quarta-feira, 21 de outubro de 2020

ATIRANDO PEDRAS


Para onde vou ou quero ir,

quem sou, que penso eu,

o que de mim posso sentir,

tudo o que realmente é meu..

 

Como saber se é bem

o que por bem me faço

ou que mal há neste vaivém:

penso e daí não passo.

 

E se penso faço o que posso,

se posso já não peço.

Por fim, resta o remorso 

do que sou e não pareço.

 


 

domingo, 18 de outubro de 2020

AVEC LE TEMPS


Muitas vezes não foi o préstimo das flores,

a beleza das pétalas; era o cheiro sem nome,

o perfume que as primaveras têm

por serem primaveras e mais nada.

Dizíamos que o cheiro era agradável e nos comprazia.

À falta de substantivo melhor, chamávamos-lhe Primavera.

Nunca fomos além do consentido, do que era comum.

Até hoje, todos os nomes se mantêm intactos,

apesar de nenhum deles ser verdadeiro. 

 

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

(RE)CICLO

Com mistério e medo,

algemas cerebrais,

vestígios de segredo,

que esperas mais?

 

Não podes, não faças,

acorda mais cedo,

o vinho das taças

está azedo.

 

Servida a zurrapa

dirás que é reserva, um licor raro,

beberás à socapa,

que o barato sai caro.

 

A bebedeira é segura,

a causa é sagrada.

Dada a conjuntura

venha outra uma rodada.



 

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

DA MONTANHA AO MONTE


Um monte, uma montanha, tanto faz,

que me comova ou tire a respiração

por ser cinzento, intransponível como a paz,

choro com ele, doí-me o coração.

 

Depois, transposto, que tudo se consegue,

o que vejo mais além no horizonte?

Nada, a não ser caminho e sede,

vontade para alcançar um novo monte.


 

terça-feira, 6 de outubro de 2020

DE OUVIR DIZER



Como posso eu comprar vinho, Senhor,

ao preço que estão as uvas,

mais o pé-de-obra de esmagá-las;

como posso eu aventurar-me assim

como vós, que sois capaz de o fazer

a partir da água, a partir do nada,

que é o valor dado à água quando abunda?

Guardai, que vos pedirei ajuda.

 

Mas é de água que preciso agora, Senhor,

não desse etílico líquido, que me mata

e não mata sedes antigas.

Guardarei o bem-aventurado vinho

para as sopas de cavalo cansado, tão nutritivas,

e mais tarde falaremos do pão necessário,

assunto em que também sois mestre

muito competente, segundo ouvi dizer.

 

É de água, pois, o meu pedido, Senhor,

não daquela deslavada que me entra

pelas frinchas do telhado e eu chamo chuva

há uma data de anos.

Água doce, benzida ou não, tanto faz,

mas que eu não tenha de a chorar,

não precise de fingir que tudo está bem assim

e morra de sede como as nuvens.

 

domingo, 4 de outubro de 2020

ESPERAS


No tempo em que o Sol não tinha para nós

segredos de maior, visitávamos os primos,

as avós (inexplicavelmente, os avôs morriam muito cedo)

e a família acrescentada em cada rua da cidade.

 

Depois que o Sol se tornou, além de calendário,

um inexorável marcador de esperas e desesperos,

a vida tornou-se um sítio de desencontros

e passámos a aguardar pacientemente que nos visitem.

 


 

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

LUANDANTE




Confesso: sabia que haverias de chegar

cheia, sensual e nua.

Li na carta astral; estava no ar…

Sabia-te branca, redonda lua.

 

Tinhas pressa, talvez hora marcada

e as minhas adulações não eram desejos teus.

seguiste o teu caminho, porfiada

e eu não pude mais que dizer-te adeus.


domingo, 27 de setembro de 2020

DISCRIÇÃO



Quando não tinhas mais indultos para os devaneios,

baixavas o rosto e o teu olhar colava-se ao chão.

Tenho vergonha, dizias, raios partam os freios

da boa educação! 

 

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

O MEU SANGUE

     
Ambrósio Ferreira

Palpam-me o braço. Teimosa a veia

teme o ferrão. Emerge depois rendida.

