quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

POEMA PARA HIERONYMUS BOSCH


Como hei-de dizer de ti como de mim disseste?

Sim, de mim, que sou gente por aqui ou belzebu

e pinto de igual o que é inferno e o que é celeste.

 

Aqui me tens em efémero deleite, um teu criado

jogando as peras mas sempre atento e, no fundo,

não passo dum joguete, dum projecto mal talhado,

a contas com esses tais possuidores do mundo.

 

Não lhes darei tréguas enquanto for eterno…

Serei talvez apóstolo da alegria, como foste tu

e que me sobre mundo, no céu ou no inferno.


 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

UM DIA DESTES


Dia sem sol, dia sem sal, dia sem sul;

dia de sombra,

sobra o dia…

 

À noite:

quem pode da noite

esperar o que quer que seja

se nada tem

a não ser noite dos dois lados.


 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

CONFINAMENTO


As manhãs enoitecidas

dão voltas pra clarear

enrolam-se a mim, atrevidas,

enquanto não me levantar.

 

Rondam a porta do quarto,

urdindo a sua trama,

até que por fim fico farto

e alço o corpinho da cama.

 

Bem sei que é já novo dia

mas não adianta nem atrasa:

a vontade que tinha perdi-a

por não poder sair de casa.


 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

FINISTERRA

 


Não vieram do paraíso, as aves,

surgiram assim de repente,

folgazãs, umas, outras mais graves,

todas em voo permanente.

 

Não pararam um só segundo

sem escolha para nidificar

e foram dar voltas ao mundo,

no seu ofício de voar.

 

Retalhada, a Terra em fragmentos,

de boas e de más intenções:

mais incúrias que lamentos,

não tem estudado as lições.

 

Por isso a migração constante

das aves, exceptuando os pardais,

não poisam um só instante,

terra a menos e céu a mais…


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

PAÍS DE POETAS


Está confirmada a adiposidade

na famigerada rima.

Já no verso branco (devido à liberdade)

não se confirma.

 

Longe vá a censura

e opinião de quem não concorda:

gordura é formosura

e o que não mata engorda.

 

Em alternativa haverá sempre receitas,

curas milagrosas, dietas,

pós de Maio, malvas de rectais maleitas,

que diabo, somos um país de poetas!

 


 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

A DANÇA DOS PÁSSAROS


Asada dança, alada melodia,

enquanto há vento há esperança,

rodopia, balança; balança, rodopia…

 

Se o par desfila e balança

voa ou adejará um dia,

a dança desafia; desafia a dança.

 

Enquanto o par porfia,

se volteia e de júbilo avança,

basta já de tanta filosofia!

 


 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

ARTIFÍCIOS

 


Não vale a pena a indignação, sempre se acaba

por sofrer de dois males: a indignação já referida

e a moléstia que tal acarreta.

Por isso não vejo porque andemos por aí a indignarmo-nos,

azedos como limões verdes.

As pessoas com quem nos cruzamos

não vão entender a nossa indignação e até são capazes

de ver em nós o motivo da sua própria indignação.

Por isso se torna imprescindível não nos tornarmos reféns

dessa prorrogativa constitucional

e mandar à merda quem acha que ver um foguete no ar,

mesmo de lágrimas é descobrir a pólvora.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

VOLTO AOS VELHOS CAMINHOS



Do pomar trouxe todos os frutos que encontrei:

uns são poemas, gomo a gomo;

dos mais doces jazem cascas de laranja…

 

Ah! Por fim abri os braços, respirei;

acordei finalmente de prolongado sono

e disse para os meus botões: desta fruta já não se arranja.

 

Comi dos frutos, pois, que melhor pudera?!

Camisa aberta, alma consumida,

mais não tinha nem mais me era dado…

 

Fez-se manhã de inverno, escura era,

que a noite ao vê-la lhe deu a própria vida

e me salvou a mim e ao braçado de laranjas então roubado.

 

 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

UM VELHO SOM


Um som já velho, reciclado,

vira o disco,

não sei onde ouvi isto.

 

Fede. Velho e relho, insisto,

percorre o tubo enviesado

este som antepassado.

 

Que som este, estafado,

de notas falsas, um misto

de purgatório e Jesus Cristo.

 

Como a sensação do já visto:

na música o mesmo fado

e na letra o caldo entornado.


 

sábado, 16 de janeiro de 2021

SERENIDADE


A serenidade é um urso na primavera,

que depois do sono, do sonho de urso,

tem sangue-frio e espera

que a vida siga o seu curso.

 

Essa é a serenidade que conheço

se outra existe, com outro nome,

terei de voltar ao começo,

admitir que o urso tem fome.

 

Acorda, urso! A vida não é eternidade,

e deixa por agora a serenidade!


 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

A VER SE NOS ENTENDEMOS


As coisas não são assim:

toma lá, dá cá;

duas para ti, duas para mim

e o assunto fica como está…

 

Não: é preciso que se entenda

o deve e o haver,

não fiques tu com a encomenda

e eu, como sempre, a arder.

 

Vamos por partes:

ao fim de tanto barulho,

(não te descartes),

que trazes tu no embrulho?!

 

- Rosas, senhor…

- Valha-me a santa da Agrela!

Tanto alarde, milagre de tal clamor,

só me faltava agora cair nessa esparrela!

 


 

sábado, 9 de janeiro de 2021

MARÉS


Grande novidade era o mar,

o que outrora foi esperança

da aventura de navegar

foi o meu sonho de criança.

 

Ondas - tinha-as alterosas –

diziam. Outras de apanhar à mão;

umas como os espinhos das rosas,

outras como bolas de sabão.

 

Primeiro foram trilhos e vento,

mistérios, desassossego, ficções,

mas para mim, deslumbramento

pago em banhos e escaldões.

 

Não é o mesmo este mar antigo,

igual para toda a gente:

um exultante, que vinha ter comigo

e outro rancoroso e indiferente.


 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

DA CABEÇA AOS PÉS


Irrequietos que eles são,

abrem caminho a passo

como o bater do coração,

batendo sempre a compasso.

 

E não cessa o caminho

que vão fazendo ao andar,

a toda o gás ou de mansinho,

caminhando sem parar.

 

Galgando a vida inteira,

pé ante pé ou pezudo,

pezinho de lã, de veludo,

não tem fim esta canseira.

 

E apesar desta andança

(pé que anda e tropeça)

perdem o pé e a esperança,

pois quem anda é a cabeça.


 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

ESPERA


É escusado chamarem-me, que eu não vou,

não saio daqui. O Inverno tem-me ocupado

por algum tempo (por enquanto não nevou)

mas este frio é como se tivesse já nevado.

 

Virá talvez a chuva, agrava a disposição:

nada de horrores, apenas preocupações minhas,

lastros de um ano mau, de um tempo em vão,

não vou tardar, deixem vir primeiro as andorinhas…

 


 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

PLÁTANO

O velho e robusto plátano cedeu enfim

a sua última folha rosada deste outono.

Deixou-a no triste adeus de abandono;

ficou a árvore, perjurando a morte; o fim.

 

Não cede a árvore pela mão da natureza 

mais que as folhas consumidas, outonais:

cede ao tempo, a invernias e vendavais,

nessa luta mais não dá, mais não despreza.

 

Dos galhos secos, agora desfolhados,

despontarão flores e frutos renovados

e o seu esplendor voltará com então era:

 

Será de novo a sombra dos desabrigados,

exemplo de robustez e porte elogiados,

não agora: só quando voltar a primavera.