terça-feira, 22 de novembro de 2011

A BANCA ABANCA


A banca
abanca
toma assento
à mesa do orçamento


dá razão
ao livro de razão
deve e haver
é seu dever


então denota
que de nota
não é demais
e pede mais


a banca rota
abarrota
no economato
ou morre ou mata


e diplomata
mata

domingo, 20 de novembro de 2011

UM PÁSSARO EM FLOR


Um pássaro em flor
perfuma o canto;
mitiga e, seja como for,
trauteia o pranto.


A beleza ameniza a dor
e enxuga o pranto;
mitiga e, seja como for,
pelo menos não dói tanto.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

AMATO LUSITANO


Haverias de sair para ser gente, gesta
imaculada deste povo crespo e arredio,
que de seu só sabe o quanto presta
se de si mesmo ouvir de outros elogio.


Deram o teu nome à minha escola,
fizeram dele mais coisas de aprender,
Amato. Mas sabe a pouco, cheira a esmola,
pelo muito que há ainda por fazer.


Em estátua tens a verdade nua e crua:
foi-te a vida de saberes e de degredo
e agora, quieto, que apontas para a lua,
há quem insista e te olhe para o dedo.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

MEMÓRIA DE CASTELO BRANCO


Não foi tão diluviana a enxurrada
de há cinquenta anos, nem o tufão
foi coisa de mazela amargurada;
mas aguaceiro fraco também não…


É certo que esbulhou as avenidas
e arrebatou o coreto do passeio
mas, passado o susto fez despedidas,
e logo se dissipou, tal como veio.


Morreu gente, sim, e feridos houve
dos maus ventos em reboliço;
mas também houve povo que não soube
ou não se ateve, ou deu por isso.


Mal sabíamos que, tempo passado,
ressarcidos, haveríamos de ganhar
a polis pós-moderna, qual tornado,
trazendo entulho de volta ao seu lugar.


Se outro vento igual nos castigar,
( longe vá o agouro!) se bem não há-de,
mal já não fará, que nada há para levar,
nem restos de memória da cidade…

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

MEMÓRIA DA CASA ANTIGA


Uma fenda elegante e sinuosa percorreu o tecto,
desceu depois pelo estuque da parede antiga
e, sem memória ou traço de arquitecto,
em pouco tempo dividiu ao meio toda uma vida.


Na minha geração foi apenas um rabisco;
um ar de graça acima de qualquer suspeita.
Mas com os anos acabou por se tornar um risco
a que a família não podia estar sujeita.


Deixámos a casa. A vida tem destas partidas,
e em nova casa há mais conforto, é mais selecto.
Agora é a saudade das coisas mais antigas
que, caprichosa, faz lembrar a fenda no tecto.

sábado, 12 de novembro de 2011

UM VELHO SOM


Um som já velho, reciclado,
vira o disco,
não sei onde ouvi isto.


Fede. Velho e relho, insisto,
percorre o tubo enviesado
este som antepassado.


Que som este, estafado,
de notas falsas, um misto
de purgatório e Jesus Cristo.


Como a sensação do já visto:
na música o mesmo fado
e na letra o caldo entornado.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

P(r)O(bl)EMA GREGO

Jean Gouders, Cartoons




Aos novíssimos herdeiros das calendas
ainda remanescem lendas de pasmar:
os cidadãos viraram estátuas, encomendas
com promessa de Afrodite as transformar.


Este grego é um sábio e sabe-a toda,
querendo apanhar moscas com vinagre:
o povo vota e então, de forma cómoda,
faz batota e brada que é milagre.


De modo que me inteirei, enfim,
da obra prima do soberano cipriota,
cuja esposa fôra estátua de marfim
feita gente por milagre ou por batota.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

PARABÉNS, JOÃO!


O meu grilo
podia ser um bicho da seda,
um peixe pigmeu, um canário
ou outro qualquer bibelô vivo.
Podia até ser grila, mas não.
Não por ter três rabos
ou pela falta do colar amarelo,
nada disso:
é que a grila não canta e isso é essencial.


Ter um grilo não é assim uma estória simples:
todas as primaveras
o gozo que dá singular procura:
o apuro dos tímpanos,
a leveza do andar até ao buraco,
a inesquecível palhinha e depois aquela posição
cruel, às vezes por uma grila insignificante
ou a surpresa dum insecto desconhecido.


Se é cantador tem o destino traçado
(eis o fatalismo adoptado)
a gaiola dos antecessores,
a alface do dia em vez da serralha selvagem
e um lugar ao sol na varanda da frente,
pelo menos até Agosto.


Depois, as peripécias de sempre:
o incómodo da vizinhança,
a iminência de morte súbita pelos porquês
e as atormentações do João
ou as minhas tentativas de homicídio
sempre confessadas.


