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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

PARTIR DO ZERO



O sol não aquece
o frio não gela
o rio não corre
as estrelas não brilham
as aves não voam
o fogo não arde
e o lume das nossas mãos
tem chama que não queima
os frutos não amadurecem
os sinos não dobram
as horas não passam
as bocas não falam
o vento não sopra
a carne não sangra
a fome não passa
e esta estrada não leva a lado nenhum
as palavras não gritam
não gritam os homens

o melhor é começar de novo:
partiremos do zero
p’ra ver o que isto dá.



sábado, 6 de outubro de 2012

"PORTUGAL COM FUTURO"






Não se pode adormecer
na batalha p’la razão,
que hoje voltamos a ter
pelo trabalho e p’lo pão.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

BUGANVÍLIAS




Podia chamar-lhes sinos se não fosse a haste
(não a alma)
que as eleva, se não fosse pagão o meu quintal.
Sobem as paredes, voam como podem.
Toda a fragilidade se transforma em volúpia,
o pátio enche-se de vermelhas mariposas.
Esta manhã são a causa essencial do meu sorriso.

terça-feira, 22 de maio de 2012

MÚSICA DITA


Não te vou mentir:
o que não tem música
ainda não sabe que está morto.


O melro trajou de gala
para o último concerto
e a recente primavera vestiu-se de luto.


Não te vou mentir:
pode escutar-se a melodia
durante o silêncio da orquestra.


Bastam os címbalos
(oh, scherzo de brisa e espuma!)
Basta a nudez das notas.

Não te vou mentir.
Consegues ouvir-me?
- É o solfejo do teu corpo.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

TORRE DO RELÓGIO


Sineiro sou, de sinos, pois,
que outros há que a rebate
ou mudos, de enfeite, a dois,
não sirvam a quem os trate?


Dou momentos , ave-marias,
horas mortas, desatino;
passo assim noites e dias,
ganhando p’ra corda do sino.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

26 DE ABRIL


Tinha tudo para ser resplandecente,
uma cor garrida que fosse, esta manhã
de vinte e seis de Abril.
Não pelas promessas recentes ou porque, de repente,
outro oásis nos fosse anunciado, mas somente
porque assim deveria ser. E não é.
Deveria sê-lo pelo que bastou de outros dias e noites
mal vividos; mal dormidas
e pelo que nunca será bastante de combates
pelo pão e pelo sol que todos sabemos pronunciar
e só alguns podem saborear.
Tinha tudo para ser de festa ainda
este dia 26 de abril cinzento e triste
como foram todas as noites para aqui chegar.