sexta-feira, 9 de outubro de 2009

NUNCA MAIS



Há muito tempo que o Jacinto não fazia uma das suas. Em criança chamavam-lhe o desassossego, assim, com letra minúscula. Cresceu e os anos encarregaram-se da sua conduta e dos seus bichos-carpinteiros.
- Já não tens idade para essas coisas, ó Jacinto.
Era o que os pais lhe diziam constantemente, apesar dos seus quase trinta anos vividos com a pressa duma prova de cem metros e o fôlego de um corredor de maratona.
Quando regressa a casa com a noite quase toda em cima da cabeça, o seu maior prazer é ainda o de trepar o velho limoeiro no quintal das traseiras da casa e entrar pela janela do quarto, para que ninguém lhe aponte o mostrador do relógio ao pequeno-almoço do dia seguinte. E isso é sinal evidente de que a criança inquieta e pouco dada a contemplações, coisa de adultos, ainda mora dentro de si.
Do limoeiro conhece cada tronco, cada bifurcação dos galhos e, salvo os mais recentes, todos os nódulos que o ajudam nas escaladas furtivas. Teria também criado com certeza laços com folhas e limões, mas as primeiras são caducas e os frutos fazem parte do consumo próprio da família, sempre que o destino ajuda, como a seguir verá.
Pelo Natal de há uma mão cheia de anos, era Jacinto um adolescente com os miolos em ebulição e formigueiros no corpo, quis transformar o limoeiro em árvore para a quadra festiva. Ligou fios, fez derivações, enroscou lâmpadas e, por fim, passou as gambiarras por entre os ramos, de modo a que quase nada ficasse por iluminar.
Erro seu. A potência foi demasiada e, se não disparassem os disjuntores, o curto-circuito teria feito do velho limoeiro um monte de carvão. Foi um Natal muito triste. Não recebeu prendas e ainda por cima passou a noite de consoada a ouvir recriminações.
- Nunca mais!
Resmungava, contrito. Mas tal arrependimento, ainda que saído das suas entranhas, tinha o valor que tinha.
Mesmo assim, a pior façanha foi no dia do seu décimo aniversário, alguns anos antes. Para acautelar a casa de moléstias e correrias desastrosas para os teres e haveres, a mãe montou no quintal o aparato para o lanche e deixou o Jacinto e os convidados à solta, descuidando assim da preocupação de os controlar ao centímetro:
- Dali não passam.
Não passaram. Do chão não passaram. É que o aniversariante teve a peregrina ideia duma batalha campal, consistindo no arremesso de limões, previamente colhidos para os apeados e a rodos para os emboscados nos ramos da polivalente árvore de fruto, entre os quais se incluía.
Resultado: duas cabeças partidas devido a quedas desamparadas, alguns ossos fora do sítio, rasgões, arranhões e nódoas negras avulsos. Foi o balanço.
Parabéns, Jacinto!
Atirou-lhe o pai quando à noite regressou a casa.
- Vejo que os anos não passaram por ti. Continuas o mesmo desassossego de sempre!
Jacinto ouviu o responso de congratulações por detrás da ligadura de gaze enrolada em volta da testa que quase lhe tapava os olhos, apesar de tudo vivos, mas naturalmente pesarosos:
- Nunca mais!
Balbuciou incomodado com os acontecimentos do dia.
Em tudo quanto Jacinto tocasse, reservada estava a bronca. Uma espécie de Rei Midas do avesso.
Chegou mesmo a convencer-se que os azares lhe aconteciam por uma fatalidade muito própria já nascida consigo. Às vezes, sentia como que um impulso, um sinal de alta-frequência imperceptível para os outros, que o impelia para a asneira. Melhor dizendo: para caminhos que conduziam à asneira.
Poderia ser até que os citrinos tivessem algum poder ou influência negativa, como acontece nos filmes fantásticos. Mas não. Quando lhe sopra aquela campainha de sonar na direcção do desastre, quase sempre escuta outros sons, mais audíveis por todos e de proveniência bem conhecida, que são as palavras premonitórias da mãe:
- Vê onde te metes, Jacinto!
Ele não vê. Quer dizer, não quer ver. A sua ideia prevalece sempre:
- Isto? É canja!
O que importa agora é que está revelada a sua grande preocupação, o complexo da asneira, serôdia, mas nem por isso de menosprezar. Torna-se urgente um diagnóstico rigoroso e sem concessões ao arbítrio, e a terapia adequada.
Dúvida não há quanto ao elemento comum a todas as encrencas: o limoeiro. O problema é o seu relacionamento com a árvore, se nos é permitido este modo de nos expressarmos. Cortá-la está fora de questão; apontar-lhe o caminho da rua, muito menos. Haverá mais pano para mangas no elemento racional. Ele mesmo. A solução estará portanto no seu comportamento e na forma de se relacionar com o velho companheiro de infortúnio, afastando todas as hipóteses que contrariem os choques, as aproximações impensadas e as leis da natureza. Foi esta a fórmula que o Jacinto desenvolveu durante meses.
Sempre que, por força do hábito, circulava pelas traseiras, ficava de olhar fixo no limoeiro, às vezes como se de um desconhecido se tratasse, outras procurando uma resposta que, evidentemente, a árvore não lhe dava, e, outras ainda, com o espanto de lhe sentir a presença forte e dominadora de todo o espaço do quintal.
Sabe-se lá quantos Jacintos deste mundo adorariam ter uma árvore assim perto de si? Para a acariciar, para lhe sentir a doce aspereza do tronco robusto, para usufruir, enfim, do sumo dos seus frutos com água e açúcar.
Quando se lida demasiado tempo com alguma coisa, ao invés de o amor crescer na mesma proporção, parece que mais se desdenha e descuida e só a sua ausência provoca de novo o sentimento de angústia pela falta que essa coisa nos faz.
Sem qualquer explicação ou motivo que levasse a um desfecho como este, Jacinto amanheceu Domingo de Páscoa pendurado pelo pescoço num dos seus ramos favoritos. Branco, distendido como um lençol, morto.
Nunca mais, nunca mais voltarei a falar disto.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O TRASTE



