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sexta-feira, 19 de abril de 2019

DA SORTE


Em 1988, quando publiquei Alegria Incompleta, ed. Vega – merecedor, pela APE, do Fundo de Apoio à Edição de Autores Portugueses, apoiado pela Gulbenkian e em cuja recensão, na Colóquio Letras, Fernanda Botelho me haveria de me apelidar de “poeta do coisismo” – ter-me-ei esquecido, ou por ventura preterido (não me lembro) o poema “Da Sorte”.
Andou o dito pelas gavetas, em vinha d’alho mais de 30 anos, inédito, e que agora encontrei e vos mostro. Acresce que a pontuação é de hoje, porque na altura não a fazia.
Por que o mostro passado tanto tempo? Apenas porque lhe achei graça. Só isso.     

                                  ***

Há dias caí ao mar ou caí em mim no mar,
que eu não sou de me atirar assim
sem mais nem menos, e vi a coisa tremida.
O mar não me largava. Fiquei emaranhado
na sua enorme cabeleira e é o sais!

Foi então que me agarrei à barbatana
de um peixe que a sabia toda e me quis comer…
Não teve essa sorte, porque eu não fui na cantiga
e resolvi acender o candeeiro eléctrico
da mesinha de cabeceira antes dele o engolir.

Costumo sempre usar este truque quando
as coisas se complicam e fico à rasca.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

TRÂNSFUGAS


Não fujas
tu és todos os lugares
não te escondas
entre cortinados
que tu mesmo teceste
não finjas
desconhecer Setembro ou Novembro
que aceitaste
com argumentos contrafeitos
e que mais tarde sacudiste do capote
que não era nada contigo

dispara à queima roupa

verás o meu sangue ganhar terreno

ah a tua pressa
pode lá haver quem a denuncie!

domingo, 27 de maio de 2012

CORAÇÃO


Transporto dentro do peito
um relógio feito de bronze,
oxalá não ganhe defeito
e dê o meio-dia às onze.


Não de bronze, mas lata
que, dê as horas que der,
já não ata nem desata;
não corre nem deixa correr.


Ou então feito de arame
com volteios e cadeado,
capaz de matar quem ame,
tornando-se arame farpado.


Fosse de oiro, isso sim
quanto valeria em aforas!
Mas com um relógio assim
para que queria eu as horas?


Possivelmente é de mistura
para que o mal não ataque,
e enquanto a vida dura
faça: tiquetaque, tiquetaque.



domingo, 20 de novembro de 2011

UM PÁSSARO EM FLOR


Um pássaro em flor
perfuma o canto;
mitiga e, seja como for,
trauteia o pranto.


A beleza ameniza a dor
e enxuga o pranto;
mitiga e, seja como for,
pelo menos não dói tanto.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

GENTE ILESA


A vida nem sempre é como se vê;
às vezes contradiz-se na aparência:
há dias em que a calma cansa, não sei porquê,
outros em que se chora a sua ausência.


Pior ainda é com a temperatura:
se o tempo aquece e o sol é um tição,
pede-se o frio. Mas se este vem e dura,
volta o apelo: quem me dera o verão!


É mau feitio querer sempre o que é diferente!
Mas como não ter em nós estes defeitos,
se somos o resultado de quem, exactamente,
nos compôs, em síntese, ao sermos feitos?

quarta-feira, 6 de abril de 2011

FLOR DA LARANJEIRA

Vista assim, até parece
flor sem eira nem beira,
mas o aroma que oferece,
inebria e que bem cheira!


Ai que bem cheira
a flor da laranjeira!


Parece perfume de rosa,
de uma frondosa roseira,
o desta florinha amorosa;
branca flor da laranjeira.


Ai que bem cheira
a flor da laranjeira!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

FLOR DA AMEIXEIRA



De original não tem nada:
nívea de pétalas e de feição,
de cinco folhas asada,
quantos os dedos da mão.


Par de tanta flor afim,
podia seduzir com o odor,
mas nem mesmo assim:
não tem cheiro esta flor.


Então, o que enfim cativa,
que impressão nos deixa?
Tãosó na boca a saliva,
que lembra o mel da ameixa…

sexta-feira, 1 de abril de 2011

MALMEQUER


Malmequer a vida inteira,
bem me quer a pura flor.
Este mal, queira ou não queira,
é, meu bem, um mal menor.

Bem me quer eternamente,
o bem querer adivinhado.
Com o bem, bem pode a gente;
com o mal é que é o diabo…

Pior, mas muito pior,
por cada pétala arrancada
para em vão buscar amor:
- mal me quer, muito, pouco, nada.

quarta-feira, 30 de março de 2011

MALVA


Às malvas, é dito vulgar,
como coisa sem valor.
Não é justo assim falar
de tão generosa flor.

