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terça-feira, 26 de maio de 2020

O AVÔ RELOJOEIRO


Para o avô Sousa, relojoeiro,
a contas com o tempo em fracções,
a cada qual com seu ponteiro
dava números às ocasiões.

Se a vida corresse p´ró torto,
impondo forçado jejum,
pobre de quem, vivo ou morto,
mas que grande trinta e um.

Tudo afinado ao segundo
batiam horas, tocavam campainha
relógios de todo o mundo
era o trinta por uma linha.

Naquele vacilava uma donzela
e num outro, um cuco afoito
apregoava as horas à janela
de nos fazer a vida num oito.

Porém, se não tivessem conserto,
e perdessem serventia
iam pregar para o deserto,
dar as onze ao meio-dia.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

ELE HÁ COISAS...


Há coisas que sim
e coisas que não.
Mais coisa, menos coisa,
coisas são.

Coisas do arco-da-velha
e outras que não têm fim,
que dão voltas, reviravoltas…
Nunca vi coisa assim.

E há coisas
que não são coisa nenhuma,
quando pensamos que há coisa
e a coisa não se consuma.

Dizem que há coisas e coisas,
verdadeiras, de fantasia;
coisas más e coisas boas
e coisas que eu nem sabia.

O que sobra é coisa pouca,
uma ou outra que espreita ou ousa
se for coisa que se veja,
como quem não quer a coisa.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

VERSOS QUE ENCONTREI NOS BOLSOS


1.

Achei um cêntimo
e guardei-o
dizem-me que não vale nada
e há quem os deite à rua
porque não têm utilidade
como é possível
se há gente que não vale tanto

2.

Perdi o contacto
não oiço
apenas vejo e falo
perdi um contacto
devia ouvir mais
e não oiço

3.

Se dissesse que o coração quase não bate
a palavra quase seria provavelmente exagerada
a razão por muita que ela seja
não me permitirá dizer o meu coração
deixou de bater

4.

Foram de sonho
as minhas férias
sonho de férias
as minhas já foram
sonhei com as férias
foram o meu sonho

domingo, 4 de agosto de 2019

O TREMOÇO


O raio do moço
engoliu o tremoço
e eu disse moço
cospe o caroço
é casca não posso
disse o moço

com o alvoroço
caiu ao poço
partiu o pescoço
rais parta o moço

lá se foi o almoço
e o pobre do moço

segunda-feira, 1 de abril de 2019

ESCADAS MONUMENTAIS


A vida é uma enorme escada
onde se sobe ou se desce;
também pode ser vida airada,
variante que também acontece.

Descontadas as horas mortas,
a moina, se o corpo é de ferro,
mais as direitas linhas tortas,
é sempre superior a zero.

Serei doutor custe o que custar
e faço já aqui uma promessa:
não pararei de estudar
até que as suba ou que as desça.

Que mais não seja às cabriolas,
de capa em jeito de mariposa,
saudado por todas as escolas
e puxando monumental raposa.

sábado, 1 de dezembro de 2018

A NOTÍCIA



O jornalista morreu a meio
da reportagem. Deixou viúva, a notícia,
e três artigos menores por editar.

Consta que a notícia, despudoradamente,
anda já por aí a dar nas vistas,
para garantir o share da sobrevivência.
Fim de citação.

sábado, 24 de junho de 2017

CINZAS


O fogo consumiu as árvores;
o pó e a cinza ocupam agora
o lugar da sombra.

sábado, 17 de junho de 2017

ELE HÁ COISAS!


Há coisas que sim
e coisas que não.
Mais coisa, menos coisa,
coisas são.

Coisas do arco-da-velha
e outras que não têm fim,
que dão voltas, reviravoltas…
Nunca vi coisa assim.

E há coisas
que não são coisa nenhuma,
quando pensamos que há coisa
e a coisa não se consuma.

Dizem que há coisas e coisas,
verdadeiras, de fantasia;
coisas más e coisas boas
e coisas que eu nem sabia.

O que sobra é coisa pouca,
uma ou outra que espreita ou ousa
se for coisa que se veja,
como quem não quer a coisa.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

BATERAM-ME À PORTA



Um par de criaturas bateu-me hoje à porta.
Trajavam: ela saia e casaco, ele fato completo,
só pelo incómodo de me ensinar letra morta,
por cartilha nova e ascendente  alfabeto.

Tresandavam, de sorrisos largos e de certezas,
com todos os demónios presos na trela,
submetidos à razão e meia dúzia de rezas,
por um dízimo mensal, autêntica bagatela.

Por fim, vendiam-me um deus novinho em folha,
senhor do mundo, como eloquentemente ensina,
para deixarem, em folheto, à minha escolha,
a vida ou a morte e um cheiro insuportável a naftalina. 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

MAL-ENTENDIDO


O casamento do cigarro
com a cigarra
não deu certo:
ela cantava, cantava
de partir o coração,
ele deu-se ao vício
e queimou
a relação.

domingo, 11 de dezembro de 2016

O PIOR QUE PODE ACONTECER



O pior que pode acontecer é a ponte não aguentar o peso;
a pedra não suportar a outra pedra; a água congelar
de medo e frio; o sol morrer de tédio…
O pior que pode acontecer é o melhor parecer pior ou, pior,
os teus olhos já não distinguirem o fogo no fumo.
O pior que pode acontecer é esta anáfora crescer como os frutos
e rebentar como as bolas de sabão.
Pode ser melhor o pior de antes ou ser mau o melhor que temos.
Como podes saber o pior se outro ainda pior estiver para vir?
Onde é que tens estado? Que bem te faz às feridas o mal que sentes?
Muito pior será se as tuas mãos já não se conhecerem
e se alvoroçarem por socorro, uma após outra,
sem água, sem barco, nem sitio algum para o naufrágio.
Ter certezas de tudo isto é ainda bem pior.


quarta-feira, 30 de novembro de 2016

OUVIR


Envelhecemos como as pedras
e o primeiro sinal é não ouvir; ouvir mal.