Com a leveza da espuma,
luva preta em pelica
e um chapéu de aba e pluma,
como se arruma, que bem lhe fica.

A calça tem aprumo, um vinco
de goma e rigor fantástico.
Quase não se vê o cinto
e o par de botas de elástico.

Espreitam das mangas botões
de pérola em punho de renda,
(na verdade imitações)
mas alto lá com a encomenda!

domingo, 4 de outubro de 2009

O TRAJE


Dentro da lapela há uma tela
e em tê-la se entretém a vida,
como no mar alto içar a vela
esperar do vento o invento da saída.

De facto, o fato é um afecto
ou o tacto de um braço nu.
Assim o branco é brando no aspecto,
quando brinda em lençol de pano cru.

Por fim, o toque do laço
e para que o lenço realce, ao centro
o lance alongado do traço
e a legenda: frágil, leva gente dentro.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

MULHER E ALENTEJANA



A figura é religiosa e é profana,
como é sua fragrância costumeira,
se é um dom da natureza humana,
cheira a incenso e hortelã da ribeira.

Frágil, como mãos de costureira,
È, na sua essência, altiva, ufana.
Primordial e última trincheira,
ambas numa só, que a vida aplana.

A golpes de sol e lida humana,
curvada mais de músculo que de vontade.
E, à parte, doce – o mel é a verdade

toda! – que no auge da adiafa há-de
ser flâmula brandida à posteridade,
como exemplo de mulher e de alentejana.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

VIANAMOR



(Refrão)

O teu abraço é brandura,
o teu calor é um beijo,
quando meu corpo procura
todo o sol do Alentejo.

Após o trigo segado
fico mais perto de ti,
como pássaro encantado,
debicando aqui e ali,
sementes de amor e pão,
que saciam o desejo
e as fomes do coração
em Viana do Alentejo.

Bons Aires cuidem Viana,
seu chão duro de mármore,
por cada grão que emane,
cada fruto e cada árvore.
De tanto caminho andado,
romeiro de montes e fráguas,
quero o meu corpo lavado
no fresco das tuas águas.

Dá-me do que melhor tenhas
- se ainda houver ensejo –
quero das tuas entranhas
o sangue do Alentejo:
- uma quarta d’água fresca
por mãos de mestre talhada,
do sangue novo que resta,
e retorno à caminhada.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O FIM DO MUNDO



Sempre que se inscreve the end
na última
e mais sofisticada bomba,
não é o fim do mundo.

