sexta-feira, 17 de abril de 2020

ALEGRIA




Quando a alegria não corre
sou eu quem corre atrás dela,
se a deixo parar ela morre,
e eu morro de tristeza sem ela.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

A BANCA


A banca, não produz, não cria:
à matéria prima apenas incorpora
alcavalas, juros de mora
que dá pelo nome de economia.

Mas coisa acabada, mercadoria,
nada: apenas a jeito do cliente,
uma mão atrás outra à frente
tudo em perfeita harmonia.

Gera lucros, é claro, se não falia,
mas esse valor acrescentado,
dinheiro singelo por dobrado
é embuçado e faz parte da fantasia.

O banco é um moderno agiota
de camisa branca, gravata, perfumado;
matreiro bastante para viver do Estado,
queixando-se da banca rota.

O mercado é a alma do banco,
no cofre forte ou em segredos tais,
ocultos em paraísos fiscais,
de onde só sai fumo branco.

E ao povo, que parte da banca lhe cabe?
Taxas, ordens de pagamento,
um inferno de contas sem provimento
mais as que paga e não sabe.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

PRATO DE ARTESANATO

Um prato no seu recato
é um objecto
no lugar exacto, circunspecto

é um facto incompleto
não tem olfacto
um prato de artesanato

obsoleto
  
na prateleira a vida inteira
sem eira nem beira
morre de fome, o prato

e de mau trato
o prato de artesanato
não vê sopa nem sopeira

é chato


sábado, 11 de abril de 2020

ACHADO NO RIO MECOM




Confinados, mitigando as horas e os dias;
ditosos picos, que depois foram planaltos;
tudo somado, explorações e pandemias,
não foram bastantes para nos deitar ao chão,
que de alma cheia, pesem as mãos vazias
hemos de impor disputa e vencer pela razão,
vírus ou monstros a que o tempo nos condena,
com balas, com vacinas ou simples quarentena…

Oh, se eu domino os mistérios do Oriente,
as cousas raras de entender, os sobressaltos
e não menos o gentio que fizemos descontente,
de quem exigimos ilustração, prazer e especiarias
a troco do pechisbeque e a falsa fé do Ocidente.
Agora, que o tempo fez passar um ror de dias
é que achais na pimenta e na pólvora uma só raiz,
mas só agora, que a mostarda vos alcançou o nariz.

Dirão os mais que a cura foi obra do divino,
que a todos abençoou, precavidos e incautos,
e quem pegou em armas o fez por seu destino
e estoico empenho em servir, baldada a sorte,
é mero instrumento ou servo celestino.
Eis por que todo aquele que se livrou da morte,
em si mesmo a causa e da cura instrumento,
nesses não acrediteis, perdeis o vosso tempo.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

CAPITAL


Era o mercado, o agente
e de tudo tinha alvará,
faliu, já foi, já não dá
nem dará daqui p’ra a frente.

A economia, ora aí está!
O capital, naturalmente,
que adeje urgentemente:
faliu, já foi, já não dá.

O capital está doente,
mal de velho gagá:
faliu, já foi, já não dá,
sucumbiu, foi de repente.

Para o salvar, um chá,
papas de linhaça, urgente,
acudam que o paciente
faliu, já foi, já não dá.

A exploração permanente
deu-lhe esta coisa má:
faliu, já foi, já não dá,
já não há quem aguente.

Esperneia, quer para já
injecção, sangue quente,
em delírio de impotente,
faliu, já foi, já não dá.

Faliu, já foi, já não dá.  

terça-feira, 7 de abril de 2020

PONTO CRUZ


Bordadeiras da minha rua
bordam os prédios de luz
nos serões à luz da lua
em naperons a ponto cruz.

Ao que dizem, voltas de lua
de quem está retido em casa,
deitando os olhos à rua
a ensaiar o golpe d’asa.

domingo, 5 de abril de 2020

TEMPO INSTÁVEL


Teve tudo para ser céu,
simples nuvem, e no entanto,
do quanto quis morreu
de ingratidão e de pranto.

Choveu, correu de aluvião;
desabou em fúria aguada,
estrebuchou já no chão
e foi o fim da trovoada.

Tinha os dias contados
desde a hora em que nasceu,
entre bons e maus bocados
teve tudo para ser céu.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

O MEDO


O medo tem um jeito
de demonstrar o que sente:
o que parece dor no peito
é a alma que não mente.

Para não faltar à verdade,
o contrário não é mentir,
mente a alma por piedade
à dor que o peito sentir.

terça-feira, 31 de março de 2020

ENQUANTO A GUERRA (2)


Nos finais deste mês - apesar da situação de pandemia que vivemos - bombas sionistas voltaram a cair sobre Gaza.

As balas assobiam a música
que levam dentro
e explodem de alegria quando matam.

Não nos citam os jornais;
somos a carne viva das notícias,
enquanto a guerra nos transforma
em aéreas ondas de pó
e é o silêncio que ouvimos
a par do zumbido da morte.

domingo, 29 de março de 2020

ENQUANTO A GUERRA




Falam de ogivas e devastação
e a ocidente
todos os resistentes são rebeldes.

Morre longe, a tropa.
- Deus os tenha, deus nos guarde!
Não há cheiro a pólvora nas notícias,
não corre o sangue nos jornais.
É longe a guerra, alheia a morte.

quinta-feira, 26 de março de 2020

TAXAS E TAXINHAS


Se a dor piora
taxa moderadora

se não paga agora
juros de mora

e à cabeça não esquece
de seu nome IRS

recurso ou apelo
imposto de selo

o mercado resolve
o mercado dissolve
a escassez e a praga
e vive montado
no capital acumulado
que o povo paga

depois do velório
imposto sucessório

circule ou não
imposto de circulação

pão de forma abusiva
sem chouriço e com iva

se há lágrima no rosto
água e sal imposto

e a contragosto
em tudo imposto
taxado à medida
enquanto se apronta
(nada de monta)
um imposto prá vida 

terça-feira, 24 de março de 2020

AS SOMBRAS SÃO


Assombração
é uma sombra invisível entre os ossos;
as sombras são
restos de nós, pecados nossos.

O que imaginamos são sombras venais,
as sombras são
adereços, meros aventais,
nós é que não, nós é que não.

E quando cai assombração
(se dá para o torto)
nem alma, nem das tripas coração;
é o diabo no corpo.

domingo, 22 de março de 2020

ADAPTAÇÃO À REALIDADE


Água mole em pedra dura
se não mata engorda
o que arde cura

macaco me morda
bicho de má catadura
sem pão não há açorda

não há fome sem fartura
quem roer a corda
com porcos se mistura

nunca a vi mais gorda
gordura é formosura
acorda povo acorda

sexta-feira, 20 de março de 2020

VER


Se olho é porque olho;
e se não olhar não vejo,
e se não vir, não escolho,
não decido nem elejo.

Se olhar a espiga ao sol,
que vejo senão espiga,
que vejo senão sol?
O olhar que o diga.

Vendo, o olhar não para,
é o que sinto; o que digo:
ali vejo uma seara,
um mar de pão de trigo.

terça-feira, 17 de março de 2020

SINAIS


O céu dá sinais de calma, sem tempo
nem vestígios de choros, súplicas, desejos;
exibe os seus lábios vermelhos e sedutores,
insinuando um beijo.

É o que sinto, não o que vejo.