terça-feira, 12 de junho de 2012

COMBOIO


Dois carris, uma travessa:
u-u-u, há quanto tempo,
quanto fumo, quanta pressa.


Falta lenha, contratempo:
u-u-u, a água já condensa,
passa-tempo. passa o tempo.


Se leva gente? Homessa!
chega a tempo, chega a tempo,
leva pressa, leva pressa.


Já chegou, vem à janela,
vem à tabela, vem à tabela.


U-U-U-U-U U-U-U-U-U

sábado, 9 de junho de 2012

CAMARINHAS



Quero lá saber que as camarinhas
não sejam o fruto do pinheiro…
se o erro de botânica é grosseiro,
as memórias do fruto são as minhas.


Não lhes chamei pérolas de fantasia,
pois se acres, doces eram e tão a jeito,
p’ra quê estragar o bom proveito?
- Chamo-lhes agora, que é poesia.


No pinhal, um piquenique de bolinhas
brancas de sabor meio esquisito,
não se compara a pasteis com palito
em nada, este manjar de alvas camarinhas.


quinta-feira, 7 de junho de 2012

PUXÃO DE ORELHAS


Tenho felizmente bons amigos. Generosos na sua maioria. É o caso do Celestino Alves, de seu nome completo Álvaro CELESTINO ALVES de Castro. É um jovem com perto de cem anos a quem não vejo há uma dúzia bem aviada…
Em meados de 80 do século passado, aquando da edição em livro de CORPO DE POEMA, o Castro, assim o trato, editou também PUXÃO DE ORELHAS, um magnífico livro de quadras populares. Reli-o há dias e comovi-me com a dedicatória que então me fez. Venho hoje partilhar convosco este meu contentamento e, ao mesmo tempo, transcrever uma das muitas quadras do livro, perspicaz e actual, como é o seu autor.

“Dos fracos não reza a história”.
Discordo! A História reza
que os fracos, p’ra sua glória,
fazem forças da fraqueza.

terça-feira, 5 de junho de 2012

COM PASSOS DE CARACOL


Toca a andar
que toca a todos
por igual
um toca
e os outros na toca?
ou toca a todos
ou ninguém toca

e o caracol lá vai:
troica troica troica.



sábado, 2 de junho de 2012

CEREJ/ZAS


Cerejas, para que possam reconhecê-las,
são pequenas luas doces e vermelhas,
que tanto podem tingir a boca ao comê-las
como pender aos pares nas orelhas.


Cerejas são a carne de um desejo,
dum abraço a que a memória nos convoca.
São, além do mais, um lábio, um beijo
e a sede que a sua ausência nos provoca.


Ah, a sede, pois, hei-de falar dela um dia,
quando suplicantes cachos irromperem
neste pomar de empréstimo, estufa fria,
onde os lábios secam e as cerejas morrem.


Então gritarei se ainda valer a pena, vede:
estas sempre foram o vosso desdém da sede.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

DOR DE AUSÊNCIA

Imagine-se um qualquer objecto, complexo ou vulgar, que desperta em nós um desejo irresistível de o possuir, de o tocar a todo e a qualquer instante, de o olhar como seu, como parte de si. Agora, que este objecto é definitivamente algo que não nos pertence, nunca nos pertenceu. É um objecto de culto. Haveremos de imaginar que é nosso todo o tempo em que o arrebatamento permanecer. Dói que não nos pertença. Diferente é se o objecto, aquele de que falávamos, nos pertence por inteiro, nos permite por isso o contacto permanente, talvez o afago, o olhar embevecido durante o tempo e no local que bem nos aprouver e, de forma brusca, o perdemos. A isso chamo dor de ausência. Assim somos. Perdi as Teses do III Congresso da Oposição Democrática, realizado em Aveiro em 1973. As Teses reunidas em capas próprias, por temas, não os livros que com elas foram depois editados, que o Dr. Vasco Silva recolheu e generosamente me ofereceu então, uma vez que não pude participar lá, na cidade da ria. Talvez as Teses sobrevivam ocultas por trás duma estante ou por baixo dum amontoado de papéis abandonados em tanta mudança dos últimos tempos. Talvez estejam ainda intactas e com os separadores que lhes ia colocando, fazendo separação entre trigo e joio. Talvez estejam ainda à minha espera em pródigas mãos para me serem devolvidas, talvez com um sorriso nos lábios de quem, sabendo o valor que lhes atribuo, espere em troca um sorriso meu de perpétuo agradecimento. Talvez tudo isso ou coisa alguma. A verdade é que por enquanto a sua ausência me dói. Muito.