E não o é
quando a notícia cai
como uma bomba:
o inimigo apela à paz.

Não é o fim do mundo perder a corrida
e ouvir de pé
o hino estranho do campeão
até ao fim.

Perder as eleições
e cantar o próprio hino ao adversário,
não é ainda
o fim do mundo.

O fim do mundo
é tudo isto acontecer sem se dar conta.

O que não é o fim
do mundo.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A RUA ONDE MORO


A rua onde eu moro não tem casas;
só tem árvores e gente ao fundo.
E eu não tenho braços; tenho asas,
que me carregam até ao fim do mundo.

Posso voar, ver com olhos de pardal,
a rua verde e sem casas onde moro.
Alva, deserta: um vastíssimo quintal
em que não estou, não vivo, apenas choro

compulsivamente água e persistência.
Por isso aceno-me um adeus de abalar
para onde o relento me acolha ao luar,

feito nuvem, nimbo ou engenho de voar.
E sem atenças volto a ser essência
de onde mora a minha própria ausência.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

GAIVOTAS EM TERRA



- Ora então o que é que nos dói?
É a sacramental pergunta que o Dr. Silveira faz a todos os doentes ou pelo menos a todos os que o procuram com a suspeita de que algum mal lhes tenha entrado.
À primeira vista – melhor seria dizer ao primeiro ouvido, mas não soaria bem – parece uma provocação do médico, ao querer-se incluir na dor que obviamente não tem. Há mesmo quem veja no tratamento uma certa atitude de subestimação da própria dor, como quem diz, falas em nós porque não te dói, ou então duvidas que a nós doa. Até porque cada dor é uma dor; a minha não é a tua, e assim por diante.
Mas também há quem ache graça e julgue carinhosa a utilização da primeira pessoa do plural. Afinal o clínico está a colocar-se do lado do paciente, tentando assim descontraí-lo de modo a que exponha abertamente os sintomas da apoquentação.
No fim de contas há gostos para tudo, tendo embora em consideração que é muito mais fácil compreender a dor alheia que suportar a própria.
No entanto, a maioria dos doentes tem-no por atencioso e dedicado.
Está na moda um certo conceito de profissionalismo que muito pouco lhe diz; prefere chamar arte ao que faz há quase quarenta anos.
- Se quisesse ser comerciante, abria um talho!
Seja como for, apesar do original acolhimento aos utentes do Centro de Saúde, o que não retira uma vírgula à sua competência como clínico geral, o Dr. Silveira tem um senão que intriga os seus pares e os pacientes mais carentes de atenção: não participa em congressos, não se actualiza em seminários, nomeadamente no estrangeiro e, como se isso não bastasse, provavelmente por falta de arejo, não é pródigo na prescrição de medicamentos. Não lhe são conhecidas outras aversões, e desta os motivos não estão completamente esclarecidos.
- Que ganhamos nós (e volta a este nós, que às vezes é inexplicavelmente abrangente e outras impessoal e enigmático) com esses conclaves?
Esgrime ele contra os que sobre a matéria se manifestam do lado oposto, e acrescenta:
- Num país com carências de cuidados primários de saúde, com listas de espera, que já não são listas de espera, são listas de desespero, que me adianta saber sobre o último grito em válvulas mitrais ou a nova marca de comprimidos para o tesão?
Ninguém o demove das suas convicções. Nada o faz mudar de atitude, nem evita que se irrite ao falar no assunto.
- Mas há assim tanta novidade que o vade - mécum não contemple?!
É quase sempre a conclusão definitiva das suas orações de competência.
