domingo, 10 de maio de 2020

SOBRE UM POEMA


O poema não molha, não escorre;
a poesia discorre, percorre a tormenta;
encharca os ossos, o esqueleto do tempo,
até que os versos, já enxutos,
se derramem, como fazem as lágrimas
por chorar, quando ficam presas
à garganta magoada e seca.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

PROCLAMAÇÃO


As flores não pedem palmas;
pedem água e pedem sol.

As palmas são efémeras, voláteis,
mesmo para os poetas que ousam escrever
os seus versos;
enquanto as flores são sempre flores
se pensarmos nelas e lhes guardarmos o aroma.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

ÚLTIMA HORA


Informação, a que for certeira
digo, conforme a acta, que enforma
e é esse pormenor subtil que torna
a notícia verdadeira.

A notícia é o rufo do tambor
explico melhor: uma verdade contrafeita
escrita por gente eleita
seja lá ela o que for.

Serve-se fria, a jeito
e quem julgar que enforma é erro de ortografia,
fica na concha e se fia,
mude de jornal, com efeito.

Que tenha um bom dia e bom proveito.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

O DIA SEGUINTE


Ainda bem que estão aí.
Nada. Não é por nada. É somente por saber
que ainda estão aí.
Até agora, as guerras acabavam por satisfazer
uma das partes em confronto
e pela primeira vez assistimos a um conflito
em que todos se acham vencedores,
apesar de continuar a haver exploradores e explorados
por mais algum tempo.
Não foi exactamente uma viagem em comum
o que fizemos no mesmo barco.
É um pouco assustador, não acham?
Veremos se acontece o mesmo com o espólio…

Ou talvez eu seja demasiado pessimista,
poeta, quase sempre.
É provável que uma qualquer tristeza súbita
não me deixe ver a realidade que oiço,
que realça as mazelas e as baixas
e as dores da alma que isso traz consigo.
Mas ainda bem que estão aí.

Vi muito jogo sujo;
os que serão sempre coveiros
e os que ostentam aureola de santo
e são coveiros também.
- A sociedade cria estes elementos
para que os outros cidadãos
se achem merecedores de elogio –
e voltaremos a sujar as mãos porque é hábito nosso,
porque a qualidade que nos distingue
é também o nosso principal defeito:
(custa-me dizê-lo neste momento, isso é incontornável)
somos humanos e assim continuaremos.
Ainda bem que estão aí.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

O SONHO


Quando o Sol voltar a nascer
vou transformar-me num dos seus raios
e perpassar a vidraça da janela mais sombria…

(Nem todas as minhas janelas dão para a rua:
para dizer a verdade,
quase todas as ruas me entram pelas janelas.)

As probabilidades de que tal aconteça
vão pouco além do zero
mas para poder acreditar tem de haver um começo.

Esta noite ficarei de atalaia,
não vá a Lua caprichosa iludir-me de novo
e eu ficar sem sonhos para amanhã.  

terça-feira, 28 de abril de 2020

SOLSTÍCIO DO BEIJO


Agora que pairam nuvens
sobre um lençol
azul e a brandura da lua
seminua
se insinua é que tu vens
com os teus raios de sol
poisar no rossio
dos meus lábios de azulejo 
frio
dar-me um beijo.

domingo, 26 de abril de 2020

EQUINÓCIO DO BEIJO

                                     Ambrósio: Exposição temática sobre as cerejas Fundão


Quando for Primavera
e as cerejas
ficarem vermelhas
pendentes nas orelhas
a mim quem me dera
se então me beijasses como beijas
em jeito de flor
quando me desejasses
e os teus lábios tivessem o sabor
das cerejas.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

46º. POEMA SOBRE ABRIL


Ao mesmo tempo um sonho e um grito,
assim foi Abril daquele iluminado ano:
de mãos dadas, o presente e o infinito,
rompendo as brumas do tempo insano.

Ao sonho e ao grito juntou-se a esperança
de um país de liberdade e com futuro:
da árvore que é regada e por fim se alcança
pelo esforço, o fruto então maduro.

Não importavam as noites de chão pisado,
de amargos frutos, rosas com muito espinho…
Era em frente com a rabiça à testa do arado.

