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terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

OS BEIJOS


Todavia
eram beijos que me sabiam sempre ao pó do giz
à surpresa causada pelos companheiros de berlinde
que se alistaram na gnr
aos versos inesperados no papel dos rebuçados para a tosse
ao susto semanal que me roía as veias
quando a diesel dava o primeiro sinal de partida

hoje um grão de areia é quanto basta
para esta terrível amnésia
de não saber se te beijei de manhã
depois do almoço
quando fazíamos amor
antes de adormecer
ou mesmo se te beijei

e todavia
respiramos um misterioso bálsamo
(catorze minutos e dez segundos)
como o que envolve o baú fechado
há duas gerações 
o interior do fogo
e a contabilidade dos beijos durante as férias

um beijo

quinta-feira, 18 de maio de 2017

BLOG


terça-feira, 22 de setembro de 2015

AS TARDES



Nunca as tomei a sério:
lambuzado de poemas, apertava com força
e descuido o sexo das borboletas moribundas

e subia pelas cordas estendidas
na sombra às cerejeiras que suplicavam
o contacto das minhas pernas nuas,
entrelaçadas na frescura seca
dos seus ramos meigos.

Descia
ainda
abraçado
ao tronco,
farto, meio sujo,
com os lábios tingidos de vermelho
e dois cachos de poemas
pendurados nas orelhas.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

POÉTICA DOS SENTIDOS - O TACTO E O PALADAR

Pablo Picasso


É de púrpura e fogo
o teu olhar
quando me apertas com força
o suor do ventre
fresco
e saboroso
como goles de vinho branco

- enorme impressão digital
que denuncia
verso a verso
a nossa poesia

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

REVERSO



Teu peito
provocante
aberto

e descoberto a fios
de madrugada
respira ainda o beijo
quente
o ventre
líquido e substancial
do teu corpo em verso
violento



terça-feira, 7 de agosto de 2012

INVERSO


Sempre à mesma hora
enquanto o gebo hindu de prata
faz o raio xis do nobel mais recente

dispo-te a roupa interior
ao inverso
da cronologia estabelecida

guardo a tua imagem nua
perpetuamente fria
e estendo as minhas flores
em grassada lenta

sempre à mesma hora


cobertos pelas rugas
e os orgasmos que inventamos

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

CONTROVERSO


Tem aguarelas mortas
a nicotina
que nos suspende
amor
talha a ilusão do verso
num ritmo cardíaco
controverso

a língua do teu corpo fica ainda
mais ardente
mais entregue

mais fundo o tempo que desejo
num verso exausto imaginado
interdito
imperfeito

sábado, 4 de agosto de 2012

VERSO


Devagar
tão breve como lábios frescos
versejando
a lentidão da sesta
e o prazer do número impar
a cada página

cinzelar-te
a sombra a sol maior
neste querer-te lenta
sensual
voluntária e leve
em fatias de verso adocicado

deixar
escorrer-te o tempo
pelas tranças indefesas
ou pelas súbitas entrelinhas
transpiradas

derramar
então a cinza
a lava das veias
dilatadas

domingo, 8 de julho de 2012

CORPO DE POEMA

Criei este blogue em 24 de Março de 2009 com o intuito de divulgar sobretudo os poemas que vão ficando órfãos (não editados em livro). Resultado: 570 publicações, 839 comentários (que retirei há já algum tempo), mais de 50.000 visitas (o counter das bandeirinhas no rodapé da página inicial só foi adoptado em finais de 2010). Divulgar os poemas que me iam surgindo foi assim o objectivo principal. Entretanto, por razões de força maior que só eu estou em condições de entender, manifestou-se nos meus poemas um estilo diferente. Abandonados os “estilos” mais incipientes dos primeiros livros e o “coisismo” dos anos 80, o modo de escrever tornou-se mais consistente e, ao que julgo, definitivo. Não tenho nome para lhe atribuir ou, dito doutra forma, ninguém lhe outorgou qualquer engagement., como normalmente acontece nestas situações. Não falando na ficção em prosa de Mar de Pão e Súbita Floresta, no início deste ano de 2012, um novo estilo poético veio moldar-me a arte de construir os meus poemas. Não foi suficientemente forte para que o adotasse, mas interessante para que o mantivesse em paralelo. Criei por isso um heterónimo – não se trata de pretensiosismo, mas da necessidade de separação das águas – que, em boa verdade, já existia desde os tempos de Cabo Verde, no Novo Jornal. Falo de João Corvo, que tem vindo a publicar em Corpo de Poema com alguma regularidade. Agora, passados 60 anos de vida e 40 desde a edição do meu primeiro livro de poemas, achei oportuno (o critério é meramente estatístico) publicar os cinco poemas mais vistos no blogue. Agradeço aos meus leitores a atenção que sempre quiseram dispensar-me ou, como dizia um velho merceeiro que conheci há um par de anos, voltem sempre!