A ampola fica cheia

de escassos segundos de vida.

 

Umas vezes a veia é boa e a enfermeira

gaba-nos o braço

outras, por desalinho ou asneira,

o sangue sobe à cabeça e é um colapso.

 

Nada que não se resolva, nada que mate

este devasso,

inquieto como convém, sendo de um vate,

percorre todo o corpo, havendo espaço.



 

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

PARTIRAM AS ANDORINHAS


De repente, quase sem dar por ela,

as andorinhas partiram num até breve

convocado de urgência. Da janela,

vejo um céu inquieto, que de nada serve

 

assim, pendente, sem nada para contar,

de vacilantes nuvens, feito sala de espera,

com sinais de que lhe falta o ar,

suspenso até à próxima Primavera.


 

terça-feira, 15 de setembro de 2020

VÃO PENTEAR MACACOS


Há por aí criaturas, de ressaca,

que garantem que o leite em pó

(nada tendo a ver com o da minha avó)

é de vaca.

 

Que os sumos, embalados de forma astuta,

e calibre segundo sabores e formas,

respeita a lei e apertadas normas

e sabe a fruta.

 

O jamon, que é presunto de pata negra,

é espanhol de origem, nunca de Barrancos.

Isso juram pela mãe de todos os santos,

segundo a regra.

 

E anunciam a pequena maravilha

de bisnaga, essência de vaselina,

com sabores e extractos de areia fina,

que arde na virilha.

 

Ainda um kit com cheiro para os sovacos,

champô e gel de banho com essências,

tudo das melhores proveniências.

Vão pentear macacos!


 

domingo, 13 de setembro de 2020

O ANJO E O MAR

 


Um anjo cristalino, qual fusão da bruma,

vela por devoção o mar aberto.

Mergulha em cada onda

como se fossem as nuvens do seu céu de infância.

O mar conforta, consola a sua vastidão

e, em pouco tempo, o anjo e o mar

fundem-se num elemento só:

o anjo é meio água e o mar meio anjo.

Mente o horizonte se disser

que o sol se acolhe no seu regaço,

porque o seu sono e o seu sonho

repousam ao fim da tarde no olhar do anjo

bondosamente louco.


sexta-feira, 11 de setembro de 2020

DE CHILE VESTIDO


Pablo cantava o gelo e o fogo

da pampa

do bosque

da vida

a razão enfeitiçada de um povo

que rasga a terra

como quem faz um poema

 

Era como se a esperança florisse

nos muros de Santiago

em letras cor de madrugada

apunhalada

pelas costas

com um sabre de prata.

 

Era como se o cobre limasse a retina

emboscada

nos olhos do abutre ianque

 

Era como se a noite tivesse

corvos no peito e dina

mite nas veias

morfina

 

E havia grãos de areia na ternura

Sorrisos

a mais no vocabulário

da paciência

 

Mas o metal corrói

é uma larva que se entranha

e deixa lastro de sangue

em Três Álamos por inventar

 

E o metal corrói

é uma doninha que suga

exangue

e Setembro é que nos dói.


(Ultrapassar os Limites, 1980) 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

SOBRE AS CARAS

 


Caras de pau, as que se fecham, sisudas e de mau modo

e caras de anjos papudos, não isentas de veneno,

sem contar as sem nome, que bem mereciam apodo,

como as falsas, de duas caras, como tem o feijão pequeno.

 

Há muitas caras na praça e todas comportam perigos;

há más caras, caras feias e caras de monco de peru;

cara amiga e as caras que são caras de poucos amigos,

para não falar noutras caras, de mau olhado, caras de cu.  


domingo, 30 de agosto de 2020

CARETOS


 

O diabo que os carregue, todos bons rapazes!

Mordem quando beijam, de tudo são capazes.

As fitas, ah, as fitas garridas são virtudes e penas,

por dentro almas de carne e osso, homens, apenas.

 

Calçada acima e abaixo, levando as casas a eito,

escarnem, rogam pragas, atiçam males de inveja,

todos à uma, brigões, deambulando ao seu jeito,

demónios só os não benzidos pela fábrica da igreja.