domingo, 15 de julho de 2012

PÉ DE CONVERSA


Com um pé se diz presente
ao pé de qualquer que seja,
com pé atrás se está ausente,
sempre em pé, onde esteja.


Se mete o pé é por azar,
ninguém o faz por gosto
e se o pé ficar no ar
já verdade não é suposto.


Faltar o pé é mais profundo:
perde-se em menos de nada
o pé, a mão, o mundo,
excluindo quem bem nada.


Aos pés juntos é diferente,
venha lá o mais pintado:
o mais comum entre a gente
é, de pés juntos, deitado…

sexta-feira, 13 de julho de 2012

ARTE DE MAREAR


Maré alta, fiz-me ao mar,
no miolo das ondas, sem pé,
para saber como é
um pé de sorte, a preia-mar
sem mesmo saber nadar,
sequer na maré baixa
e muito menos usar
camisola de alcaixa.

Maré vaza da vida
em mar parado, matreiro,
sem arte de marinheiro
de sete vidas vestida.
O bote está de partida,
bem no alto, na amurada,
no adeus de despedida,
não é partida, é chegada.

O bote partiu mar adentro,
tomou agulhas e rumo,
todo de tremuras e fumo.
Apenas resta o vento.
E no centro, bem ao centro
aí estou, ainda de atalaia,
acenando para dentro,
sem nunca sair da praia.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

ARVORELA


Árvore de sol, frutos de luz,
vento que perturba e zela
e demais sedes a que induz
o afogo da pálida aguarela.


Apesar disso vive, resiste
e não se entrega à sorte,
que o tempo a tudo assiste
impávido, mesmo à morte.


O tempo aqui é o pão
e a árvore faz de conduto:
sem terra, um pouco de chão,
não há vida nem há fruto.

domingo, 8 de julho de 2012

CORPO DE POEMA

Criei este blogue em 24 de Março de 2009 com o intuito de divulgar sobretudo os poemas que vão ficando órfãos (não editados em livro). Resultado: 570 publicações, 839 comentários (que retirei há já algum tempo), mais de 50.000 visitas (o counter das bandeirinhas no rodapé da página inicial só foi adoptado em finais de 2010). Divulgar os poemas que me iam surgindo foi assim o objectivo principal. Entretanto, por razões de força maior que só eu estou em condições de entender, manifestou-se nos meus poemas um estilo diferente. Abandonados os “estilos” mais incipientes dos primeiros livros e o “coisismo” dos anos 80, o modo de escrever tornou-se mais consistente e, ao que julgo, definitivo. Não tenho nome para lhe atribuir ou, dito doutra forma, ninguém lhe outorgou qualquer engagement., como normalmente acontece nestas situações. Não falando na ficção em prosa de Mar de Pão e Súbita Floresta, no início deste ano de 2012, um novo estilo poético veio moldar-me a arte de construir os meus poemas. Não foi suficientemente forte para que o adotasse, mas interessante para que o mantivesse em paralelo. Criei por isso um heterónimo – não se trata de pretensiosismo, mas da necessidade de separação das águas – que, em boa verdade, já existia desde os tempos de Cabo Verde, no Novo Jornal. Falo de João Corvo, que tem vindo a publicar em Corpo de Poema com alguma regularidade. Agora, passados 60 anos de vida e 40 desde a edição do meu primeiro livro de poemas, achei oportuno (o critério é meramente estatístico) publicar os cinco poemas mais vistos no blogue. Agradeço aos meus leitores a atenção que sempre quiseram dispensar-me ou, como dizia um velho merceeiro que conheci há um par de anos, voltem sempre!


ESTRELA DO NORTE

Há um corte
entre o dia e a noite
vigiado pela estrela do norte

augura boa sorte
este ponto que me persegue
ainda a estrela do norte

quase sinal de morte
é um quieto silêncio
e apenas a estrela do norte.