terça-feira, 29 de maio de 2012

LEMBRETE


Não me faço de credos, súplicas ou preces,
de penas, plumas, sombras, atalhos, escoras;
faço-me de tijolo como a casa onde moras,
e as demais coisas simples que conheces.
Ou talvez não! Se a vida te acontece felizarda,
com elmos, filtros, senhas de desembaraço.
Como te digo, não é disso que me fiz ou faço:
faço caminho e caminhando me protejo:
não peço nem quero um beijo por um beijo,
não dou nem aceito um abraço por abraço.


Já neguei o que depois me fez chorar!
Enganos todos temos, incertezas quanto baste,
às vezes sombras, nuvens e medos, por arrasto,
mas jamais cruzar os braços e esperar.
Das cores distingo as que quero, excepto pardas,
fluorescentes e néones de delicado traço…
tampouco confundo um aeroporto com um terraço.
Se o tempo urge corro, dou aos braços e adejo,
mas não peço nem quero um beijo por um beijo,
não dou nem aceito um abraço por abraço.

domingo, 27 de maio de 2012

CORAÇÃO


Transporto dentro do peito
um relógio feito de bronze,
oxalá não ganhe defeito
e dê o meio-dia às onze.


Não de bronze, mas lata
que, dê as horas que der,
já não ata nem desata;
não corre nem deixa correr.


Ou então feito de arame
com volteios e cadeado,
capaz de matar quem ame,
tornando-se arame farpado.


Fosse de oiro, isso sim
quanto valeria em aforas!
Mas com um relógio assim
para que queria eu as horas?


Possivelmente é de mistura
para que o mal não ataque,
e enquanto a vida dura
faça: tiquetaque, tiquetaque.



quinta-feira, 24 de maio de 2012

INGREDIENTES PARA UM POEMA DE AMOR


Para não torrar, deve cobrir-se a forma
de pétalas de rosa. Pode ser um ramo…
A massa é doce, mas sem fazer dano.
Leva-se a lume intenso, em chama, por norma,
trinta e sete graus são bastantes para não queimar.
O tempo é a gosto, depois se vê.
Afectos, crenças, juras e promessas, q.b.
E fica pronto. Nota: convém amar.

terça-feira, 22 de maio de 2012

MÚSICA DITA


Não te vou mentir:
o que não tem música
ainda não sabe que está morto.


O melro trajou de gala
para o último concerto
e a recente primavera vestiu-se de luto.


Não te vou mentir:
pode escutar-se a melodia
durante o silêncio da orquestra.


Bastam os címbalos
(oh, scherzo de brisa e espuma!)
Basta a nudez das notas.

Não te vou mentir.
Consegues ouvir-me?
- É o solfejo do teu corpo.