O que foi a eito corre agora em desalinho,
porém, Abril não morre; nunca está parado:
torce, torna, não pereceu o povo nem o caminho. 

terça-feira, 21 de abril de 2020

CONSELHO VITRUVIANO


Vitrúvio queixa-se de novo:
- Que sina esta! De mim ninguém tem pena.
uma vida em quarentena,
oh redimensionado povo!

E a lamúria continua:
- Tirem medidas. Façam dieta,
todo aquele que arquitecta
uma vida ideal e saudavelmente nua.

Mil jejuns é a receita,
comer e beber também mata
e ponham-se no meu lugar, em espargata,
é uma quarentena perfeita, 

domingo, 19 de abril de 2020

A VIDA


A vida é um painel de azulejos
numa gare em movimento:
entradas, saídas, alguns beijos,
que vão e vêm com o tempo.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

ALEGRIA




Quando a alegria não corre
sou eu quem corre atrás dela,
se a deixo parar ela morre,
e eu morro de tristeza sem ela.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

A BANCA


A banca, não produz, não cria:
à matéria prima apenas incorpora
alcavalas, juros de mora
que dá pelo nome de economia.

Mas coisa acabada, mercadoria,
nada: apenas a jeito do cliente,
uma mão atrás outra à frente
tudo em perfeita harmonia.

Gera lucros, é claro, se não falia,
mas esse valor acrescentado,
dinheiro singelo por dobrado
é embuçado e faz parte da fantasia.

O banco é um moderno agiota
de camisa branca, gravata, perfumado;
matreiro bastante para viver do Estado,
queixando-se da banca rota.

O mercado é a alma do banco,
no cofre forte ou em segredos tais,
ocultos em paraísos fiscais,
de onde só sai fumo branco.

E ao povo, que parte da banca lhe cabe?
Taxas, ordens de pagamento,
um inferno de contas sem provimento
mais as que paga e não sabe.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

PRATO DE ARTESANATO

Um prato no seu recato
é um objecto
no lugar exacto, circunspecto

é um facto incompleto
não tem olfacto
um prato de artesanato

obsoleto
  
na prateleira a vida inteira
sem eira nem beira
morre de fome, o prato

e de mau trato
o prato de artesanato
não vê sopa nem sopeira

é chato


sábado, 11 de abril de 2020

ACHADO NO RIO MECOM




Confinados, mitigando as horas e os dias;
ditosos picos, que depois foram planaltos;
tudo somado, explorações e pandemias,
não foram bastantes para nos deitar ao chão,
que de alma cheia, pesem as mãos vazias
hemos de impor disputa e vencer pela razão,
vírus ou monstros a que o tempo nos condena,
com balas, com vacinas ou simples quarentena…

Oh, se eu domino os mistérios do Oriente,
as cousas raras de entender, os sobressaltos
e não menos o gentio que fizemos descontente,
de quem exigimos ilustração, prazer e especiarias
a troco do pechisbeque e a falsa fé do Ocidente.
Agora, que o tempo fez passar um ror de dias
é que achais na pimenta e na pólvora uma só raiz,
mas só agora, que a mostarda vos alcançou o nariz.

Dirão os mais que a cura foi obra do divino,
que a todos abençoou, precavidos e incautos,
e quem pegou em armas o fez por seu destino
e estoico empenho em servir, baldada a sorte,
é mero instrumento ou servo celestino.
Eis por que todo aquele que se livrou da morte,
em si mesmo a causa e da cura instrumento,
nesses não acrediteis, perdeis o vosso tempo.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

CAPITAL


Era o mercado, o agente
e de tudo tinha alvará,
faliu, já foi, já não dá
nem dará daqui p’ra a frente.

A economia, ora aí está!
O capital, naturalmente,
que adeje urgentemente:
faliu, já foi, já não dá.

O capital está doente,
mal de velho gagá:
faliu, já foi, já não dá,
sucumbiu, foi de repente.

Para o salvar, um chá,
papas de linhaça, urgente,
acudam que o paciente
faliu, já foi, já não dá.

A exploração permanente
deu-lhe esta coisa má:
faliu, já foi, já não dá,
já não há quem aguente.

Esperneia, quer para já
injecção, sangue quente,
em delírio de impotente,
faliu, já foi, já não dá.

Faliu, já foi, já não dá.