domingo, 1 de março de 2020

A VELHA ÁRVORE


Não sei se os músculos da vida já vivida,
se os musgos acrescidos pela espera;
sei que há esperança nesta árvore envelhecida
e que é deste Outono que brota a Primavera.

Quando morrer, jamais na lembrança
que dela tenho; deixará raízes, frutos, vida
e aí reside, em parte, a nossa esperança:
um novo sol renasce em cada despedida.


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

O GATO AMARELO


Como tema de conversa
proponho um gato vulgar;
podia ser siamês ou persa,
mas vamos mais devagar.

Este é um gato amarelo,
rafeiro e de bom trato,
insinua-se, como apelo,
que lhe dê sobras do prato.

Não mia, aguarda sereno
um pouco da minha atenção,
uma festa ou faça o pleno:
um olhar, um afago e ração.

E fica por aqui a visita:
satisfeito, Deus o guarde
vira costas, não hesita
e ala que se faz tarde.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

A VIDA PELOS FÓSFOROS

Não tenho qualquer dúvida em afirmar,
que um fósforo ardendo teve origem
na mesma caixa onde repousam em paz
trinta e nove dos seus semelhantes em espera.

Eu vejo a labareda consumir o fósforo
e sei que há quem vá conferir na caixa
se são realmente trinta e nove os restantes,
caso os amorfos venham a ter utilidade.

A alheia atitude significa, a meu ver,
que depois de ter sido útil no deixa arder
da vida, depois da negritude que supõe o fim,
o que conta são os trinta e nove por usar.

E nesta esperança vivemos: que os pausados
trinta e nove fósforos iluminem o mundo. 


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

A LUZ DOS VERSOS


Por vezes os versos cintilam,
antes ainda de serem versos,
e mentem-me como estrelas
e fazem-me acreditar na luz
que brilha na minha imaginação,
se esta for o que julgo ser.

Diluem-se, desintegram-se
por não serem verdadeiros versos
ou por serem o pó que resta
da estrela incandescente,
que por mais resplandecente
está a anos-luz de ser poema.

Depois caem-me nas mãos
feitos cinza, chuva miudinha,
tal como as agulhas de neve,
castigando a pele, que se avermelha
de frio, que o sangue deixa
quando se ausenta ou foge
e a fulgência volta a ser poema.


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

POÉTICA DOS ANJOS


Os anjos parnasianos estão entretidos:
tecem belos poemas para a eternidade
e os querubins fazem ovos mexidos
por terem fome e a fome ser de verdade.

É deixá-los nestes serões celestiais,
eles adoram poesia e festas de salão;
tocam harpas e organizam jogos florais,
enquanto os querubins se ocupam do fogão.

A fome é apenas manigância espiritual
e não há como a poesia para manjar tão rico:
torna-os naperons azuis de renda virtual,
que o espírito santo vai tecendo com o bico.

Há contratempos, sanáveis ao que se diz,
versos indigestos, mas que ao fim e ao cabo
cada um tem seu destino e cada qual aprendiz
de poeta e de anjo, com fome é que é o diabo.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

PÁSSARO DA CHUVA




Continuo à espera do pássaro asa de nuvem
para me contar os segredos da chuva:
se é a pena que molha, se chora por ter pena.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

OS BEIJOS


Todavia
eram beijos que me sabiam sempre ao pó do giz
à surpresa causada pelos companheiros de berlinde
que se alistaram na gnr
aos versos inesperados no papel dos rebuçados para a tosse
ao susto semanal que me roía as veias
quando a diesel dava o primeiro sinal de partida

hoje um grão de areia é quanto basta
para esta terrível amnésia
de não saber se te beijei de manhã
depois do almoço
quando fazíamos amor
antes de adormecer
ou mesmo se te beijei

e todavia
respiramos um misterioso bálsamo
(catorze minutos e dez segundos)
como o que envolve o baú fechado
há duas gerações 
o interior do fogo
e a contabilidade dos beijos durante as férias

um beijo

sábado, 8 de fevereiro de 2020

MOSTARDA NO NARIZ


Diz o versado tribuno, que o assunto
do estômago dorido foi coice ou murro.
Pois eu não comento queixas de defunto
cheira-me a esturro.