ESTRELA DO NORTE

Há um corte
entre o dia e a noite
vigiado pela estrela do norte

augura boa sorte
este ponto que me persegue
ainda a estrela do norte

quase sinal de morte
é um quieto silêncio
e apenas a estrela do norte.


DO AMOR

Que é do amor o rumo que nos leva
por desertos de areia e pedra dura?
E que é daquele outro que releva,
mas que o próprio amor não cura?

Que é do amor que sangra e dói,
que por ser amor é seu oposto,
padece de vontade e não corrói,
nascendo em cada dia já sol-posto?

Mas se o amor é a água que sacia
de um sorvo toda a sede presumida,
é também o que seca de agonia
por dentro e de forma consentida.

Corrompe para viver e, por ironia,
morrer de amor é como ganhar vida.


ROSMANINHO

Rosmaninho, companheiro
de tristezas e alegrias,
dá-me a mão, mas primeiro
vem comigo à romaria.

Teu cheiro é a matriz,
como se fosse uma senha:
quando te levo ao nariz,
lembra-me a campina d’Idanha.

És, no fundo, o caminho
que me conduz mais além,
na esperança de ver, rosmaninho,
em Idanha a minha mãe.

ROSA TREPADEIRA

Olha a rosa trepadeira
tão sensual e melosa,
pisca-me o olho, brejeira,
estás a abrir c’ma rosa…

Novelinhos de algodão
são, rosa, os teus botões
que, com tal palpitação
me sugerem corações.

Trepa rosa trepadeira,
vai subindo para o céu,
que o meu olhar é cegueira
quando se cruza no teu.

REMISSÃO

Agora vejo o rubor do teu rosto,
a aurora boreal do teu olhar.
Vejo açucenas e fogo posto
queimando-me dentro e devagar.

E uma centelha de luz e flama
fulmina-me. Fico cinza e nada,
fumos, pó, restos de chama;
um chão estéril após a trovoada.

Ainda assim sou lisonjeiro,
como pé de água sobre brasas:
detono as veias e, prazenteiro,
troco as minhas armas por asas.



segunda-feira, 13 de junho de 2011

AS TARDES

O cabaz de cerejas foi-me enviado pelo meu amigo Mário Quintas. Não o consigo endireitar (na foto) que é como quem diz não o vou levar a sério… Mas isto de cerejas é muito superior às minhas forças. Obrigado Mário. Terei cuidado com os caroços…
Nunca as tomei a sério:
lambuzado de poemas, apertava com força
e descuido o sexo das borboletas moribundas


e subia pelas cordas estendidas
na sombra às cerejeiras que suplicavam
o contacto das minhas pernas nuas,
entrelaçadas na frescura seca
dos seus ramos meigos.


Descia
ainda
abraçado
ao tronco,
farto, meio sujo,
com os lábios tingidos de vermelho
e dois cachos de poemas
pendurados nas orelhas.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

MOMENTO IV

Sei que um traço
marginal
mesmo a carvão
pode
sangrar
mas não será à força
de aparar o lápis
que as palavras
mais frescas
se soltarão
em pedaços
de cristal

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

MOMENTO I


Vingo-me nas palavras
- atalhos da verdade pura
penetro-as sorvo-lhes o sémen
da literatura

terça-feira, 19 de outubro de 2010

MOMENTO VIII



Há sílabas
amputadas
em cada grito
que se desfia
enxuto e gutural
poema que não
derrama
mas percorre
anónimo
o itinerário do sangue