Serena flor, benigna rama,
- nunca o diria se não fosse -
e não se livra da fama:
o seu chá faz bem à tosse.

Outrossim para a malícia,
mas aqui com outro fito,
dizem ser uma delícia,
aguar de malvas o dito.

segunda-feira, 28 de março de 2011

CAMPAINHAS


Tocam campainhas p’rá folia
ao sol que oferece este maná:
é a prima vera por um dia,
se amanhã é prima, se verá.

Obras-primas, com certeza,
as orquestrais sinfonias
das pautas da natureza
na primavera dos dias.

Cheira a terra, o prado aquece,
bamboleiam rosadas esquilas
(agora, o que não é, parece:
confesso que posso ouvi-las…)

sexta-feira, 25 de março de 2011

SOAGEM/CHUPA-MEL


Livre como as aves, a chupa-mel
sinuosa com as cismas da aragem,
tem neste silvestre carrossel
o sol e o melífluo odor da soagem.

Irmã do vento, sem abrigo e nobre,
que ser humilde tem que se lhe diga:
não se é inferior por se ser pobre
ou suportar de pé o vaivém da vida.

quarta-feira, 23 de março de 2011

"ENVERGONHADAS"?


-E as meninas, qual é vossa graça?
E por que me viram as costas?
Não gostam de ver quem passa
ou hoje estão maldispostas?

Que lindas são, mesmo assim,
de rosto voltado para o chão.
Será por causa de mim
ou problema de educação ?

Ponderem, não custa nada.
O Sol está radioso e quente,
embora, mande a verdade,
não nasceu para toda a gente.

segunda-feira, 21 de março de 2011

FLOR DE PÊSSEGO


Os pêssegos virão
da débil flor rosada:
lá mais p’ro verão,
não tarda nada…

E que doces são
-que doce eu fico –
pêssego de verão
de olhos em bico.

Carnudo quanto monta,
dava para o almoço,
não fora a afronta
de tão grande caroço.

segunda-feira, 14 de março de 2011

LILÁS


Que flor é esta, assim-assim,
com o nome da coloração?
Os lilases deste jardim,
cores ou flores, o que são?

Neste enigma aparente
entre o ser e o que assemelha,
as dúvidas ficam p’ra gente
e todo o mel para a abelha…

sexta-feira, 11 de março de 2011

ESTRELAS DO MEIO DIA


Ainda por desabrochar,
as estrelas do meio dia:
fazem contas de ficar,
'inda a manhã está fria.

Depois explodem de cor,
em tentação desmedida,
as estrelas rasas em flor,
ao meio dia da vida.

quarta-feira, 9 de março de 2011

INTIMIDADE


Hoje vou dizer algumas coisas que nunca te disse:
um lençol de linho, bordado pela minha avó,
com rosas iguais na orla das almofadas;
o cheiro a alfazema dum baú qualquer da minha infância;
um beijo no escuro e outro descarado;
os sonhos povoados de enigmas que nunca soube explicar;
o meu estulto defeito de não ter defeitos;
o par de mãos que tocam, por fora, toda a minha vida;
todos os caminhos.
Que mais intimidade posso dar-te?

sexta-feira, 4 de março de 2011

AZEDAS


Paupérrimas flores!
Não lhes bastava ser rasteiras,
ainda confinadas às veredas.
Paupérrimas flores!
Adorno dos campos e ribeiras,
de seu nome ervas azedas.

quarta-feira, 2 de março de 2011

LÍRIOS




Copiosas as pétalas do lírio,
transitórias, quase não me dão tempo para as ver.
O lilás e o branco são os favoritos.
Asas de minúsculos anjos, pairando no meu jardim,
só por milagre são flores
ou então sou eu que os vejo assim

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

ERVA DE SÃO ROBERTO


Folha rubra, S. Roberto, relvas da minha porta,
são pós de Maio, ervas do mês das flores.
Se as mágoas me passam ou não, pouco importa,
uma coisa eu sei: o chá tira-me as dores.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

MATANÇA


Do porco diz-se, coitado,
já nasceu com este fim;
sendo ele o sacrificado,
menos me martirizo a mim.

Rola o bicho no espeto,
rebola a saliva na boca:
- chega-te à frente, sê esperto,
que a carne é fraca e é pouca…

A bula, em tempo, foi paga,
as licenças estão em dia,
já só nos falta quem traga
da lombada bela fatia.

Rola o bicho no espeto,
rebola a saliva na boca:
- chega-te à frente, sê esperto,
que a carne é fraca e é pouca…

Contam-se estórias à mesa
coisas da vida e… do porco:
diz-se com toda a certeza
que vê-lo é ver nosso corpo.