Uma fenda elegante e sinuosa percorreu o tecto, desceu depois pelo estuque da parede antiga e, sem memória ou traço de arquitecto, em pouco tempo dividiu ao meio toda uma vida.
Na minha geração foi apenas um rabisco; um ar de graça acima de qualquer suspeita. Mas com os anos acabou por se tornar um risco a que a família não podia estar sujeita.
Deixámos a casa. A vida tem destas partidas, e em nova casa há mais conforto, é mais selecto. Agora é a saudade das coisas mais antigas que, caprichosa, faz lembrar a fenda no tecto.