quinta-feira, 13 de outubro de 2022

LUZ E SOMBRA


Como vou dizer-te que os braços são asas cadivas,

se os teus olhos, estrelas antigas, estão ausentes?

Morto é o silêncio; a natureza é o som das coisas vivas

onde todos os gritos e penas estão presentes.

 

Não sabes onde mora a luz e que tem isso a ver 

com a sombra? A luz e a sombra já não são paralelas;

são cortinas de pano cru para o que der e vier,

de cretone, de cambraia, tudo dependerá das janelas. 


 

terça-feira, 11 de outubro de 2022

CHORO DE CRIANÇA


As lágrimas das crianças não têm uma ordem definida:

a regra é que possam ver-se derramadas, copiosas,

de resto, as primeiras não são como as que virão em seguida

e as que vierem depois são de sono, repetidas, melosas.

 

Depois de enxutas, as pálpebras colam, que bom é o braço

da mãe. Logo vem um par de asas, um pássaro enorme

e o rosto da criança voa (é um anjo) a sono solto no regaço,

que importam agora as lágrimas, que importam? O menino dorme.


 

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

A GUERRA


 

A guerra tudo devora; nada é à prova de bala neste mundo:

esmaga os ossos, a carne e as sombras que projecta.

O seu rosto é o pó e a cinza, restos de sangue imundo,

no prometido lugar azul uma mancha viscosa e preta.

 

Até hoje, nenhum soldado ganhou uma guerra. Os generais

são os vencedores em todas elas: coçam-se, riem do povo,

exibem os galões e os dentes escovados nos telejornais

e falam de coragem, de valentia alheia feita de sangue novo.

 


 

domingo, 2 de outubro de 2022

À QUEIMA-ROUPA


Uma bala nunca vem por bem

e se apontada na nossa direcção,

nada a desvia ou detém,

de fingido afecto toca-nos o coração.

 

Uma bala nunca vem por bem,

galga o espaço, imita um assobio

e se nada a desvia ou detém

cumprirá a sina da pólvora que a pariu.


 

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

ÚLTIMAS NOTÍCIAS


O que sabemos, o pouco que sabemos

é que uma pomba azulada, mais para o cinzento,

foi encontrada num descampado da mesma cor.

Os órgãos de comunicação já informaram

e deram pistas do que pode ter acontecido.

Mais do que isto nada se sabe:

é uma pomba azulada, mais para o cinzento,

que foi encontrada num descampado da mesma cor.

Muitos falam do assunto; dão a sua interpretação,

mas nada acrescentam ao insólito acontecimento.

A especulação sobre o que leva uma pomba

àquele estado num campo em estado igual

começa no instante em que a notícia se fez à luz.

Há os que se atêm à cor da pomba – que é azulada,

mais para o cinzento, que foi encontrada

num descampado da mesma cor – é o que dizem.

Mas vieram depois os iconoclastas a contestar

aquela imagem degradante da pomba e do descampado,

os negacionistas, a par daqueles que acreditam em tudo,

os depressivos, os aventureiros e alguns palhaços,

que tornaram a notícia insuportável.

Não tive, por isso, outro remédio que não fosse pegar na pomba azulada,

mais para o cinzento, encontrada nem descampado da mesma cor

e deitá-la no lixo. Cheirava tão mal como a notícia.


 

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

IDENTIDADE


Se tudo tivesse um rosto, que o olhar denunciasse

um sorriso; que a boca se entreabrisse e beijasse;

e que estremecesse a um qualquer desacerto…

Ah, e se também tivesse a alma ali por perto,

 

por mais lívido que fosse, se desse a face,

era bem capaz de me comprazer, se me desenganasse,

e eu pudesse ver, e me valesse num aperto,

mas nada de olhar fixo e sorriso forçado tipo passe.






 

terça-feira, 16 de agosto de 2022

VÉNUS ENVELHECIDA



O rosto marcado pelas rugas indesejadas,

não porque te desmereçam, ficam-te bem,

são sinais e os sinais são células amarguradas

que a longa vida expõe por inexorável desdém.

 

O mesmo digo das varizes, dão-te um ar maduro

e traçam nas tuas pernas curiosos arabescos,

quem sabe se engodos do passado ou do futuro,

sejam imaginação na estatuária ou inocentes frescos.