Admitimos o ciclo:
anualmente assumimos a derrota
conscientemente.

domingo, 6 de novembro de 2011

ANDARILHO


De mim vou tão longe quanto posso. Parto
sempre quando já não me acho graça:
mas não fujo; apenas dou a volta à praça
e depois regresso quando do resto fico farto.


Há dias em que me deixo, outros vou também,
(nem sempre consciente, que às vezes é errar,
julgar que é nosso o próprio caminhar.)
E encontro o meu equilíbrio neste vaivém.


Os caminhos faço-os de presente e de futuro,
se por acaso me encontro ali por perto…
Revejo-me solene, mas é quase certo
que não é a mim; que não sou eu quem procuro.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

TESTE PROJECTIVO


Que mais pode um homem desejar:
uma boca, um par de olhos cristalinos,
a brisa fresca vinda do mar,
ou n’aldeia despertar ao som dos sinos.


Que outro mal maior virá depois:
amordaçado e, de tanto ver, cegar,
não ter nas ondas senão maus lençóis,
ao rebate que os sinos hão-de dobrar.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

GENTE ILESA


A vida nem sempre é como se vê;
às vezes contradiz-se na aparência:
há dias em que a calma cansa, não sei porquê,
outros em que se chora a sua ausência.


Pior ainda é com a temperatura:
se o tempo aquece e o sol é um tição,
pede-se o frio. Mas se este vem e dura,
volta o apelo: quem me dera o verão!


É mau feitio querer sempre o que é diferente!
Mas como não ter em nós estes defeitos,
se somos o resultado de quem, exactamente,
nos compôs, em síntese, ao sermos feitos?

domingo, 30 de outubro de 2011

SORTILÉGIOS

A MÃE



O meu avô materno era como um pêndulo, não por ser relojoeiro, mas por se assumir como o umbigo da família. No dia 22 de Junho de 1953, debruçou-me, decidido, sobre a primeira urna que enxerguei, insinuando aos meus trezentos e quarenta e sete dias de natural sobrevivência, não a mim, ser aquela, incontestavelmente morta, a minha única e exequível mãe.


A TI CARLOTA



Contam que a Ti Carlota, fervorosamente católica, subia, solta, há muitos anos, as escadas da muralha (também sua casa), quando tudo ficou repentinamente escuro, e Satanás a esbofeteou violentamente ao ouvir o seu “credo, Jesus Senhor”. Morreu quase centenária e cega com esta recordação latente, quase verdadeira.



A ESCOLA PRIMÁRIA



Aos seis anos levei a primeira palmada sobrenatural às cinco da manhã. Já então tinha passado com o ferro quente pelas ceroulas de dormir ensopadas de mijo até aos joelhos. Creio que ultrapassaram um rosário as ave-marias avulsas que rezei. Depois foi a manhã mais bem-vinda enquanto durou a instrução primária.


MAGIA QUASE



Lembro-me daquelas cabras maltesas pelo abandono, que só por morte a tiro lhes reivindicavam a posse; dos corvos tão aparentemente estúpidos como negros, habitantes perpétuos das ilhas de Cabo Verde dos tempos coloniais. A seca permanente deixava o chão cor de barro e fendido. Por sorte, os bocados de madeira e os restos dos sacos de cimento da construção civil sobravam. Era isso o pasto e o repasto daqueles conformados animais.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

TRÂNSFUGAS


Não fujas
tu és todos os lugares
não te escondas
entre cortinados
que tu mesmo teceste
não finjas
desconhecer Setembro ou Novembro
que aceitaste
com argumentos contrafeitos
e que mais tarde sacudiste do capote
que não era nada contigo


dispara à queima roupa


verás o meu sangue ganhar terreno


ah a tua pressa
pode lá haver quem a denuncie!

Inédito, 1985

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

VOAGEIRO


É certo que voamos
consideravelmente
pela estética dos passos
e a teimosia da gravidade.


É certo que voamos
deselegantemente
pela genética falta
de um par de asas.


É certo que voamos
intermitentemente
pela congénita vontade
de ser como as aves.


É certo que voamos
deslumbradamente
pela fonética magia
das asas dum poema.


É certo que voamos
eternamente
pela patética comiseração
de imitar os homens.


É certo que voamos
hipocritamente
pela técnica apurada
mas muito baixo.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

SENHORES DO NADA


Não é nojo e muito menos desprezo
o que sinto por esta relativa maioria.
Por esta e outras, correlativas no peso,
sinto a raiva que há muito não sentia.


O cinismo tomou-lhes conta da oração:
pregam de cátedra e com desdém,
órfãos de si mesmos, híbridos de geração
que não é gente, que não é ninguém.


Não adianta esmagá-los, as suas veias
não têm sangue. Morrem por combustão:
ardamos pois nos actos e nas ideias,
que eles esfumam-se como tiços de carvão!