O truque já foi usado e é demasiado velho:
baralhar as cores, fingir que es com pinta são is
e pintar panos negros e cinzentos de vermelho
torço o nariz.

Lampeiro, senhor da oração dócil e matreira,
que esconde a face, a postura moral autoritária,
vendedor de cuspo no carrossel da feira
irrita-me a pituitária.

É para desconfiar tanta ousadia do sequaz
inocentado, de fralda enxuta, pão sem sal.
Não se sabe ainda do que o alarve é capaz,
cheira-me mal.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

JOGO DA BOLA


corre o avançado
é o ás do relvado
mas o campo é pelado

direito à baliza
já não corre desliza
e… e quase concretiza

um drible arriscado
o remate… ao lado
torna a bola no solo
vai vai finaliza
é golo é golo é golo
na própria baliza.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

JOGO DA DANÇA


um pasodoble não
não uma valsa
uma bailarina descalça
saltitando no chão

nas tábuas do salão
é bom de ver
a música de entreter
o coração

que música é esta
se não há festa
que estranho baile
ao som da cegarrega
a bailarina é cega
e a música de braille. 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

JOGO DA FOME




é pouca a sopa
no prato, na boca
muito pouca

e eu que o diga
ao que me obriga
melhor, à barriga

ó contradição
raio da alimentação
que me consome!
se dá pró torto
é fome de morto
ou morto de fome?


terça-feira, 28 de janeiro de 2020

BEIJOS DE ÁGUA




Chamem-lhe água à solta ou rio,
que de pedra em pedra murmureja;
é aí que a minha sede sacio,
sorvo a sorvo como quem beija.

Ao beijar a água doce da corrente,
matando a sequidão, ela canta:
o rio percorre o corpo de contente,
refresca a minha alma e a garganta.

E quando, enfim, a sede saciada
permite à lucidez que se revele,
eu dou conta que o beijo da levada
foi do rio a mim e não eu a ele.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

PALAVRAS



Soletro devagar a palavra frágua
e gosto do que me chega ao ouvido,
capaz de incendiar toda a mágoa,
se o fogo fizer algum sentido.

Escrevo a palavra lume e apago-a,
queima-me os dedos, a tinta ferve,
uma tempestade num copo d’água,
apenas isso, para mais não serve.

São afinal palavras, nada mais…
Não sei que voltas dão, saem pela boca,
não passam de pequenos sinais
e o que demais trazem é coisa pouca.

Um grito, um pedido, um lamento…
Caem como as folhas; leva-as o vento.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

FERNANDO PESSOA


De todos serei um, não mais que isso,
e será moléstia a pretensão de o ser;
dois, vá que não vá. Para ser conciso
de quantos for serei quantos eu quiser.

Às vezes não caibo em mim, isso é verdade,
então detenho-me e fico preso sob suspeita,
não vá alguém acreditar em tal ubiquidade,
mas isso é modo de dizer, é frase feita.

Porém, se afinal não fui, não sou nenhum,
sendo quem sou, Pessoa de carne e osso,
de todos serei eu e apenas um,
assim me faço e dou, que mais não posso.

sábado, 18 de janeiro de 2020

JOGOS DE OLHAR




Espreito os teus olhos a medo
por não serem olhos de ver
são antes, em ti, um segredo
e em mim cegueira de os ter.

Jogam comigo às escondidas
fingem que se vão esconder,
que eu já dou por adquiridas
as voltas que dou sem os ver.

Voltam mais tarde a aparecer
neste vaivém permanente…
não sei se ainda os quero ver,
se os vejo e o olhar me mente.