sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

PEIXES



Nunca escrevi sobre peixes. Prefiro a elegância dum par de asas

ao tremor constante das barbatanas. Não o digo por desdém,

por mero capricho. Outrossim, com as pálpebras de água rasas,

porque adoro os oceanos, os rios, tal como o céu do meu vaivém.

 

São elegantes, os peixes e as escamas dão-lhes luz e graça,

se mais não dessem, e toda a agilidade na água onde prosperam.

Às vezes, junto ao rio, detenho-me quando um cardume passa,

o meu desejo é tocar-lhes mas eles esgueiram-se e nunca esperam…

 

Pioram as coisas em águas turvas, altera-se a emoção.

Qual aquário, qual cardume, qual anfíbio, ágil marujo!

Se o dito é daqueles que nunca se dão por saciados, um tubarão,

então não me esperem contemplando as águas, porque fujo.


 

domingo, 29 de novembro de 2020

SOBRE A IDIFERENÇA


Não queria escrever um poema pessimista

porque a meu ver há apenas poemas.

Às vezes os poemas são pessimistas, outras

são poemas que fingem a verdade do poeta

e são frágeis poemas de coisas alvas e sublimes.

As flores nascem com esforço, como os homens;

das pedras não tenho ainda notícia.

Se tudo é persistência e luta, se a vida é sacrifício e dor,

Por que razão a poesia haveria de ser diferente?

O que nada pode ser é indiferente.


 

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

INTERMITÊNCIA


O céu colou-se à terra;

veio com as chuvas de Outono

derramou neve na serra

deixou-nos ao abandono.

 

Alva terra deste tempo,

tão branca e tão desmaiada,

que o branco é fingimento

ou maldade de invernada.

 

Mas tudo é passageiro

no tempo e na opinião:

virá o tempo soalheiro

e quem se farte do Verão.


 

terça-feira, 24 de novembro de 2020

ESPLENDOR


Maçãs, as do rosto:

vermelhas, açucaradas;

beijos e fogo posto,

lentas madrugadas.

 

Seja o lírio irreverente,

lilás que seja

e mesmo assim transcendente

para que se veja.

 

E a luz, a luz seja clara

e que ao espreitar dentro dela,

não seja rara

mas esplendorosa e bela.


 

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

PALAVRAS DISPARADAS


Vou carregar a pistola

com palavras já usadas,

bem sonoras, versadas,

aprendidas na escola.

 

São como balas reais:

fazem brecha no impacto

quando disparadas de facto

e vêm a ser mortais.

 

O primeiro tiro é à sorte,

que se não mata, intimida;

o segundo, certeiro, faz ferida

e se não matar é uma sorte.

 

Com tiros para o ar e demais

palavras sem sentido

pode alguém ser abatido

por danos colaterais.

 

Aqui chegado, fim de papo:

nem mais um tiro no pé,

nem frase de rodapé

e meto a pistola no saco!


 

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

NOITE, A RESISTÊNCIA


Os que inventaram esta noite sabiam o que ela é

fria, silenciosa e negra de ambos os lados.

Aos que a proclamaram noite, que o dia lhes seja leve;

um dia lhes seja noite sem explicação.

Os criadores do medo poderão então mentir em cima

das minhas convicções e dizer que choram as buganvílias,

que as papoilas não são essenciais: estão habituadas à contrariedade.

As restantes flores dormirão tranquilamente no meu colo

até o sol chegar.

Os inventores da noite nunca saberão que é desta forma que 

adormeço

e os maldigo, filhos dos infernos! 


 

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

FOGO-FÁTUO



A peste foi anterior ao fogo e o fumo

era um artifício, uma cortina de ilusão,

depois a cinza, o possível lume,

tudo como o previsto na criação.

 

Manipulado, contrafeito, o Sol luziu,

bailou no céu, alimentou esperanças

de pouca dura, disse quem viu

e recolheu, sisudo, ao ministério das finanças.

 

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

O TEMPO PASSA!



Esta manhã encontrei o passado.

Ambos conhecemos aquela esquina:

eu, por tal sina;

ele, por lá ter ficado.

