terça-feira, 8 de maio de 2012

A OBRA

O autarca sonha as obras que imporá à comunidade governada. Esta frase soa bem. Não pelo sentido solidário do sonho que àquele sobrevém e muito menos por ser sonho, que apenas burila o que na realidade não passa duma astúcia, digamos, eleitoralista. Soa bem a frase, dizia, talvez porque, não tendo ainda nascido a obra, já a comunidade a tem por garantida no sonho do autarca e assim salvaguardada ao mais alto nível, venha o tempo em que todos os olhos a possam contemplar e os restantes sentidos dela desfrutarem. A verdade, porém, é que a obra (que, por enquanto ainda dorme no sonho do autarca) não será obra da comunidade; ela será, a avaliar pela inscrição gravada na pedra ou no bronze, no seu limiar ou peanha, a obra do autarca que a sonhou. Aí se dirá, não a nossa obra, mas a obra de. Assim como se for vantajosa todos exclamarão bendito seja quem a concebeu, como se for estorvo e de préstimo duvidoso facilmente será apelidada como obra do diabo, denunciando desta forma a falta de visão ou aselhice do autarca. Pelo que atrás fica dito, e lá não voltaremos para emendar seja o que for, já se suspeita que, quando a obra surgir haveremos de olhar para ela, louvando a oportunidade do autarca ou desdenhando da sua utilidade, assim o autarca nos tenha caído em graça ou não passe dum pedante figurão que mais não faz que um simples gato ao marcar o território que lhe garanta a preservação da estirpe. Além do mais, são as obras o que são: umas capazes de persistir porque o cimento e as vigas conseguem resistir à erosão por mais tempo e outras que, não existindo já fisicamente, continuam na memória de quem as comtemplou ou delas tomou conhecimento de fonte segura. Nunca saberemos nós o que vai na cabeça de outros ao observar uma obra, se o que lhes interessa é o proveito que da obra podem ter ou se, pelo contrário, sentir que os demais vêem o que se lhes mostra ao olhar, sendo eles a verdadeira obra. Restam uma placa, uma inscrição com o nome, as atribuições e as mordomias de um fulano de tal cujo sonho deixou inscrito em coisa qualquer para ser revisto. Abençoado seja o saber alentejano que, no melhor das suas singularíssimas interjeições, transforma esta que nasceu nome em irónica locução adverbial para enfatizar o que está sendo dito com vaidade e não menor alarde: É obra!

