quarta-feira, 15 de agosto de 2012

UMA MÃO CHEIA DE TERRA


Uma mão cheia de terra
é todo o mundo e é nada;
uma semente que espera
na mão de terra encerrada.

Tem a ciência concisa
e até a luta de classes
e a proporção precisa
de ácidos, de sais e bases.

Tem até um sol aceso
num universo de estrelas.
Tem volume, forma e peso
sem contar com bagatelas.

E nada mais tem, tendo tudo,
que para tal não falta tema,
tendo a terra e, contudo,
não mais que este poema.

Eis a verdade que encerra
este universo, em suma,
uma mão cheia de terra
é tudo e coisa nenhuma.



segunda-feira, 13 de agosto de 2012

MANIFESTO CONTRA OS POETAS DE ASSIM


Andam por aí zangados com os anéis de Saturno
e demais cósmicos e virtuosos passos de dança;
coçam a virilha cega, e a outra, e depois a pança
e pairam, sazonais, em ordem própria e por turno.

Deuses, os que têm barba e figura de indigente,
com unhas multiusos, túnicas austeras e ensebadas
que, em paralelogramos de papel dão palmatoadas
a quem se porta mal e recusa ser diferente.

De todo o resto, não passam de figuras tristes:
metáforas anódinas, céus de chumbo, sonolência
e outras requentadas alquimias e faltas de paciência…
Abençoada sejas, poesia, que a tanto resistes!

sábado, 11 de agosto de 2012

EM PALPOS DE ARANHA


Passam-se coisas estranhas
ou, pelo menos, esquisitas:
na terra dos parasitas
anda tudo às aranhas,
salvo as ditas.

Passando aos pormenores,
há os que por acaso mero
tecem teia a partir do zero:
aracnoexploradores,
salvo erro.

Usando de baba e peçonha,
são servidos de bandeja
mesmo que a gente não veja
por outros bichos sem vergonha,
salvo seja.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

REVERSO



Teu peito
provocante
aberto

e descoberto a fios
de madrugada
respira ainda o beijo
quente
o ventre
líquido e substancial
do teu corpo em verso
violento



terça-feira, 7 de agosto de 2012

INVERSO


Sempre à mesma hora
enquanto o gebo hindu de prata
faz o raio xis do nobel mais recente

dispo-te a roupa interior
ao inverso
da cronologia estabelecida

guardo a tua imagem nua
perpetuamente fria
e estendo as minhas flores
em grassada lenta

sempre à mesma hora


cobertos pelas rugas
e os orgasmos que inventamos

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

CONTROVERSO


Tem aguarelas mortas
a nicotina
que nos suspende
amor
talha a ilusão do verso
num ritmo cardíaco
controverso

a língua do teu corpo fica ainda
mais ardente
mais entregue

mais fundo o tempo que desejo
num verso exausto imaginado
interdito
imperfeito

sábado, 4 de agosto de 2012

VERSO


Devagar
tão breve como lábios frescos
versejando
a lentidão da sesta
e o prazer do número impar
a cada página

cinzelar-te
a sombra a sol maior
neste querer-te lenta
sensual
voluntária e leve
em fatias de verso adocicado

deixar
escorrer-te o tempo
pelas tranças indefesas
ou pelas súbitas entrelinhas
transpiradas

derramar
então a cinza
a lava das veias
dilatadas

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

ESTAÇÃO ALTA


De camas se fala, não de enxergas, de alcovas,
do lençol que se esgueira a noite toda.
De camas se fala como leitos,
salas de espera nocturna.
De camas e ex-camas de turismo se fala.


Provado está que um rol de camas
acama um ror de euros.
Bastará para tanto uma frase convidativa
como: venham deitar-se nas nossas camas
ou apenas
passe uma noite connosco,
damos de brinde um sol
para a literatura estrangeira de viagens.


O Algarve tem camas, as coloridas costas têm camas,
mais as serras e as termas, nos seus termos,
para deitar – entre comas – as visitas mais exigentes,
que um dia das nossas camas falarão ao mundo


em seu mal soletrado castelhano

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

NA MINHA MODESTA OPINIÃO


Para quê ateimar,
se digo sim e você não.
Uma coisa é opinar
outra é ter razão.