Treinámos a vida inteira,
fomos selectivos , usamos filtros.

Mas agora não. É o sentido
que definha e morre o bicho do ouvido.

Às pessoas pedimos que repitam
e o tom da música temos de subi-lo.

Mas o chilrear dos pássaros
e o assobio da brisa nos ramos da árvores
não há como tê-los decorado:
é tarde agora para os aprender
a quem nunca lhes dedicou uma só ária. 

quinta-feira, 19 de maio de 2016

SIGA, SIGA


Há quem diga
que a fadiga
é inimiga
da formiga

siga siga

se se empertiga
é intriga
se arreia a giga
logo há quem diga

siga siga

como aquela rapariga…
vizinha nem me diga…
se o pão mastiga
ninguém liga
se anda à espiga
é mendiga

siga siga

é cantiga
de quem tem mais olhos que barriga

sábado, 5 de março de 2016

A CIDADE PERFEITA


Ainda a simulada defesa do património
assentava arraiais no perfil das aduelas,
na cor dos telhados, portas e janelas
e já sopravam ventos doutro demónio.

Vieram então granitos de encomenda,
rectroescavadoras e demais engenharias,
capazes de transformar em poucos dias
a cidade que assim se pôs à venda.

Ferro para ali e para acolá, fora o cimento,
um arame floreado em perfeita simetria
e holofotes capazes de imitar a luz do dia,
podendo não ir muito além do que é cinzento.

E passam por tudo isto os cidadãos utentes
no vaivém, como cães por vinha vindimada,
farejando o chão e o oxigénio de mão dada,
a quem só faltam palas nos olhos e freio nos dentes.

Vão passando adormecidas por aí as criaturas,
carregando a fé nos sacos do supermercado,
o dia a dia e também o mau bocado,
agora e na hora das nossas acções futuras.

Contas feitas, não há como a saudade
do ronco dos motores das betoneiras,
do brilho dos néones e das floreiras,
e do pechisbeque aramado no centro da cidade. 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

OS PRIMEIROS DESAFIOS


Naquele tempo (evoco António Jacinto, poeta angolano)
não subtraiamos; apenas somávamos e multiplicávamos,
dividíamos tudo: repartíamos, como então nos era modo de ser.
Jogávamos contra e a favor dos nossos, partilhávamos a bola
como coisa íntima e coleciva. Não havia adversários:
todos eram companheiros no jogo, nas mazelas e em tudo mais,
excepto nos golos, que eram de cada um…
Naquele tempo não subtraíamos, nem tal nos ocorria.
O tempo era de somar, de multiplicar para os mais ansiosos…

Não se pensava nas classes que haveriam de surgir
entre nós com o passar dos anos: os que teriam meios
e os que haveriam de sujeitar-se, vendendo a sua força de trabalho.
Julgávamo-nos como iguais e assim fomos sendo
até nos perdermos de vista (também se diz crescer)
e nos perdermos num mundo dividido, que não era então
da nossas contas, porque apenas somávamos e multiplicávamos,
dividíamos tudo, mas eramos incapazes de subtrair o que quer que fosse
à alegria de ali estarmos e partilhar o (nosso) mundo.

As corridas sem freio e os remates longe da baliza
eram só intenções, só isso, nada de ultrapassar quem quer que fosse
e, no entanto, ganhávamos e perdíamos (às vezes empatávamos…)
com o mesmo entusiasmo e com os mesmos abraços
de vencidos e vencedores de um jogo que não era mais que um jogo,
mais que um tempo em que todos nos juntávamos
e nos comprazia estarmos, naquele tempo em que não subtraíamos;
apenas somávamos e multiplicávamos e dividíamos tudo,
tal como o desejo de sermos homens e ter futuro.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

VER O QUE NÃO VEJO


Que vejo eu quando não vejo,
quer queira ou não queira,
se nada ver é ver o que não desejo,
quase morrendo  de cegueira
e, no entanto, vejo que não vejo;

Que há para ver onde não há
nada para ser visto quando está,
do quanto está para não ser visto
ou não quer deixar-se ver,
oculto, vá que não vá…
e de tanto ver desisto
de ver o que não está a acontecer.

Vejo de não ver, cego de ver,
está visto.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

TROCADILHOS


Troco o lábio pelo beijo,
e a boca por um sorriso,
só não troco o meu desejo
por dois dedos de juízo.

E estes, de tanto te olhar,
com cegueira figurada,
antes mesmo de te tocar,
já tenho a vista trocada.

Troco anéis, que remédio:
os dedos fazem-me falta…
para sustentar no assédio
do meu solfejo sem pauta.

Troco sinais, coisa pouca,
de forma mais recatada,
e também troco de roupa,
não me faltava mais nada!

quinta-feira, 16 de julho de 2015

EMENTA ECONÓMICA


Hoje não há hoje.
Há apenas uns restos de ontem,
o caldo entornado e sonhos de amanhã.

terça-feira, 7 de julho de 2015

MAÇÃ


Como não um amor assim?
Os nossos corpos de manhã,
eu de ti e tu de mim,
o toque e a primordial maçã…

domingo, 5 de julho de 2015

A BANCA ABANCA


A banca
abanca
toma assento
à mesa do orçamento

dá razão
ao livro de razão
deve e haver
é seu dever

então denota
que de nota
não é demais
e pede mais

a banca rota
abarrota
no economato
ou morre ou mata

e diplomata
mata