domingo, 6 de maio de 2012

GUARDANAPO

O guardanapo é um objecto que, tendo à mesa a função de guardar a toalha respectiva do unto alimentar, se apresenta tantas vezes exposto de forma e feitio sofisticados, que outro objectivo parece ter e não o tem, de facto. É também o que diz o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de José Pedro Machado, Livros Horizonte, terceira edição, 1977 e mais esta preciosidade do Auto das Fadas de Gil Vicente: Isto he fersura de sapo/que estaa neste guardanapo. Os mais comuns, os que pomos nas nossas mesas com a pressa que valores mais altos nos impõem, têm habitualmente a forma de um quadrado ou dum rectângulo. Mas se o local do repasto não é este doméstico local, logo nos deparamos com uma variedade imensa de feitios, para não dizer cores, de requintado gosto ou risível falta dele. E assim os temos em forma de triângulo, o mais clássico, pois desta forma se dá nome aos bolos que os imitam; enrolados, com e sem argola, como se de um conspirativo papiro se tratasse; em cone como pirâmides (papiro, pirâmides, queres ver que anda aqui mãozinha dos egípcios ancestrais?!) mas não nos levantemos da mesa, ainda. Claro que há aqueles que simulam flores e aves e que nos fazem hesitar entre o desdobro e não desdobro e obrigam, em limite, à primeira, para óbvio asseio e ocultação de gulas. Os que mais me espantam, porém, e sempre me deixam um sorriso cujo sentido profundo nunca identifico, são aqueles espampanantes leques, quais caudas de pavão ou entranhas de acordeão, postos ali em frente do prato, necessitando para isso quase sempre o apoio de um copo que os sustente. Diria com certeza muitos mais se a circunstância mo exigisse e a paciência de quem por estas linhas passa a vista não me merecesse todo o respeito. Ora, e tudo isto para quê? Para a higiene e os modos sociais, respondo eu, que nem sempre deram importância ao assunto. Mas, já agora, permitam-me estas bacoquices literárias, falta aludir à diversidade de alinhos a que este adereço obriga. Simples como é o asseio, neste caso se exprime de forma particular. O que para uns é sinónimo de retoque das comissuras, para outros obriga mesmo ao expurgo dos lábios, para não dizer beiços, que são de inferior conjuntura. Beiçola ou trombas são de muito baixa condição ou então o convívio já vai alto e a linguagem se vai descuidando, não tarda o insulto e a escaramuça. O mais comum, aquela designação que, não havendo na forja novo acordo ortográfico, não melindra ninguém, é o clássico limpar a boca. E está tudo dito. E agora perguntam-me vocês: “mas que diabo queres tu com essa conversa sem pés nem cabeça, de entretém para quem tem mais com que se preocupar?” E eu respondo: … Ora aqui chegados, com as boquinhas secas e capazes agora de vociferar até, vou eu terminar esta arenga com uma notícia que, não sendo nova, não deixará de o ser, porque notícia é o que se diz para que se saiba. Vem assim ao caso a investigação judicial àquele que foi ministro de um primeiro que, tal como o actual, tudo fez para dar cabo do país, e que ambas as mãos sujou, dizem por enquanto os jornais, em batotas ditas tráfico de influências. O ex-ministro de que falo, boca aberta durante todo o consulado, chamou camelos aos alentejanos a propósito da nova ponte sobre o Tejo, pelo que houveram de lha limpar, e nunca jamais encontrou sítio adequado para um novo aeroporto nem TGV que parasse na estação. A sua principal arma era por isso a boca. Suja, dizem as notícias. Agora terá de limpar-se ao guardanapo da justiça. Assim esperamos em abono do asseio que tanto necessitamos.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