- Bem, vamos lá a ver: o que é que nos traz por cá?
Acrescenta depois, já com um sorriso largo, envolvendo-lhe o rosto por inteiro, fingindo que toda a conversa anterior nunca ali ocorreu.
- São as mesmas dores de cabeça, Sr. Dr. ...
- E você acha que eu lhe devia receitar um saco de medicamentos, e como não o faço julga que não me interesso com o assunto, não é verdade?
- Não é isso, Sr. Dr. é...
- É. É, mas não devia ser. Puxe lá a manga para medirmos a tensão.
O contacto físico acaba por amenizar a conversa, trazendo de novo o sorriso à cara do Dr. Silveira e, por contágio, a quem o consulta por mágoa, dor sentida ou aflição.
Salvo quando uma urgência se anuncia em forma de sirene de ambulância, quando a teimosia duma recaída apresenta sinais de agravamento do estado de saúde ou quando não são claros os sintomas e os males ficavam difíceis de diagnosticar, o Dr. Silveira é um homem calmo e de bom ouvido. Só mesmo a praga das reuniões o conseguem tirar do sério.
Também um dia o consultei por causa duma impigem que me apareceu na barriga da perna direita. Enquanto foi insignificante não dei por ela e só um dia, ao tomar banho, reparei naquela mancha vermelha com cara de poucos amigos.
- Bom dia, Dr. Silveira.
- Gaivotas em terra... – gracejou ele – o que é que nos conta?
- De especial, nada. É a corrida do dia a dia...
Foi o que me lembrei de momento para por naquela conversa. Afinal de contas as mazelas que levava não estavam à vista, e qualquer queixa logo de entrada parecia-me um pouco exagerada.
Talvez pelo meu silêncio, o médico resolveu dar-me alguns conselhos sobre o stress e a forma mais eficaz de o combater. Falámos um pouco de tudo, até do nó da gravata que, segundo ele, eu devia deixar mais frouxo. Vieram à baila as preocupações que tinha sobre envolvimentos pouco claros de colegas seus com laboratórios farmacêuticos, mas não falarei aqui da sua opinião.
Eram já horas de almoço. Ambos roçávamos os rabos nas respectivas cadeiras e não sabíamos que era o ratinho da fome. A conversa estava interessante e nem um nem outro dávamos o passo, quer dizer, a mão, para o cumprimento de despedida. Foi por isso que me lembrei do que me tinha ali levado.
- Já me esquecia: tenho aqui uma impigem na perna direita, Sr. Dr.
Perplexo, o médico baixou os óculos meia-lua e fixou-me como que a tentar perceber a que vinha semelhante despropósito. Coçou com o polegar a ponta do nariz e, depois de uma sonora gargalhada, pediu-me:
- Ora, ora, mostre-nos lá isso, homem.
Examinou com cuidado e prescreveu uma pomada, sem mais qualquer palavra, para além da posologia respectiva.
No fundo fui eu que fiquei incomodado com tanto tempo desperdiçado, mas a terapia foi benéfica para os dois. Estou convencido. Ainda assim quis redimir-me da forma mais simpática que o momento aconselhava:
- Convido-o para o almoço. Aceita?
O Dr. Silveira desejou-me as melhoras com um enérgico aperto de mão, levando-me assim até à porta do consultório e, com o seu jeito ao mesmo tempo firme e cortês, piscou-me o olho e declinou:
- Não há almoços grátis, meu caro. Nunca se sabe o que pode contagiar-nos...
Lembro-me de ter tentado um bom par de argumentos a meu favor. Abri ligeiramente a boca, também mostrei ao médico a palma da mão, fazendo sinal para reformular o meu singular convite, mas ele foi peremptório:
- Somos todos iguais, excepções incluídas, o resto são erros de gramática...

