Mostrar mensagens com a etiqueta REBUÇADOS CARAMELOS E SONETOS. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta REBUÇADOS CARAMELOS E SONETOS. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 3 de junho de 2021

RETRATO DE POETA



Nunca me fizeram um retrato

de poeta.

Mas fotografaram, pintaram e até esculpiram Pessoa

com o inevitável chapéu de feltro e o par de lunetas

que repartia com todos os heterónimos.

Não tenho um único retrato

de poeta.

Ao contrário de Walt Whitman,

que foi imortalizado em pose de patriarca iluminado,

velho, de barbas esgadanhadas muito além da decência      

da pilosidade poética.

A Baudelaire que era feio, fizeram-no

com certeza por maldade.

Eu é que nunca posei

enquanto poeta,

com a mão apoiando o queixo, como os românticos

ou ambas todo o rosto, como os surrealistas.

Ou será ao contrário?

 

Vá lá, por favor, façam o meu retrato

de poeta,

que não tardam aí poetas do futuro,

desejosos de escrever sobre ele um ou dois versos

dum poema magnífico. 

 

quarta-feira, 3 de junho de 2020

TRÊS POR TRÊS


OITAVA MARAVILHA

Eis como a oitava maravilha se enuncia:
a quinta emenda, a sexta esquadra
e o heróico sétimo de cavalaria.    

COMUNIDADE EUROPEIA

As voltas que nós demos por este passaporte.
Agora, é só seguir a boa estrela, que, se deus existe,
há também uma CEE para além da morte.

AS NÓDOAS

Umas são negras (como no dorso as andorinhas)
outras têm cores tão angelicais,
que sem óculos tridimensionais, não advinhas.


segunda-feira, 28 de maio de 2018

EUGÉNIO DE ANDRADE

                                          Biblioteca Municipal Eugénio de Andrade, pintura Isabel Nunes


Inventor de gerânios e de espelhos,
pétalas, líquenes, juncos, alfazema.
E searas com os morangos mais vermelhos,
trepando às varandas do poema.

Às vezes, limos e ninfas sobre os joelhos
rumoravam como queixumes e fonemas:
uns eram versos de água, outros conselhos,
mágoas, gritos, lágrimas e penas.

Cultivaste as madressilvas na viagem,
mas do oiro, apenas sóis. Porém,
a música e o fogo foram bastantes.

E quando em ti houve versos exultantes,
(do garimpo perene por ocultos diamantes),
eram como se tivessem dentro a própria mãe.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

OVINOS


Umas são cobertas,
outras tosquiadas.
Se as contas estão certas,
(incluindo as paridas,
as novas e as velhas)
ao todo cem vidas
o rebanho de ovelhas
subsidiadas.

Carneiros há dois
de presas garbosas
e de maus lençóis.
Borregos contados
são três quarteirões,
salvo os desmamados
já aos encontrões
às ovelhas ronhosas.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O GRILO


Quem disse que o grilo tem cornos
e canta,
se o homem que os tem
fica com o nó na garganta?

O grilo tem antenas.
Canta,
apenas.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

A PULGA


A pulga pula
de pelo em pelo
e salta,

suga, estulta,
pouco a pouco
o sangue suga.

A pulga avulta
gota a gota
e muda.

Se resulta,
chupa, chupa
e deglute.

Insone, cata-
pulta e some
a puta.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

NA MINHA MODESTA OPINIÃO


Para quê ateimar,
se digo sim e você não.
Uma coisa é opinar
outra é ter razão.

Uso do contraditório,
admito.
Sempre dá mais falatório
e, se fizer falta, repito.

Em vez de bomba, botija;
em vez de bronco, bronquite.
Mas, `spere aí, não se aflija,
é apenas um palpite.

Isto de opinar tem
muito que se lhe diga:
o doador é quem
com a doação fica.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

TRÊS POEMAS HÍBRIDOS DE PENDOR FILANTRÓPICO


1.

Amealhei cuidadosamente
as velhas lâminas de barbear,
os sapatos incapazes de novas meias-solas,
o pó dos livros e as fitas e os laços
das últimas prendas de natal.
Guardei com ternura os neologismos falhados,
que treparam a memória distraída.
Espero que o tempo e a erosão
confirmem este poema ecológico.

2.

Se, das velhas lâminas,
contasse que nos seduz ainda o marketing
das suas embalagens importadas,
Se vos lembrasse que, hoje, o couro dos sapatos
é quase a nossa pele curtida,
que não lemos porque o pó se acama
além dos livros, na cultura,
e o natal vai ficando oco como os chocolates,
enquanto nos restam cada vez mais apenas fitas e laços,
assim não teria que inventar mais palavras:
este seria um poema político.

3.

Mas se insistisse, ridículo,
acreditando nas pelo menos quinze barbas
que promete cada lâmina,
na cor dos sapatos, no verniz dos laços e fitas,
que cada natal anuncia em capa de revista
(papel cromolux, high color, assinatura por um ano e porte pago)
certamente colhido pelas palavras
alheias ao texto, mal dormido,
deixaria por legado
um poema sem consequências.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O TRAJE


Dentro da lapela há uma tela
e em tê-la se entretém  a vida,
como no mar alto içar a vela
esperar do vento o invento da saída.

De facto, o fato é um afecto
ou o tacto de um braço nu.
Assim o branco é brando no aspecto,
quando brinda em lençol de pano cru.