domingo, 20 de maio de 2012

O CÉU DOS PARDAIS

Por natureza sou aquilo a costuma chamar-se assustadiço. Não o serei por debilidade física e muito menos por fraqueza de cérebro, se me é permitida a autoavaliação, que não me tem dado grandes trabalhos ao longo da vida. Em meu abono, julgo que a explicação reside no facto simples de raramente estar onde os demais me enxergam. É esta uma prorrogativa dada a poetas e outros filhos das estrelas. Eu mesmo me surpreendo quando dou por mim distante do lugar que afinal me ocupava todos os sentidos e me pergunto: “como vim eu aqui parar?” Esta é a explicação que me ocorre hoje, entre prédios de muitos andares, semelhantes a caixotes empilhados, e me ter sentido perdido, como se caminhasse num qualquer deserto feito de areia e sol; de chão e céu; de gatos e pardais por única companhia viva. A todo aquele amontoado de quadrículas coloridas agora vazias e vestígios de árvores, quase como náufragos, houvesse aqui um mar, despenteados e atónitos, socorrendo-se da grossa estaca para a sobrevivência possível, resta-me um velho conhecido, azul, como uma estrada por cima da minha cabeça e, como disse já, os gatos e os pardais, aqueles no paraíso e estes, por enquanto, no purgatório. Estremeci. Em cada um daqueles favos, chamemos-lhes assim, vivem pessoas que, não podendo eu vê-las ou sequer ouvi-las a esta hora do meio-dia, por certo ali se acolhem, comem, dormem e também discutem, deitam contas à vida, amam e odeiam e fazem planos para futuros que ambicionam. Por experiência sei que raramente se conhecem uns aos outros e, salvo uma ou outra excepção, não se cumprimentam quando se cruzam na rua. Quanto a nomes, se decoradas algumas fisionomias, como se de uma só família se tratasse, chamam-se “vizinhos” ao que por vezes acrescentam o número da porta e o andar onde residem. A isto se chama um bairro, ainda há pouco tempo não mais que um matagal nos arredores da cidade, agora de gente cheio como um ovo. Este é o modo de vida ideal para alimentar a curiosidade mórbida de bastantes moradores. Alguns se entretêm a contar entradas e saídas deste ou daquela como se fossem encarregados de qualquer entidade estatística de bons comportamentos cívicos e morais. Outros trazem-se em cuidados quase verdadeiros por aquele vizinho da frente que tem deficiência motora ou, por quem será a ambulância do 112, que nos últimos 15 dias já parou três vezes dois quarteirões abaixo, com aquela sirene irritante e os pirilampos azuis que, reflectidos pelas janelas dos prédios parecem de mil carros e de mil pedidos de socorro, mitigando fomes que para aqui não são chamadas. Arriscam estes vizinhos, deambulando com o olhar de recanto em recanto, de varanda em varanda, de janela em janela – como os franzinos pássaros saltitantes – comer ou ser comidos… A tudo o que assisto ou pressinto e aqui dou notícia, devo esclarecer que hoje não vi, com estes, sim, que a terra há-de comer, qualquer assalto felino com êxito, pelo que a pardalagem pode dar-se por feliz por não ter “subido” ao céu. Já no meu bairro, na minha casa, logo a seguir a este de que vos falo, componho as notas há pouco rabiscadas para que façam sentido e conto-vos esta história que, afinal, não fosse o caso de ser assustadiço, como já contei, podia ser igual à deste bairro onde moro e tudo me parece normal como se estivesse no céu, na companhia dos meus gatos e dos meus pardais.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

TORRE DO RELÓGIO


Sineiro sou, de sinos, pois,
que outros há que a rebate
ou mudos, de enfeite, a dois,
não sirvam a quem os trate?


Dou momentos , ave-marias,
horas mortas, desatino;
passo assim noites e dias,
ganhando p’ra corda do sino.

terça-feira, 15 de maio de 2012

O CÉU A SEU DONO


No céu que vejo eu de novidade,
senão este ou o mesmo sol de antes,
nuvens estas ou apenas claridade,
erráticos pássaros em voos constantes?


Beirais, abaixo, rendilhando a lua,
prazenteira em seu jeito de engodo,
enchendo-me de luz a casa e a rua
de ilusões e céus de outro modo?


Deuses não vejo, sequer a sombra;
um turbante flutuando ou rasto,
e é este que não vejo que me cobra
o céu que não uso, de que não gasto?


Não há céu que assente como luva
mas que posso contra, outro há?
Se não me livra de calor ou chuva,
em cima também não me cairá.

domingo, 13 de maio de 2012

ANIMAIS (versão de João Corvo)



Não sou de recreações
com os pobres dos animais domesticados.
Contento-me em brincar e fazer festas
àqueles que a sorte trouxe ao pé de mim
e receber deles carinho
se para tal me acharem merecimento.
Talvez por isso, do circo que é o mundo,
em espectáculo permanente,
quando me caem no colo, com pedigree,
recomendados, animais de estimação,
demasiados para o meu gosto,
tiro bilhete e volto mais tarde.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

(A) NEM MAIS



O rato no queijo
a mosca no prato
e um percevejo
algures no quarto


o cavalo errado
com pulga n’orelha
é bicho danado
do arco da velha


o que põe gravata
é d’ outra seita
social democrata
da ala direita:


a filho d’ égua
(animal ruim)
não se dá trégua
do princípio ao fim