DO AMOR

Que é do amor o rumo que nos leva
por desertos de areia e pedra dura?
E que é daquele outro que releva,
mas que o próprio amor não cura?

Que é do amor que sangra e dói,
que por ser amor é seu oposto,
padece de vontade e não corrói,
nascendo em cada dia já sol-posto?

Mas se o amor é a água que sacia
de um sorvo toda a sede presumida,
é também o que seca de agonia
por dentro e de forma consentida.

Corrompe para viver e, por ironia,
morrer de amor é como ganhar vida.


ROSMANINHO

Rosmaninho, companheiro
de tristezas e alegrias,
dá-me a mão, mas primeiro
vem comigo à romaria.

Teu cheiro é a matriz,
como se fosse uma senha:
quando te levo ao nariz,
lembra-me a campina d’Idanha.

És, no fundo, o caminho
que me conduz mais além,
na esperança de ver, rosmaninho,
em Idanha a minha mãe.

ROSA TREPADEIRA

Olha a rosa trepadeira
tão sensual e melosa,
pisca-me o olho, brejeira,
estás a abrir c’ma rosa…

Novelinhos de algodão
são, rosa, os teus botões
que, com tal palpitação
me sugerem corações.

Trepa rosa trepadeira,
vai subindo para o céu,
que o meu olhar é cegueira
quando se cruza no teu.

REMISSÃO

Agora vejo o rubor do teu rosto,
a aurora boreal do teu olhar.
Vejo açucenas e fogo posto
queimando-me dentro e devagar.

E uma centelha de luz e flama
fulmina-me. Fico cinza e nada,
fumos, pó, restos de chama;
um chão estéril após a trovoada.

Ainda assim sou lisonjeiro,
como pé de água sobre brasas:
detono as veias e, prazenteiro,
troco as minhas armas por asas.



sexta-feira, 6 de julho de 2012

RATOS


O rato corrompe e rói por ofício
e génio, ditame de sobrevivência.
Está-lhe no sangue, na essência,
..............não é vício.


Esperto, rapina uma, outra vez
e volta ainda a correr o risco,
mas por cada um que é visto
..............há três.


Outros, de casta menos comum,
ratazanas que nos infestam,
por cada três que molestam
..............há um


que se aproveita e come,
esburaca, extorque duma penada,
desabriga e mata toda a ninhada
..............à fome.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

DO CÃO E DO LOBO


Sabemo-lo, conhecendo a natureza,
mas não será demais dizer de novo:
ao eleger entre predador e presa,
não é por uivar que o cão é lobo.


Porém, vista tese por outro lado,
temos que, pela mesmíssima razão,
por mais que o lobo dê ao rabo,
não é, nunca será um cão.


Lobo é lobo, cão é cão
e ambos, macacos de imitação.



domingo, 1 de julho de 2012

MACACO EM FLOR



No proclamado jardim
de que é Portugal esplendor
nasceu esta flor, enfim,
um macaco feito flor.


Quem serão os progenitores
nestes canteiros velhacos:
jardineiros amadores
ou é obra de macacos?


Mais havia para dizer
de tão profícua semente
não fosse ela condizer
com as fuças de tanta gente.


Uns candidatos em flor
com apelo a pais e avós;
outros, sem qualquer pudor,
macacos como nós.


Ainda mais sofisticados:
gaspares, coelhos, cavacos,
esses não estão mascarados;
são macacos, são macacos!

quinta-feira, 28 de junho de 2012

A MORTE



Pode a morte não ser coisa agradável.
Só mentindo ouvi quem a desejasse,
para chamar a atenção dos achaques
que moem de morte a vida.
Mas nunca ouvi quem dela contasse,
como experiência própria,
possíveis dores ou moléstias, desvantagens,
dessa ausência de respiração.
Dá para ver que não aceita alternativa
e só por isso, admito, não será flor que se cheire.
Tenho-a olhado pelas lágrimas dos que ficam.
Dela falarei se me garantirem de forma mais democrática
de que só se morre duas vezes.