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

SONHO DOS HETERÓNIMOS


Agora tenho os heterónimos à perna,
reclamando o que negaram nos anais
- príncipes mortos para a vida eterna –
do mestre, filhos legítimos, cerebrais.

Em resumo, é simples a reclamação:
querem os meus lençóis, notoriedade,
pedem para si equidade n’atenção.
Eu é que não cedo à promiscuidade.

Direi o mesmo a quem quer que seja,
sem cuidar de literatura ou de cautelas.
Desassossego? Sonhos? Inveja?
Não: só uma dor aguda nas costelas…

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

DURMO COM OS LIVROS



Tenho um fetiche que me afronta:
durmo com livros, como gente.
Leio e releio de ponta a ponta,
quando não, de trás para a frente.

Pode ser lamecha, de cordel,
tesouro, que é o poeta de turno,
como pode ser Saramago, Nobel.
É para o lado que melhor durmo.

Esta noite enrolei-me com Pessoa
e a culpa é minha, inteiramente:
derramei os seus versos à toa
e esmaguei-lhe a obra, literalmente.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A CRÓNICA

Este desenho de H. Mourato, ilustra dois poemas meus na Revista SIRGO e está em http://sirgocadernodeletraseartes1.blogspot.com/2009/08/poemas-de-joao-de-sousa-teixeira.html



A crónica nem sempre flui como a água da fonte. É, na maior parte das vezes, recorrendo à sátira dos costumes, ao mal-estar que sentimos e nos fazem sentir aqueles que têm por obrigação e voto expresso, o mandato adornado de promessas de bem-fazer.
Outras vezes é a azia, Velho do Restelo dos tempos modernos, que faz a diferença.
Não deixa, no entanto, de ser um certo modo de zurzir em tudo o que magoa ou simplesmente incomoda, já que não se dá a volta ao mundo desta forma, nem com esta fórmula.
O Jordi é um amigo catalão. Raramente se expressa em castelhano, embora as circunstâncias lhe tivessem imposto estudar nessa língua da degraçada Hispania/ de belo nome, rosal de minúsculas pátrias! (Francesc Vallverdú).
Prefere, ao contrário da maioria dos nuestros hermanos, tentar o português, que diz ter muitos vocábulos semelhantes na sua língua, para melhor se aproximar e fazer-se entender. Eu não sei se isso é bom, mas sei que a sua intenção é ser simpático e agradável, sobretudo quando falávamos de poesia portuguesa e catalã e ouvíamos, com o volume no mínimo, as canções de Joan Manuel Serrat, não fosse o som despertar os diabos ainda mal adormecidos, que nesse tempo nos ocupavam todos os sentidos.
Numa das últimas vezes que nos juntámos e jantámos, disse-me que, se fosse português, o seu nome seria Jorge, como Jorge de Sena, e foi tão solene a sua comparação onomástica, que passámos uma noite inteira rindo, a troçar do despropósito – “mortais ou imortais, todos mentiram” – como disse Sena.
Talvez fosse mais comovente falar das lágrimas de D. Juan Carlos de Espanha no funeral da sua nobre progenitora ou divertido, se discutíssemos o desempenho do Barça na Liga espanhola. A verdade é que não entendemos patavina de tais mistérios e nada nos interessa o diz que disse!
A nossa amizade foi cimentada num tempo em que a dor catalã encontrava, e em muitos e essenciais aspectos encontra ainda, paralelo em demasiados recantos ibéricos: o tempo da ditadura fascista; o tempo da repressão cultural e política castelhanas de Franco, que, por ironia, era galego.
Então, as notícias eram escassas, clandestinas a maior parte, mas nem por isso menos importantes, muito pelo contrário. A solidariedade era uma palavra de ordem com significado e o peso de uma luta comum; não tinha senha de presença, consumo obrigatório ou patrocínio comercial altruísta a descontar nos impostos.
Provavelmente saturo-vos com estas pieguices substantivas. Também as palavras vão tomando novas qualidades, e na sociedade global já não há lugar para palavras/sentimentos simples, como noutro tempo, o entendimento bilingue representava uma comunhão internacional de sentimentos, de vontades e de esforços. Ser solidário hoje é o que a net (rede) trouxer à tona, o que os audiovisuais quiserem meter-nos pelos olhos dentro. Hoje há quem se preocupe em exclusivo a talhar-nos para a comoção mediática, a notícia dramática, a lágrima de crocodilo, e desta forma vamos dando conta de solidariedades domésticas em jeito de pós-de-maio.
É assim que nos tornamos facilmente simpáticos, adeptos incondicionais ou viscerais inimigos, árbitros de alcova de concursos capazes de enaltecer a estupidez do ser humano até à auto-humilhação inconsciente (?), comentadores basbaques de acidentes rodoviários e outras catástrofes.
Nostalgia bacoca e inconsequente? Não. Direi que se trata de valores diferentes, o próprio cérebro discorrendo e as mãos estendidas sem intuitos de recompensa. Dito assim parece ridículo, mas é, certamente, mais humano.
Jordi nasceu em Manresa, perto de Barcelona. Dá-me um certo prazer dizer-lo. Apesar disso preferia que ele fosse meu conterrâneo, porque gosto dele. Compreendo-o quando maldiz da sua terra e dos seus. Com alguma frequência faço o mesmo. Não somos, por assim dizer, de amar com três pedrinhas na mão, mas dizemos muitas vezes como Maragall: Home só i és humana ma mesura, isto é, sou homem e humana é a minha medida.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

