quarta-feira, 20 de maio de 2020

LUGAR EM SÍNTESE



Há dentro deste lugar
outro lugar mais pequeno,
que estando no mesmo lugar
tem o seu lugar em pleno.

E há outro lugar ainda,
de maiores dimensões,
numa espiral que não finda
em volumes e proporções

Por exemplo, este lugar,
quantos lugares contem?
Tem o seu, no seu lugar,
e todos os que o lugar tem…

segunda-feira, 18 de maio de 2020

CHUVA


Não tem mesmo graça nenhuma,
a chuva e, se alguma tivesse,
uma, apenas uma,
era que a chuva não chovesse.

Mas chove, e o que é pior,
molha o que não deve.
Diz que é bênção e favor,
mas o que ela diz não se escreve…


sábado, 16 de maio de 2020

DE CASTELO BRANCO


Estive sempre de frente, Castelo Branco,
já te disse tudo o precisas e o que não gostas;
foi no teu chão que me fiz gente, vou ser franco:
fico triste quando aos teus viras as costas.

Sem ressentimentos, nada de queixas, azedumes,
apenas me entristecem as provincianas vaidades,
os sorrisos falsos, as meias verdades, os ciúmes,
mas nada que mate, que não te eleja entre as cidades.

Das Águas Férreas até à Mina, caminho antigo,
até ao cruel betão a que aderiste, as novas avenidas;
nada tem segredos, nada que me indisponha contigo.
O berço e a matriz é que nos pregam estas partidas…  

quinta-feira, 14 de maio de 2020

O POEMA


Podia ser flor
pedra
ou somente um par de asas
de um poema antigo
podia ser laranja
gomo a gomo
esse é o meu segredo e não o digo

terça-feira, 12 de maio de 2020

À JANELA


Quisera abrir uma janela
de onde avistasse um jardim
e eu pudesse através dela
em vez dele ver-me a mim.

Mas já entardeceu e a vida,
que agora serve de espelho,
tem na imagem reflectida
um tronco curvado e velho.

domingo, 10 de maio de 2020

SOBRE UM POEMA


O poema não molha, não escorre;
a poesia discorre, percorre a tormenta;
encharca os ossos, o esqueleto do tempo,
até que os versos, já enxutos,
se derramem, como fazem as lágrimas
por chorar, quando ficam presas
à garganta magoada e seca.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

PROCLAMAÇÃO


As flores não pedem palmas;
pedem água e pedem sol.

As palmas são efémeras, voláteis,
mesmo para os poetas que ousam escrever
os seus versos;
enquanto as flores são sempre flores
se pensarmos nelas e lhes guardarmos o aroma.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

ÚLTIMA HORA


Informação, a que for certeira
digo, conforme a acta, que enforma
e é esse pormenor subtil que torna
a notícia verdadeira.

A notícia é o rufo do tambor
explico melhor: uma verdade contrafeita
escrita por gente eleita
seja lá ela o que for.

Serve-se fria, a jeito
e quem julgar que enforma é erro de ortografia,
fica na concha e se fia,
mude de jornal, com efeito.

Que tenha um bom dia e bom proveito.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

O DIA SEGUINTE


Ainda bem que estão aí.
Nada. Não é por nada. É somente por saber
que ainda estão aí.
Até agora, as guerras acabavam por satisfazer
uma das partes em confronto
e pela primeira vez assistimos a um conflito
em que todos se acham vencedores,
apesar de continuar a haver exploradores e explorados
por mais algum tempo.
Não foi exactamente uma viagem em comum
o que fizemos no mesmo barco.
É um pouco assustador, não acham?
Veremos se acontece o mesmo com o espólio…

Ou talvez eu seja demasiado pessimista,
poeta, quase sempre.
É provável que uma qualquer tristeza súbita
não me deixe ver a realidade que oiço,
que realça as mazelas e as baixas
e as dores da alma que isso traz consigo.
Mas ainda bem que estão aí.

Vi muito jogo sujo;
os que serão sempre coveiros
e os que ostentam aureola de santo
e são coveiros também.
- A sociedade cria estes elementos
para que os outros cidadãos
se achem merecedores de elogio –
e voltaremos a sujar as mãos porque é hábito nosso,
porque a qualidade que nos distingue
é também o nosso principal defeito:
(custa-me dizê-lo neste momento, isso é incontornável)
somos humanos e assim continuaremos.
Ainda bem que estão aí.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

O SONHO


Quando o Sol voltar a nascer
vou transformar-me num dos seus raios
e perpassar a vidraça da janela mais sombria…

(Nem todas as minhas janelas dão para a rua:
para dizer a verdade,
quase todas as ruas me entram pelas janelas.)

As probabilidades de que tal aconteça
vão pouco além do zero
mas para poder acreditar tem de haver um começo.

Esta noite ficarei de atalaia,
não vá a Lua caprichosa iludir-me de novo
e eu ficar sem sonhos para amanhã.  

terça-feira, 28 de abril de 2020

SOLSTÍCIO DO BEIJO


Agora que pairam nuvens
sobre um lençol
azul e a brandura da lua
seminua
se insinua é que tu vens
com os teus raios de sol
poisar no rossio
dos meus lábios de azulejo 
frio
dar-me um beijo.

domingo, 26 de abril de 2020

EQUINÓCIO DO BEIJO

                                     Ambrósio: Exposição temática sobre as cerejas Fundão


Quando for Primavera
e as cerejas
ficarem vermelhas
pendentes nas orelhas
a mim quem me dera
se então me beijasses como beijas
em jeito de flor
quando me desejasses
e os teus lábios tivessem o sabor
das cerejas.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

46º. POEMA SOBRE ABRIL


Ao mesmo tempo um sonho e um grito,
assim foi Abril daquele iluminado ano:
de mãos dadas, o presente e o infinito,
rompendo as brumas do tempo insano.

Ao sonho e ao grito juntou-se a esperança
de um país de liberdade e com futuro:
da árvore que é regada e por fim se alcança
pelo esforço, o fruto então maduro.

Não importavam as noites de chão pisado,
de amargos frutos, rosas com muito espinho…
Era em frente com a rabiça à testa do arado.

O que foi a eito corre agora em desalinho,
porém, Abril não morre; nunca está parado:
torce, torna, não pereceu o povo nem o caminho. 

terça-feira, 21 de abril de 2020

CONSELHO VITRUVIANO


Vitrúvio queixa-se de novo:
- Que sina esta! De mim ninguém tem pena.
uma vida em quarentena,
oh redimensionado povo!

E a lamúria continua:
- Tirem medidas. Façam dieta,
todo aquele que arquitecta
uma vida ideal e saudavelmente nua.

Mil jejuns é a receita,
comer e beber também mata
e ponham-se no meu lugar, em espargata,
é uma quarentena perfeita, 

domingo, 19 de abril de 2020

A VIDA


A vida é um painel de azulejos
numa gare em movimento:
entradas, saídas, alguns beijos,
que vão e vêm com o tempo.