terça-feira, 26 de junho de 2012

OS DESENHOS



Os desenhos que me encantam
são traços que a memória vai tecendo.
À primeira vista quase nunca os entendo;
vejo o que me apetece: tudo e nada.
Só de os pensar, dedilho-os como renda de bilros.
Dizem-me os desenhos que me espante, que me evada.
Não, isso não!
Serenamente vou tecendo, construindo o napperon
de teias de algodão e espero
sento-me depois para comemorar
já saciado.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

BUGANVÍLIAS




Podia chamar-lhes sinos se não fosse a haste
(não a alma)
que as eleva, se não fosse pagão o meu quintal.
Sobem as paredes, voam como podem.
Toda a fragilidade se transforma em volúpia,
o pátio enche-se de vermelhas mariposas.
Esta manhã são a causa essencial do meu sorriso.

sábado, 23 de junho de 2012

AS FLORES



As flores, o cheiro das flores
e a perfeição que exibem sem vaidade.
As flores são o contrário do mundo, digo
a pulcritude da terra áspera que as impele
para a luz do sol e dos meus olhos.
As flores são o contrário do que morre,
do que fere e do que sangra
(pode ser suor apenas, mas sangra sem o sabermos)
dentro de nós que as cheiramos e admiramos
pétala por pétala a sua beleza natural.
São tudo isso as flores e são também faróis de esperança
que trazemos no olhar até que a morte nos junta.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

POESIA DE VIAGEM



O céu e as árvores;
as árvores, o céu e as casas,
algumas casas, pouquíssimas.
A memória raramente guarda as casas;
a memória apenas espreita pelas janelas.
Não se vê gente no céu ou nas árvores
e não se sabe se as casas têm gente.
Não se vêem vestígios de gente.
Ainda tenho esperança em que alguém apareça
vestido de céu, de árvore ou de casa
e me abrace, dizendo:
bendito seja o teu regresso!
Saberei então que a viagem chegou ao fim.

terça-feira, 19 de junho de 2012

NOTICIÁRIO



Que digo de mentiras e vilezas?
Que direi se minto sobre as dores
que me concedem e eu concedo,
de vontades que não vejo alcançadas,
se por andar esmago vidas, não a minha,
que as outras vou pisando sem dar conta.
Direi pouco, muito pouco:
sejam vis e mintam, mintam-me!
Não será maior a minha dor
que a vontade de vos pisar.

domingo, 17 de junho de 2012

MANIFESTO



À frente, os da frente com bandeiras e protestos,
os de trás vão em frente com mais bandeiras.
Quando agitam as bandeiras todos protestam,
todos são a voz que exige, o punho que confirma.
A luta é exigente, o frente-a-frente:
à voz de em frente marcha toda a gente
ou há gente que a passo fica para trás?


Vamos em frente, protestos, bandeiras e voz,
todos, a nossa gente é toda a gente:
os que vão à frente e os que dão um passo em frente!

sexta-feira, 15 de junho de 2012

JORGE DE SENA


Jorge de Sena não saiu de casa
dia dezoito de janeiro de mil novecentos e setenta.
O mesmo aconteceu em 7/12/70 e 1/12/1974.
É possível que também assim tenha procedido
noutras ocasiões, não posso garanti-lo.
Consequência de Sequências.
Copiei os seus versos a lápis,
o livro era caro para as minhas posses
e guardei a sebenta durante algum tempo.
Reencontrei-a num aniversário recente da sua morte,
em Santa Bárbara, Califórnia,
em quatro de Junho de mil novecentos e setenta e oito.
Longe portanto de saber deste meu arrojo,
provavelmente arrependido por não ter saído de casa
durante aquele ror de dias
para espairecer e escovar da alma o pó,
evitando assim cuspir poemas, cuspir nos poemas
e legar-nos cuspidelas poéticas.
A saliva, é certo, tem qualidade literária,
mas não se cospe no poema que se escreve.