DOZE ANOS DE MAGIA


Não há memória de um inverno tão rigoroso como o último. Mas dito assim não se fica a saber das chuvas torrenciais quase diárias, das enxurradas provocadas pelos rios e ribeiros a transbordar de águas, pedras e entulhos de muitos anos de seca e negligência, dos ventos de cortar à faca e rajadas de meter medo e levar tudo pelos


ares. Ruíram pontes e diques, centenas de estradas ficaram intransitáveis. As casas mais frágeis e outras que o não aparentavam são agora escombros e lixo, sucata de ferro e estuque a pedir urgente reparação, socorro possível. Árvores que não foram arrancadas pela raiz por rajadas de vento, estão desfolhadas e com os galhos sobreviventes apontados para o céu em pose de aflição e penúria de folhas e frutos.
Em consequência, muita gente morreu e, os que tiveram mais sorte, ficaram à esmola de quem pode, outros de quem deve e de ambos quase todos.
A João Inocêncio, porém, importa sobretudo a falta de folhas de amoreira que utiliza para alimentar os bichos-da-seda nascidos no início da Primavera.
Para eles colecciona as melhores folhas, as mais tenras e verdes que encontra. Todas as manhãs se entrega à cata das minúsculas larvas que avidamente pastam sobre as folhas, coloca-as à parte noutro tabuleiro com a ração já disposta para as próximas vinte e quatro horas e volta a guardar a criação, de forma religiosa, com um pano branco de popelina por cima, resguardada da humidade e do frio e calor excessivos.
- Põe-lhe as folhas novas em cima, que eles mudam-se!
Aconselha Alberto Carambolas, que muito bem conhece o vício tramado, por também ele, em menino, se ter deixado conquistar por esta azáfama, à falta de mistério e dinheiro para brinquedos mais exuberantes.
- Eu é que sei.
Responde João Inocêncio, procurando enxugar as folhas com uma toalha, não vá a humidade dizimar duma vez o que ele quer preservar durante toda a Primavera.
Às vezes sente-se um privilegiado por assistir à eclosão dos ovos, do tamanho de cabeças de alfinete. Desde logo lhes faz chegar uma folha das mais tenras e, na manhã seguinte, é também aos recém nascidos que dá a maior atenção. E no próximo, e no seguinte até perfazerem as cinco idades necessárias a todo o bicho da seda que se preze. Não tardará a distingui-los sexualmente. Sussurrará apenas para si: os brancos são fêmeas e os listados machos.
Agora o tempo é de exageros. Mal se foi um Inverno feio e rigoroso e já há queixas das altas temperaturas da entrada da Primavera.
- Ainda os bichos desatam a fazer casulos do tamanho de grãos de milho.
Resmunga João Inocêncio.
Não é verdade que dê grande importância ao tamanho dos casulos, afinal o destino é sempre o mesmo: esperar pacientemente a metamorfose, o que, por si só, já é extraordinário, vigiar o dia em que as mal-enjorcadas crisálidas haverão de romper para a vida as intricadas malhas da sua própria teia e, por fim, acautelar-lhes as melhores condições para o acasalamento. Mas é certo também que um grande e belo casulo tem outra vista.
Quando era mais novo, metia os casulos em água a ferver com o fito de interromper ali a natureza e mais tarde os vender e ficar rico. Hoje preocupa-se somente com os calores inusitados e fica preocupado se os bichos vão mirrar até se parecerem com os caules das folhas de amoreira ou, bem pelo contrário, as altas temperaturas os farão medrar do tamanho de dedos, como talos de couve ou até como pequenas cobras, que o obriguem a exibi-los muito antes do casulo, para sua vaidade e espanto de amigos e conhecidos, boquiabertos perante coisa tão rara.
João Inocêncio adquiriu este gosto pelos bichos no dia em que fez oito anos e o tio Januário, por graça, lhe ofereceu um pequeno tabuleiro de madeira com meia dúzia de casais, acrescentando à prenda uma nota de cinco contos e o seguinte pedido:
- Agora multiplica-os. Os bichos-da-seda e a nota. Quando fores um homem hás-de dizer-me qual das tarefes te foi mais ao jeito.
Desde logo os bichos foram o que ainda hoje são: o brinquedo predilecto, o motivo principal da sua atenção, das horas esquecidas no sótão, nem sempre para os alimentar e proteger, mas sobretudo para os admirar quando se alimentam, quando se deslocam de folha para folha num apetite voraz e sem desperdício e como, por fim, engrossam e ficam melancólicos em sinal de que está para breve a construção. Quando todos já se submeteram àquele milagre de transformar o corpo e ganhar alados apêndices, é a ansiedade de adivinhar o dia em que as borboletas de mal empregadas asas, pois não voam, apenas tremem como abanicos, resolvem sair e voltar ao início de mais um ciclo, sempre e sempre repetido.
Muitas vezes se lembrou do pedido do tio. Em boa verdade foi mais um desafio, um jogo, ou talvez nem uma coisa nem outra; uma graça de que com certeza já se não lembra.
Por via das dúvidas, tentou ainda o comércio dos casulos, de forma incipiente, mas sempre que fazia negócio ia-lhe também o coração com os casulos e as crisálidas mortas. Desistiu nos primeiros anos.
Quanto ao dinheiro, como pode ele agora demonstrar a sua rendibilidade, se já nem se recorda de como o aplicou? Esfumou-se. E como não põe ovos como as borboletas, a metamorfose possível é saber trocá-lo. Depois de trocado está gasto; já não há forma de voltar atrás, a não ser que se perca dinheiro. Não há dúvida que os bichos são bem mais interessantes.
- Julgará o Tio Januário que não tenho mais que fazer?
Pensava muitas vezes João Inocêncio. E, depois, para se tranquilizar:
- Deu-me os cinco contos, estão dados e ponto final.
João fará vinte anos em breve e ainda lhe mói a ideia o engenho que irá apresentar ao tio, quando este se lembrar de, por assim dizer, lhe pedir contas.
Na véspera do aniversário não foi trabalhar. Mal lavou a cara e foi ter com o rebanho de criaturas que, por força de inexplicável secagem precoce das folhas, talvez devido ao excesso de calor, rosmeavam como a pedir desesperadamente auxílio.
- Algo estranho se passou aqui!
Gritava aflito.
Os vermes tombavam dos caules ressequidos das folhas, que mais pareciam carqueja, e ficavam inertes e escuros no fundo do tabuleiro. Com a urgência que o caso merecia, João apressou-se a fazer a mudança das folhas. Mas já não resultava: os bichos estavam demasiado debilitados e mal eram colocados nas folhas viçosas, rebolavam e logo depois morriam sem um mínimo sinal do apetite que sempre demonstraram ter.
Morreram todos. Terminaram um ciclo de mudanças e transformações que parecia não ter fim.
João Inocêncio não queria acreditar no que os seus olhos viam através do caleidoscópio formado pelas lágrimas que lhe afluíam compulsivamente.
Queria ele também ficar ali para sempre, rebolar de uma qualquer folha e ficar-se sem palavras nem vontades que o obrigassem ao mais leve movimento.
Pela hora do almoço, desceu silenciosamente as escadas do sótão com um enorme saco de plástico, com ambos os braços apertando-o contra o peito, saiu para a rua e depositou-o suavemente no contentor do lixo, como se de fino cristal se tratasse.
Quando o Tio Januário tomou conhecimento do sucedido, apressou-se a confortá-lo. No dia seguinte, ao jantar de aniversário de João Inocêncio, ofereceu-lhe um bonito relógio de pulso e segredou-lhe serenamente:
- Tudo tem um tempo exacto, mesmo que não tenhamos consciência disso. Poderás estar triste por tudo o que agora aconteceu, mas não vais negar a magia de todos os dias dos últimos doze anos?!