Por fim o toque do laço
e para que o lenço realce, ao centro
o lance alongado do traço
e a legenda: frágil, leva gente dentro.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

RETRATO DE POETA



Nunca me fizeram um retrato
de poeta.
Mas fotografaram, pintaram e até esculpiram Pessoa
com o inevitável chapéu de feltro e o par de lunetas
que repartia com todos os heterónimos.
Não tenho um único retrato
de poeta.
Ao contrário de Walt Whitman,
que foi imortalizado em pose de patriarca iluminado,
velho, de barbas esgadanhadas muito além da decência      
da pilosidade poética.
A Baudelaire, que era feio, fizeram-no
com certeza por maldade.
Eu é que nunca posei
enquanto poeta,
com a mão apoiando o queixo, como os românticos
ou ambas todo o rosto, como os surrealistas.
Ou será ao contrário?

Vá lá, por favor, façam o meu retrato
de poeta,
que não tardam aí poetas do futuro,
desejosos de escrever sobre ele um ou dois versos
dum poema magnífico.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

O TRASTE


Com a leveza da espuma,
luva preta em pelica
e um chapéu de aba e pluma,
como se arruma, que bem lhe fica.

A calça tem aprumo, um vinco
de goma e rigor fantástico.
Quase não se vê o cinto
e o par de botas de elástico.

Espreitam das mangas botões
de pérola em punho de renda,
(na verdade imitações)
mas alto lá com a encomenda.

segunda-feira, 30 de março de 2015

PÁSSAROS


Canta o pinta
roxo
(parece-me ouvi-lo)
o pinta
silgo tem outro estilo.

Ao pinta
inho, é difícil imitá-lo
enquanto o pinto
não for galo.

Todos cantam que dá gosto.
Salvo o pardal:
de desgosto,
veste de cinzento, anda mal
posto.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

ACTO(R)POLÍTICO


Um mau actor não é um bom político.
Um mau político não é um bom actor.
Um bom actor não é um mau político.
Um bom político não é um mau actor.

Um bom político é um bom actor.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

A PULGA


A pulga pula
de pelo em pelo
e salta,

suga, estulta,
pouco a pouco
o sangue suga.

A pulga avulta
gota a gota
e muda.

Se resulta,
chupa, chupa
e deglute.

Insone, cata-
 -pulta  e some
a puta.


sexta-feira, 3 de agosto de 2012

ESTAÇÃO ALTA


De camas se fala, não de enxergas, de alcovas,
do lençol que se esgueira a noite toda.
De camas se fala como leitos,
salas de espera nocturna.
De camas e ex-camas de turismo se fala.


Provado está que um rol de camas
acama um ror de euros.
Bastará para tanto uma frase convidativa
como: venham deitar-se nas nossas camas
ou apenas
passe uma noite connosco,
damos de brinde um sol
para a literatura estrangeira de viagens.


O Algarve tem camas, as coloridas costas têm camas,
mais as serras e as termas, nos seus termos,
para deitar – entre comas – as visitas mais exigentes,
que um dia das nossas camas falarão ao mundo


em seu mal soletrado castelhano

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

NA MINHA MODESTA OPINIÃO


Para quê ateimar,
se digo sim e você não.
Uma coisa é opinar
outra é ter razão.

Uso do contraditório,
admito.
Sempre dá mais falatório
e, se fizer falta, repito.

Em vez de bomba, botija;
em vez de bronco, bronquite.
Mas, `spere aí, não se aflija,
é apenas um palpite.

Isto de opinar tem
muito que se lhe diga:
o doador é quem
com a doação fica.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

ANO COLORIDO


Vêm Janeiro e Fevereiro
e ainda não abri o tinteiro.

Chega o primaveril Março
com matizes de pigarço,

assim como o não menos Abril,
mas em tons de rosa e anil.

Quando irrompe Maio
já há cores em que não caio.

De repente, vem Junho:
de que cor é este punho?

Lentamente, lá vem Julho.
Este tem a minha cor. Pouco barulho!

Mais devagar, Agosto
e o vermelho ardente do sol-posto.

Sorrateiro, entra Setembro.
Não tem cor ou não me lembro?

O mesmo direi de Outubro,
de que sei a cor mas não descubro.

Novembro e Dezembro vêm a seguir
cor de burro a fugir.

(Este ano, novo mês em suplemento,
para equilíbrio do orçamento.)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

VIRTUALMENTE

Mais virtual que este prato de sopa? Obrigado a quem mo deu.


Tu dizes cinco
eu digo seis e ganho

tu dizes que calas
e eu ganho sem dizer

eu faço pum
e tu morres

sexta-feira, 16 de abril de 2010

ACTO(R)POLÍTICO


Um mau actor não é um bom político.
Um mau político não é um bom actor.
Um bom actor não é um mau político.
Um bom político não é um mau actor.

Um bom político é um bom actor.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

ANO COLORIDO



Vêm Janeiro e Fevereiro
e ainda não abri o tinteiro.

Chega o primaveril Março
com matizes de pigarço,

assim como o não menos Abril,
mas em tons de rosa e anil.

Quando irrompe Maio
já há cores em que não caio.

De repente, vem Junho:
de que cor é este punho?

Lentamente, lá vem Julho.
este tem a minha cor. Pouco barulho!

Mais devagar, Agosto
e o vermelho ardente do sol-posto.

Sorrateiro, entra Setembro.
Não tem cor ou não me lembro?

O mesmo direi de Outubro,
de que sei a cor mas não descubro.

Novembro e Dezembro vêm a seguir
cor de burro a fugir.