 

Vestia fato preto, discreto,

mas de porte leve e transparente.

Todo um passado em seu aspecto

intacto como se fosse presente.

 

De tarde, com o sol já descendente,

e o passado um presente prematuro,

reparei que afinal estive ausente

a caminho do futuro.

 

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

VERÃO DE S. MARTINHO


Vou contar-te: fazia sol

e tomei a benesse por natural

(não havia razões para a por em causa).

Fazia sol, dizia.

As árvores sorriam-me

como se fossem as rainhas do parque

e eu um príncipe encantado.

Quase sempre me comprazem estes dias

de inesperada luminosidade

e por isso me lembrei de te contar.

A par de tudo isto as folhas vão caindo

em cima dos nossos outonos

mas não era isso que te queria contar agora,

apenas se tornou inevitável dizê-lo.


 

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

ATIRANDO PEDRAS


Para onde vou ou quero ir,

quem sou, que penso eu,

o que de mim posso sentir,

tudo o que realmente é meu..

 

Como saber se é bem

o que por bem me faço

ou que mal há neste vaivém:

penso e daí não passo.

 

E se penso faço o que posso,

se posso já não peço.

Por fim, resta o remorso 

do que sou e não pareço.

 


 

domingo, 18 de outubro de 2020

AVEC LE TEMPS


Muitas vezes não foi o préstimo das flores,

a beleza das pétalas; era o cheiro sem nome,

o perfume que as primaveras têm

por serem primaveras e mais nada.

Dizíamos que o cheiro era agradável e nos comprazia.

À falta de substantivo melhor, chamávamos-lhe Primavera.

Nunca fomos além do consentido, do que era comum.

Até hoje, todos os nomes se mantêm intactos,

apesar de nenhum deles ser verdadeiro. 

 

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

(RE)CICLO

Com mistério e medo,

algemas cerebrais,

vestígios de segredo,

que esperas mais?

 

Não podes, não faças,

acorda mais cedo,

o vinho das taças

está azedo.

 

Servida a zurrapa

dirás que é reserva, um licor raro,

beberás à socapa,

que o barato sai caro.

 

A bebedeira é segura,

a causa é sagrada.

Dada a conjuntura

venha outra uma rodada.



 

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

DA MONTANHA AO MONTE


Um monte, uma montanha, tanto faz,

que me comova ou tire a respiração

por ser cinzento, intransponível como a paz,

choro com ele, doí-me o coração.

 

Depois, transposto, que tudo se consegue,

o que vejo mais além no horizonte?

Nada, a não ser caminho e sede,

vontade para alcançar um novo monte.


 

terça-feira, 6 de outubro de 2020

DE OUVIR DIZER



Como posso eu comprar vinho, Senhor,

ao preço que estão as uvas,

mais o pé-de-obra de esmagá-las;

como posso eu aventurar-me assim

como vós, que sois capaz de o fazer

a partir da água, a partir do nada,

que é o valor dado à água quando abunda?

Guardai, que vos pedirei ajuda.

 

Mas é de água que preciso agora, Senhor,

não desse etílico líquido, que me mata

e não mata sedes antigas.

Guardarei o bem-aventurado vinho

para as sopas de cavalo cansado, tão nutritivas,

e mais tarde falaremos do pão necessário,

assunto em que também sois mestre

muito competente, segundo ouvi dizer.

 

É de água, pois, o meu pedido, Senhor,

não daquela deslavada que me entra

pelas frinchas do telhado e eu chamo chuva

há uma data de anos.

Água doce, benzida ou não, tanto faz,

mas que eu não tenha de a chorar,

não precise de fingir que tudo está bem assim

e morra de sede como as nuvens.

 

domingo, 4 de outubro de 2020

ESPERAS


No tempo em que o Sol não tinha para nós

segredos de maior, visitávamos os primos,

as avós (inexplicavelmente, os avôs morriam muito cedo)

e a família acrescentada em cada rua da cidade.

 

Depois que o Sol se tornou, além de calendário,

um inexorável marcador de esperas e desesperos,

a vida tornou-se um sítio de desencontros

e passámos a aguardar pacientemente que nos visitem.