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

NO REGRESSO ÀS AULAS

 Há muitos anos que faço, por gosto e dedicação, e sempre que convidado para tal, actividades de animação com crianças do Ensino Básico e Secundário, designadamente, acções de dramatização de histórias e lendas, promoção da leitura, leitura de poemas próprios e de outros autores, e também saraus, colóquios e tertúlias para outros públicos.
Para além da ilustração avançada nesta minha apresentação, posso dar conta de que tenho, desde 1972, oito títulos de poesia e um de ficção editados, colaborações dispersas em jornais e revistas, como é o caso, actualmente e desde há onze anos, no Ensino Magazine.
É assim meu propósito colocar-me à disposição (como aconteceu já neste blog em Junho passado) para eventos que entidades interessadas queiram levar a cabo, nos quais se enquadrem actividades como as que atrás refiro, sendo a divulgação respectiva por conta de quem as promova.
O valor de cada sessão (cerca de uma hora) será de setenta e cinco euros, mais despesas de alimentação e transporte.


Contacto:


e-mail: teijoao@gmail.com




a esferográfica


(uma história)

Há um bom par de lustros, era eu um recém responsável pelo balcão albicastrense da Aliança Seguradora, fui convocado para um seminário a ter lugar num hotel de Caldas da Rainha.
Dizia a convocatória que o evento seria nos próximos sexta e sábado e versaria temas da área comportamental. Mais dizia, que os participantes viriam de todo o país e, por isso, não seria de estranhar que os colegas não se conhecessem. O traje seria informal.
Dormi no dito hotel de quinta para sexta e às nove em ponto já estava no átrio disponível para a chamada.
A convocatória avisava que “não seria de estranhar que os colegas não se conhecessem” mas a surpresa é que não conhecia absolutamente ninguém. Nem de vista!
- Isto foi mesmo organizado a preceito – pensava eu ali colado ao balcão da recepção. Era no entanto estranho que “eles” se conheciam ou pelo menos conversavam entre si. Estariam a fingir, a armar ao fino? Ou era eu, pobre elemento da província, a quem os colegas de Lisboa e Porto não passavam cartão?
Após um certo burburinho, por volta das nove horas, todos se encaminharam para a sala de reunião, tendo-me assim misturado com aqueles cerca de trinta indivíduos, que então passaram a cumprimentar-me, sorrindo amavelmente.
Dentro da sala, todos procuramos assento à mesa que era disposta em “U”.
Confortavelmente sentado, solicitei uma pasta e uma esferográfica, troquei dois dedos de conversa de circunstância e comecei a reparar por baixo da mesa à minha frente que alguns “colegas” calçavam sapatilhas.
- Informal, mas não tanto, caramba! – Ajuizava eu de forma crítica.

Foi por esta altura que um sujeito, talvez o director, por sinal bastante simpático, me abordou, inclinando-se sobre o meu lugar e perguntou:
- O colega, desculpe, veio de onde?
- De Castelo Branco. – Respondi prontamente.
- Então deve estar enganado. Isto é uma reunião do pessoal das Águas do Areeiro.
Pedi desculpa de forma atabalhoada, devo ter corado como um tomate e saí da sala com tanta vergonha, que se tivesse ali um buraco, ter-me-ia afundado e desaparecido, tal o vexame.
Cá fora, conferi a convocatória: sala dois às 9.30 h.
Pedi então licença para entrar na sala seguinte, onde já funcionava o “meu” seminário. Voltei de novo às desculpas, mas desta vez já mais aliviado. Afinal eram quase todos conhecidos!
O monitor era um tipo divertido e deu início aos trabalhos com uma prelecção sobre… o trabalho. Dizia ele que era preciso aprender a trabalhar para não ter que trabalhar. Para criar ambiente pediu-nos que contássemos de viva voz uma história que tivéssemos vivido e que achássemos divertida.
Naquela altura do campeonato já eu achava divertida a minha história de há meia hora atrás e foi essa que contei.
No fim, os meus colegas riram a bandeiras despregadas à custa da minha peripécia e eu reparei que ainda tinha apertada na mão a esferográfica das Águas do Areeiro, que me esqueci de devolver, e rematei:
- Se não acreditam, tenho aqui a prova. E mostrei-lhes a esferográfica.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

CALDEIRADA



(versão sensivelmente gastronómica, se houver peixe; se ainda houver peixe)

Para o dia da festa
só contam alegrias.
Peixe, eirós (enguias)
e para quem não gosta,
não queira ou proteste,
pode comer lagosta.

Há vinho da casa,
reserva e água-pé
(de se lhe tirar o boné).
Aqui, a tristeza
só consome e atrasa
e não faz boa mesa.

Por fim, refastelados,
os que tiverem soltura,
que botem faladura
e não desatem à estalada
aos convidados
desta grande caldeirada.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

ERROS NATURAIS



Quero estar nas árvores e nas flores,
quero residir nos frutos suculentos
como larva estética de natureza morta
e abraçar-te, como fazem os sonâmbulos
às coisas domésticas, tomando-as por musas sublimes.
Jamais direi que num espaço de tempo,
hoje ou há um ano atrás,
me farão diferença as tuas excedentárias
duzentas
gramas.