quarta-feira, 13 de abril de 2011

DEDAL-DE-DAMA


Caminhava por entre quintais
num ladrar de cães ao desafio
onde estas assentavam arraiais,
em cachos de amarelo e desvario…


Era dos dois seres evidente
o desejo de me ocuparem os sentidos:
os cães, pelo som impertinente
e as flores pelos modos atrevidos.


Os animais, porém, buscaram poiso
e eu, a sós, corado, auscultei a rama:
- demorais muito, ainda, no baloiço?
E não me respondeu, o dedal-de-dama…

segunda-feira, 11 de abril de 2011

A ROSA


Por fim, a rosa doirada
abriu no meu jardim,
não a rosa rosa, despeitada,
este cor-de-rosa que há em mim…


Que pode a flor mais pura
ser de nós amor constante?
"O amor é eterno enquanto dura",
solte-se o amor neste instante!


Será Verão e depois Outono,
como o dia, que sempre anoitece,
todos os dias, mas em próprio abono,
o nosso amor, intacto, permanece.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

JARRO


Jarro, que escolha tão severa
tem a flor airosa e original…
Alva, altiva e não austera
como cálice de carne sensual.


Só pode ser por crueldade:
para vaso basta onde é criado.
Jarro não, antes majestade
das flores, príncipe encantado.


E se a noiva aceita o seu alvor
e o leva junto ao peito ao altar,
então, a nobreza desta flor
mais se alteia, mais nos pode dar…

quarta-feira, 6 de abril de 2011

FLOR DA LARANJEIRA

Vista assim, até parece
flor sem eira nem beira,
mas o aroma que oferece,
inebria e que bem cheira!


Ai que bem cheira
a flor da laranjeira!


Parece perfume de rosa,
de uma frondosa roseira,
o desta florinha amorosa;
branca flor da laranjeira.


Ai que bem cheira
a flor da laranjeira!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

FLOR DA AMEIXEIRA



De original não tem nada:
nívea de pétalas e de feição,
de cinco folhas asada,
quantos os dedos da mão.


Par de tanta flor afim,
podia seduzir com o odor,
mas nem mesmo assim:
não tem cheiro esta flor.


Então, o que enfim cativa,
que impressão nos deixa?
Tãosó na boca a saliva,
que lembra o mel da ameixa…

sexta-feira, 1 de abril de 2011

MALMEQUER


Malmequer a vida inteira,
bem me quer a pura flor.
Este mal, queira ou não queira,
é, meu bem, um mal menor.

Bem me quer eternamente,
o bem querer adivinhado.
Com o bem, bem pode a gente;
com o mal é que é o diabo…

Pior, mas muito pior,
por cada pétala arrancada
para em vão buscar amor:
- mal me quer, muito, pouco, nada.

quarta-feira, 30 de março de 2011

MALVA


Às malvas, é dito vulgar,
como coisa sem valor.
Não é justo assim falar
de tão generosa flor.

Serena flor, benigna rama,
- nunca o diria se não fosse -
e não se livra da fama:
o seu chá faz bem à tosse.

Outrossim para a malícia,
mas aqui com outro fito,
dizem ser uma delícia,
aguar de malvas o dito.

segunda-feira, 28 de março de 2011

CAMPAINHAS


Tocam campainhas p’rá folia
ao sol que oferece este maná:
é a prima vera por um dia,
se amanhã é prima, se verá.

Obras-primas, com certeza,
as orquestrais sinfonias
das pautas da natureza
na primavera dos dias.

Cheira a terra, o prado aquece,
bamboleiam rosadas esquilas
(agora, o que não é, parece:
confesso que posso ouvi-las…)

sexta-feira, 25 de março de 2011

SOAGEM/CHUPA-MEL


Livre como as aves, a chupa-mel
sinuosa com as cismas da aragem,
tem neste silvestre carrossel
o sol e o melífluo odor da soagem.

Irmã do vento, sem abrigo e nobre,
que ser humilde tem que se lhe diga:
não se é inferior por se ser pobre
ou suportar de pé o vaivém da vida.

quarta-feira, 23 de março de 2011

"ENVERGONHADAS"?


-E as meninas, qual é vossa graça?
E por que me viram as costas?
Não gostam de ver quem passa
ou hoje estão maldispostas?

Que lindas são, mesmo assim,
de rosto voltado para o chão.
Será por causa de mim
ou problema de educação ?

Ponderem, não custa nada.
O Sol está radioso e quente,
embora, mande a verdade,
não nasceu para toda a gente.

segunda-feira, 21 de março de 2011

FLOR DE PÊSSEGO


Os pêssegos virão
da débil flor rosada:
lá mais p’ro verão,
não tarda nada…

E que doces são
-que doce eu fico –
pêssego de verão
de olhos em bico.

Carnudo quanto monta,
dava para o almoço,
não fora a afronta
de tão grande caroço.

sexta-feira, 18 de março de 2011

AS PAPOILAS


A noiva não mostra um arrumado bouquet
de espampanantes papoilas, mas de rosas.
Ainda que estas sejam só para quem vê
e a brava flor a chama íntima das fogosas.

Mas se mentir quiser a noiva prazenteira,
pode, sobre o ventre inchado, qual balão,
decorar-se de casto ramo de oliveira,
mas papoilas é que não, papoilas é que não!

Quando muito, estrelícias, verde rama ou goivos,
gerbérias, buganvílias, espigas férteis, loiras,
que dão realce às flores e dão aos noivos,
mas nunca a cor e a lascívia das papoilas.

Sou seu devoto, além do trigo nas searas,
quando rompem vermelhas ao sabor do vento,
cravos da mesma cor e outras menos raras,
mas isso é com outro fim; de outro casamento…

quarta-feira, 16 de março de 2011

O DERRAME DAS GLICÍNIAS



O derrame das glicínias faz-se agora.
Choram ou estão apenas debruçadas?
Fingem? Chegou a sua hora?
Ou riem de nós a bandeiras despregadas?

segunda-feira, 14 de março de 2011

LILÁS


Que flor é esta, assim-assim,
com o nome da coloração?
Os lilases deste jardim,
cores ou flores, o que são?

Neste enigma aparente
entre o ser e o que assemelha,
as dúvidas ficam p’ra gente
e todo o mel para a abelha…

sexta-feira, 11 de março de 2011

ESTRELAS DO MEIO DIA


Ainda por desabrochar,
as estrelas do meio dia:
fazem contas de ficar,
'inda a manhã está fria.

Depois explodem de cor,
em tentação desmedida,
as estrelas rasas em flor,
ao meio dia da vida.