terça-feira, 15 de setembro de 2020

VÃO PENTEAR MACACOS


Há por aí criaturas, de ressaca,

que garantem que o leite em pó

(nada tendo a ver com o da minha avó)

é de vaca.

 

Que os sumos, embalados de forma astuta,

e calibre segundo sabores e formas,

respeita a lei e apertadas normas

e sabe a fruta.

 

O jamon, que é presunto de pata negra,

é espanhol de origem, nunca de Barrancos.

Isso juram pela mãe de todos os santos,

segundo a regra.

 

E anunciam a pequena maravilha

de bisnaga, essência de vaselina,

com sabores e extractos de areia fina,

que arde na virilha.

 

Ainda um kit com cheiro para os sovacos,

champô e gel de banho com essências,

tudo das melhores proveniências.

Vão pentear macacos!


 

domingo, 13 de setembro de 2020

O ANJO E O MAR

 


Um anjo cristalino, qual fusão da bruma,

vela por devoção o mar aberto.

Mergulha em cada onda

como se fossem as nuvens do seu céu de infância.

O mar conforta, consola a sua vastidão

e, em pouco tempo, o anjo e o mar

fundem-se num elemento só:

o anjo é meio água e o mar meio anjo.

Mente o horizonte se disser

que o sol se acolhe no seu regaço,

porque o seu sono e o seu sonho

repousam ao fim da tarde no olhar do anjo

bondosamente louco.


sexta-feira, 11 de setembro de 2020

DE CHILE VESTIDO


Pablo cantava o gelo e o fogo

da pampa

do bosque

da vida

a razão enfeitiçada de um povo

que rasga a terra

como quem faz um poema

 

Era como se a esperança florisse

nos muros de Santiago

em letras cor de madrugada

apunhalada

pelas costas

com um sabre de prata.

 

Era como se o cobre limasse a retina

emboscada

nos olhos do abutre ianque

 

Era como se a noite tivesse

corvos no peito e dina

mite nas veias

morfina

 

E havia grãos de areia na ternura

Sorrisos

a mais no vocabulário

da paciência

 

Mas o metal corrói

é uma larva que se entranha

e deixa lastro de sangue

em Três Álamos por inventar

 

E o metal corrói

é uma doninha que suga

exangue

e Setembro é que nos dói.


(Ultrapassar os Limites, 1980) 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

SOBRE AS CARAS

 


Caras de pau, as que se fecham, sisudas e de mau modo

e caras de anjos papudos, não isentas de veneno,

sem contar as sem nome, que bem mereciam apodo,

como as falsas, de duas caras, como tem o feijão pequeno.

 

Há muitas caras na praça e todas comportam perigos;

há más caras, caras feias e caras de monco de peru;

cara amiga e as caras que são caras de poucos amigos,

para não falar noutras caras, de mau olhado, caras de cu.  


domingo, 30 de agosto de 2020

CARETOS


 

O diabo que os carregue, todos bons rapazes!

Mordem quando beijam, de tudo são capazes.

As fitas, ah, as fitas garridas são virtudes e penas,

por dentro almas de carne e osso, homens, apenas.

 

Calçada acima e abaixo, levando as casas a eito,

escarnem, rogam pragas, atiçam males de inveja,

todos à uma, brigões, deambulando ao seu jeito,

demónios só os não benzidos pela fábrica da igreja.


sábado, 22 de agosto de 2020

BALADA PARA UMA FLOR


Canto ao teu compasso,

enlace de flor,

balada de amor

ao som do teu abraço.

 

Tuas pétalas, por braços

subtis, afinados

são beijos alados,

ardentes compassos.

 

A guitarra estremece

em afinação,

dá corpo à canção

e a balada, por fim, floresce.

 

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

BICHO DE ESTIMAÇÃO



 

O homem tinha um cão de condição,

um gato grato por não ser cão

seja gato, rato, pato, bicho de estimação.

Nem o cão era gato nem o gato cão

era um facto, um bicho no chão.

Miava como um gato ladrava como um cão

sem pedigree, licença, autorização.

Um pássaro, um burro, um leão

à trela e à condição que o homem prendia

com a aflição de ter um bicho preso à mão.

Era um gato ou um cão. Uma aflição.

Se miar é gato, se ladrar é cão.

O bicho era o dono e ele o figurão. 

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

MAÇÃS NO CESTO


Cada maçã tem um cesto,

maduras, estão de resto;

uma não há quem a veja

deus a guarde, no seu esteja.

 

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

PÉ DE CONVERSA


Com um pé se diz presente

ao pé de qualquer que seja,

com pé atrás se está ausente,

sempre em pé, onde esteja.

 

Se mete o pé é por azar,

ninguém o faz por gosto

e se o pé ficar no ar

já verdade não é suposto.

 

Faltar o pé é mais profundo:

perde-se em menos de nada

o pé, a mão, o mundo,

excluindo quem bem nada.

 

Aos pés juntos é diferente,

venha  lá o mais pintado:

o mais comum entre a gente

é, de pés juntos, deitado…

 

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

CURRICULUM DE COMENTADOR


Nada a reter: cotão nos bolsos

e cabeças ocas, como sempre.

 

Da vida mal conhecem a sua,

de repente falam, como nunca.

 

Ouvi-los é maçada. Espremidos,

nem pinga deitam, como sempre.

 

Fingimento avulso, em lágrimas

de crocodilo manso, como nunca.

 

Empolados verbos de encher

Inconjugáveis, como sempre.

 

Alados arcanjos, como nunca,

desprezíveis insectos, como sempre.

 


terça-feira, 4 de agosto de 2020

VERSOS


Dois versos

interminavelmente brancos

seguem dispersos,

aos solavancos.

 

Que deus lhes valha

em coisa ruim,

do mal duma gralha

ou pecado afim.

 

Pelo meio, a compasso,

metáforas d’ andor,

vão passo a passo,

e recitam de cor

 

versículos, orações,

a régua e esquadro;

lamentos, canções,

ainda a poesia vai no adro.


quarta-feira, 29 de julho de 2020

A DEUSES


Ah, que sorte: hoje há deuses lá em cima
sedentos de versos, dormentes de sono!
Vou fazer-lhes pontaria com rima
e acertar-lhes em cheio no buraco do ozono.

Podia ser em lugar alabastrino, como a testa,
mas é pecado, além da enviesada geografia:
não os quero mortos nem o fim da festa,
quero apenas treinar a pontaria.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

CONVERSA FIADA


Com três pedrinhas na mão
e dois dedos de conversa,
- que é lá precisa a oração?!
Palavra vai e vem e vice-versa.

Em conferência mais aturada,
com vírgulas e pontos finais,
já é conversa fiada,
palha sem menos nem mais.

E fica assim conversado:
aqui não se fia conversa,
querem conversar fiado,
mas que conversa é essa?

terça-feira, 21 de julho de 2020

ALENTEJO


Ao largo um lago azul
que sorvo de um trago,
de olhar amargo, a sul

impele-me o desejo,
a sede que me invade
e me dá fôlego é Alentejo.

sábado, 11 de julho de 2020

SUBSTANTIVO


           



                                        VOU AQUI COLOCAR UM PARÊNTESIS:


          ( )