Uso do contraditório,
admito.
Sempre dá mais falatório
e, se fizer falta, repito.

Em vez de bomba, botija;
em vez de bronco, bronquite.
Mas, `spere aí, não se aflija,
é apenas um palpite.

Isto de opinar tem
muito que se lhe diga:
o doador é quem
com a doação fica.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

CAPITAL (IN)VESTIDO


Não é de cambraia, tampouco popelina,
é mais o tipo de riscado de qualidade má,
ou seja, o que parece nobre, coisa fina,
não passa de forro de oculto tafetá.


Faz-se anunciar em tules e brocados,
e passa por fidalgo pano ou pura lã.
Não é mais que fios entrelaçados
de mais-valias dum tecelão ou tecelã.


O mesmo nos privados panos intestinos:
badaladas bolsas e demais adornos,
bonés, chapeletas, adereços bovinos
e nessas passerelles (in)vestem, os cornos.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

TABULEIRO

              Primeira publicação de João Corvo em Novo Jornal de Cabo Verde, em 6/2/1975



Em terras de Tabuleiro as coisas não corriam bem… O Rei fazia questão em que a sua corte tomasse as rédeas do país e com ele levasse por diante o famigerado plano do “absoluto silencioso”.
Do outro lado, porém, um grupo cerrado de Peões olhava-o de soslaio, como se lhe quisesse mostrar a sua presença.
Nada no entanto modificava a ideia do Rei, que teimava em avançar no caminho aberto pela sua corte.
A Rainha, dois bispos e um Cavalo serviam-no nas longas avançadas. De jogada em jogada iam deixando marcas do seu cunho.
Aflitos pela loucura do Rei, os Peões apelavam-lhe para que parasse, que os ouvisse, que a derrota estava iminente.
Mas o Rei acoitava-se nas Torres e, brandindo a espada de tábua inoxidável, ameaçava-os com os pântanos que cercavam as terras de Tabuleiro
Os Peões á que não se ficavam. Avançando devagar, cautelosamente, impediam aos poucos a ira do Rei.
Certo dia o Rei acordou com um fabuloso plano em mente (os planos do Rei eram sempre fabulosos): avançaria sobre os Peões inimigos mais destacados, encurralando-os nos sótãos de Tabuleiro e, acompanhado por Peões servidores, apanharia de surpresa as linhas contrárias, pensava, destroçando-as.
No seu dizer, os Peões inimigos avançados “constituíam uma séria ameaça para as terras de Tabuleiro e para as comunidades estrangeiras”…
E assim fez: na manhã seguinte pôs o plano em marcha, infiltrando-se nas brechas deixadas pelos Peões inimigos avançados, sobrepondo-se-lhes, atirando-os para trás.
Má sorte: os Peões servidores nada sabiam de Tabuleiro e avançaram estupidamente às ordens do Rei, agora apoiado por dois opulentos Cavalos.
Facilmente, os Peões que antes olhavam o Rei de soslaio, se infiltraram nas suas fileiras. Todos os dias chegavam notícias de baixas, não só de Peões servidores mas, pouco a pouco, das mais importantes figuras da corte.
O Rei já não dormia. Passava as noites magicando planos (planos fabulosos…) na sua magistral poltrona de suma-pau. Por mais ideias que tivesse não via maneira de se livrar de triste sina.
Consultou sábios e bruxos – os melhores que Tabuleiro tinha – cuidando que o mal passaria com profecias, mezinhas, manipansos e demais ciências ocultas, mas em vão.
Experimentou todos os truques, pensou ainda em soltar os Peões inimigos que encurralara nos sótãos, temendo ser vítima de uma terrível praga rogada pelos ex-Peões. Mas não, nada deu resultado e a soltura dos ex-Peões poderia ser perigosa.
Novamente o sol bateu nos seus olhos vermelhos e abertos. Agora não conseguia mesmo dormir. Pensamentos estranhos assaltavam-no dia e noite, os papéis amontoavam-se na secretária. E um silêncio, um silêncio térreo. Nessa manhã apercebeu-se que estava sozinho. “Nem um solidário Bispo”, pensou. E foi nessa altura que lhe ocorreu a ideia serôdia de se converter ao catolicismo. Assim ficaria preservado dos males do mundo e muito em especial dos Peões contrários que, olhando-o já de frente, avançavam a passo firme. Era tarde.
Uma noite o Rei viu-se cercado por uma multidão de Peões que, numa gargalhada uníssona o fizeram estremecer de pavor.
Correu de sala em sala procurando aqui e ali uma trincheira onde se pudesse acoitar. Nada. Só papéis, papéis e a sua espada de tábua inoxidável. O rosto do Rei era já uma papa meio suor meio pau, que lhe conferia um aspecto angustiante. As mãos encrespavam-se-lhe num gesto de súplica. O Rei estava moribundo. Estrebuchava no chão como um peixe fora de água. O olhar firme dos Peões contrários queimava-lhe os últimos pensamentos. Quedou-se na manhã seguinte com um laivo de cólera nítido entre os dentes e um plano ainda fabuloso por concluir.
O Rei esquecera-se que embora rei, só podia avançar uma sala de cada vez…



