Mostrar mensagens com a etiqueta POSSIBILIDADE DE AGUACEIROS. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta POSSIBILIDADE DE AGUACEIROS. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

POSSIBILIDADE DE AGUACEIROS


Não sei o que pensa; se pensa o vento;
por que agita o ar; se é temperamento;
ou por que se aquieta e morre devagar,
quando me inunda o peito e deixa respirar.

É feitio seu; modo de ser da natureza
ou então coisa alguma, com certeza
flui por ser livre e ser ao mesmo tempo
etéreo, soberano, altivo, vento…

Vento que for, será sempre passageiro,
seja ele brisa ou desafio de aguaceiro,
cessando pouco a pouco até parar.

Todo o vento é bom para quem o desejar:
para mim, repito, quero-o manso ao respirar
mas o mesmo não serve para o moleiro.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

O CÉU A SEU DONO



No céu que vejo eu de novidade,
senão este ou o mesmo sol de antes,
nuvens estas ou apenas claridade,
erráticos pássaros em voos constantes?

Beirais, abaixo, rendilhando a luz da lua,
prazenteira em seu jeito de engodo,
enchendo-me de brilho a casa e a rua
de ilusões e céus de outro modo.

Deuses não vejo, sequer a sombra;
um turbante flutuando ou rasto,
e é este que não vejo que me cobra
o céu que não uso, de que não gasto.

Não há céu que assente como luva
mas que posso contra, outro há?
Se não me livra de calor ou chuva,
em cima também não me cairá.

sábado, 31 de março de 2018

DEUS QUEIRA


deus escolheu para si o céu,
deixando a sua obra prima
à mercê das trovoadas, espargida
do alto e encharcada de fé.

deus escolheu para si as nuvens,
para nelas se representar
nos tectos das catedrais
e as duas obras se contemplarem.

deus escolheu para os seus
os jardins e canapés celestes,
ciente de que não chove nunca
do negrume para cima.

deus escolheu para si
o lado cerúleo do universo
e apurou em nós a alma
para a expiação parda do pecado.

deus concede-nos lugar
no condomínio, caso as lágrimas
nos façam sucumbir
e ter direito a uma morte santa.


sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

UM LIVRO ESTRANHO


E por que não um deus bom aqui deitado,
ainda que fingindo o sono, pois não dorme
o que é omnipresente, ente inspirado,
dá conforto, vivifica e mata, e mata a fome.

E em verdade me diz a copiosa literatura,
enquanto me aconchego, lençol adentro:
- Eis o caminho, a chave e a fechadura,
e se resguarda a sete chaves por dentro.

Esta é a palavra e todas as palavras ditas,
o que se vê e mesmo o que não se nota:
metáforas, alucinações e alegadas visitas;
ensaia o sono dos justos, adeja e faz batota.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

A RONDA DOS DEMÓNIOS


Os demónios cercam-me a casa. É seu costume.
Os deuses deixaram de o fazer há algum tempo.
Mas não o fazem por inveja ou por ciúme;
apenas porque é o tempo agora, o seu momento.

Tentam-me, espiam-me, induzem-me consentimento
a tudo o que é fácil, descartável e a bom preço,
e eu já farto de promessas, quase não argumento,
deixando que se convençam do jeito que lhes pareço.

O resto é fácil: como se faz às pulgas, entalam-se
entre as unhas dos polegares. É o mais comum.
Remédio santo: perdem de vez o pio; calam-se

à vez – a fila dos novíssimos arcanjos – um a um
e, mortos-vivos ou acabrunhados, danam-se
por não lhes vender a alma por preço algum. 

domingo, 13 de dezembro de 2015

INCONSEQUENTE


                                              
Só com o ver o trilho, a terra batida,
já o meu olhar progride muito além
do que ao ser humano é permitido,
que é caminhar quando o olhar vem

ao meu encontro e o caminho feito.
Só me abalança o estar presente
longe de estar perto para o efeito
- inexplicavelmente ausente –

se o resultado for onde agora estou
e não onde me leva este caminhar.
Melhor é não ter para onde ir ou
seguir o rasto vagabundo do olhar.

domingo, 8 de novembro de 2015

ESTE MUNDO E O NOSSO


A certa altura, o buliçoso rapaz
esquadrinha o bolso dos calções,
e, entre o pechisbeque e dois piões,
descobre que o pretérito perfeito,
é o tempo que menos falta faz.

O que importa agora é o sujeito,
e ao que teve pode acrescentar
perto ou longe, os advérbios de lugar,
os caminhos por andar, a fantasia,
e tudo o que de mais tiver proveito.

É o princípio dos verbos a conjugar
muito além da física quântica
e, sem preocupações de semântica,
opor à regra a lei da utopia:
- Ninguém morre sem eu mandar!

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

LEMBRETE


Não me faço de credos, súplicas ou preces,
de penas, plumas, sombras, atalhos, escoras;
faço-me de tijolo como a casa onde moras,
e as demais coisas simples que conheces.
Ou talvez não! Se a vida te acontece felizarda,
com elmos, filtros, senhas de desembaraço.
Como te digo, não é disso que me fiz ou faço:
faço caminho e caminhando me protejo:
não peço nem quero um beijo por um beijo,
não dou nem aceito um abraço por abraço.

Já neguei o que depois me fez chorar!
Enganos todos temos, incertezas quanto baste,
às vezes sombras, nuvens e medos, por arrasto,
mas jamais cruzar os braços e esperar.
Das cores distingo as que quero, excepto pardas,
fluorescentes e néones de delicado traço…
tampouco confundo um aeroporto com um terraço.
Se o tempo urge corro, dou aos braços e adejo,
mas não peço nem quero um beijo  por um beijo,
não dou nem aceito um abraço por abraço.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O CÉU A SEU DONO


No céu que vejo eu de novidade,
senão este ou o mesmo sol de antes,
nuvens estas ou apenas claridade,
erráticos pássaros em voos constantes?

