terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

VERDADEIRA MENTIRA


O que vale uma bela verdade
sobeja de uma mentira bem urdida, repetida.
Andam por aí como andorinhas perturbadas, as verdades
e como arneiros espaventosos, as mentiras.
São ambas de livre acesso:
na política de cá e na que se faz lá fora,
nas grandes superfícies comerciais e no guiché
das urgências, enquanto ainda nos comprazem os sentimentos cristãos,
nas paragens e no interior dos transportes públicos,
na escola, incluindo os períodos de recreio,
nos andares acima e abaixo do prédio em que habitamos,
(é bom não começar já a duvidar de nós mesmos)
naquele terço de dia em sublimamos os instintos predatórios,
em todas as repartições públicas e é provável
que também nos códigos de barras, mas não posso garanti-lo.
Ao contrário da verdade,
dizem-me que a mentira é perfumada.
Talvez por isso não direi o que me tinha proposto:
cheira mal.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

O LIMITE DA PACIÊNCIA

Há muitos anos que trago entre o peito e o estômago um escriba inconformado de seu nome João Corvo. No dia 11 de Fevereiro, na manifestação em Lisboa, foi dos últimos a arredar pé. Escreveu depois o texto que se segue. O Mário Quintas registou a impaciência do sol.
Há com certeza um limite para a paciência
que eu não conheço, caso contrário, o elástico
invisível da tolerância pode abrir fendas
e estalar-nos nas mãos ou, pior ainda, na cara.
Ninguém é suficientemente louco para
suster dessa forma a respiração.
Dito de outra forma, ninguém, por muito parvo que seja,
deixa que o elástico estique, estique, estique,
ao ponto de não se poder falar já de tolerância
mas de uma qualquer algolagnia mal curada…
Deuses e construtores de automóveis
compreenderam desde o início
a necessidade de um limite para a paciência:
os mandamentos e as buzinas, se não resolvem completamente,
vão dando para as encomendas.


Os asininos de fala fácil e fato assertoado
- albarda-se o dito à vontade do dono –
cumprem um papel relevante:
obrigam os restantes a testarem os limites
(se os mandamentos estão bem encrustados nos sentidos;
se as buzinas são suficientemente timbradas).
O problema é que se multiplicam com maior frequência
e a sua proliferação pode tornar-se intolerável.
Apesar das galinhas serem como são
e bem poderem ser suas excelentíssimas mães,
aqueles não são ovíparos, não se podem matar no ovo
e comer mexidos ou estrelados, conforme a vontade
ou a gana que provocam.
Estou a perder a paciência. Repito: não conheço o limite,
mas garanto que não vai sobrar elástico.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

PORTUGAL

Ainda outra foto do Mário Quintas

O mastro que vejo além é Portugal
posto em pé ou, melhor digo, insepulto?
O mesmo que depois das lágrimas e do sal
é exposto ao ridículo e ao insulto.

Se é da lusíada gesta o sonho
da descoberta, é deste o pesadelo:
tanto de burlesco como de medonho,
que dá pena assim voltar a vê-lo.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

FAZER CAMINHO

Esta impressionante foto a que o Mário Quintas chamou “Vida Dura” sugeriu-me o poema.

Penoso é o caminho até que os braços
se ergam como asas, como espadas.
Quanto falta andar, quantos passos,
quantos trilhos por rochas escarpadas?


A razão diz: “vamos lá, vamos andando”.
Um passo pode bastar para o salto
porém, correndo, nunca fiando…
uma coisa sei: havemos de chegar ao alto.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

INSOLAÇÃO

Fotografia do Francisco Costa. Pormenor da manifestação de dia 11 em Lisboa, em que ambos estivemos, acompanhados de 300 000 outros manifestantes.

Persiste o céu nublado, ameaçando chuva
dentro de nós, prenúncio de tormenta.
O Sol (permito à minha assumida ingenuidade perguntar
por que razão ambos nos consolamos nos seus braços)
aliou-se ao inimigo: mente;
não é o seu tempo mas o tempo dos que o exibem
como troféu e iludem como benfazejos.
Mentem, já o disse.
Mentirão enquanto as águas deste inverno,
e de outros que hão-de vir,
não forem a enxurrada que leve adiante
a mentira que há em todo este Sol de sombras feito,
que a alma gela, vá lá saber-se porquê, em pleno inferno.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

CAMINHOS

Não há dúvida que se trata de nova fotografia do Mário Quintas. Desta vez para ilustrar o penoso caminho dos quilowatts. Em boa verdade, a foto nasceu primeiro… Quanto à última rima, já vi pior...

Cada um segue o seu caminho
e ter o seu é já de ficar grato:
por estrada ou como passarinho,
a pé é que já vou ficando farto.


