domingo, 22 de janeiro de 2012

IMAGINÁRIO


A propósito duma polémica recente, em Castelo Branco, de contornos quase culturais, ocultação de provas e portas prismáticas para o céu e para o inferno das estatísticas. A foto que deslustra mas ilustra, é minha.


Há quem veja além…
o que não vê:
ilude, ilude-se, crê,
para ver o que convém.


Isto tem que se lhe diga,
fazer de conta que come;
arrisca morrer à fome,
com mais olhos que barriga.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

VENTO

Fotografia obtida pela Maria José em Montes da Senhora, que ma ofereceu, de propósito, para este soneto.
Não sei o que pensa; se pensa o vento;
por que agita o ar; se é temperamento;
ou por que se aquieta e morre devagar,
quando me inunda o peito e deixa respirar.


É feitio seu; modo de ser da natureza
ou então coisa alguma, com certeza
flui por ser livre e ser ao mesmo tempo
etéreo, soberano, altivo, vento…


Vento que for, será sempre passageiro,
seja ele brisa ou desafio de aguaceiro,
cessando pouco a pouco até parar.


Todo o vento é bom para quem o desejar:
para mim, repito, quero-o manso ao respirar
mas o mesmo não serve para o moleiro.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

LUA


O Mário Quintas, meu amigo e tanto, enviou-me esta lua, cuja foto obteve há pouco tempo da varanda da sua casa. Eu não tinha dado por ela, talvez porque já tenho luas que me cheguem...

Tempos houve em que a lua
era um queijo no fundo do poço,
agora já não creio, mais não posso
fartei-me de tal insanidade;
ser a certeza nua e crua,
o que afinal não é verdade.
A lua é isto: um planeta branco
que, qual espirito santo,
- mal de nós que pecamos… -
faz crer neste mundo e no outro,
enquanto eu não vou a tanto;
apenas creio neste e a ver vamos…

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

MAGOADA DOR


Esta perturbante fotografia foi-me enviada através de e- mail por Rui Tomás Monteiro, meu bom amigo de há muitos anos, com um fim diverso e mais saudável daquele em que agora a apresento.
Numa segunda “leitura” acabei por interpretá-la doutra forma e saiu o poema que aqui deixo.


Magoa a malvada dor
de não saber se é já o sofrimento
ou a mágoa antecipada
de não o suportar. Malvada dor que tudo corrói
e dói já não sei onde
e de magoar tem atrevimento.


Uma coisa é a dor e essa aguento;
pior é a mágoa que a dor esconde.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

ALENTEJO A BRINCAR


Perfeito monte de brincar
com tudo no lugar exacto;
malgrado, dá para olhar:
é bibelot de artesanato.


Mas podem tirar o retrato,
fica para depois recordar;
salvo a gente e o aparato
do trabalho noutro lugar.


Depois, ainda o respeito
a quem, curvado, labuta
e que se apruma a eito,
que trabalha e que luta.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

LENGALENGA


Era uma vez uma lengalenga que dizia:
…os cavalos a correr,
as meninas a aprender,
qual será a mais bonita que se vai esconder…


Andava por aqui escondida.
Passados tantos esconderijos e sonhos,
encontrei-a!

domingo, 8 de janeiro de 2012

AO JEITO DO ALENTEJO


Devia haver dois portugais
como num jogo de espelhos,
com perdão dos animais,
de um tiro se matam dois coelhos.


Pouca terra e tanta gente
a quem corre mal a vida
e diz que não tem saída
desta crise permanente,
que do futuro faz presente
e se queixa com tantos ais,
sendo pior quanto mais,
que a solução é só uma
antes que coisa nenhuma,
devia haver dois portugais.


O que faz falta fenece
num abrir e fechar d’olhos,
só a morraça é aos molhos
de tanto mal que acontece.
Já nem rifas nem quermesse,
nada tem volta ou trambelhos,
sejam novos, sejam velhos:
se encolhe é a desgraça
se duplica acham-lhe graça
como num jogo de espelhos.


