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sexta-feira, 19 de julho de 2024

CAMINHOS


Caminho até onde posso ir

sentado na velha pasteleira,

escolho o trilho sereno

das árvores, das árvores gigantes,

partilho com elas o bosque,

a terra, o vento, cada clareira,

e mais nenhum itinerário é agora

igual ao que foi antes.

No caminho das bétulas

havia lugares mais aprazíveis,

porque a idade é capaz de milagres…

Veio depois um tempo

em que o toque de uma folha caduca

era o beijo juvenil que me faltava.


 

quarta-feira, 17 de julho de 2024

GLOBAL CEGUEIRA


Não nos reconhecemos,

passamos um pelo outro,

acenámos por boa educação

e mais nada. O nevoeiro das notícias

distorce o nosso olhar

e deixa-nos estranhos, mundivalentes

de ofício, de olfato, como os cães.

Não ladramos, ainda, é certo,

mas já marcamos terreno

no mundo que nos passa a correr

à frente do nariz, sem fonte e sem raiz.


 

sábado, 13 de abril de 2024

VALORES NATURAIS



Ah, que pena! Tenho braços e mãos

em vez de asas. Não voo.

Mas é sensata a natureza:

sabe que preciso ainda de dar umas bofetadas,

antes de atingir a santidade.

 

 

domingo, 10 de dezembro de 2023

AINDA O OUTONO


O céu de incerto cinzento é o que me resta

das anosas videiras do quintal.

O outono levou-lhes as folhas e gavinhas mortas

e eu tenho saudades da verdade das uvas,

não desta alheia casta de refulgentes estrelas,

sempre prontas a azedar o vinho novo.


 

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

A NUVEM


Uma nuvem veio hoje visitar-me.

De pequeno porte, tímida e já chovida.

Vinha por isso enxuta e acomodou-se a um canto

como um pedaço de algodão doce

perdido pela criançada.

Fugia das nuvens negras, da guerra,

com medo de ser confundida e trespassada

por uma qualquer bala assassina,

dessas que enchem o mundo de sangue

e de lágrimas e de valas comuns.

Estava claro que esta nuvem era uma refugiada

do céu, onde também se tornou perigoso viver.

Deixou cair uma lágrima, coisa sem importância,

e lamentou a sua condição de nuvem seca,

a quem o mundo extorquiu toda a água da sua vida.


 

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

SOLSTÍCIO


 

O Sol e as nuvens brancas

choram, à vez, no rio da minha terra,

o anunciado inverno.

Eu soletro mágoa e digo lágrima;

soletro ave e digo pena…

Água de algum lugar chove em mim,

deixando-me sem palavras enxutas.

 

domingo, 28 de maio de 2023

UMA VIDA ASSIM


Em nada me importa a morte

e menos ainda o seu futuro.

Dão-me que fazer as papoilas,

lenços vermelhos das searas,

ou airosas pontuando os campos em pousio.

Quero prados de papoilas à minha volta,

cantando os hinos

que só elas são capazes de cantar.

Quero um grito de revolta,

a liberdade de me erguer seara adentro

e viver a liberdade a tempo inteiro. 


 

sexta-feira, 14 de abril de 2023

TRICÔ DE PALAVRAS


Ao cair da tarde

volta o tricô das palavras perdidas,

as de ontem, algumas de amanhã,

mas todas como novas, de hoje.

 

O poial ao redor da casa

escalda. Não por ser Verão,

mas porque as palavras aquecem.

A manta, a camisola ou o naperon

podem esperar.

Agora é apenas o tempo de tricotar

as palavras mais urgentes.


 

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

O TEMPO DA POESIA


Naquele tempo a poesia poisava nos laços

das raparigas até serem adultas

e desfazerem as tranças;

vinha com o cheiro do leite, comprado à porta,

que perdurava na rua durante horas;

trazia os pássaros até às nossas pequenas mãos,

mesmo quando não tinham fome;

rebolava pelas encostas dos montes

e misturava-se com a palha e a terra, e magoava-se.

Depois passou para o domínio dos poetas;

escreveram-na em livros e pintaram versos nas paredes

para a devolver às ruas da amargura.