Beirais, abaixo, rendilhando a lua,
prazenteira em seu jeito de engodo,
enchendo-me de luz a casa e a rua
de ilusões e céus de outro modo?

Deuses não vejo, sequer a sombra;
um turbante flutuando ou rasto,
e é este que não vejo que me cobra
o céu que não uso, de que não gasto?

Não há céu que assente como luva
mas que posso contra, outro há?
Se não me livra de calor ou chuva,
em cima também não me cairá.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

SONETO PERVERSO


Vai ser bonito quando chegares
e vires as palavras do serão:
deitaram-se às rimas, aos pares,
como se agita a fé em procissão.

Por fim, era já mais o desnorte,
batendo a via sacra em arraial,
de pavio aceso, valha a sorte,
velavam um poema artesanal…

Afinado o coro metricamente
- ‘inda obra tosca, inacabada –
que de ti era oração independente.

Hás-de ver, poesia, a abençoada
lira, a um só tempo ateia e crente,
faz chorar as pedras da calçada…

domingo, 26 de julho de 2015

MEMÓRIA


No baú, uma velha alma dobrada em quatro,
aparentando ainda já ter tido melhores dias,
e o fóssil de um soneto inglês, numa folha A4,
além da caixa, sempre a caixa das fotografias.

A memória, como glicínias, floria exuberante
em cachos de versos de admirável aparato.
Nada mais enganador: pó, um poeta debutante,
alguns erros de ortografia e um frívolo retrato.

sábado, 9 de maio de 2015

DURMO COM OS LIVROS



Tenho um fetiche que me afronta:
durmo com livros, como gente.
Leio e releio de ponta a ponta,
quando não, de trás para a frente.

Pode ser lamecha, de cordel,
tesouro, que é o poeta de turno,
como pode ser Saramago, Nobel,
é para o lado que melhor durmo.

Esta noite enrolei-me com Pessoa
e a culpa é minha, inteiramente:
derramei os seus versos à toa
e esmaguei-lhe a obra, literalmente.

terça-feira, 4 de março de 2014

COMO CÃO

Como te invejo amigo cão,
o teu sol e mesmo o teu osso;
não a coleira do pescoço;
                                               a condição.

Como te invejo o faro, irmão!
Cheirar até o bafo de deus,
seres tu por mim alguém e eu
                                               o cão.

Como te invejo, meu ciúme é vasto:
o amor que fazes à minha frente,
uivar, ganir como um demente
                                                e casto.
                                  
Como te invejo e te gabo,
                                   como os que, não sendo cão,
                                   pedem guloseimas e dão
                                                ao rabo.

                                   Como te invejo o dobrar do sono,
ladrar a quem me apetecer
e, se for preciso, morder
                                               o dono.





terça-feira, 14 de maio de 2013

DUAS BOAS NOTÍCIAS








Sem prejuizo das muitas recensões que me vão chegando - e a todas recebo com o coração nas mãos - permitam que vos dê conhecimento destes dois amigos: Cristina Granada e António Salvado:

segunda-feira, 22 de abril de 2013

POSSIBILIDADE DE AGUACEIROS

E é já na próxima sexta-feira, dia 26, pelas 18 horas, no Auditório da Biblioteca Municipal, o lançamento do meu livro de poemas POSSIBILIDADE DE AGUACEIROS. Aqui dou conta da respectiva capa (desdobrada). Sobre o conteúdo dirá a Drª. Cristina Granada e todos vós... Até lá.

terça-feira, 15 de maio de 2012

O CÉU A SEU DONO


No céu que vejo eu de novidade,
senão este ou o mesmo sol de antes,
nuvens estas ou apenas claridade,
erráticos pássaros em voos constantes?


Beirais, abaixo, rendilhando a lua,
prazenteira em seu jeito de engodo,
enchendo-me de luz a casa e a rua
de ilusões e céus de outro modo?


Deuses não vejo, sequer a sombra;
um turbante flutuando ou rasto,
e é este que não vejo que me cobra
o céu que não uso, de que não gasto?


Não há céu que assente como luva
mas que posso contra, outro há?
Se não me livra de calor ou chuva,
em cima também não me cairá.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

SONETO PERVERSO


Vai ser bonito quando chegares
e vires as palavras do serão:
deitaram-se às rimas, aos pares,
como se agita a fé em procissão.


Por fim, era já mais o desnorte,
batendo a via sacra em arraial,
de pavio aceso, valha a sorte,
velavam um poema artesanal…


Afinado o coro metricamente
- ‘inda obra tosca, inacabada –
que de ti era oração independente.


Hás-de ver, poesia, a abençoada
lira, a um só tempo ateia e crente,
faz chorar as pedras da calçada…

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O RIO E A PONTE


- Que levas tu, rio de águas,
que pedras trazes a nado?
Eu levo gente, levo mágoas,
que passam pró outro lado.

- Levo sonhos e correntes
por entre vales e montes;
levo as águas descontentes,
que passam por baixo das pontes.

Dito assim, é de crer
que a vida é vida quando
sem cessar, sempre a correr,
vai passando, vai passando…

terça-feira, 9 de março de 2010

DEPOIMENTO


A sombra que não faço e faz em mim
que a treva em volta inste e permaneça,
é a prova de que existo mesmo assim
e, por fora, o que quiserem que pareça.

Dentro, só me tenho a ver comigo:
sou o que entendo e quando quero.
Não importa como faço ou como digo;
basto-me apenas com o ser sincero.