Viajo assim, deus o saberá…
solto os olhos por aí a meditar,
poisam aqui, depois acolá
e vou onde quiser só de olhar.


Melhor é que ao andar se faça,
como aqui procede o quilowatt,
que por nós corre e desembaraça,
galgando o espaço a corta mato…

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

ÁRVORES

Inexcedível, o meu amigo Mário Quintas. Não só no seu envio de fotografias como na excelência da sua qualidade, como é o caso desta árvore formidável.

No que às árvores diz respeito,
há dois sujeitos em mim:
um que as honra e, com efeito,
outro que as tem por outro fim…


Em qual dos dois que proclamo
sou mais sensato ou mais bruto:
quando as admiro ramo a ramo
ou quando lhes saboreio o fruto?

domingo, 5 de fevereiro de 2012

QUE RAIO DE ENGENHO


Objecto decorativo à entrada do restaurante “A Nave” em Salgueiro do Campo

Que raio de engenho!
Rodar, não roda
e, olhando ao desempenho,
é coisa fora de moda.

A quem terá lembrado
um aparato assim,
que de andar parado
me dá voltas a mim…

Mó? Lagar? Torniquete?
Coisa para inglês ver?
Por certo algum joguete
apenas para entreter.

Lembra-me o governo d’agora:
com a pompa e o penacho,
ares de interesse por fora
e calca na mó de baixo!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

CRISE A MEIAS


Meias, metades são,
peúgas de algodão,
malha (demasiado) fina,
um tanto frias:
calcanhares em pele genuína,
digo, já tiveram melhores dias…


Nas pontas, pequenas janelas
que fazem andar de monge:
os dedos respiram por elas;
por este andar vamos longe

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

ELEIÇÃO


Carlota era uma mulher feliz
até que um dia, como agora diz,
procurou taluda na matriz
e decidiu a questão com um xis.


Na verdade saiu-lhe furado
o intento de um bom resultado:
bom foi ele para o sítio errado;
acertou em cheio, mas ao lado…


Hoje grita: que “foi engano,
quis na conversa do fulano”
e agora lhe causa mais dano.


Carlota cuidou ser correcto
mas foi como engolir cianeto;
pior a emenda que o soneto!

domingo, 29 de janeiro de 2012

O POEMA


Junto em cesta de leve espuma,
alinhados cachos de palavras,
não sendo aquela cesta alguma
nem estas propriamente palavras…


São um todo, a mesma entidade,
numa coexistência suprema,
que, para minha felicidade,
às vezes lhes chamo poema.


Porém, não é fielmente assim
entre a cesta e as palavras ditas:
quase nunca a poesia sai de mim
mas apenas estas linhas escritas.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

AINDA O SOL


É passado e não futuro este sol
que se repete e traz barba por fazer:
picam-me na face os seus beijos;
lembra-me o último verão.


Resiste a luz do velho solstício
para logro das rosadas cerejeiras…


Insolvente, insiste em desperdiçar
o que lhe resta: queima
por prazer e por maldade,
que bem pode ser por nossa culpa.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

EXERCERE GRAMMATICUS

Todos temos ideias para futuros acordos ortográficos. Não faltarão novas oportunidades…
Na fotografia, não me recordo se se trata de um agente do A.O. mais recente, se de um analfabeto avulso.


subtil

------
~
ex-trema
.        .

acento

a
100


ponto e vírgula

. e ,

-
Hí-fen

domingo, 22 de janeiro de 2012

IMAGINÁRIO


A propósito duma polémica recente, em Castelo Branco, de contornos quase culturais, ocultação de provas e portas prismáticas para o céu e para o inferno das estatísticas. A foto que deslustra mas ilustra, é minha.


Há quem veja além…
o que não vê:
ilude, ilude-se, crê,
para ver o que convém.


Isto tem que se lhe diga,
fazer de conta que come;
arrisca morrer à fome,
com mais olhos que barriga.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

VENTO

Fotografia obtida pela Maria José em Montes da Senhora, que ma ofereceu, de propósito, para este soneto.
Não sei o que pensa; se pensa o vento;
por que agita o ar; se é temperamento;
ou por que se aquieta e morre devagar,
quando me inunda o peito e deixa respirar.


É feitio seu; modo de ser da natureza
ou então coisa alguma, com certeza
flui por ser livre e ser ao mesmo tempo
etéreo, soberano, altivo, vento…


Vento que for, será sempre passageiro,
seja ele brisa ou desafio de aguaceiro,
cessando pouco a pouco até parar.


Todo o vento é bom para quem o desejar:
para mim, repito, quero-o manso ao respirar
mas o mesmo não serve para o moleiro.