terça-feira, 24 de julho de 2012

A UNIDADE DA VIDA


Tem mais ensinamentos uma brisa agreste
que se intromete pela bainha da camisa,
fazendo o peito estremecer,
que mil afagos de quente aconchego dos amigos,
por mais ternos e solidários que sejam.
Mas não existe vida capaz de suportar
apenas a amizade, nem existência
sempre exposta à crueza do vento.
A vida é o resultado da luta diária
entre o que magoa e o que conforta.



domingo, 22 de julho de 2012

ALFAZEMA

OFERTA


trouxe-te

um beijo…


            no bolso



Pedro, 3 anos


 
A modesta haste de alfazema
fez-me companhia o dia inteiro.
Primeiro, um tanto crespa
em todo o cálice azul-violáceo,
depois, à medida das minhas carícias entre os dedos,
foram emergindo pequenos borbotos
que se soltavam da planta,
deixando uma fina penugem acariciar-me, suave.
A dádiva da haste de alfazema veio depois:
tinha os dedos lesos
eram veludo contra veludo quando deles dei conta.
Cheirei-os e era a veludo que cheiravam.
- Veludo não é cheiro, dizem-me.
- É! Veludo é cheiro e perfume
quando em troca de nada nos beijam.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

DORES DO MUNDO


De que me queixo? Do mundo?
Que culpa tem essa esfera azul e magoada?
Mais de mil deuses poisaram
na velha nogueira do meu quintal.
A nogueira e o quintal já lá não estão.
Os mil deuses, esses, julgo que ainda dormem
no vazio do quintal e da velha nogueira,
como é seu costume;
baloiçam-se para se sentirem suspensos,
como é seu gosto;
zumbem na consciência dos homens,
como é seu ofício.
O lugar já só existe na minha memória – disso me queixo –
Se a ele me refiro ou penso
apenas a mim me compraz ou magoa
conforme as dores do mundo.

terça-feira, 17 de julho de 2012

MORTE SANTA


Haverá a morte de dar notícia.
É com esta aparente contradição
que as dores, usando de malícia,
cumprem o que é a sua condição.


Doem, moem e, não poucas vezes,
aliviam para de novo magoarem.
Algumas são matreiras, soezes:
arraigam em silêncio sem se anunciarem.


E quando as favorece a condição
do corpo sem sintomas ou suspeitas,
já não há comprimido ou injecção
que sare a dor das vítimas contrafeitas.


Então, devota, a morte dá notícia:
alvitra o beato descanso eterno
e impõe com autoridade de polícia
de duas uma: o céu ou o inferno!?


E feito o deve e o haver da vida,
se a conta dos pecados está por fazer,
seja qual for a extrema via decidida,
não resta mais à dor senão morrer.