VAMOS ANDANDO

Faz bem andar e eu gasto o tempo todo com o bem que me faz: subo calçadas, quase quebro o pescoço de olhar os prédios periféricos, choro as árvores que já lá não estão, alcanço a parte mais antiga da cidade e desço por escadas ou rampas até onde estranhos repuxões de água se soltam como serpentinas e molham o chão, molham o chão, não mais que isso. Consumo diariamente a cidade com a ansiedade de quere-la e crê-la sempre minha. O tempo em que dentro dela estive na clausura dos horários a cumprir e o tempo em que a ausência me fez o coração ter saudades, agravaram este sentimento pouco mais que patético, pouco mais que pueril. Há um bom par de anos viajei ao interior da Torre do Relógio, por curiosidade e amabilidade de quem tinha obrigação de alimentar o dito. Subi-lhe o bojo por escadas a pique, periclitantes (já não me lembro de que material eram ou ainda hoje são feitas) até à cúpula, com a admiração de quem toma finalmente intimidade com um familiar antigo e ilustre, como é o caso. Lá em cima tive a sensação de estar aquém do tempo. Esta ilusão era ditada pelo facto dos enormes mostradores do relógio estarem então virados para fora indicando a hora, enquanto eu os via do avesso, não fazendo, naquele instante, qualquer sentido a hora exacta. As entranhas são um estranho elevador de pesos que o meu amigo se esforça em trazer para cima, através duma roldana de ferro escura e viscosa do unto que lhe põem. O coração – a máquina que tiquetaqueteia o tempo – é, como seria de esperar, um conjunto de roldanas impulsionadas pelos pesos que fazem tender os cabos puxados a braçadas de genica pelo meu amigo e anfitrião. Além do mais, a sirene que, felizmente para nós, não precisou de avisar de qualquer incêndio enquanto ali estivemos, casos contrário teria sido insuportável para os tímpanos… Se à Torre do Relógio me refiro de forma algo minuciosa e extensa, entre muitas razões que me ocorrem, direi apenas que tal se deve ao facto de se tratar, para mim, o elemento urbano que mais e melhor identifica Castelo Branco. Não ficaria satisfeito se não vos contasse o que sei desta Torre, tantas vezes olhada com desdém, mas que nos faz sentir albicastrenses quando, da cidade arredados, nos vem poisar nos olhos. Longe, como quem mitiga memórias em forma de saudade, lá aparecia um amigo que, por algum motivo, o destino fizera passar pela Cidade Branca, me dava conta das novidades: “está enorme a tua terra” e, a modos para compor: “aquele jardim das estátuas…” Ou seja, um moderno e grande que não passa disso mesmo em versão de cor de burro quando foge e o sempiterno Jardim do Paço, pago para ser visto; visto para ser pago… E eis que chega o tempo das vaidades, dos que querem ter nome por baixo como as estátuas do Paço, e em toda a placa ou peanha deixam assinatura e alarde de risíveis galões. Este não é já o tempo da cidade se exibir e triunfar; mas o tempo de quem quer sobrepor-se e patentear aquilo que afinal menos interessa para a história: as suas excelentíssimas pessoas. Os tempos da modernidade – para os que a pensam a tijolo e cimento – foram os anos dos mercados e das capelinhas; das construções e das capelinhas; das actas emendadas e das capelinhas; das capelinhas, do compadrio à volta dos escrutinados interesses albicastrenses. Em toda a cidade se fez carnaval com arcos e balões, foguetes e espertalhões em correrias mal disfarçadas para acertar a venda de talhões: “quem dá mais, quem dá mais, a festa vai começar!” A estrema que já foi baliza é agora o princípio de tudo; a gula dos espertos, sempre de atalaia ao negócio chorudo; a única nata subterrânea conhecida, além dos combustíveis fósseis e de rendibilidade semelhante. Os anos, a ASAE, o POLIS e tantas outras coisas camufladas que vão dentro destas siglas, retiraram lugares, encantos, árvores (quantas árvores?!) e cheiros que tardo em reencontrar, se alguma vez for capaz de o conseguir… Meto as mãos nos bolsos e ninguém vê que as cerro de raiva e de inquietação. Uma pedra de calcário salta no passeio calcetado à moda portuguesa. Tento recolocá-la com a biqueira do sapato e depois, com o calcanhar, para que se enterre devidamente. Parece ficar segura. Sem que ela o venha a saber algum dia, agradeço-lhe por me suportar o peso e a irritação pelo que vejo e me sugere filigrana de latão, desenhos de um alienígena louco e vou andando. O que eu não sei é quanto do que toco e do chão que piso, que faz do meu itinerário leito de passagem - mal não me fará - excepto o remorso de caminhar em cima de tanta tratantada.

