domingo, 21 de junho de 2020

REINCIDÊNCIAS DA FÉ


Dão à costa os espólios da aventura:
jóias, pedras preciosas, camafeus…
não há fome que não dê fartura
- diz quem sabe, graças a Deus.

Pérolas, pepitas, diamantes, quando não
lentejoulas, pechisbeque variado
e demais filigranas de ilusão
de um galeão em tempos naufragado.

Mas se for pedra-pomes a miragem
do que acaba de dar à costa?
- Nova corrida, nova viagem,
que o carrossel não pára, vai uma aposta?!


segunda-feira, 8 de junho de 2020

AVISO AOS NAVEGANTES



Ide e desdenhai das fomes e das sedes,
nada espereis que vos seja dado;
nem peixe fresco nem melhores redes
e todo o caminho do mar será salgado.

Navegai a eito e não aceiteis beijos,
que vos devoram da boca os lábios;
ninfas, que vos traficarão os desejos,
escravas de deuses ímpios e de sábios.

Não deveis sorrir: é pecado como sabeis
e recebei com a espada ao rei e ao vagabundo:
se os houver, todos são impuros e cruéis
é Portugal que vos espera, não o mundo.

Ide pois. E rogai a Deus e às almas puras
para que desta aventura vos haja aval
e tal sorte vos traga mercês e não agruras
a estas, que deixais sedentas, areias de Portugal.

E dada por obedecida tamanha andança
dareis ao reino terras e cobiças, divina glória,
que para vós será o mundo e a lembrança
em todos os compêndios da nossa História.

(E desde então, degredados, hóspedes do mundo;
Portugal, o porta-bandeira, em pano de fundo.)

sexta-feira, 5 de junho de 2020

PÁSSAROS NA GAIOLA



Tenho pensado muito sobre o que leva um pássaro
a cantar dentro da gaiola. Não fechei ainda o tema
mas começo a ver uma pequena luz ao fundo do túnel.

No início pensei que ele praguejava, que me insultava.
Mudei de ideia por falta de uma prova científica.
Neste caso, o risco de uma tradução pouco credível.

Tempo a mais dentro de casa foi motivo bastante
para sentir o efeito que a clausura provocou às minhas asas,
e a todos os que as têm; a tormenta que é não fazer uso delas.

E então cantámos todas as canções aprendidas em liberdade,
que em liberdade nos tínhamos esquecido de cantar.
Talvez os pássaros cantam também a liberdade.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

TRÊS POR TRÊS


OITAVA MARAVILHA

Eis como a oitava maravilha se enuncia:
a quinta emenda, a sexta esquadra
e o heróico sétimo de cavalaria.    

COMUNIDADE EUROPEIA

As voltas que nós demos por este passaporte.
Agora, é só seguir a boa estrela, que, se deus existe,
há também uma CEE para além da morte.

AS NÓDOAS

Umas são negras (como no dorso as andorinhas)
outras têm cores tão angelicais,
que sem óculos tridimensionais, não advinhas.


segunda-feira, 1 de junho de 2020

PRIMAVERA


A Primavera não precisa que nos lembremos dela
para existir e no entanto é em seu nome
que abrimos as asas e ensaiamos os primeiros voos.

sábado, 30 de maio de 2020

DIALÉCTICA


A verdade anda na rua:
vai e vira, vai e vira,
a verdade nua e crua,
que até parece mentira…

A passo lá vai a verdade
enquanto o tempo não expira,
arrastada pela idade,
já foi verdade e é mentira.

O que faz a mentira verdade
e a verdade ser mentira
é o prazo de validade
que ambas têm por medida.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

VERSOS DA FELICIDADE DOMÉSTICA


Debaixo da mesma bandeira,
qual arco-íris de luz e cores,
o tempo mantem-se no Continente e na Madeira;
menos uma hora nos Açores.

Se tem cura, que deus o guarde;
se peca, que deus seja complacente.
Mas se deus não releva, quando já é tarde,
não passa  de adjectivo omnipresente.

Meias verdades, mentiras, louvaminhas e cantigas,
aqui, onde é bom de ver,
são virgens todas as raparigas
até deixarem de o ser.

terça-feira, 26 de maio de 2020

O AVÔ RELOJOEIRO


Para o avô Sousa, relojoeiro,
a contas com o tempo em fracções,
a cada qual com seu ponteiro
dava números às ocasiões.

Se a vida corresse p´ró torto,
impondo forçado jejum,
pobre de quem, vivo ou morto,
mas que grande trinta e um.

Tudo afinado ao segundo
batiam horas, tocavam campainha
relógios de todo o mundo
era o trinta por uma linha.

Naquele vacilava uma donzela
e num outro, um cuco afoito
apregoava as horas à janela
de nos fazer a vida num oito.

Porém, se não tivessem conserto,
e perdessem serventia
iam pregar para o deserto,
dar as onze ao meio-dia.

domingo, 24 de maio de 2020

AI AS DORES


Não há palavras poéticas
nem ais de mim que não sejam
figuras de estilo patéticas,
que mordem enquanto beijam.

Beijos na face ou na testa,
aqui não entra o amor.
Quando muito, pequena festa:
ai os ais, ai esta dor…

Ai das dores que me consomem
e desta vida de cão;
ai dos filhos que não comem,
ai das tripas coração.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

DOS IGUAIS


Geminar peça por peça
em modelo, altura, condição,
por muito que se pareça,
iguais é que as partes não são.

Semelhar-se já é diferente;
dá ares, sai ao pai ou à mãe,
pois se até o espelho mente
como confiar em alguém?

Nada é igual, parecido seja,
tudo é distinto a seu modo,
por muito igual que se veja
nem as metades de um todo.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

LUGAR EM SÍNTESE



Há dentro deste lugar
outro lugar mais pequeno,
que estando no mesmo lugar
tem o seu lugar em pleno.

E há outro lugar ainda,
de maiores dimensões,
numa espiral que não finda
em volumes e proporções

Por exemplo, este lugar,
quantos lugares contem?
Tem o seu, no seu lugar,
e todos os que o lugar tem…

segunda-feira, 18 de maio de 2020

CHUVA


Não tem mesmo graça nenhuma,
a chuva e, se alguma tivesse,
uma, apenas uma,
era que a chuva não chovesse.

Mas chove, e o que é pior,
molha o que não deve.
Diz que é bênção e favor,
mas o que ela diz não se escreve…


sábado, 16 de maio de 2020

DE CASTELO BRANCO


Estive sempre de frente, Castelo Branco,
já te disse tudo o precisas e o que não gostas;
foi no teu chão que me fiz gente, vou ser franco:
fico triste quando aos teus viras as costas.

Sem ressentimentos, nada de queixas, azedumes,
apenas me entristecem as provincianas vaidades,
os sorrisos falsos, as meias verdades, os ciúmes,
mas nada que mate, que não te eleja entre as cidades.

Das Águas Férreas até à Mina, caminho antigo,
até ao cruel betão a que aderiste, as novas avenidas;
nada tem segredos, nada que me indisponha contigo.
O berço e a matriz é que nos pregam estas partidas…  

quinta-feira, 14 de maio de 2020

O POEMA


Podia ser flor
pedra
ou somente um par de asas
de um poema antigo
podia ser laranja
gomo a gomo
esse é o meu segredo e não o digo

terça-feira, 12 de maio de 2020

À JANELA


Quisera abrir uma janela
de onde avistasse um jardim
e eu pudesse através dela
em vez dele ver-me a mim.

Mas já entardeceu e a vida,
que agora serve de espelho,
tem na imagem reflectida
um tronco curvado e velho.