrépidas aventuras,

Senão à luz de velas, a pobreza franciscana

Que ilumina ainda a gesta de tais venturas,

Mitos, lendas, que são da competência humana,

Como é o trabalho insano e as demais agruras,

Aqui fomos ficando, o mar desfeito em sal,

Neste reduto magoado a que chamamos Portugal.




 

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

PLANO (INCLINADO)


Tenho um plano em mente;
inclinado é o plano, não mente,
pende para um lado, insistente,
o plano que tenho em mente.
Dito assim não parece plano,
é mais um pensamento insano,
como nódoa que cai no melhor pano,
por ora vai abaixo, pelo cano,

fica para o ano,
evidentemente.
É um plano
que tenho em mente.

domingo, 12 de março de 2017

CAVALO AO MAR



Cavalgar quanto houvesse, todos os obstáculos:
pedras, dilemas, ondas. Esse seria eu
se o mar se desse, se o mar ouvisse, se o mar sentisse
o sobressalto das marés em que me estendo.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

NAVEGAR


Uma onda que nos cega?
Mais faltava que tapasse
quem no alto mar navega!
O que não vê, não cega
e se quem vê, não avista
não deve perder de vista
a onda de cada refrega.

O sonho que ali se esconde
ao ritmo da preia-mar
pode avistar-se até onde
em terra alguém que responde
-Ó do mar, ó do mar!
Não te deixes naufragar,
não te deixes ir na onda.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

CAMINHOS


Cada um segue o seu caminho
e ter o seu é já de ficar grato:
por estrada ou como passarinho,
a pé é que já vou ficando farto.

Viajo assim, deus o saberá…
solto os olhos por aí a meditar,
poisam aqui, depois acolá
e vou onde quiser só de olhar.

Melhor é que ao andar se faça,
como aqui procede o quilowatt,
que por nós corre e desembaraça,
galgando o espaço a corta mato…



sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

ARTES DE MAREAR


Maré alta, fiz-me ao mar,
no miolo das ondas, sem pé,
para saber como é
um pé de sorte, a preia-mar
sem mesmo saber nadar,
sequer na maré baixa
e muito menos usar
camisola de alcaixa.

Maré vaza da vida
em mar parado, matreiro,
sem arte de marinheiro
de sete vidas vestida.
O bote está de partida,
bem no alto, na amurada,
no adeus de despedida,
não é partida, é chegada.

O bote partiu mar adentro,
tomou agulhas e rumo,
todo de tremuras e fumo.
Apenas resta o vento.
E no centro, bem ao centro
aí estou, ainda de atalaia,
acenando para dentro,
sem nunca sair da praia.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

ONDE A TERRA ACABA


O mar, por tentativas,
escala furioso a escarpa,
encharca, corrói o mapa
em vagas sucessivas.

É a vez do mar
submeter,  insano,
feito oceano
e se aventurar.

Deuses, monstros e mitos
dormem na praia agora
para quem clama e chora
p’la senhora dos aflitos.

Ó mar de medo e águas frias,
sepultura e estrada
que acolheste as caravelas
- não aos homens mas a elas –
se nada vem do nada
que fazemos às alegorias?

Que nos reclamas, insurgido mar,
que queres dum povo
prestes de novo
a embarcar?

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O MEU CAMINHO


Com tenra idade acusam-me de ser mais uma, de estar a mais.
Outros a menos, por via das estatísticas e ciências demográficas.
Não quero ser um número, nem sobrecarregar meus pais;
quero ser eu, exposta ao tempo e demais alterações climáticas.

Vou-me embora. Não me importo com o caminho a percorrer…
Estou de malas aviadas: vontade de partir com o meu ursinho
de pelúcia. Farta que me digam o que, crescida, devo ser;
quero somente ser eu, as minhas circunstâncias e o meu caminho.

domingo, 7 de setembro de 2014

ESTRADA DO SOL


Ah se eu pudesse
percorrer  essa via
mas sempre anoitece

mas sempre anoitece

ah o que eu corria
sem pejo o confesse
era todo alegria

era todo alegria

mas o sol arrefece
na noite do dia
e sempre acontece

e sempre acontece

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

JOANINHA VOA, VOA!


Denodada joaninha: voa, voa!
E beija por mim todas as flores:
voa, joaninha, voa, voa, voa!
Para Lisboa ou lá p’ra onde fores.

terça-feira, 3 de junho de 2014

DESEJO


Até mesmo neste alexandrino de aluvião,
voar é talvez a arte que eu nunca deixe:
sobretudo se mo permitir a imaginação,
uma vez que o mar apenas me lembra peixe…

domingo, 18 de maio de 2014

UTOPIA


Finalmente posso voar

preciso só abrir os braços
como num reencontro de amigos
e de breve impulsão do vento

as asas virão depois

segunda-feira, 12 de maio de 2014

NÃO ME OFEREÇAM NADA


Para que quero um remo,
(ventos e marés não temo)
se vivo em terra enxuta;
para que quero um par de asas,
(não plano sobre as casas)
 se não sei voar?
deixem-me, persistindo, com a minha luta
e caminhar, caminhar…

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

CAMINHOS

Não há dúvida que se trata de nova fotografia do Mário Quintas. Desta vez para ilustrar o penoso caminho dos quilowatts. Em boa verdade, a foto nasceu primeiro… Quanto à última rima, já vi pior...

Cada um segue o seu caminho
e ter o seu é já de ficar grato:
por estrada ou como passarinho,
a pé é que já vou ficando farto.


Viajo assim, deus o saberá…
solto os olhos por aí a meditar,
poisam aqui, depois acolá
e vou onde quiser só de olhar.


Melhor é que ao andar se faça,
como aqui procede o quilowatt,
que por nós corre e desembaraça,
galgando o espaço a corta mato…