Há cachos de versos ainda debruçados nas varandas,

mas a poesia nunca mais foi a mesma.


 

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

ÚLTIMAS NOTÍCIAS


O que sabemos, o pouco que sabemos

é que uma pomba azulada, mais para o cinzento,

foi encontrada num descampado da mesma cor.

Os órgãos de comunicação já informaram

e deram pistas do que pode ter acontecido.

Mais do que isto nada se sabe:

é uma pomba azulada, mais para o cinzento,

que foi encontrada num descampado da mesma cor.

Muitos falam do assunto; dão a sua interpretação,

mas nada acrescentam ao insólito acontecimento.

A especulação sobre o que leva uma pomba

àquele estado num campo em estado igual

começa no instante em que a notícia se fez à luz.

Há os que se atêm à cor da pomba – que é azulada,

mais para o cinzento, que foi encontrada

num descampado da mesma cor – é o que dizem.

Mas vieram depois os iconoclastas a contestar

aquela imagem degradante da pomba e do descampado,

os negacionistas, a par daqueles que acreditam em tudo,

os depressivos, os aventureiros e alguns palhaços,

que tornaram a notícia insuportável.

Não tive, por isso, outro remédio que não fosse pegar na pomba azulada,

mais para o cinzento, encontrada nem descampado da mesma cor

e deitá-la no lixo. Cheirava tão mal como a notícia.


 

segunda-feira, 13 de junho de 2022

MEMÓRIA


Secos, secos, amargamente secos,

os rios que me corriam na memória.

Às vezes o sol parecia mergulhar comigo;

às vezes o sol e a água eram a mesma coisa.

Assim, tive de abandoná-los,

para o sol deixar de me queimar as entranhas

e a água me invadir e voltar às correrias

de pedra em pedra,

roçar os salgueiros das margens e levar-me,

folha seca, até à foz.


 

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

EFÊMEROS



Era um rio,

um rio, que era todos os rios, de águas vivas

enfileiradas ao longo do caminho.

Às vezes um barco fazendo pela vida.

Nas margens, os salgueiros

inclinavam-se; faziam vénia e aproveitavam

para refrescar na água corrente os ramos mais afoitos.

O rio ia passando

tinha mais caminho, mais água à sua espera.

Algum tempo depois, nesse ou noutro dia,

o rio teria o fim anunciado, um mar imenso

onde não haveria mais falas sobre o rio

e aquela imensidão de água não contaria

senão para morrer dentro de si com o rio na barriga.

 

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

QUANDO EU MORRER



Quando eu morrer

saberei tudo o que ficou para trás

e de nada farei queixas.

Batam palmas, sorriam e finjam que são eternos.

Eu já não terei essa prorrogativa.

Quando eu morrer

esqueçam o bastante para que a minha morte

não vos seja perturbadora, porque se o for

será a vossa consciência; a minha estará tranquila.

Comam, bebam e dancem: a vida estará do vosso lado

e se isso vos der prazer, a mim não fará diferença.

Pelo que tenho ouvido, ninguém me irá dar conta

se é alegria ou tristeza o que vos vai na alma.

Quando eu morrer

não pensem muito no assunto:

“mal de quem vai e mal de quem cá fica”

- isto não vai ajudar em nada…

Mantenham a esperança de que tudo vai melhorar.

Mas lutem por isso, é essencial!

Quando eu morrer

não acharão qualquer diferença no que vos é dado para viver:

os ursos polares continuarão a ter focas para a sua dieta

e o vosso talher permanecerá no lugar habitual;

a lua dará as mesmas voltas, apesar do cansaço evidente,

e ser-vos-á permitido fotografar a lua cheia como sempre.

Quando eu morrer

será tudo igual ao que hoje achamos diferente de um dia para o outro.

 

 

 

domingo, 15 de agosto de 2021

O GALHETEIRO DE CAMPAINHA


A tentação do aparador ainda hoje persiste:

a campainha do galheteiro era irresistível

e como ouvir aquele trim-trim de bicicleta

sem que a minha avó desse por isso?

