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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O SOL E AS NUVENS




Vem aí um sol com nuvens que não vejo
ainda, nem sei qual dos dois vai dominar:
sei que um se anuncia e é meu desejo
e outro que se interpõe sem se anunciar.

Dos dois não há escolha, não há opção:
um é o desejo, o rumo dos nossos passos;
o outro é o que se tem por contradição,
mas nada disso nos fará baixar os braços.

Sobre a tese, a antítese e a síntese, aprendi
que toda a vida se faz de contestações,
de dúvidas, de refazimento aqui e ali

e sei também que muitas são as contradições
do sol que conforta e queima só por si.
E se assim não for, haverá ainda mil soluções.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O CASARIO


No casario quem mora,
canta, ri ou chora;
quem tem calor ou frio
e quem se foi embora,
já não mora no casario?

No casario quem come
ou se alimenta de fome
e tem a vida por um fio.
De quem e em que nome
se consome o casario?

No casario, por fora,
vivem a luz, por ora.
E dentro há vela ou pavio
que alumie quem lá mora
ou é negro, dentro, o casario?

Que sabemos nós de quem mora
se os olhos só vêem por fora?

domingo, 25 de novembro de 2012

FLORES DE MIM



Ai flores, cujo rescender
me colhe por mariposa,
dai-me tempo e a ver
quanto o meu voo não ousa.

Coberto de cores e flores
como anjo querubim,
mais as mágoas e dores
que brotam dentro de mim.

Voarei num golpe d’asa
sobre pétalas e poemas,
mesmo sem sair de casa
e em vez de asas ter penas.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

AMIGOS


Na foto (de 72/73), que me foi oferecida pelo meu amigo Joaquim Vicente, estão dois outros amigos: o Ambrósio Ferreira (à esquerda) e o Luis Silva.

Tenho amigos que ainda
e também amigos que já:
a uns posso dar boa-vinda;
outros já não estão cá.

O que sou, sou todos eles,
por isso sou bom e ruim:
destes um pouco, outro daqueles,
todos estão dentro de mim.

domingo, 18 de novembro de 2012

PLÁTANO


O velho e robusto plátano cedeu enfim
a sua última folha rosada deste outono.
Cedeu a folha no triste adeus de abandono;
ficou a árvore, perjurando a morte; o fim.

Não cede a árvore pela mão da natureza
mais que as folhas consumidas, outonais:
cede ao tempo, a invernias e vendavais,
nessa luta mais não dá, mais não despreza.

Dos galhos secos, agora desfolhados,
despontarão flores e frutos renovados
e o seu esplendor será com então era:

Será de novo a sombra dos desabrigados,
exemplo de robustez e porte elogiados,
não agora: só quando voltar a primavera.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

EXPECTATIVAS


Bolas não numeradas
não são do totoloto:
-bolas! que bolas bastardas
saíram ao gafanhoto.

Zero é coisa nenhuma,
jackpot é muita sorte.
Ele vê-se cada uma
nesta vida, que é de morte.

Da sorte, que eu conheça,
a fazer fé no gafanhoto,
só algumas dores de cabeça
e sonhos de totoloto.

Mas o tema não termina
com mais bicho, menos bicho,
que esta vida não é sina:
a passos? Não, isso é lixo!

domingo, 21 de outubro de 2012

NO CORAÇÃO DAS HORAS



Na Torre, onde faz tempo,
as horas batem por fora,
há um relógio por dentro,
que faz o tempo hora a hora.

Marca as horas boas e más
com preceito e exactidão
de frente, de lado e de trás,
faz das tripas coração.

Marca a vida em compassos,
em esperas e pontualidade,
retalha o tempo em pedaços,
fingindo não ter idade.

A idade (provado assédio)
é o que o relógio recorda
e não resta outro remédio,
que paciência… e dar-lhe corda.

sábado, 20 de outubro de 2012

PERSPECTIVA


Não é por pintá-lo que há-de
ser perfeito um qualquer dia,
muito menos p’la obliquidade
do sol é meio-dia.

Não é o mate da aguarela
que ilude a cor do outeiro,
nem a subtileza revela
possibilidade de aguaceiro.

O que há para ver é a casa,
as flores, o mundo perfeito.
Assim a gente se compraza
e bom proveito.



quinta-feira, 18 de outubro de 2012

SEI DE UM BARCO



Sei de um bote, um barco ou um navio
repleto de soldados e marinheiros,
e de outros, que por destino ou extravio,
não foram muito além dos areeiros.

Sei de uma jangada de vela panda,
que os ventos enchem de areia e sal,
aparentando navegar, mas já não anda
e se dá pelo nome de Portugal.

Foi um pássaro que me disse, inquieto,
que a estibordo mete água, afunda
sem remédio, como boia moribunda,

sem se saber já se foi mal do arquitecto
ou se de outros infortúnios foi objecto
para tal sina e desgraça tão profunda.

domingo, 7 de outubro de 2012

ÁGUA, UMA AUTÓPSIA

Analisada a composição, em suma:
duas moléculas de hidrogénio
para apenas uma de oxigénio,
é água, sem dúvida nenhuma.

Pelo ar dolente dá para ver,
sofreu maus tratos e escravidões,
espargida por mil religiões,
contabilizada em deve e haver.

Desperdiçada, mal compreendida,
acolheu aqueles, que ao naufragar
lhe rogaram pragas de arrepiar.
Foi tudo na vida, tudo em vida.