terça-feira, 1 de maio de 2012

METÁFORA DO TEMPO

O bom e o mau tempo não têm o mesmo significado para toda a gente. Talvez por isso haja quem diga que conversar sobre o tempo serve apenas para encher chouriços. Desenganem-se. Na verdade, este tempo seco e de sol insistente tem o significado de bom para uns quantos ociosos – chamemos-lhes menos avisados - mas não cura os males de (todos) quem pagará com língua de palmo a falta de chuva. Pode a ministra Cristas abrir uma fábrica de guarda-chuvas em cada Distrito e, depois, peregrinar a Fátima em demanda de água em versão celeste que, se é este o nosso calvário, outra coisa não se espera senão a seca severa da ministra e dos seus pares – todos eles, há muito, a pedir chuva! – que era já tempo de irem água abaixo e nos livrarem do atoleiro em que nos enterram a cada dia que passa. Mexeram no astro e agora sofrem as consequências, dizia-me um homem simples há muitos anos, uma vez convencido de que os foguetes espaciais penetravam mesmo nos céus e poisavam noutros planetas, sem de lá caírem, como natural seria se poisassem em baixo ou de lado. O conhecimento científico evoluiu muito e, entretanto, foi chegando aos poucos até aos locais mais recônditos do planeta. O homem adquiriu conhecimentos políticos e científicos, pese embora, como ser humano, dono duma mente permeável a todas as fábulas, mantenha crenças e mistérios onde tudo cabe, onde tudo é possível ser-lhe submetido. Em seu tempo, sempre nos confortam: o sol quando nasce é para todos. É o que oiço dizer, embora não faça fé acerca do dito, que me parece um tanto adverbial e pouco sério. Depois, sempre há aquelas claraboias de contentamento, que são as caras dos amigos de passeio, quando o famoso anticiclone dos Açores se impõe autoritário e nos dá o aconchego urbano, o conforto dos dias que nos pesam como chumbo… Mas o sol é, já deixei ver, a mentira que nos oferecem diariamente, para que adocemos o espírito já puído de tanta cicatriz e fiquemos moles, estáticos, assertivos e… contentes. Exijo a chuva, a chuva a cântaros, capaz de levar pelo nabal abaixo este míldio apostado em comer a planta e o fruto de Abril. Abril: águas mil! Aqueloutro da lambreta, ministro mimo-da-mamã, armado em manda-chuva, mas a estrangeiro mando, mandou cessar as reformas antecipadas a pretexto do esgotamento da segurança social. É um finório, um ex-futuro libertino que acredita na eficácia da chuva molha-parvos. Um sonso de beiços precisados de batom para o cieiro. Galo sem crista nem assunção de que poupa para dar aos estrangeiros ávidos dos nossos últimos cêntimos. A sul, a superstição do “cheiro a terra molhada” evoca fatalidade e morte; a norte são as “terras do demo”, segundo Aquilino, que vergam a coluna dos homens. Em ambos os casos, a água chovida é uma bênção para as sedes da terra, para a secura dos homens e para a enxurrada que é necessária para levar adiante os escolhos deste país assoreado de malfeitores a soldo. É agora o tempo das trovoadas e dos súbitos aguaceiros que, assim de rompante, mais ajudam à estragação. É água que estraga as plantas e frutos e apanha as barragens de surpresa, sem condições para o melhor proveito. Se tivesse de encontrar paralelo com as políticas dos postilhões de agora, diria que em 2014 choverá de cada um segundo as suas possibilidades e a cada um segundo as suas necessidades… Mentem para continuar a mentir, como num boletim “mentirológico” à moda antiga. Maldade que agora não for chuva sê-lo-á, depois, com juros, enquanto não formos capazes de nos precaver contra intempéries, que podem ser de sol ardente, de chuva copiosa ou de reles e mentirosa gente. Se a chuva for o pranto de quem diariamente não encontra as respostas para o seu futuro porque as bátegas cegam ou iludem os caminhos, então é este um imenso charco de água e sal onde saber nadar não basta e onde é necessário estender as mãos solidárias perante o iminente afogamento. E assim chegámos a este chove-não-chove, versão não meteorológica, em que a conversa sobre o tempo, afinal, tem lá que se lhe diga…

domingo, 29 de abril de 2012

LUCIDEZ

Não foi fácil acertar com o verbo inicial deste dístico. Já quanto ao sentido do poema não tive qualquer dúvida, com a excepção de ter algumas reservas no que diz respeito à sua originalidade, pelo eco que a memória insiste em devolver-me. Mas, como dizia, quando transpus a ideia para o papel, o verbo doer pareceu-me vulgar e logo me surgiu um outro: magoar, mais melódico e, naquele impulso, talvez mais literário. Tinha por isso o que deveria ter para ser o escolhido. Contudo, apetecia-me usar uma palavra mais rude, capaz de esmagar a incurável lucidez de que me queixo. Retornei então ao verbo primeiro pensado e já não me importei com a sua simplicidade, contando com a rudeza e força desta pequena palavra de todos os dias. Doeu.




Dói-me a cada dia um pouco mais
esta minha incurável lucidez

sábado, 28 de abril de 2012

TRISTEZA








Julguei triste a minha sopa de hoje
e era eu quem estava frio.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

26 DE ABRIL


Tinha tudo para ser resplandecente,
uma cor garrida que fosse, esta manhã
de vinte e seis de Abril.
Não pelas promessas recentes ou porque, de repente,
outro oásis nos fosse anunciado, mas somente
porque assim deveria ser. E não é.
Deveria sê-lo pelo que bastou de outros dias e noites
mal vividos; mal dormidas
e pelo que nunca será bastante de combates
pelo pão e pelo sol que todos sabemos pronunciar
e só alguns podem saborear.
Tinha tudo para ser de festa ainda
este dia 26 de abril cinzento e triste
como foram todas as noites para aqui chegar.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

CARROSSEL


Comprámos cetins e brocados,
partimos tostões em mil bocados;
e à mesa demos carne com azeite
p’ra fazer as vezes de banquete.