Safam-se os do costume
(do fruto podre vive o bicho)
e não se importa ser lixo,
digo lixo, não estrume,
que depois ninguém assume
a não ser p’ra fazer mais
como pombos e pardais,
esgravatam até ao osso
e levam tudo o que é nosso,
com perdão dos animais.


Duplicar é a solução
como duas gemas d’ovo
ou então cambia-se o povo
por outro que esteja à mão,
que aceite a imigração:
trocam-se os novos p’los velhos
impostos por bons conselhos
e a sorte logo duplica
se mal está pior não fica
de um tiro se matam dois coelhos…

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

SINAIS DE FOGO


As manhãs rompem ou não conforme o sol;
cedo dão o primeiro sinal de vida e de alerta:
primeiro sonolentas, a passo de caracol,
depois, bem, depois já não é ciência certa…


Faz-se tarde, os sinais descobrem o velho
dia entorpecido, cor cinzenta, como prata
e a noite, que já se ornamenta ao espelho
cai como lâmina que fere mas não mata.


Vespertino o dia dá sinais de desalento,
de azuis que fingem altivez e desafogo
e desvanecem aos poucos com o vento.


Se não é agora, já não será mais logo:
o dia implode mas o seu atrevimento
dá-lhe coragem e o primeiro sinal de fogo.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

QUARTA E ÚLTIMA QUADRA COM MOTE


Anda o mundo às avessas
p’ra maior galantaria,
os que hão-de valer não valem,
os que valem não têm valia

(popular)

Outros para valer se valem
do valor de quem o cria…
até que as avessas do mundo
lhes dêem a volta um dia

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

TERCEIRA QUADRA


Nós bem, nada de novo,
(a léguas de Abril e Maio)
digo como gente, como povo
que afina a mão de ensaio…

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

SEGUNDA QUADRA


A Europa? Ah, sim, isso!
Há uma merkel, um sarkozy
com lucro e o resto prejuízo.
Estou com ela por aqui!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

PRIMEIRA QUADRA


Eis como numa só quadra
a 8ª. maravilha se enuncia:
a 5ª emenda, a 6ª esquadra
e o heroico 7º de cavalaria.

domingo, 1 de janeiro de 2012

REVEILLON


Aqui, no local onde me encontro,
do lado de cá do sol, solene
sobre um chão imundo de lixo,
tenho os olhos e a boca
secos como palhas e finjo
ser um pássaro qualquer,
debicando moléculas de ar fresco.


Ninguém suspeita, se há alguém,
desta minha mágoa em festa, digo,
desta revelação da minha dor.
Há ainda um fio de luz
apenas perceptível pela persistência do olhar.
Expira assim um ano inteiro em agonia.
Paz à sua alma.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

PARÁBOLA (Do ano sem graça de 2011)


O cego tinha sede e bebeu da fonte.
Depois, por enxergar o sol, chorou
ao vê-lo despontar no horizonte
e ao negrume não mais se acomodou.


O surdo, para quem o leito cristalino
de água pura era somente um rio,
ali matou a sede e chorou como menino
quando ouviu da torrente o assobio.


O mentiroso, aos sorvos, tentou
saber também o que era aquilo
sem sede, não soube o que provou
e chorou lágrimas de crocodilo.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

DE CASTELO BRANCO, CONFESSO


Não sei que razões teria em 1997/98 (não recordo exactamente é o que quero dizer) para escrever este texto tão patético e assonante:


Há por aí pedaços de sol e de mim virados do avesso
alfinetes d’ama outros nem tanto a baixo preço
alguns a mais e mais ainda no começo


e há vinho que é bom e eu não conheço
azeite do mais fino e também espesso
bofetadas que são bem dadas e beijos sem endereço


há sonos em que apenas finjo que adormeço
temperaturas em que ora aqueço
ora arrefeço
muito banho-maria confesso
e há causas de que nunca mais se abre processo


há estátuas de pedra de bronze e de gesso
mil caminhos alguns vales e um cabeço
há por aí pedaços de sol e de mim virados do avesso
e se não há polícia a esta esquina é porque o não mereço