Acarinhada no desvio ou conduto,
teve amores também entre o povo
hoje aqui, depois ali, sempre em recovo,
mas nunca por si, antes pelo fruto.

Tem cor esverdeada, sabe e fede
e alimentou o mundo mesmo assim,
morta-viva correndo para o fim,
a autópsia é clara: morreu de sede.



sábado, 6 de outubro de 2012

"PORTUGAL COM FUTURO"






Não se pode adormecer
na batalha p’la razão,
que hoje voltamos a ter
pelo trabalho e p’lo pão.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O MENINO

O menino disse: quero a lua
e a mãe não lhe deu atenção;
pediu pão o menino da rua
e a mãe deu-lhe o coração.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

PEQUENO INTERLÚDIO






Na seara, oiro sobre azul
parece coisa perversa,
são manigâncias do sul
dito assim ou vice-versa.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

ERA PARA TE ESCREVER E NÃO ESCREVI



O que tinha para te dizer eram uis, ais
de mim, e não os achei relevantes:
coisas miúdas, não tinha comigo vogais,
e a par sobravam-me as consoantes.

Esbocei ainda uma mão cheia de frases,
daquelas que insinuam outras, suspeitas,
e doutras que não são certezas, mas quases
e desisti por serem todas frases feitas.

Pensei: que lês tu do que eu te escrevo,
queres lá saber se morro ou passo fome!
O teu interesse não está no meu acervo,
mas lá onde haja ecos do teu nome.



segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O SOL E O SUL


Longe o sol e o sul, ambos bastardos!
Onde a seara loira, que é do pão?
Que não vejo senão veredas de cardos;
ao sul somente o sol da solidão.

A mentira é causa híbrida sem saída
deitada à terra, que se atira à cara,
seca de semente e fruto, inconcebida,
onde o sol e o sul brilhavam na seara.

Terra onde as papoilas detêm sonhos
e o sol ao sul brilhando ainda nos meus olhos.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

DOR EM DUPLICADO


A força duma lágrima de dor e mágoa
prova um lado enxuto, outro molhado
e, como o reflexo num espelho d’água,
mostra a dor e a mágoa em duplicado.

E se tal exibição é talento de ensinar,
acresce o quê à dor já conhecida?
Pode ser fiel a cópia ao primeiro olhar,
mas nunca a dor que dói repercutida!

Qual a dor mais violenta, mais doída
a que dói em nós, sabendo que é sentida
ou aqueloutra que de nós vemos reflectida?

Não é a dor de a vermos, que nos afronta
mas a que temos e sem a termos em conta,
reflectida ali nos dói mais se nos confronta.



domingo, 19 de agosto de 2012

MEMÓRIA

António Augusto Teixeira, meu pai (6.1.1924 – 19.08.1970)


Sombras ou o que resta delas:
esperas, memórias e mais nada;
o pó das estantes, a luz das velas
e uma fotografia emoldurada.

Espera é um pedaço de vida,
se a virtude em vão não for;
paciência, esperança e medida
entre a semente e a flor.



terça-feira, 29 de maio de 2012

LEMBRETE


Não me faço de credos, súplicas ou preces,
de penas, plumas, sombras, atalhos, escoras;
faço-me de tijolo como a casa onde moras,
e as demais coisas simples que conheces.
Ou talvez não! Se a vida te acontece felizarda,
com elmos, filtros, senhas de desembaraço.
Como te digo, não é disso que me fiz ou faço:
faço caminho e caminhando me protejo:
não peço nem quero um beijo por um beijo,
não dou nem aceito um abraço por abraço.


Já neguei o que depois me fez chorar!
Enganos todos temos, incertezas quanto baste,
às vezes sombras, nuvens e medos, por arrasto,
mas jamais cruzar os braços e esperar.
Das cores distingo as que quero, excepto pardas,
fluorescentes e néones de delicado traço…
tampouco confundo um aeroporto com um terraço.
Se o tempo urge corro, dou aos braços e adejo,
mas não peço nem quero um beijo por um beijo,
não dou nem aceito um abraço por abraço.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

MEMÓRIA DA CASA ANTIGA


Uma fenda elegante e sinuosa percorreu o tecto,
desceu depois pelo estuque da parede antiga
e, sem memória ou traço de arquitecto,
em pouco tempo dividiu ao meio toda uma vida.


Na minha geração foi apenas um rabisco;
um ar de graça acima de qualquer suspeita.
Mas com os anos acabou por se tornar um risco
a que a família não podia estar sujeita.


Deixámos a casa. A vida tem destas partidas,
e em nova casa há mais conforto, é mais selecto.
Agora é a saudade das coisas mais antigas
que, caprichosa, faz lembrar a fenda no tecto.

domingo, 6 de novembro de 2011

ANDARILHO


De mim vou tão longe quanto posso. Parto
sempre quando já não me acho graça:
mas não fujo; apenas dou a volta à praça
e depois regresso quando do resto fico farto.


Há dias em que me deixo, outros vou também,
(nem sempre consciente, que às vezes é errar,
julgar que é nosso o próprio caminhar.)
E encontro o meu equilíbrio neste vaivém.


Os caminhos faço-os de presente e de futuro,
se por acaso me encontro ali por perto…
Revejo-me solene, mas é quase certo
que não é a mim; que não sou eu quem procuro.