Gritámos rua àqueles do fascismo,
daquele, civil, e do outro catecismo,
que a vida nos tinham feito em fel,
e voltámos de novo ao carrossel:


bancos de rodapé, cadeiras soltas,
puseram-nos a cabeça às voltas
p’ra tornamos à amarga sopa,
agora fornecida pela europa.


É tempo de mudar de romaria,
de santo e de social democracia,
meter os tarambecos na bagagem
e…” nova corrida, nova viagem”!

domingo, 22 de abril de 2012

A CHEIA

Não tinham margens os rios
que te falei:
eram itinerários devassados,
escassos juncos de enfeite
e um mar imenso a que chamavam foz.

Os rios não tinham margens, já o disse,
- ou que assim possa definir-se –
era tudo água de improviso o estuário
em que quase morri de sede.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

PRAÇA VELHA


Praça de praças não de preces,

praça de gente doutras praças que aqui passa
e leva pressa.



A velha praça não lembra os paços
quando o dia acende brasas, sinais de graça
por entre as cortinas veladas das vidraças.


Velha como Camões, há-de ser tempo e praça
de abrigo, telha a telha,
cantiga duma ideia ou abraço dum poema antigo,


mas sempre, sempre Praça Velha.

terça-feira, 17 de abril de 2012

O TEMPO DE UM CIGARRO (poema quase incorrecto)



À janela debruçado sobre o dia
olho além o tudo e o quase nada…
O cigarro rubro faz-me companhia,
como lume em terra já queimada.


Uma ligeira brisa percorre a pausa
em tudo avessa aos bons costumes,
sem qualquer outro efeito ou causa,
relaxa; não te induzo a que fumes.

domingo, 15 de abril de 2012

NEOLIBERAIS


Primeiro, os vilões, nutrem ódios e desdéns,
bombardeiam as searas. Depois, em jeito de ajuda humanitária,
com os mesmos aviões, despejam pães.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

POSSIBILIDADE DE AGUACEIROS


Tudo fora previsto
ao mínimo pormenor,
de modo que à representação nada faltasse:
um fio de azeite,
a lágrima refulgente dum estorninho,
a franja duma alma sem proveito
e um arco iris enorme, cercando a cidade
sobrevivente.