A missão era ingrata, impossível,

Excepto aos meus ímpetos de menino…

De um lado do guarda-loiça havia copos e chávenas,

que só de tempos em tempos tinham serventia,

mas do outro estava o galheteiro e a sedutora campainha

exposta à imaginação de como tocá-la e ouvi-la

sem que os demais dessem conta.

Este princípio de vida permaneceu até hoje:

como fazer o impossível, como?

E o impossível ali, a dois passos, guardado no aparador.


 

sábado, 24 de julho de 2021

ÁGUA CORRENTE


Água nascente

na concha da minha mão,

fresca e pura como o amor que a segura por instantes.

A pouca distância, já o rio

desenha sulcos na lama das margens;

corre loucamente para a foz.

Perco-o de vista.

Toda a minha sede é memória deste rio.


 

quinta-feira, 22 de julho de 2021

NO FIM DO MUNDO



Depois da treva

e dos estilhaços da Lua sobre o oceano,

podem esperar o Sol, as nuvens e o vento:

precisarei somente de alcançar a minha janela

para voltar ao centro do universo

e aí respirar como a terra acabada de lavrar.

 

quinta-feira, 15 de julho de 2021

AS FLORES


As flores, o cheiro das flores

e a perfeição que exibem sem vaidade.

As flores são o contrário do mundo, digo

a pulcritude da terra áspera que as impele

para a luz do sol e dos meus olhos.

As flores são o contrário do que morre,

do que fere e do que sangra

(pode ser suor apenas, mas sangra sem o sabermos)

dentro de nós, que as cheiramos e admiramos

pétala por pétala a sua beleza natural.

São tudo isso as flores e são também faróis de esperança

que trazemos no olhar até que a morte nos junta.


 

segunda-feira, 12 de julho de 2021

OVÍDIO MARTINS


                                                                     CARICATURA DE H. BETTENCURT SANTOS (HUMBERTONA) 1973


Ovídio Martins vive em silêncio

dentro de cada verso seu.

Mora aí na ponta de praia desde o ventre

de sua mãe, soterrado por mil ou dez mil poemas

mestiços, tanto faz.

Quem lhe tirou o som do mar, até o de Pasárgada,

não sabia que um poeta ouve com o coração,

o imbecil carrasco.

Sentado na esplanada da pracinha

escrevia versos em guardanapos de papel

e Santiago amanhecia num poema

debruçado sobre as grades que separam o Atlântico

mar, prisão e liberdade, do mundo silencioso à sua volta.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

O VERBO SER


Estás convencido de tudo, que conheces tudo;

que sabes até por que tudo é como é.

E afinal erras, enganas-te, tropeças e feres-te

por saberes tudo de toda a gente, tudo de ti.

Enuncias os verbos, conheces de cor os advérbios,

longe de saberes o que está mais perto…

Ainda agora acordaste e já o sono de novo te invade;

ainda agora nasceste, ainda hoje morreste sem dares por isso.

Conheces a migração dos pássaros e a raiz

que prende as árvores à terra pelo mesmo motivo.

É claro que é a vida. Que mais haveria de ser?

Aprendeste o aroma dos frutos, o valor da água,

do sol, da terra. É provável até que saibas o significado do sangue.

Do teu sangue e do outro que corre por aí, avulso e sem nome.

Estás mesmo convencido que és aquela figura

que te mostra o espelho, como ainda ontem aconteceu.

Se não falasses, não te teria reconhecido,

porque ainda falas e falar é o recomeço de tudo.


 

terça-feira, 22 de junho de 2021

QUINTAL


Gostava que a minha casa tivesse um quintal,

um pedaço de terra, já me contentava.

Mas a minha casa tem apenas portas e janelas

para os quintais daqueles que os têm

ou que os deixam estar ali quietos

e nem querem saber da felicidade que é ter um quintal.

Se eu tivesse um quintal mudaria para lá a casa

e passaria a olhar para a casa como um verdadeiro quintal:

talvez assim sossegasse esta ansiedade

e olhasse a casa como coisa que gostasse de ter,

deixando de me sentir amputado dum quintal,

que não saberia cuidar nem para que serviria o musgo

das pedras em cima da minha cama.