 

Definham as peles e as tranças, já matizadas,

pendem nos ossudos ombros, outrora de marfim

e eu que tudo enxergo, em tudo vejo águas passadas,

vou dando conta que todas as mazelas estão em mim.

 

 

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

quinta-feira, 28 de julho de 2022

PÉ DE CÃO



Pé que avança e recua

subo ou não subo a rua?

Pé ante pé de pé chato,

devagar, com pés de lã,

por tropelia malsã

quem não partia um prato.

 

Pé de porco, coentrada,

pé de dança ensaiada,

pé de cabra de ladrão,

o pé de Vossa Senhoria,

massajado e pele macia…

Mas jamais um pé de cão.

 

quarta-feira, 6 de julho de 2022

AQUI HÁ GATO



O gato não foge, sou eu que o digo

vê quem passa e recolhe

ao seu lugar de sem abrigo.

 

Por condição não escolhe

o lugar por castigo,

a gato pobre ninguém acolhe.

 

O vidro quebrado é o seu postigo

e para quem o olhe

é gato vadio, não sou eu que o digo.

 

domingo, 19 de junho de 2022

SEMPRE EM PÉS


Pé de salsa pede valsa

avança o pé de dança

e a bailarina descalça

pé ante perde esperança

 

pé leve que lave o pé

ao de leve pé rapado

pé de meia é que não é

pé de atleta medalhado

 

pé de chumbo vadio

sete pés por sua vez

caminhando ao desafio

é pé de cabra o maltês

 

de pés direitos fica dito

e pés quebrados muitos

sempre de pé firme e hirto

tudo menos de pés juntos


 

segunda-feira, 13 de junho de 2022

MEMÓRIA


Secos, secos, amargamente secos,

os rios que me corriam na memória.

Às vezes o sol parecia mergulhar comigo;

às vezes o sol e a água eram a mesma coisa.

Assim, tive de abandoná-los,

para o sol deixar de me queimar as entranhas

e a água me invadir e voltar às correrias

de pedra em pedra,

roçar os salgueiros das margens e levar-me,

folha seca, até à foz.


 

terça-feira, 24 de maio de 2022

UM VERSO SURREAL


Um verso surreal desconversava

para quem o queria ouvir

e quanto mais explicações dava,

um dia destes havemos de lá ir.

 

-Impossível, berrou o verso alterado,

isso não faz qualquer sentido,

não sou lá visto nem achado

e o mais certo é ser excluído.

 

Feitas as pazes, o surreal entrou no texto.

Primeiro a medo e mais tarde contrafeito…

- Ficas num verso mudo, dentro do contexto

e que te faça muito bom proveito.

 

Amuado, a um canto da improvisada estância,

pergunta aos demais e nenhum lhe responde:

aqui ninguém me dá qualquer importância;

posso ir lá também, mas aonde, aonde?


 

sábado, 14 de maio de 2022

AVENTURAS DE UM PARDAL


Um pardal entrou-me pela janela,

assim num volteio ou golpe d’asa,

encarou-me e voltou a sair por ela

por não saber que estava em casa.

 

Furtivo, a explorar a minha ausência,

parceiro de migalhas a todo o custo,

mas nem um miolinho de pão, paciência,

e nem eu nem ele ganhámos para o susto.


 

sábado, 23 de abril de 2022

ABRIL DESCONCERTANTE

 


Estão aí?

Queria dizer-vos uns versos sobre Abril.

Posso?

Serão ainda capazes de ouvir até ao fim?

São demasiadas perguntas, bem sei,

mas é só porque estou a evitar ser maçador,

complicar o que é simples

e sobretudo sem ofender pessoas de bem.

Além do mais há coisas que não se devem dizer,

não é? Entre quatro paredes, vá que não vá,

mas publicamente convém que nos autocensuremos.

Só para não criar mal entendidos, claro.

Os versos que vos queria dizer

também não têm aquela importância de maior.

Feitas as contas, calaram o que outros por vós fizeram

e por cá sempre me disseram que coisa mal ganhada

água a deu; água a levou.

Os versos que vos queria dizer sobre Abril

são assim muito simples: façam outro, se forem capazes;

este está cheio de erva daninha e cravos poucos restam.

Além do mais, o que é de Abril não floresce em Novembro,

como vos contam aqueles de pesados saberes.

Abril é o futuro com um cravo vermelho na mão, ouviram?

Isto não é uma novidade; é apenas para lembrar,

não vá morrer-vos na memória o que definha nas palavras.