terça-feira, 10 de abril de 2012

PASSEIOS À VOLTA DO CORAÇÃO

O tempo, a mesma porção de tempo, não é igual para a pedra e para a flor. Tampouco para os homens, pesem as circunstâncias. A pedra resiste para além do tempo dos homens, mas são as flores que ficam presas ao seu coração. A ânsia era grande em conferir tudo o que ainda habitava a sua memória. Mal chegou à cidade, não tardou que o João não calcasse a relva, esfregasse as mãos nos troncos das árvores e olhasse em todas as direcções, como se quisesse identificar algo que, revisto por alto, lhe pudesse passar despercebido. Até os desmedidos prédios da zona onde tinha morado outrora lhe causaram demorada atenção. Na verdade, fascinavam-no os prédios altos, que a sul não tinham a mesma visibilidade nem a mesma constância. Por fim, delongou um pouco mais o olhar na varanda do terceiro frente do bairro da Granja e, enfatizando com os ombros um gesto de aconchego e desculpa, balbuciou: - Nem todas as coisas grandes são grandes coisas… Tudo tinha agora uma dimensão distinta daquela que durante uma década não pode desenvolver-se, fechada que ficou num escasso recanto da sua memória de infância. As ruas, outra memória, durante a ausência, adquiriram nomes de itinerários de pueris desmandos; de pequenos segredos: - Era por esta rua que me escapava para o bairro de cima… Tinha um muro enorme que me fazia sentir herói quando o transpunha e afinal é pouco mais que um lancil. As capitosas árvores dos arredores ainda lá estão de sentinela para o que der e vier! Isso era, sempre foi, motivo de maior tranquilidade e segurança; o mesmo que respirar e estar vivo. O olhar do João saltava dum lugar para o outro como um pardal que procura abrigo e alimento. Apesar de tudo estava tranquilo, apenas um pouco curioso, como quem quer descobrir num segundo a diferença entre o que vê e o mundo que a sua memória lhe foi ditando ao longo do tempo ausente. Vieram-me à memória a mim, não a ele, os cheiros da Rua de Santa Maria, que cheguei a pensar ter mais refeições que as habituais na minha casa. Porventura, o alho e a cebola refogados ficavam impregnados nas paredes e um só almoço dava aroma ao meu olfato para uma semana inteira… No passeio, ia contando como se sentiu no dia em que se empoleirou na árvore da Devesa e caiu desamparado, sem dois dentes e um choro convulsivo com maior dose de medo pela reacção dos pais, que a dor pela perda dos dentes de leite lhe provocava; quando, no Passo encontrou uma moeda no fundo dum lago e a retirou à custa de perseverança e uma manga da camisola nova encharcada de água e lismos verdes; das quedas de bicicleta que valeram sustos e preocupações. Tinha-lhe previamente explicado que a cidade se modificara entretanto. Contei-lhe dos prédios de muitos andares, já muito além do relógio da Torre, dos chafarizes e da paisagem urbana asseada e branca como o nosso terraço da Granja. Ateve-se na Devesa. - Lembro-me da tasca do avião. Agora o avião está cá fora, é enorme e tem uma pista de aterragem que borbulha água. A nascente das sanguessugas, gracejou. - Vamos em frente, ainda nos falta ver muita coisa, respondi-lhe. Há muitos anos, com o meu pai, perdi uma dúzia de “costis” – como lhes chamávamos – na encosta norte da serra da Cardosa. Queríamos passarinhos para não sei quê e foi ali que decidimos caça-los, já que eu era um reconhecido especialista. Nem pássaros, nem armadilhas. Não fomos capazes de descobrir um só que fosse, tal era a camuflagem... Se chorámos? Não! Rimo-nos até mais não podermos e ficamos abraçados durante tanto tempo que ainda hoje recordo esse abraço. - Vamos pelas Isabaldeiras até à Cardosa, disse eu. Não é fácil, mas já não é tão difícil como outrora. Vista dali a cidade cresceu duma forma extraordinária. Está irreconhecível! - O Vale do Romeiro é aquele pontinho verde além, argumentei para afirmar o meu conhecimento do terreno. O alcatrão separava-nos agora das correrias monteses dos tempos da fisga e dos arranhões… - O ar é bom. Cheira a árvores e a terra, dizia o João em jeito de solidariedade, tendo em conta o cansaço que ambos sentíamos nas pernas. - É, respondi-lhe sem folego para mais… Não foi só a cidade que se alterou; nós também já não somos as mesmas pessoas e quem passa por nós também já não lida da mesma forma. Parece que hoje as pessoas têm mais pressa do que as de antigamente. O problema é que fogem e não têm para onde fugir… Provavelmente cegaram de tanto ver e agora estão à procura daquilo que nunca viram mas sonham um dia encontrar numa rua ou beco, num telhado, inesperadamente ao alcance do seu ângulo de visão, debaixo duma pedra mal calcetada. O mundo é assim: dá tanta reviravolta que nos faz perder o norte porque não alcançamos o que antes tínhamos aos pés. Em contrapartida, faz-nos sonhar. Se a nossa matriz é a que pisamos, podemos sempre orientar-nos pelos cheiros, pela memória dos que para aqui nos trouxeram e pela bússola do próprio coração, tenham lá o tamanho, as cores e o desenho que tiverem.
(Inserto na Agenda Cultural de Castelo Branco Abril a Junho 2012)

domingo, 8 de abril de 2012

ALERTA


Alarves, estes, de fresco empoleirados,

cultivadores do” lá iremos mas devagar”,
estão para valer e querem-nos amarrados
ao cais de não partir, senão de naufragar.


Cuidado: são arcanjos de asas pretas
e o seu licor não passa de subtil veneno!
Embusteiam com engodos e petas
quando não com um sorriso ou um aceno.


Planeiam vingar Abril, estes madraços,

mas esquecem que gente determinada,
à custa das próprias mãos e braços
alcança, em plena noite, a madrugada.